Beyoncé é uma feminista? Sim. O capitalismo pode conviver com o objetivo final do feminismo? Não. Beyoncé pode conviver com o objetivo final do feminismo? Não.

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A musa pop se apresentou no evento americano VMA e foi laureada pela iconografia “girl power” que utilizou em seu show. Sem muita sutileza, o enorme telão erigido atrás da cantora e de seus dançarinos piscava o tempo todo a palavra “feminismo”, o que levava a plateia, majoritariamente feminina, ao delírio. Não é de hoje que Beyoncé adotou a temática da luta feminista pela igualdade sociológica. As vezes, em suas letras, ela toma, até mesmo, um caminho de utilizar uma pretensa superioridade feminina em um tom próximo da vingança. “Nós mandamos no mundo” é a mensagem mais poderosa que reina em suas canções: “tomem cuidado, garotos”.

Entretanto, em um mundo perfeito, as mulheres não mandam. Nem os homens. O fato de estipular um determinado grupo de gênero, através de alguma argumentação ou asserção de superioridade genética, biológica ou cognitiva, resulta na criação de uma estrutura aparelhada para tratar este grupo dominante como acima dos demais e merecedor de uma posição hierárquica superior apenas por ter sido o resultado de uma das duas combinações genéticas possíveis no processo cromossômico de determinação do sexo. Parece familiar? Pois a nossa estrutura patriarcal é produto disto, emergente do fato de que o homem teria o poder de subjugar, ainda no mundo primitivo, os demais pela força física que lhe era preponderante dado o processo hormonal que lhe dotou das características tipicamente masculinas.

A ideia do igualitarismo dentro das concepções da segunda onda do feminismo sugere que, estruturalmente, o fim desta percepção e sua ação nefasta nos mecanismos sociais, políticos e econômicos resultaria, grosso modo, em uma sociedade onde a igualdade da capacidade de cognição colocaria homens e mulheres na posição de comuns e, portanto, mecanismos hierarquizantes e que compunham o binômio dialético “homem/mulher” seriam eliminados. Este é meu resumo muito simplório da noção de igualdade para o feminismo; não se trata apenas de declarar homens e mulheres como iguais em termos sociológicos mas a eliminação de todo e qualquer paradigma que produza, interna ou externamente, a disparidade social, econômica, política e cultural em favor de um sexo dominante (e, por conseguinte, gênero – no caso de nosso modelo atual, o heterossexual). 

É perceptível que a troca de um modelo patriarcal por um modelo matriarcal não estaria, de forma alguma, em harmonia com a igualdade proposta por estes movimentos teóricos. Na canção “Run The World (GIrls)”, Beyoncé ora evoca uma ideia “feel good” de que as garotas mandam no mundo e ora critica a percepção masculina de dependência econômica das mulheres e, consequente, sujeição que isto promove. Entende-se o ensejo entretanto o problema está, não apenas na mensagem confusa sobre a luta pela igualdade mas, também, em uma confusão da autora da letra (e, à bem da verdade, dos intelectuais que provavelmente lhe inspiram) acerca de como funcionaria a estrutura socioeconômica que enfrentamos neste atual momento histórico (digo “enfrentamos” porque ela possui paralelos com a situação brasileira).

O neoliberalismo, espécie de fase moderna do capitalismo que tomou forma a partir do processo globalizante que se deu ao fim da polarização do mundo na guerra fria, reinventou a própria noção estrutural da sociedade patriarcal, integrando em si determinados elementos defendidos pelo feminismo. É o que diz a famosa feminista Nancy Fraser, em artigo para o The Guardian. Em dado momento, Fraser expressa seu descontentamento por uma nova postura assumida no feminismo após as mudanças no caráter do trabalho assalariado: “Em uma cruel reviravolta, eu temo que o movimento pela liberação da mulher tenha se emaranhado em uma perigosa conexão com os esforços neoliberais para construir uma sociedade de livre mercado (…) isto explicaria como se deu o fato de que as ideias feministas, que um dia formaram uma cosmovisão radical, estejam sendo expressas crescentemente em termos individualistas”. Para ela, as demandas originais do movimento feminista foram “sequestradas” pelo neoliberalismo e algumas feministas modernas estariam, sem querer, colaborando com o mesmo, que depende, por exemplo, do classismo e da própria dualidade maniqueísta do binômio sexual para funcionar.

Em dado momento, em sua canção, Beyoncé afirma o seguinte: “I broke my 9 to 5 and copped my cheque, this goes out to all the women getting it in, get on your grind”. A expressão “9 to 5”, muito comum nos Estados Unidos, refere-se à jornada de trabalho. O ponto é: mulheres agora trabalham, se sustentam e nenhum homem pode dizê-las o que fazer. A mensagem é, realmente, admirável mas esconde um paradigma perverso. “Uma das contribuições (para o neoliberalismo) é nossa crítica do custo familiar, o ideal de família constituído por um homem trabalhador – mulher dona de casa que era central ao capitalismo de estado”, ressalta Fraser, crítica esta que está em consonância com a letra de “Run The World”. Então prossegue: “As feministas críticas daquele ideal agora lutam para legitimar o “capitalismo flexível”. De toda maneira, esta forma de capitalismo depende muito do trabalho assalariado feminino, sobretudo trabalho de baixo salário em serviços e manufatura, feito não apenas por mães jovens e solteiras mas também por mulheres casadas e mulheres com crianças; não apenas por mulheres de determinada raça mas de mulheres de todas as nacionalidades e etnias”. Fraser crê que o ideal de família onde o homem e a mulher proveem o sustento simultaneamente está se tornando uma norma, sancionada pelo feminismo.

Por quê isto é ruim? “A realidade que se esconde atrás deste novo ideal é a depressão de níveis de salário, o decréscimo de segurança laboral, um aumento expressivo no número da jornada de trabalho em cada lar, exacerbação do turno duplo – as vezes triplo ou quádruplo – e um aumento da pobreza, concentrada exponencialmente em lares sustentados por mulheres”, Fraser aponta que o capitalismo absorveu a mulher como uma trabalhadora de baixo custo, obrigada a aceitar posições de trabalho de baixo salário e condições insalubres devido a necessidades, sobretudo, ligadas ao sustento da casa. De certa forma, resta a mulher pobre ser parte da mão de obra sem qualificação porque, em casos de pobreza, ela não vai poder se dar ao luxo de buscar qualificação e terá de aceitar o espólio de sua força de trabalho em troca de baixa renda. A feminista completa: “O neoliberalismo tornou a orelha de uma porca em uma bolsa de seda ao elaborar uma narrativa de empoderamento feminino (…) ao invocar a crítica feminista ao sustento familiar para justificar exploração, acaba por atacar o sonho da emancipação feminina, lhe sujeitando à maquina de acumulação de capital.”

Beyoncé pode ser vista como um exemplo de “self-made men” capitalista: quando criança: seu lar não era pobre mas de classe média e a provisão foi suficiente para que seu pai pudesse largar o emprego e se tornar empresário do grupo Destiny’s Child, o qual liderava. Mais importante: sua mãe era proprietária de uma loja e foi quem sustentou a família enquanto o pai tomou o risco de largar tudo para agenciar a filha. Tomando riscos e baseando-se no talento e perspicácia, Beyoncé deixou de ser uma menina com um talento vocal para se tornar uma marca multimilionária, casada com o rapper mais bem sucedido financeiramente dos Estados Unidos. Entretanto, a história de classe média da diva pop pouco ressoa com as milhares de histórias de mulheres, ainda jovens, que carregam um bebê nos braços e, muitas vezes, mal podem fazer o papel de mãe já que trabalham o dia todo para pagar o aluguel de um kitnet, localizado em uma zona afastada e pobre. Questões como a legalização do aborto passam longe de qualquer letra da artista – que agora louva aos encantos e maravilhas da maternidade.

Recentemente, a estrela americana filmou “yet another” documentário sobre sua vida, focando no período de gravidez. Nele, ela proclamou que a “mais poderosa criação que você pode fazer é poder ter uma vida nascendo dentro de sua barriga” e que não há “maior presente ou empoderamento”. Não é exatamente um discurso “pro-choice” para uma feminista famosa. Assim como seus pais tiveram condições de prover o lar e fazer um investimento sempre alto na carreira da menina prodigiosa, Beyoncé pode comprar uma ilha para seu filho – bem como o seu marido comprou uma para ela. O casal já foi considerado como o símbolo do excesso, com festas de aniversário que poderiam pagar por habitações populares para centenas de pessoas. Naturalmente, o millieu ideológico da cantora acaba se enquadrando perfeitamente nesta nova configuração, chamada por Nancy Fraser, de “capitalismo flexível”. Só que se, com distância metafórica, Beyoncé clama que as mulheres trabalham duro agora e podem mandar em suas vidas, a nova configuração onde o neoliberalismo obriga mulheres pobres a serem exploradas pois estão desesperadas, sem ter como sustentar uma criança ou um lar, não têm lugar na utopia de livre mercado e girl power da “dream girl”. 

Como é comum ao pop contemporâneo, mensagens de auto ajuda se esgueiram dentre apelação de ordem sexual e choque gráfico. “Believe in youself” e “don’t listen to the others” são constantes e formam a espinha dorsal de hinos “feel good” para adolescentes em depressão. Entretanto, as mulheres que mandam no mundo de Beyoncé, de fato, só possuem um probleminha de autoestima aqui e acolá, geralmente causado por alguma insegurança. As trabalhadoras braçais do mundo real, negligenciadas completamente por egomaníacos que vivem o sonho do capitalismo, não tem vez. É que, como diz o ditado, “não morda as mãos que lhe alimentam”. Beyoncé é cabo eleitoral de Barack Obama, seu marido doa muito dinheiro para as campanhas dos democratas, ela apoia Michelle Obama em seus programas para diminuir a obesidade e, recentemente, o casal perfeito visitou Cuba. De fato, a cantora e seu mundo compõem um exemplo perfeito do que se convencionou chamar de “esquerda festiva”. A expressão, cunhada nos anos 60 no Brasil por Carlos Leonam (e com paralelos diversos em outras línguas), encontrou seu verbete mais claro nas palavras do conservador e ministro da ditadura Roberto Campos: “tratam-se dos filhos de Marx em uma transa adúltera com a Coca-Cola”. No caso dela, é claro, um contrato multimilionário com a PepsiCo.

Apesar de hoje muito utilizado pela direita, o termo, na verdade, deveria provocar a reflexão dentre as esquerdas modernas. Com o fim do comunismo do século XX, a esquerda “oficial” se homogeneizou e tomou a via da social-democracia em quase sua totalidade, abandonando a crítica estrutural ao capitalismo para, lhe fazendo todas as concessões, inventar um mundo aceitando que a igualdade é impossível mas, pelo menos, é possível permitir que todos tenham o suficiente para viver. O foco deste nosso artigo, Beyoncé, não apenas defende uma sociedade fundada na boa vontade de quem detém o poder como, de fato, é uma destas pessoas que o detém e possui um legítimo desejo de ser caridosa com quem tem menos. O problema da “esquerda festiva”, sobretudo na figura de quem é bem sucedido financeiramente – único fator importante para o capitalismo -, é que não vão se ater ao nervo morto que está a causar dores terríveis na boca mas vão pagar por uma bela cirurgia estética de clareamento do dente, já sem qualquer terminação nervosa operante. Dá para imaginar a diva pop pagando por um caro programa de “make-up America”, onde consultoras de beleza atendem meninas da comunidade e as produzem, com maquiagem e roupas novas. É o velho paradigma da caridade – um dos crimes mais perversos que podem ser cometidos contra uma outra pessoa. O nervo vai seguir morto, o dente vai apodrecer e cair mas os lábios, a parte visível da boca, estarão revestidos com um reluzente batom vermelho com glitter. O feminismo de Beyoncé não vai muito além da cosmética.

Lobão se tornou uma olavete envergonhada

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Muito se fala sobre Lobão, o músico. No debate, ele, ao menos, atingiu aquele ponto onde sua figura não pode inspirar indiferença, posição rara em tempos onde artistas tomam caminhos estritamente corporativos e colaboracionistas. Quando despertou para o debate político, Lobão trouxe uma perspectiva radicalmente diferente da imagem de contracultura estabelecida na década de 80; ao invés de um discurso liberal e de tom acusativo contra o capitalismo, o músico decidiu iniciar uma análise do panorama artístico brasileiro, com críticas ao que ele via como uma máfia que operava no MinC e uma oposição, de certa forma, bem-vinda a um renascimento da cisma da antiga esquerda nacional contra aquilo que vinha de fora, em sua quimérica tentativa de estabelecer uma cultura tradicionalista unificada o que, de fato, ainda lhe rendia alguns aplausos por parte de esquerdistas que consideravam o processo de “cultura universal” preponderante para uma modernização da posição liberal frente ao mundo pós-moderno.

Além de um interesse pela literatura, Lobão demonstrava ser um talentoso frasista, autor de silogismos satíricos e bem colocados. Seu uso de um palavrório sofisticado, provavelmente adquirido com o gosto pelos livros, aderia ainda mais sarcasmo à seu estilo. Por mais que operando em um discurso contra o governo e posicionamentos sobre o plano cultural que tendiam à calçada esquerda, Lobão era um interessante e satisfatório sopro de ar novo sobre um debate que já demonstrava pertencer ao passado, guiado por velhos buldogues, que há muito babavam na gravata e, com seus sorrisos e dentes amarelados, faziam da direita uma opção única para quem realmente detinha o poder e o pequeno burguês que achava que participava do jogo.

Entretanto, sua liderança como figura carismática e que desconstruia o dogma moralista e carola da direita tradicional brasileira começou a chamar a atenção de velhos proponentes dos mesmos discursos anacrônicos que Lobão parecia evitar. Um deles, é claro, foi Olavo de Carvalho, há muito auto exilado nos Estados Unidos, que por longo tempo só ganhava atenção de meia dúzia de astrólogos amadores que se propunham a participar de seus cursos online. Em um curto período, Olavo e Lobão se tornaram figuras indissociáveis; a partir dos hangouts organizados pelo segundo, Olavo foi introduzido a uma nova geração que começava a surgir junto a Lobão, ainda virgem e nada familiarizada com os arroubos conspiracionistas do velho nêmesis das esquerdas brasileiras.

Assim, um debate que poderia ser pautado por uma coerência causal e pela ânsia de encontrar novos rumos para a política nacional, dialogando com o conservadorismo clássico, deteriorou-se em um velho arremedo de discursos reacionários, munidos de um precário conhecimento acerca das ideias dos pensadores conservadores, cercado de preconceitos diversos introduzidos como “resposta” às supostas conspirações esquerdistas para dominar o mundo e, claro, uma boa dose de carolagem. Foi-se o Lobão de uma suposta contracultura que combateria uma hegemonia que se apropriou de um discurso de esquerda para estabelecer sua posição de poder e entra o que temos hoje: mais um arauto do moralismo que fala em PT a cada duas palavras em cada sentença.

Figuras como Roberto Campos e Assis Chateaubriand representavam a base intelectual conservadora no Brasil. Respeitados por seus inimigos no campo ideológico, estes pensadores se destacavam, não apenas pela elegância mas, também, por sua densidade discursiva. Nelson Rodrigues, então, nem se fala. A nova direita é, acima de tudo, analfabeta funcional. Não que seus (velhos) arautos o sejam mas, quando pularam da cadeira e utilizaram a notícia de que um grande número de universitários eram analfabetos funcionais para atacar o governo petista, não levaram em conta que diversos (eu diria, informalmente, a maioria) de seus seguidores que estão ligados à academia são parte daquela porcentagem que tanto os arrepiou.

Em cursos de humanas, sobretudo campos como filosofia e sociologia, não é difícil reconhecer o “reaça” da turma: no lugar da discussão sobre a teoria das mãos invisíveis e sua aplicação na economia globalizada, entram coléricos xingamentos contra o “gayzismo” (ativismo GLBT) e aos “esquerdopatas” que “defendem” o bandido; em detrimento a um debate pautado pela justaposição das ideias de filósofos, sobretudo, morais da escola austríaca como Adam Smith e Ludwig Von Mises, e as contradições de uma nova sociedade que inclui vetores diversos daqueles que arbitravam a estrutura social nos ferventes séculos XVIII e XIX (ascensão profissional das mulheres, o progresso tecnológico da indústria, a transformação do Estado militar em Estado de bem estar social…), o que faz a cabeça dos novos conservadores é a defesa de figuras públicas extremamente ignorantes que proclamam linchamentos e violência generalizada, supostamente justificada por uma falta de ainda mais repressão por parte do aparato de segurança pública (o que causaria náuseas aos mesmos filósofos que tanto invocam o nome).

Assim como a esquerda ainda encontra dificuldades em imaginar um cenário pós-capitalista, os neo conservadores só querem ver o PT ir a bancarrota. Não importa que o ideário do PSDB não seja muito compatível com o substrato intelectual dos autores clássicos e, mesmo, de economistas modernos; a única coisa que importa é que o Partido dos Trabalhadores saia do poder e então teremos quatro anos para dissipar críticas à provável montanha de escândalos que se seguirão na gestão de Aécio Neves, como produtos da mídia esquerdopata. Ideólogas, partidárias e pouco interessadas com o plano social, as “olavetes” só querem que Jean Wyllis leve uma surra, Dilma Rousseff seja assassinada e a “escumalha” petista vá para trás das grades. Depois? Pouco importa; eles já venceram. É hora de desligar o videogame e voltar a ser alienado.

A transformação de uma direita moderna brasileira, apoiada no liberalismo econômico, em um vulgar arremedo de conspiração Iluminati, pobre-fobia e uma presunção fascistoide de monopólio da virtude (justo do que acusam a esquerda!), infelizmente, passa por Lobão e sua transição de crítico cultural autônomo a reacionário de apartamento. Nos hangouts, em diversos momentos, Lobão claramente fica constrangido mas responde com sorrisos acanhados quando Olavo começa a despejar suas doses nada homeopáticas de preconceito contra homossexuais e usuários de drogas. E o iconoclasta que defenderia, se preciso a tapas, a honra de seu maior amigo e parceiro, Cazuza? E o roqueiro que foi preso, fez amizade com o PCC e levou vaias no Rock In Rio por trazer a cultura popular brasileira para o palco, em meio à guitarras e pedais de overdrive? Ele ficaria calado e desconversaria frente ao preconceito barato de um carola que baseia boa parte de seu discurso em uma ortodoxia que envergonharia até a Igreja Católica?

Vejam que até Rodrigo Constantino, que sempre levantou a bandeira do liberalismo econômico e travou batalhas cheias de ofensas ad hominem com Carvalho, alegando que a direita precisava se livrar do anacronismo e dos preconceitos herdados de sua base religiosa em busca de um capitalismo livre de regulagem moralista, baixou a bola e acabou se tornando mais um papagaio da ótica míope dos conservadores ressentidos e movidos pelo ódio dos fracassos em deter a tomada de consciência sobre a condição proletária e da consequente remodelação da organização social para chegar em um molde muito mais inclusivo e com um Estado mais empenhado em defender os pobres ante a apenas ser um maquinário burocrático burguês nas mãos daqueles que detém os meios de produção e precisam de gente como Carvalho e tantos outros para manter o povo em condição de servilidade, com base em conspirações imaginárias e fantasias de descontrole social e imoralidade absoluta.

De fato, a possível nascença de uma direita brasileira moderna, livre das imposturas de Carvalho, do deboche derrotista de Mainardi, da egomania descontrolada de Azevedo (…), deu lugar a uma massa amorfa que engole todos estes velhos paradigmas fundados no revanchismo e no ressentimento e toma forma no discurso datilografado de pessoas ainda ignorantes em relação àquilo que criticam e que apenas se baseiam em uma ilusória e nebulosa percepção sensorial da realidade objetiva para tal. Daí surge a representatividade de Rachel Sheherazade e Marco Feliciano, para citar dois atuando em campos diferentes. Lobão, culto e contumaz, poderia ser a antítese à esta deformação, sempre comum à boa parte da história conservadora no Brasil. Infelizmente, agora parasitado, é apenas mais um reaça de apartamento.

O homem que odeia a mulher ou “O macho e suas vítimas”

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Estava, estes dias, a analisar os tais movimentos de ativismo pelos direitos dos homens. Nos EUA, grupos com muitos membros confabulam em fóruns na internet. Aqui no Brasil, a incidência é menor mas já existem ramificações como o tal “orgulho hétero”, nada mais que uma narrativa boba de ódio contra os homossexuais. Porém, apesar de não termos grupos estabelecidos, é possível identificar os mesmos padrões em muitos brasileiros que estão na linha de frente na luta imaginária contra o feminismo.

Uma das maiores contradições destes movimentos é, justamente, o fato de que eles celebram seu verdadeiro inimigo, que é comum ao inimigo das feministas, pelas quais pregam ódio: o machismo. Um “macho”, como em suas definições, não vai para frente de um computador reclamar sobre como as mulheres são injustas, tampouco perde horas escrevendo argumentos enormes para se convencer que o problema não está com ele mas sim com a sociedade, dominada pela agenda “feminazi”. O “alfa” está na rua, pegando mulher. Curiosamente, a relação é tão esquizofrênica que, apesar de celebrarem este tipo de comportamento como sendo o correto, eles odeiam profundamente homens assim pois eles são bem sucedidos naquilo que mais os causa ressentimento.

Onde entra o machismo? Pois bem, estes rapazes, claramente, são extremamente inseguros e a sua insegurança é produto da incapacidade de assumir este tipo de comportamento. Eles são filhos de uma nova geração que já está inserindo valores mais avançados em seu cardápio (precisamos levar em conta o fato de que, apesar de mais pronunciados hoje, eles sempre existiram e em um grande número). São frágeis, emocionalmente instáveis, até mesmo apresentam traços que seriam atrelados aos trejeitos e comportamentos femininos. Não são o “macho alfa” de forma alguma; são, sobretudo, homens que estão fora do arquétipo criado pelo machismo. As feministas combatem este inimigo porque sabem que, enquanto ele não for erradicado, os seus tentáculos continuarão a causar vítimas, inclusive homens que não querem ou conseguem fazer parte desta “comunidade” estritamente patriarcal e dominada por gente que aprendeu, ao natural, a ser “macho” e opressor.

Entretanto, os grupos de ativismo pelos direitos dos homens não estão interessados em fazer uma análise profunda do que os oprime. Eles apelam para o denominador mais comum da equação e este são as mulheres. É bem verdade que existem mulheres que buscam relacionamentos pela posição financeira e social do parceiro. É, também, verdade que muitas mulheres procuram nos homens características machistas e, até mesmo, violentas. Porém, experimente conversar sobre isto com uma feminista séria; não pense que ela lhe dirá que as mulheres são livres e os homens que não são machões têm de correr para o seu quarto e passar os dias chorando. Elas dirão que o fato de existirem “Marias gasolinas” e mulheres que buscam o “macho” opressor é resultado direto da cultura machista.

Mulheres, também, são ensinadas que não há futuro para elas se não escoradas em um homem e o único homem confiável para dar estabilidade para uma mulher é aquele que não chora, que responde com hostilidade e refuta a sensibilidade em detrimento do pensamento lógico . O feminismo é relativamente jovem e ainda está longe de compor o millieu intelectual das sociedades ocidentais. Ainda convivemos com o espectro de um machismo de ares quase românticos, idealizado com uma narrativa de “homem de verdade luta, não chora”. Só que os homens nunca, realmente, foram isto. Quando jogados em um mundo primitivo, na aurora da humanidade, tiveram de aprender a sobreviver. Porém, cerca de 120 mil anos depois, já não precisamos mais da consciência da caça e do embate físico; o homem moderno pode, enfim, ser liberto das restrições de gênero, impostas pelo acidente da vida em um ambiente inóspito.

O feminismo luta por uma estrutura social não baseada no patriarcalismo. Isto não quer dizer que desejam uma supremacia feminina ou mesmo “poder sem responsabilidades”. O que isto denota é, sobretudo, a liberdade presente em uma estrutura que provenha igualdade para todos. É por isto que os movimentos GLBT falam tanto em um fim da heteronormatividade; enquanto espécie, é natural que exista o macho e a fêmea mas enquanto homo SAPIENS, nossa complexidade nos levam muito além do órgão sexual que temos entre as pernas.

Os ativistas e “orgulhosos héteros” não são apenas um produto daquele reacionarismo desesperado, que surge frente ao inevitabilidade da mudança; eles são perigosos porque são ressentidos e não sabem mirar contra o que realmente lhes prejudica. Curiosamente, são os “fracos”, para ficar em um jargão tipicamente machista, que mais defendem a manutenção de uma estrutura social que privilegia a agressividade e a prega que a sensibilidade e a diversidade são traços do perdedor. Eles querem fazer parte deste grupo, não combater porque não conseguiram sair da superfície do problema. É mais fácil odiar uma mulher do que lutar contra a estupidez estabelecida há centenas de milhares de anos.

Sheik, não estrague o espetáculo!

Leiam esta notícia e eu retorno com um pequeno comentário:

http://espn.uol.com.br/noticia/413993_emerson-chama-lucio-de-mau-carater-e-acusa-me-chamou-de-gay-como-se-fosse-um-monstro

 

Em primeiro lugar, não me interessa nem um pouco se o jogador Lúcio realmente chamou o Emerson Sheik de alguma coisa. O fato central foi o tratamento dado pela imprensa especializada, pela imprensa não-especializada e pela sociedade de maneira geral. O que tivemos foi um jogador de futebol acusando, publicamente, um outro de ato de homofobia. “Mas como pode ser homofóbico se o Sheik diz que não é gay?”, perguntaria um incauto. Insultos como este não afetam apenas a vítima direta; eles reafirmam um paradigma cultural. É por isto que, sem medo de acabar preso em uma hipérbole argumentativa, é possível afirmar que o “viado” dito por um infantojuvenil ou por Lúcio, o jogador do Palmeiras, é o combustível para que neonazis saiam para a rua a arrebentar a cabeça de homossexuais contra o asfalto.

Eu assistia a transmissão de outro jogo através do pacote pago do PFC e soube do fato, com comentários nada aprazíveis da equipe que cobria Sport x Grêmio. Infelizmente, não me recordo do nome de todos, só lembro que fazia parte o ex-jogador Belleti. Um deles, o comentarista da partida, disse que Emerson Sheik “acha que pode falar tudo o que quer” e Belleti, conhecido por ter um dos melhores empresários da história do futebol moderno, aplicou um “tem que pensar no espetáculo antes de falar estas coisas”.

Suponhamos que Lúcio tivesse chamado Emerson de “macaco”. Você acha que a reação teria sido a mesma? Será que os comentaristas e colunistas especializados cobrariam de Emerson provas, com a veemência que cobraram neste caso? Será que diriam que o Sheik deveria ter “cuidado com o espetáculo” antes de acusar o zagueiro de tal disparate? Veja bem, penso eu que o racismo nos campos merece ainda mais do que fazem. Entretanto, o fato é que estes cruzados morais realmente acreditam que existam preconceitos aceitáveis ou, pelo menos, “menores”. Talvez o preconceito “menor” da homofobia explique os 26 assassinatos por hora motivados por estes crimes de ódio. O “espetáculo” dos comentaristas do PFC não pode ser manchado com o sangue destes mais de 300 homossexuais, número contabilizado que apenas risca uma superfície de casos no Brasil, o campeão mundial de crimes desta natureza, mais até do que países que possuem em seu código legal dispositivos para aplicação de pena sumária para homossexuais. Varre-se para baixo do tapete e Belleti pode ir dormir tranquilo, julgando que o espetáculo que assistiu ficou incólume ao ataque dos “gayzistas” e essa “marcha para transformar o Brasil em um País de viados”.

Emerson Sheik foi chamado de gay por ter tirado uma foto dando um selinho em um amigo. 300 pessoas por ano não são apenas chamadas de gays; elas são brutalmente espancadas e assassinadas no meio da rua ou, mesmo, dentro de suas casas, pelo epíteto que Lúcio e a imprensa esportiva acharam “natural” e “coisa pequena”. Chamar alguém de macaco não implica apenas uma conotação depreciativa; são séculos e séculos de violência, brutalidade e opressão carregados na estrutura semântica da palavra. O “viado” também. Mas, parece, esta causa ainda terá de carregar umas boas centenas de milhares de cadáveres para que os comentaristas do PFC a julguem mais importante que o “espetáculo”.

A ninfômana, o crítico e a hipocrisia

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Este texto possui spoilers e é recomendada a leitura  apenas para quem já viu ambos os volumes de Ninfomaníaca

Existe uma brincadeira recorrente entre meus amigos que dá conta de que, se um dia um filme de Lars Von Trier for recebido com aclames universais, o planeta Melancholia já estará em um curso irremediável de colisão com a Terra. Naturalmente, seu último trabalho, Ninfomaníaca, despertou críticas iradas de babões raivosos que pouco tiveram tempo para captar a riqueza psicológica da obra pois se apegaram nos detalhes mais ínfimos para redigir críticas imponderáveis. Mesmo quem elogiou, o fez com ressalvas, sobretudo ligadas à “pornografia” e ao potencial choque que assistir um pênis badalando na tela da tevê pode causar a um adulto.

Entretanto, me chamou a atenção a dificuldade de críticos profissionais de cinema em compreender o final do segundo volume de Ninfomaníaca. Várias das críticas que li falam que o desfecho fere o conteúdo da obra e parece “arbitrário”, nas palavras de Pablo Villaça. Curiosamente, todas as críticas que continham uma interpretação confusa ou nula do epílogo da história de Joe conservavam apenas uma leitura feminista da obra. Von Trier é um auteur hábil; como em todas as grandes obras, seu filme suscita diversos debates e pontos de vista. Enquanto Villaça apenas o olhou como uma “tese contra a misoginia”, Vladimir Safatle traz uma leitura moral da obra e Luiz Felipe Pondé – que se difere de ambos por ser um filósofo conservador – lê sob uma ótica psicanalítica e encontra uma crítica à discursos políticos pós-modernos como a revolução sexual. De todos estes ângulos, Ninfomaníaca oferece munição necessária para tais digressões.

Entretanto, quando o sujeito considera que Von Trier está apenas a fazer mea culpa (ou “mea maxima vulva“) com as acusações de misoginia em outros trabalhos seus – frutos de leituras preguiçosas dos outros dois filmes que compõem a corretamente intitulada “Trilogia da Depressão” -, perde-se muito e, naturalmente, uma análise profunda está descartada.

O infame fim de Ninfomaníaca Vol. II foca, justamente, em um dos temas que escaparam à críticos como Villaça: a hipocrisia. Joe apresenta diversos exemplos, em sua narrativa, acerca de um tratamento hipócrita dado à ela por seus pares, pretensamente sãos e moralmente “em dia” com suas obrigações de serem higiênicos aos olhos dos outros. No começo do primeiro volume, uma de suas melhores amigas e co-criadora de um clube estritamente feminino feito para celebrar o sexo livre, desiste de todas as pretensões revolucionárias pois se apaixona por um garoto. Avançando para o capítulo II, outra cena emblemática é quando Joe deixa o bebê em casa, só, para visitar um sadomasoquista “profissional”. Jérome, seu marido, ameaça, na noite de natal que, se Joe sair novamente de casa para procurar sexo na rua, ela não verá mais ele nem seu filho. Ela sai e Jérome vai embora, para aparecer novamente apenas na conclusão desta segunda parte.

Dois pontos importantes podem ser levantados com esta cena capital, negligenciada pelas críticas que só se preocuparam em tornar a obra uma diatribe feminista: a) o marido captura o bebê que está quase a cair da sacada do apartamento dias antes de isto acontecer, enquanto estava só, abandonado pela mãe. Porém ele só ameaça de ir embora quando confrontado com a realidade de que Joe sairá de casa na noite de natal para ter sexo com outro homem; b) Jérome leva a criança embora e o confidente de Joe, Seligman, interrompe a história para lhe perguntar o que aconteceu com o filho, ao que pronto ela acusa o marido de enorme hipocrisia ao tirar a criança dela por abandono do lar mas, tempos depois, entregá-la a um orfanato pois criar um filho por conta própria iria atrapalhar sua vida profissional. Tente criar uma enquete mental para imaginar quem, na opinião pública, seria maior merecedor da pena capital: o homem solteiro que não vai criar o filho porque quer ter um futuro viável ou a mulher que expõem a criança à situações de risco, em busca de prazer sexual? Eu consigo imaginar até os argumentos…

O elemento da hipocrisia tem seu ápice na obra justamente no desfecho. Seligman declara-se, no início do volume II, virgem e assexuado. Ele interrompe Joe o tempo inteiro para atrelar significados científicos, metafísicos e psicológicos à narrativa da personagem, emanando discursos modernos e progressista para confrontar a afirmação de que Joe seria, apenas, uma pessoa má. Entretanto, após a longa história, Joe tem uma epifania, dizendo que irá consumir todo seu esforço para tornar-se, como Seligman, assexuada. Ela diz que, enfim, encontrou um amigo em sua vida, um homem que enxergava além do instinto sexual. Entretanto, dentre a miríade de cenas explícitas, o momento mais perturbador do filme se segue quando o homem tenta estuprar Joe enquanto ela dorme. Ela acorda com ele tentando penetrá-la e o rejeita. “Mas você já fodeu com mais de mil homens, por que não a mim?”, indaga Seligman. A tela fica negra e escutamos o barulho de um tiro, desferido por uma pistola que Joe utiliza, sem sucesso, anteriormente em sua história.

Talvez esta linha de diálogo seja uma das frases mais reveladoras sobre a temática de um filme, já escrita para o cinema. A traição é tão brutal que Joe pôde apenas responder àquilo terminando com a vida de seu interlocutor. De todas as situações apresentadas, esta foi a que mais me perturbou. Em primeiro plano, fica clara a mensagem: Von Trier, misantropo e niilista, mostra para Joe que não exista tal coisa como um “amigo” para alguém como ela. Quando Joe conta que, em seu emprego de “coletora de dívidas” para um grupo criminoso, ela fez um homem chorar ao fazê-lo se excitar com um cenário de pedofilia, libertando um ensejo extremamente reprimido, que nem ele mesmo tinha dimensão da existência, o semblante de Seligman muda. Quando pergunta à Joe o por quê dela fazer sexo oral no homem após confissão tão monstruosa, ela responde que sentiu empatia nele por descobrir que vivia com o martírio de uma sexualidade proibida e que ele era fadado à solidão, assim como ela. Talvez neste momento os desejos do próprio confidente tenham sido libertados por Joe. Para dar lugar à esta natureza tácita, ele trai tudo o que falou durante as quase quatro horas de enredo e, subsequentemente, morre por ser hipócrita.

É claro que a leitura feminista é predominante também nesta cena: em nenhum outro momento do longa Joe é subjugada pelos homens com quem se envolve. Ela sempre procura, mesmo as situação mais perigosas e aberrantes. O único momento em que diz não é quando um homem tenta subjugá-la, lhe conferindo a estética de uma espécie de anti-heroína feminista. É claro que o vício de Joe de forma alguma configura uma experiência positiva. O que Von Trier parece dizer é que existem pessoas que não podem ser o que ela são pois nunca serão aceitas desta maneira e, caso optem por esta liberdade, só causarão dor a si mesmas e deixarão um rastro de destruição para trás. Não há uma mensagem conservadora aqui, apenas a constatação de que o preço da total liberdade é tão alto que sua única herança é a marginalidade.

O pedófilo inconsciente que Joe desperta é, de fato, uma pessoa em sofrimento. Ele vive uma vida tendo de reprimir brutalmente um desejo ardente e devastador pois, caso perca esta batalha diária, ele o levará a ruína e vitimará outras pessoas no processo. Assim como Joe que desfaz casamentos, brinca com os sentimentos de homens e mulheres e, até mesmo, comete crimes em nome da plena liberdade para ser uma ninfomaníaca que resiste e vê no amor uma prisão. Não seria sua liberdade uma prisão também?

Ninfomaníaca talvez seja o melhor longa de Von Trier. É, ao lado de Dogville, o que mais suscita discussões. Sem dúvidas, é o trabalho de uma vida e apenas um diretor como o dinamarquês poderia, em nosso tempo, engendrar obra tão incômoda e necessária. Trier vai de Sade à Wagner, de conceitos de pescaria à polifonia, do cristianismo ao paganismo. Entretanto, sua erudição passa longe de ser a verve de suas obras. Em Anticristo, ele ridiculariza o personagem cético e racional que se vê perdido dentre uma dimensão mística e caótica da natureza. Em Melancolia, o homem da ciência comete suicídio frente ao fim da existência, que ele passa negando a partir de cálculos que não conseguem capturar o incomensurável. Em Ninfomaníaca, o seu homo sapiens é uma ilusão que dá lugar ao demens, incontrolável e primitivo, ao fim da epopeia sobre a vida de Joe, uma viciada em sexo.

Infelizmente, teremos de esperar para assistir as versões de três horas, como foram originalmente concebidas pelo diretor. Se alguns plots soam um tanto mau desenvolvidos, é possível concluir que a culpa não é de Trier que, à época, causou espanto ao, jocosamente, anunciar que faria um filme pornô de seis horas de duração. Entretanto, com o que temos, é possível concluir que Ninfomaníaca é a nossa vanguarda artística. Que Pablo Villaça e outros – incluindo a mim – me perdoem mas tentar sintetizar obra tão rica em um review de blog é recorrer ao pecado da vaidade.

O fim da civilização

Um pequeno intervalo para tratar de um assunto sério, sobre o assombroso caso do linchamento em São Paulo.

 

O meu maior problema foi ouvir algum as pessoas dizendo: “que horror, ela nem tinha feito nada do que era acusada, foi um engano”. E se tivesse? Digamos que ela tivesse sequestrado dezenas de crianças e as entregue para a execução em rituais de magia negra. O fato de um bando de pessoas se reunirem e marcarem por antecedência um linchamento público, com nuances de “programa para fim de tarde”, as faria exatamente iguais ao objeto do linchamento. Aliás, talvez as fizesse piores afinal, enquanto a criminosa teria suas motivações escusas para fazer o que fazia (dinheiro, participação nos rituais), estas pessoas estavam invocando a “justiça” enquanto brutalizavam um ser humano. Todos sabemos o quanto o dinheiro é sujo de sangue todos os anos, contando os inúmeros crimes que são cometidos em seu nome. A natureza de um ritual de magia negra é ligada ao desejo mundano por posses, violência e sexo. Entretanto, o ente abstrato da justiça não deveria ser invocado como justificativa para a violência.

Os poucos assassinos que foram capturados pela polícia se mostravam altivos na tela da televisão, invocando sua condição de “pais de família”. Nada de rostos cobertos ou aquele semblante de miséria emocional. Talvez eles estejam um pouco consternados pelo fato de terem assassinado uma inocente. Mas não se incomodam nem um pouco com o conceito do linchamento. Não se sentem culpados por deixarem os filhos em casa para irem espancar uma mulher em um local público. Talvez até devem ter levado algum dos filhos e, enquanto assistiam complacentes uma vida ser aniquilada pela fúria cega de uma turba, diziam às crianças: “é isto que as pessoas do mal merecem por fazer maldades”.

Toda uma civilização morre a cada vez que estes episódios tomam forma. Quem já não viu algum daqueles vídeos gravados em pequenas cidades nordestinas onde, por alguma acusação, alguém é brutalmente espancado e morto a tiros. Em um deles, é possível ver crianças brincando de corrida enquanto um corpo ensanguentado se retorce no chão, pedindo clemência. Que tipos de seres humanos teremos no futuro?

Em um linchamento, o comportamento de grupo toma sua forma mais primal. Os que batem nem lembram ao certo o motivo pela violência. Em seus olhos, queimam frustrações e, em lugar da razão, um movimento brusco de ódio os reserva comportamento mais selvagem que o mais selvagem dos animais. É a consumação de uma cultura de ódio, ora produto da perversidade, ora em nome da “justiça”. O que aconteceu em São Paulo empurra nosso estado civilizatório para um estado embrionário. E cada vez que alguém pensa que seria atenuante caso ela fosse a pessoa que eles realmente estavam procurando, o embrião é desfeito em um aborto espontâneo.

A Era Vulgaris do Stoner Rock/Doom Metal

Electric Wizard – Dopethrone

Electric Wizard - 2000 - Dopethrone

Curiosamente, como nota pessoal, eu prefiro sempre as bandas influenciadas (muitas vezes, soando realmente semelhante) do que o próprio Black Sabbath. Este é o caso de “Electric Wizard”, que toma seu nome emprestado de uma música do Sabbath. Porém, se for possível descrever seu som com uma anedota boba, a banda teria levado os dois primeiros discos do velho Sabb para uma cabana no meio do mato, portando uma quantidade de maconha que desmancharia o cérebro de qualquer hippie que vende bijuteria nas calçadas, e encontraram um livro com escrituras sombrias, ditas em voz alta despertando demônios anciães que possuíram os membros e gravaram, em um toca-fitas extremamente lo-fi, material suficiente para uma carreira inteira.

“Dopethrone” é o disco mais sujo e mais brutal da banda. Com vocais quase inaudíveis e fuzz box em todos os lados, o Electric Wizard faz doom metal da maneira como deve ser feito: sem teclados bobos e synths bregas, sem letras sobre fantasia ou chororô adolescente, apenas um som extremamente pesado, com os knobs de grave no máximo em todos os amplificadores e uma gravação com pouquíssima definição, que só adiciona ao clima sombrio e satânico do disco. Coisa fina, feita para ser tocada em vinil, “Dopethrone” pede um stereo, a porta fechada e muita fumaça saindo do bong.

Belzebong – Sonic Scapes and Weedy Grooves

cover

Seguindo a linha do doom/stoner rock, o criativamente nomeado Belzebong é uma das bandas mais pesadas que eu já ouvi na vida. O “buzz” do baixo é tão pesado, potencializado por um fuzz box no máximo, que vai fazer os mais exagerados pensarem duas vezes em pôr o volume máximo enquanto escutam em fones de ouvido. Diferindo um pouco de Electric Wizard, o Belzebong flerta mais com o hard rock setentista, se dando ao luxo de wah-wahs e riffs que capturaram elementos de bandas como “Mountain” e “Budgie”, naquele estilo casca-grossa dos desertos americanos, que iriam parir a cena Stoner no futuro, com seus Kyuss e os diversos projetos que nasceram da banda.

Quase instrumental, o disco apresenta apenas quatro músicas sendo duas faixas bem longas e duas um tanto menores e mais estruturadas. “Acid Funeral” é uma espécie de sumário do gênero, com riffs arrastados, hi-hats abertos marcando e efeitos sonoros que parecem ter sido gravados em algum culto/orgia no meio de uma floresta, iluminada apenas pela pálida luz da lua. Quem é fã do maravilhoso (e muito mais mainstream) “NOLA” do Down merece ouvir esta maravilha “marijuanada” até o talo.

The Want – 5 O’ Clock Orange

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As duas bandas acima são produtos de seu tempo, isto é, uma época mais moderna, que conheceu o metal dos anos 80 e o nascimento de toda uma cena que retornava às raízes das fuzz/garage band do fim dos anos 60. Porém, The Want é uma banda nascida em 1969 que, por um acaso, entrou em um vórtex temporal e acabou sendo jogada nos anos 90. Com Humble Pie correndo nas veias, os quatros rapazes de Jersey praticam em seu debut uma mistura lisérgica que encontra Zeppelin nos incríveis vocais de Kenneth Leer e o timbre mágico das Gibson que tanto fizeram a cabeça dos guitar heroes das década de 70. “Rail”, por exemplo, é Steppenwolf. Mas, como neste nicho, não há a necessidade de grande originalidade, o “The Want” poderia ter sido uma peça chave, ainda que tardia, do movimento stoner americano. Só que a recusa da banda em sair do meio underground impossibilitou voos mais altos. Não sei dizer se é uma pena afinal o tipo de música praticado por eles, realmente, pertence à garagem e ao whisky bar mais próximo.

All Them Witches – Our Mother Eletricity

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Uma das piores coisas acerca de bandas como Black Crowes e Wolfmother são o fato de que cada nota de cada música soa derivativa ao máximo, forçando o indivíduo a imaginar qual “banda” está ouvindo na música de ambos ao invés de aproveitar. Mesmo que bandas de stoner rock/doom não sejam exatamente muito originais, ainda assim algumas conseguem, através da amálgama de elementos que as compõe, criar uma identidade. É o caso do All Them Witches. Um cínico poderia citar o de sempre (Black Sabbath) mas, de fato, adições como um venenoso Hammond B3 e baladas neo-psicodélicas como “Easy” renovam a banda e conseguem manter uma roupagem atemporal, ainda que a bela e clara produção entregue que o disco foi feito recentemente. O disco é bem balanceado entre um material pesado e baladas que bebem na fonte de Allman Brothers.

Colour Haze – Colour Haze

Colour-Haze-self-titled

Vinda da Alemanha, a banda traz, em um disco fantástico, elementos de blues, psicodelia, stoner rock  um trabalho de guitarras admirável, para nenhum fã de Hendrix colocar defeito. Este talvez seja o diferencial do grupo; enquanto bandas deste estilo não são particularmente lembradas por grandes solos de guitarra, apesar dos riffs, Colour Haze é totalmente guitar-driven, com riffs agressivos alternando com momentos incríveis, onde o blues toma vida e dá um elemento mais orgânico para o disco, resgatando dos padrões próximos do drone que povoam as músicas de bandas neste estilo.

Setentista, o álbum abre com “Mountain”, quem sabe uma homenagem para a banda homônima. Nela, o Colour Haze apresenta suas armas, com doses admiráveis de peso, na junção das guitarras e do baixo. Porém, o seu segredo de sucesso surge quando a riff machine dá lugar à passagens texturizadas, com solos de guitarra com ganchos a lá Duane Allman e, porque não, Hendrix. Outro destaque do disco é a faixa final, “Flowers”, que intercepta um violão cheio de harmônicos e uma linha dual de baixo/guitarra que segue ao som de um acompanhamento marcial da bateria. Essencial!