O Exorcista III: Uma continuação quase superior ao original

A história por trás do filme

Quando “O Exorcista”, adaptação de um best-seller escrito por William Petter Blatty, estreou no cinema em 1973, pouco se imaginava o efeito que o longa causaria cerca de quase 40 anos após sua feitura. Através dos anos, o clássico moderno consolidou uma posição de “filme de horror definitivo” causando repulsa e fascínio nas audiências do mundo inteiro, tanto no lançamento original, quanto no relançamento em nova versão na década de 2000.

Centenas de rip-offs, livros e documentários pipocaram desde sua feitura, elevando o filme a um patamar em que poucos outros chegam, fazendo parte de uma selecionada filmografia básica para qualquer amante de cinema que se preze.
Entretanto, o mundo do cinemão blockbuster não costuma “perdoar” estes sucessos fenomenais e costuma não se satisfazer em devorar até o ultimo farelo, tirar o ultimo centavo que eles podem proporcionar. Em 1977, a Warner Bros decidiu entrar na brincadeira das franquias e usar um nome poderoso para lançar uma possível cinessérie que parecia grana fácil e duradoura, este nome era “O Exorcista”.

Como a sensatez manda, tudo o que deveria ser feito era uma espécie de “refilmagem” do original com o uso de alguns efeitos especiais novos e voilá, um novo sucesso no cinema. Mas como nem tudo é óbvio, William Friedkin disse um sonoro não para os produtores e o bom diretor John Boorman foi chamado para dirigir a segunda parte. Não havia roteiro para se adaptar, não existia uma sequela para o livro e Blatty não estava nem um pouco inclinado em participar, o jeito era “improvisar”.

Dessa improvisação, saiu um longa extremamente confuso, atirando para todos os lados, com direito a  filosofia “hippie” de quarta, misticismo africano, teologia, atuações vexatórias e muito pouco dos exageros gráficos e agressividade visual do original.

O público queria “sangue” e odiou a abordagem mais psicológica, os críticos queriam um bom argumento para o roteiro e odiaram a viagem mística e dúbia oferecida por Boorman e o desastre estava completo. A WB sofreu o trauma e decidiu enterrar o nome “O Exorcista”, vivendo dos royalties do original e tentando apagar lentamente o dano causado pela continuação.

Ainda na década de 70, Blatty se aproximou novamente de Friedkin afim de que o mesmo dirigisse uma “idéia” que ele tinha na cabeça para ser a continuação real do original. O diretor gostou do que ouviu mas alegou que era necessário ter cuidado porque poderiam produzir um filme na sombra de “O Hérege” e acabar fadado ao infortúnio, antes mesmo de ser lançado para os cinemas.

Devido a desentendimentos sobre “visão artística”, Blatty acabou por, em 1983, escrever um livro chamado “Legião” que seria, segundo o próprio, uma história ambientada no mesmo universo de “O Exorcista”, após os acontecimentos do original mas sem ter a pretensão de ser uma continuação direta.

Legião diferia novamente do que o público esperava de uma continuação para a história original mas, dessa vez, com o álibi de não carregar nome nem imagem com fins promocionais, apenas sendo um livro que misturava horror e um interessante enredo policial, envolvendo alguns personagens que apareceram em “O Exorcista”e nada mais. Assim como em Legião, Blatty havia escrito “The Ninth Configuration” em 1978, novamente trazendo personagens que apareceram em “O Exorcista” e situando a história no mesmo espaço e tempo de sua mais famosa novela.

Desta vez, a idéia deu certo e os méritos de Legião o levaram a um moderado sucesso, não repetindo o poder de fogo do livro de 1971 mas conseguindo cativar tanto os fãs do original quanto um publico novo e próprio.

Não era exatamente uma surpresa que um dia ganharia uma adaptação para o cinema e em 1990, o sonho de muitos admiradores do livro veio a se tornar parcialmente real.

O próprio Blatty assumiu a direção daquela que deveria ser a adaptação literal da obra de 1983. Para completar o elenco, chamou novamente Jason Miller, adicionando os talentos de George C. Scott (como o tenente Kinderman, já que  Lee J. Cobb, o ator que o interpretou no filme de 1973, havia falecido três anos após o seu lançamento), Brad Douriff e Ned Flanders.

O escritor não era exatamente novato na cadeira de diretor pois, em 1980, adaptou outro dos seus livros para um longa metragem, novamente relacionado à “O Exorcista” – o ótimo Ninth Configuration.

As filmagens se iniciaram no meio de 1989, durante oito semanas, com um budget moderado de 11 milhões de dólares. Quando Blatty o apresentou para os produtores da Morgan Creek, ouviu as palavrinhas mágicas que qualquer diretor com visão artística teme: Você terá de filmar um novo final.

Contrariado, o diretor decidiu aceitar as condições e fechar o filme com um exorcismo, a exigência primária dos produtores que não conseguiam conceber um “Exorcista” sem ter uma cena que literalmente transcrevesse o título. Posteriormente, Blatty não manteve o silêncio e confessou para a imprensa seu descontentamento com o resultado final.

“A história original que vendi  (para Morgan Creek) e que filmei, terminava com Kinderman acabando com o Paciente X. Não havia exorcismo. Mas houve uma rixa entre mim e o estúdio. O filme como concebi foi designado para um preview, após isso eles poderiam fazer o que bem entendesse.Me deram o preview mas com a pior e mais baixa audiência que já havia visto em minha vida. Trouxeram zumbis do Haiti para assistirem o filme. Foi inacreditável. Mas decidi que deveria fazê-lo do que deixar que outro fizesse em meu lugar. Pensei estupidamente: Posso fazer um bom exorcismo, vou tornar esta orelha de porco em uma bolsa de seda. Então o fiz.”
The Exorcist: Out of the Shadows (Omnibus Press, 1999)

 

Ainda sobre a regravação, Brad Douriff relembra que o clima era pesado e o cast estava todo a favor da visão artística de Blatty e contra as exigências comerciais impostas pela Morgan Creek.

“Nós nos sentimos muito mal sobre isso. Mas Blatty tentou fazer o melhor sob circunstâncias muito complicadas. E lembro de George C. Scott dizendo que os caras do estúdio só ficariam satisfeitos se Madonna cantasse a musica de encerramento! A versão original era muito mais pura e me agradou muito mais. Como está hoje, é um filme medíocre. Existem momentos que não tinham direito de estar alí”
Fangoria #122 (Maio de 1993)

 

Em 1990, o filme enfim fora lançado para exibição nos cinemas como “O Exorcista III” – totalmente a contragosto de Blatty, desta vez sendo distribuído pela Fox ao invés da Warner Brothers. Nesta mesma época, estava marcado o lançamento de “Repossuída”, a sátira ao longa original com Leslie Nielsen, da qual a Fox acabou atrasando o lançamento em um mês.

Como o próprio diretor esperava, a associação com o original e, especialmente, sendo apontado oficialmente como uma continuação do segundo filme, foi danoso ao box-office e resultou em críticas negativos por parte da imprensa especializada. Blatty contou que, na terceira semana após o lançamento, o estúdio lhe disse “Vamos lhe dar a razão do box-office, vai doer, você não vai gostar – a razão é O Exorcista II”, o que deixou o diretor pasmo pela cara-de-pau de apontarem agora como se este tivesse sido um erro estratégico cometido por ele próprio!

Entretanto, mesmo com todos os contratempos causados pela imposição comercial do estúdio, Blatty considerou O Exorcista III como um filme superior, inclusive, ao original e alegou o desejo de juntar as peças que ficaram de fora para montar o longa que planejou desde o início. Apesar desta inclinação, a Morgan Creek alega que as filmagens extras foram perdidas e que seria impossível recuperá-las, o que não impediu fãs ao redor do mundo de fazerem abaixo-assinados pedindo uma director’s Cut para Exorcista III, ou melhor, Legião.

Como o tempo é o melhor remédio, o filme inicialmente detonado pelos críticos e público, acabou ganhando a alcunha de “filme de culto”, angariando uma legião (perdão pelo trocadilho) de apreciadores ao redor do mundo, muitos dos quais concordam com Blatty quanto a esta sequela ser superior ao “O Exorcista” de 1973. Isto pode ser notado através da quantidade enorme de livros, websites e foruns dedicados  a analisar e contar a atribulada história de um longa de qualidades artísticas que acabou evoluindo para uma peça comercial que poderia ser considerada um “Exorcisploitation”. Até mesmo a crítica especializada deu o braço a torcer e considerou o filme como uma sequência digna e de qualidade incontestável, apesar das óbvias limitações quanto ao livro e a visão original do diretor.

Review de “O Exorcista III”

Em primeiro lugar, para assistir este filme, é preciso eliminar da cabeça a continuação anterior, já que o próprio enredo trata de desconsiderar totalmente os fatos apresentados em “O Hérege”. Feito isso, esqueça também do estilo e atmosfera do original, dos momentos mais célebres e apenas guarde o nome dos personagens e um resumo do que aconteceu em Georgetown em 1973. Agora você está apto para entrar no universo de Blatty e de seu filme.

 

Constantemente, continuações costumam ser duvidosas e um caminho perigoso para se trilhar. As coisas ficam mais difíceis quando se tratam de continuações de sucessos, com box-offices generosos e com uma fanbase formada ao redor do mundo. Deste mal padeceu “O Exorcista II: O Hérege”, a esquisita e psicológica continuação do clássico original que acabou por afundar o nome e quaisquer pretensões de um terceiro filme.

Entretanto, as vezes os realizadores originais revisitam suas obras e William Petter Blatty, escritor do best-seller original, decidiu dirigir uma continuação digna da obra-prima que ajudou a criar. Em 1990, tomou a atitude de adaptar seu livro, Legião, para o cinema, uma continuação oficialmente não-oficial que habitava o mesmo universo de O Exorcista mas nascia como uma entidade separada, totalmente desprovida da pretensão de ser igual ou melhor, apenas uma boa história.

Porém, meus caros amigos, o mundo não é um lugar muito justo para com artistas e suas visões e Blatty sofreu na mão da produtora, exigindo cortes, refilmagens e uma mudança geral no espírito do roteiro literal sobre Legião. Até o nome precisou ser mudado, afim de linkar de qualquer maneira o novo longa ao sucesso comercial do filme de 1973. Nascia mais um desastre mas, desta vez, injustamente.

A história se passa 15 anos após o mal-fadado exorcismo de Regan Macneill. O assassinato de um menino de 12 anos, Thomas Kintry, com motivos aparentemente satânicos leva o Tenente Kinderman (George C. Scott) para a cena do crime. Em seguida, Kinderman se encontra com o padre Dyer (Ed Flanders) e o convida ao cinema para assistir “It’s a Wonderful Life” para depois relatar ao padre os detalhes do assassinato e confessar que as vezes tem sua fé testada por eventos como esse. Um novo assassinato acontece, desta vez com um padre local, em uma cena arrepiante onde aparentemente uma senhora de idade confessa que cometeu um crime até decapitar violentamente o homem que ouvia a confissão.

Dyer é hospitalizado e acaba sendo encontrado morto na manhã seguinte, com todo seu sangue colocado em potes para coleta de amostras e a inscrição “It’s a Wonderful life” em sangue, na parede do quarto do hospital. Kinderman se vê confuso e perdido com a morte do amigo e acaba se jogando de corpo e alma no caso, afim de descobrir quem seria o responsável. A cada cena de crime, é encontrada uma impressão digital diferente, tornando virtualmente impossível que fossem cometido pela mesma pessoa, onde as três vítimas possuiam seu dedo do meio cortado e a inscrição do símbolo zodiacal de gêmeos na palma de sua mão direta. A inquietação de Kinderman se deve ao fato de que um antigo assassino conhecido como “Gemini Killer” (Brad Douriff) possuia o mesmo modus operandi, lembrando o fato de que na época os jornais publicaram notas invertidas sobre estes detalhes e o assassino atual sabia exatamente como era a forma de identificação do serial killer. O problema é que Gemini Killer havia sido executado cerca de 15 anos antes, na mesma época dos acontecimentos do caso Macneill, e Kinderman estava presente para garantir que o assassino havia sido morto.

O chefe da psiquiatria do hospital onde Dyer esteve, Dr. Temple (Scott Wilson), conta para tenente que há um paciente na cela 11 da qual foi internado há 15 anos e chegou apresentando um caso severo de amnésia. O homem estava catatônico até alguns dias quando acordou e começou a agir de forma agressiva, alegando ser Gemini Killer. Kinderman o visita e se espanta ao identificar uma semelhança enorme com o padre Karras (Jason Miller). Ao indagar sobre isso, o homem alega não saber quem seria este padre e ironiza o assassinato do padre Dyer, dando a entender que estaria por trás.

Mais dois assassinatos dentro do hospital se sucedem, uma enfermeira e o Dr. Temple, e Kinderman novamente interroga o homem conhecido como Paciente X, desta vez para saber que ele alega ser a alma de Gemini Killer dentro do corpo do padre Karras. Apesar de não ser explícito, o roteiro dá a entender que teria sido obra do demônio Pazuzu, uma vez que Karras o tirou do corpo de Regan e como forma de vingança, ele o possuiu com a identidade do serial killer.

É bom observar que é neste momento onde as mudanças mais radicais feitas pelos produtores começam a aparecer. Até então, O Exorcista III caminhava como um thriller com viés sobrenatural mas sútil e psicológico para agora assumir uma ligação mais direta com os acontecimento do filme de 1973. É complicado mensurar o quão positivo e negativo esta ligação é para o filme, uma vez que teremos excelentes cenas intercaladas por alguns exageiros e truques visuais que não encaixam de forma inteligente na proposta geral do longa.

Continuando com a história, Karras (ou Gemini Killer) revela para Kinderman que a cada manhã, possui um dos idosos dementes que habitam a unidade de tratamento psiquiátrico do hospital e os utilizam para cometer os assassinatos. Além disso, ele alega que forçou o Dr. Temple a trazer o tenente para o caso, ameaçando que se não o fizesse, tornaria sua vida extremamente infeliz, o que levou Temple, um alcólatra inverterado, a cometer suicídio na noite anterior.

Como o ceticismo de Kinderman persiste, Gemini Killer possui uma idosa e a leva até a casa do tenente afim de matar sua filha Julie, frustrada pela intervenção do próprio, que comprova os poderes reais do paciente X. A paciente tenta atacar o tenente mas acaba caindo em um estado catatônico quando o padre Morning (Nicol Williamson) chega até o corredor que leva a sala 11, afim de exorcisar Karras/Gemini Killer. O exorcismo dá errado e o padre acaba sendo colado ao teto da cela, até a chegada de Kinderman que procura performar uma eutanásia em Karras. O paciente X (agora interpretado por Brad Douriff) o espera, enquanto a personalidade de Karras se manifesta e pede ao tenente para que o execute. Kinderman, com pesar, atira no corpo do amigo e o liberta do controle do serial killer. Karras o agradece e pede para que desfira o ultimo tiro, afim de matá-lo já que está agonizando. O filme encerra com o funeral do padre e o tenente jogando uma flor em direção a sua lápide, até o fade e o início dos créditos.

Existem muitas discrepâncias entre o conteúdo do livro e o roteiro do filme. O enredo segue uma direção não-canônica em relação ao “O Exorcista”, habitando o mesmo universo, trazendo de volta alguns personagens mas não oferecendo um approach literal, extremamente fiel aos acontecimentos do original. Isto pode ser notado quando Kinderman revela que Karras era um dos seus melhores amigos, quando no longa de 1973, sabemos que eles se conhecem por um curto período de tempo e apenas interagem uma única vez. Tanto na novela quanto no filme, é revelado que a pessoa da qual auxilia Karras a decifrar a linguagem utilizada por Regan na sala de gravação seria a mãe do menino Kintry enquanto, nesta cena, originalmente é visto um rapaz, aparentemente técnico em som o auxiliando.

O próprio roteiro original de Blatty também guarda algumas diferenças com relação ao livro como a idade de alguns personagens, a forma como Gemini Killer foi executado (no livro através de tiros, no filme através da cadeira elétrica) e os nomes utilizados.

Além disso, na novela, o envolvimento de Pazuzu e a sua “vingança” contra Karras e Kinderman são implícitos, enquanto no filme o próprio paciente X revela que estaria sendo uma das diversas personalidades do demônio.

A forma como Blatty dirige seu filme é severamente diferente do clima pesado, extremamente sombrio e impenetrável de Friedkin em “O Exorcista”. Na verdade, tanto a novela como a adaptação possuem contornos de humor negro no personagem de Kinderman, já no original sendo bastante peculiar e aqui bem mais desenvolvido. Sua personalidade é explosiva e inconsequente, gerando algumas cenas divertidas como a briga que tem com Dr. Temple quando afirma que nem todas as evidências sobre o caso Gemini Killer estão nos arquivos.

Blatty também se mostra influenciado por cineastas como Kubrick e Ken Russel, impregnando em imagens desconexas, diversos simbolismos e interpretações visuais como na abertura do longa e a cena em que Kinderman sonha que está em uma espécie de céu onde anjos, pessoas deformadas e idosos cohabitam, em uma fotografia saturada e embaçada, criando uma sensação onírica e perturbadora.

O diretor se usa destes artifícios visuais para criar cenas impactantes e assustadoras como quando vemos uma idosa caminhar pelas paredes do hospital como réptil (com reminiscências de uma outra tomada da famosa “spider walk” onde Regan caminha de quatro pela sala, colocando a língua para fora como uma cobra) e, é claro, a antológica cena da morte da enfermeira onde uma forma humanóide vestida com roupas satirizando o clero persegue a vítima com uma faca, como se a imagem de um pesadelo assumisse a forma real.

A cena final é a apoteose de efeitos especiais e, provavelmente, o momento mais gratuíto do filme. Apesar de Blatty não deixa-la cair em uma cópia maçante do original, acaba por descaracterizar o clima sútil e psicológico do resto do longa, tornando-no mais próximo das diversas produções da época em que apostavam em efeitos especiais, muitas vezes datados, para impressionar o espectador.

Existem algumas nuances do classico de 1973 em momentos, como a questão de perda da fé, desta vez incorporada no personagem do tenente Kinderman, quando questiona como acreditar em um deus que permita atrocidades como o crime contra o menino no início, semelhante ao questionamento de Karras que não entendia os motivos da escolha de uma menina de 12 anos (coincidência de idades ?) pela entidade que a possuia. A dualidade do paciente X, ora interpretado por Jason Miller, ora por Brad Douriff, é um artifício interessante mas de origem confusa, sem nunca haver uma afirmação de que Gemini Killer era uma identidade de Pazuzu ou se trata de um dos espíritos que o acompanhava, como evidenciado quando o próprio Karras pergunta para o demônio qual seria o seu nome, no filme original. Talvez o nome da novela seja uma pista, talvez não.

The Ninth Configuration, o outro longa de Blatty adaptado da obra literária de mesmo nome também possui conexões com a história de 1971, assim como é (ainda mais) carregado de imagens simbólicas e humor negro, com ecos em o Exorcista III e seu estilo artístico.

Quando escrevo o título deste post como “Uma continuação quase superior ao original”, não é pura provocaçãou ou heresia. Se trata de uma constatação pelo fato de Legião é um livro superior ao “O Exorcista” de 1971 em quase tudo, desde seu andamento, a trama policial, o personagem de Kinderman e a abordagem mais sútil e, por consequência, mais climática que o ataque massivo do original. Tendo a oportunidade de dirigir, Blatty sabia exatamente as qualidades do livro e procurou evidencia-las nesta adaptação. Mesmo com toda interferência, O Exorcista III carrega uma espécie de mobilidade e clima que o torna mais perturbador e inquietante. A presença de atores como George C. Scott e Brad Douriff dão um tom ainda mais especial e único a atmosfera intimista e sombria criada pelo diretor. Temas como zombaria religiosa, profanação, violência ligada a ocultismo e bruxaria (…) acabam por puxar O Exorcista III para uma realidade mais contumaz do que o perfeccionismo cinematográfico do original.

As Diferenças entre os dois filmes (Legião x O Exorcista III)

Não é segredo para ninguém que o longa idealizado por William Peter Blatty não se tornou o resultado final de O Exorcista III, quase como uma espécie de híbrido entre o roteiro de “Legião – O Filme” e a exigência comercial de que esta fosse uma continuação explícita de “O Exorcista”.

Muitas exigências foram feitas para que Legião assumisse uma maior pr0ximidade do original inclusive, é claro, a mudança de nome que acabou por ajudar a afundar o filme na época de seu lançamento. Quando Blatty entregou um corte ainda inacabado de seu filme para a avaliação da Morgan Creek, os produtores definiram como um filme confuso, sem apelo e sem graça, de forma com que precisava de uma cena de exorcismo para se tornar apelativo (literalmente) para as audiências.

Algumas das medidas adotadas foram trazer de volta Jason Miller para repetir seu papel de Karras, cortando boa parte da presença em cena de Brad Douriff como paciente X. Além disso, a sequência final foi completamente alterada trocando um duelo tenso e opressivo entre Kinderman e Gemini Killer, por um show de efeitos especiais, olhos amarelados e risadas diabólicas. O que era para ser um thriller sobrenatural acabou como uma exagerada colagem de efeitos especiais pré-CGI, ora bem realizados, ora bem falsos e datados.

O único trailer lançado para o filme, antes desta interferência geral do estúdio, possui algumas cenas que ficaram de fora do corte final, como a já famosa cena “face morphing”.

Você pode ler a tradução de um trecho do artigo de Mark Kermode, famoso crítico de cinema britânico, fã devoto de filmes de horror, sobre a atribulada realização deste longa:

Em 1990, o autor William Peter Blatty escreveu e dirigiu uma continuação low-key para Morgan Creek baseada em sua novela best-seller Legion que não era baseada nem em efeitos especiais ou exorcismos satânicos.  Ao invés, a pirotecnia do filme vinha de diversas cenas tensas e aterrorizantes mas visualmente discretas e uma assombrosa relação entre o vencedor do Oscar George C. Scott e Brad Douriff como policial e paciente psiquiátrico respectivamente. Em uma prévia do que aconteceria com a prequela de Schrader no futuro (Exorcista: O Início), o primeiro corte de Blatty foi mal recebido pelos executivos do estudio que exigiram saber “Que diabos iste tem a ver com O Exorcista ?”. A Refilmagem foi prontamente ordenada, com a perfomance de Douriff extremamente reduzida e reeditada em algumas cenas finais, a nova estrela Jason Miller foi designado para repetir o papel de padre Karras, presente no filme original; o título foi mudado para O Exorcista III; e o legendário ator Nicol Williamson foi chamado para fazer um espetacular (se não, claramente fora do lugar) exorcismo cheio de fogos, pirotecnia, levitação, um mar de cobras e até esfacelação. E com um custo de $4m. “Eu disse que não faço cenas de batalhas nem cenas de exorcismo,” Blatty me contou naquela época. “Mas após ver o primeiro corte, eles apenas disseram ‘tem de haver um exorcismo.'”
[…] 

O mesmo é veradeiro sobre o corte original de Blatty, Legião / O Exorcista III,, Da qual eu vi uma versão inconclusiva no início da década de 90, e ainda me assombra até hoje. “Foi sempre para ser um thriller psicológico, não um filme de horror baseado em efeitos especiais,” disse Blatty, que mantém um silêncio diplomático sobre a situação que enfrentou e aquele que enfrentou Schrader. “Não posso comentar sobre isso,” ele disse, “mas ficaria muito feliz se um dia as pessoas pudessem ver minha versão original para Legião ao invés desta que está aí hoje, chamada de Exorcista III.”

4 comentários

    1. Creio que, no Brasil, a única opção é através do download mesmo. Quando eu assisti pela primeira vez, eu consegui uma legenda em inglês mas, recentemente, baixei de novo e não consegui a legenda certa para o arquivo. Não vou colocar o link aqui porque não é o intuito do blog mas você pode achar facilmente o torrent no google.

      Abraço!

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