Até onde vai a censura ?

Recentemente, surgiu por aí a notícia que Angel Sala, organizador de um tradicional festival espanhol de cinema (Sitges Film Festival) pode enfrentar um ano na prisão por exibição de pornografia infantil.

Pode parecer rotineiro afinal todo ano milhares de pessoas são presas por crimes semelhantes. Entretanto, a tal pornografia infantil referida se trata do filme “Srpski” aka A Serbian Film, o polêmica e brutal filme sérvio que causou frisson no circuito underground no ano passado.

Sim, um homem pode pegar cadeia por exibir um filme em um festival, tal qual você que está lendo pode acabar sofrendo do mesmo mal caso organize um festival em sua cidade e exiba Srpski. Algo me faz lembrar da década de 80 e o escândalo causado pelos infames Video Nasties no Reino Unido, o que causou a prisão de vários donos de locadoras que ousavam comprar as fitas malditas que continham os escárnios banidos pelo conselho de cinema de lá.

Enfim, vivemos em uma era onde a liberdade de informação ultrapassou todas as barreiras do puritanismo e, com a ajuda da internet, permitiu que vozes de todo o planeta pudessem ser ouvidas. Mas o mundo “real” parece não gozar da mesma facilidade e ainda precisamos conviver com violências, verdadeiros linchamentos contra esta liberdade, direito que deveria ser outorgado mundialmente como básico para todo  e qualquer ser humano.

Angel Salas

Angel Sala

À cerca do filme, existem algumas cenas que envolvem menores de idade em violência sexual sim mas, dentro do seu próprio universo, plenamente justificáveis como arte. Claro, conceitos de arte são um tabu antigo mas isto não vem tanto ao caso, já que não existem parâmetros universais de qualificação acerca disso.

O que vem ao caso é o que tange a lei e Srpski não atinge quaisquer parâmetros para ser enquadrado como “pornografia infantil” deliberadamente. Todas as cenas são, obviamente, encenações, algumas envolvendo atores, outras envolvendo bonecos. Todas estas encenações são apresentadas de forma off-screen, já que Srpski não possui nenhuma cena onde existam closes genitais de penetração. Não existe nudez e nem estimulação sexual com os atores menores de idade. Ou seja, não existe absolutamente NADA que descaracterize o longa sérvio como unica e exclusivamente cinema.

Duvidoso ou não, sensacionalista ou artístico, condenar um homem por exibir um filme em um festival de cinema é quase tão absurdo quanto seria colocar atrás das grades um musico que escrevesse uma canção contra algum orgão governamental ou personalidade pública. Não levantaríamos nossa voz em apoio ao indivíduo ?

Srpski levanta a bandeira de temas extremamente controversos, o que não quer dizer que eles sejam irreais, muito pelo contrário. Basta ligar todo o dia o jornal, aquele exibido na televisão diariamente, para ser achincalhado com uma tonelada de notícias envolvendo abuso, violência psicológica e física, agressão e maus-tratos à menores de idade. Como contraponto, as vezes os próprios menores são os vilões, assassinando os pais, agredindo irmãos, abusando sexualmente de crianças menores (…), um show de estupidez que deveria ficar apenas no âmbito do ficcional mas que escoa pelas nossas televisões todos os dias.

O mundo hoje, apesar de imerso em uma letargia onde  depravação é marketing, vive uma crise de autoafirmação, onde todo e qualquer tipo de grupo precisa levantar bandeiras. A cruzada moral contra a pedofilia é, muitas vezes burra, estupida e redundante. O fato é que, para lutar – e isso quer dizer, diminuir a incidência de casos – contra a pedofilia hoje, é preciso lutar contra a sexualização da infância. A mesma rede de televisão que exibe comerciais conscientizando contra tais crimes é aquela que exibe novelas onde meninas de 8, 9 anos já falam em namorados, consideram brincar de bonecas como sendo algo ultrapassado para sua idade, em alguns casos até mesmo já pensam em iniciar suas vidas sexuais, cercadas por príncipes encantados, normalmente mais velhos. Cada vez mais cedo, pais aceitam que seus filhos se envolvam em relações amorosas da qual não possuem qualquer maturidade para entender, levando ao ponto de permitirem que crianças se tranquem no quarto com seus pares, sob o teto onde estão aqueles da qual deveriam zelar por sua segurança.

Este que vos escreve passa longe de ser moralista mas preciso admitr que me revolta quando vejo uma criança desperdiçar a infância, época em que deveria fugir ao máximo das futuras atribulações da vida adulta, se envolvendo em assuntos de “gente grande” da qual não fazem a mínima idéia de como conciliar.

Isto é danoso, isto é a gênese de muitos casos futuros de abuso, de gravidez na adolescência, de videos humilhantes entre meninas abaixo de 15 anos de idade transando com homens mais velhos que caem na internet para qualquer um ver, de disseminação de DSTs e Aids entre menores de idade. Não um filme estritamente proibido para menores de 18 anos que eventualmente foi exibido em um festival.

Em tempos como estes, provavelmente daqui há algum tempo, se eu assistir um filme como Pretty Baby ou similares (envolvendo cenas de nudez com menores de idade), estarei sujeito a ser preso por posse de material pornográfico infantil. Álias, se planejava comprar o dvd de Srpski, vou ter de pensar duas vezes agora.

Parece que a censura não desapareceu, apenas se camuflou, tomou rumos mais sórdidos e traiçoeiros e vem assombrando a visão artística ainda hoje. Esta possível prisão de Sala, um improvável “mártir”, é um ataque frontal a nossa própria liberdade, uma vez que manda uma mensagem bem clara sobre como a criatividade e a expressão humana ainda vive sitiada e existem leis que corroboram, incitam este tipo de violência contra a liberdade.

UPDATE (29/07/11):

Cá estou eu, depois de tanto tempo e escrevendo sobre Srpski de novo!

A nova agora envolve nosso querido Brasil como mais um país da lista da censura explícita (deveria virar um gênero cinematográfico), com a proibição de exibição da película no estado do Rio de Janeiro.

Inicialmente, “A Serbian Film – Terror sem limites”, bancado pelo distribuidor Rafaelle Petrini, foi vetado de ser exibido no festival carioca RioFan, organizado pela Caixa Econômica do Brasil (ninguém quer sua marca relacionada à esse filme, não é ?). Mas, posteriormente, a justiça determinou que o filme estava proibido de ser exibido no estado inteiro, com uma liminar que caçou cópias e tudo mais, em um autêntico  caso “Video Nasties” brasileiro.

Mas não parou por aí, apesar de ser exibido em alguns festivais como o Fantaspoa, Srpski também foi proibido em Minas Gerais, via recomendação da justiça brasileira.

É, meus caros amigos, depois de 27 anos, um filme foi oficialmente censurado e proibido no Brasil. O que podemos esperar mais ? O distribuidor ser preso por acusação de “incitar pedofilia” ?

Obs: Segundo Petrini, o filme ainda sim será lançado nos cinemas brasileira através de cópias digitais, já que a cópia de 35mm foi apreendida pela justiça carioca.

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