Insidious (Sobrenatural) – Review

 

Sinopse (SPOILERS): A trama conta a história de um casal (Patrick Wilson e Rose Byrne) que tenta evitar que o seu filho, que se encontra em estado de coma, seja encarcerado por espíritos demoníacos.

O professor Josh Lambert e sua esposa Renai se movem com seus três filhos, Dalton, Foster e o bebê Cali, para uma antiga e grande casa. Quando Dalton explora o sótão, ele cai da escada e bate a cabeça no chão. Na manhã seguinte, Dalton não acorda e permanece em coma, mas os médicos não são capazes de diagnosticar seu problema. Três meses depois, coisas estranhas acontecem na casa e Renai vê aparições. Ela tem certeza de que a casa está assombrada e convence Josh a se mudar para outra casa. Mais cedo, Renai vê fantasmas na casa nova e Josh não acredita em sua esposa. Mas sua mãe Lorraine diz que ela tinha tido um sonho onde viu um demônio no quarto de Dalton. Eles convidam a médium Elise Rainier, que traz sua equipe de investigadores paranormais para investigar o fenômeno sobrenatural. Elise explica que Dalton é um viajante com a capacidade de deixar seu corpo físico e viajar em projeção astral. Agora seu corpo espiritual está perdido em um lugar chamado “O Distante”. Nesta dimensão, existem entidades que saíram de seu corpo físico para “perambular” pelo lugar. Entre essas entidades, há um demônio que necessita do corpo de Dalton para causar dor aos outros. Além disso, Lorraine revela que Josh também é um viajante talentoso e deve procurar Dalton e trazê-lo de volta.

 

Antes de começar a falar de Insidious, gostaria de abrir um parenteses para outra obra de horror, desta vez muita mais conceituada no meio. O nome? Poltergeist, filme “dirigido” por Tobe Hooper e produzido e escrito por Steven Spielberg no auge de seu sucesso enquanto dono de Hollywood. A história é clássica, eventos sobrenaturais acontecem em uma casa, inicialmente tudo parece maravilhoso até que espíritos malignos surgem, uma garotinha é sugada pela televisão e uma medium é chamada para exorcisar o local e trazer de volta a filha que ficou perdida no “outro mundo”. Bem, este longa é considerado um dos pilares modernos para os filmes de horror em uma veia mais psicológica, surgido em meio à um domínio manifesto dos slashers, onde muito sangue e vilões mais interessantes que suas vítimas viraram norma. Mas não pense que Poltergeist bebe na fonte de um clássico como “Os Inocentes” ou ainda possui a sutileza enlouquecedora de “O Bebê de Rosemary”. Na verdade, se trata de um filme muito mais próximo da profusão de efeitos especiais e trilhas sonoras barulhentas que começaram a ganhar força no cinema de horror ainda nos anos 70. Só que o longa produzido por Spielberg é uma espécie de pináculo deste estilo de contar histórias, elevando tudo à enésima potência, deixando totalmente de lado a regra do “quanto menos mostrar, melhor” e se usando de toda e qualquer novidade tecnológica da época para recriar o que seria um verdadeiro circo armado pelos fantasmas dos índios enterrados no solo da vizinhaça dos Freeling. Particularmente, Poltergeist hoje se sustenta (apenas) na nostalgia mas o “estrago” já estava feito e, além de suas próprias continuações, gerou uma nova brecha no cinema do estilo que, na verdade, sugou quase todos os filmes que propunham tratar deste tipo de história.

Mas por que, afinal, estou falando em um filme extremamente distante em tempo de Insidious, o mote deste post? Caso você já tenha visto ambos os filmes, vai pescar de primeira a ligação. Caso não, permita-me discorrer em algumas palavras … O longa, lançado em 2010 e dirigido por James Wan (diretor e produtor da série “Jogos Mortais“), é uma espécie de reciclagem da cartilha ensinada por Poltergeist, mastigada para as audiências modernas. O fato é que hoje, para quem não cresceu assistindo o filme dirigido por Hooper, Poltergeist soará extremamente ingênuo e, devido a precariedade dos efeitos especiais da época, provoca mais risos do que tensão. Insidious preserva a lição ensinada pelo roteiro de Spielberg mas adiciona alguns elementos modernos na narrativa e busca atualizar a extremamente saturada história de casas mal-assombradas. Mas não pense que velhos clichês não surgem a toda hora no roteiro de Leigh Wannell. Estão lá os sustos falsos, a mulher que vê as aparições e é desacreditada por todos, temendo por sua sanidade, as crianças que enxergam coisas durante a noite para as quais seus pais não dão atenção, o alívio cômico em dois personagens um tanto bobos e a médium que tem todas as respostas.

O casal de protagonistas é formado por Patrick Wilson e  a bela Rose Byrne. Espero que não soe como uma mera implicância mas é difícil de engolir Wilson no papel de Josh Lambert, um pacato professor, pai de família, assim como foi difícil de engolir quando fez o pedófilo em “Menina má.com“. Wilson tem a cara e o padrão físico de famoso galã e ator hollywoodiano, tornando complicado imaginá-lo na posição de uma pessoa comum e, verdade seja dita, sua atuação não ajuda, sempre beirando ao exagero. Rose Byrne também não parece muito disposta a apresentar a gama de emoções que sua personagem solicita e passa o longa inteiro com cara de sofrimento, sem que o roteiro dê o suporte e background necessário para entender sua melancolia, mesmo quando tudo está bem e a família recém se mudou para a casa nova. Ambos os personagens não funcionam como casal porque são extremamente distantes, tornando difícil para o espectador acreditar que realmente estão juntos há algum tempo e já possuem três filhos. A abordagem para a mudança (ou retomada) do comportamento distante de Josh é muito superficial e soa intrusiva, afinal no momento em que sua mulher está à beira de um colapso, o marido cada vez mais se distancia sem dar grandes motivos para tal. Por estes motivos, é difícil simpatizar com o casal, ao passo que não temos informações suficientes para compreendê-los enquanto uma família. Outros personagens são inseridos e retirados como que ferramentas que servem à uma cena ou duas. Um deles é o filho mais velho que está alí apenas para informar à sua mãe que vê Dalton vagando pela casa à noite. É claríssima a negligência com o menino e o roteiro arranha esta superfície quando Renai encontra um prêmio dado em sua classe e o menino demonstra indiferença à mostrar para seus pais. Logo este ponto é suprimido e, literalmente, não o vemos mais em cena. O mesmo vale para o bebê que serve apenas para chorar e nos agraciar com a melhor cena do longa onde, na verdade, o monitor presente em seu quarto é que faz a diferença. Existe, também, um descaso com outros personagens secundários que surgem ao longo da obra. Um deles é a médium que quase morre na sessão espírita promovida para se comunicar com o espírito de Dalton e ninguém parece dar a mínima para sua condição. Outra possibilidade levantada difícil de ser encarada como plausível é o descrédito de Josh. O roteiro não é nada sútil e, em determinado momento, podemos ver o quarto de Dalton todo revirado, com todas as janelas quebradas e cheio de marcas de sangue nas paredes. Mesmo assim, o pai ainda guarda suas dúvidas com relação à natureza dos fenômenos que ocorrem com seu filho (e só muda de opinião quando vê um desenho feito por Dalton).

Entretanto, o maior problema de Insidious está no exagero. Já na metade, o filme apresenta poucas cartas na manga para assustar e surpreender o espectador porque já superexpôs seus efeitos especiais e seus monstros no armário. Em uma cena que poderia ter enorme impacto, onde um menino dança ao som de uma canção antiga e Renai o persegue pela casa, temos muito acesso à sua imagem, incluindo a exposição de seu rosto. Em outro momento, enquanto Josh, sua mãe e Renai estão conversando, o demônio que assombra a família surge (em uma maquiagem um tanto carnavalesca) e, posteriormente, o vemos em uma espécie de inferno, dentro de uma “casa” cheia de ferramentas, resultando em uma cena até mesmo cômica. Há também uma possível citação à “O Iluminado“, quando um dos empregados da médium Elise utiliza um óculos especial e vê duas irmãs gêmeas vestidas de forma muito semelhante às famosas gêmeas do corredor do filme de Stanley Kubrick. O final rivaliza com a infame conclusão de Poltergeist, levando Josh para o “além” e exibindo uma profusão de fantasmas que aparecem à todo o instante, a ponto do espectador se acostumar com suas presenças. O efeito desta superexposição é a perda do fator assustador que o roteiro poderia criar. Como vemos tudo o tempo inteiro, a tensão vai pelos ares e passamos a apenas esperar qual será  a nova maquiagem e o novo susto que vão surgir na sequência, certamente o que não deve acontecer em um longa desta natureza. Como diria uma música dos Beatles, it’s all too much …

Como fator positivo, é possível ressaltar uma maior presença de maquiagem em detrimento ao CGI e algumas cenas esparsas que podem garantir um bom susto para quem compra a idéia do filme. Mas, de certa forma, Insidious traz de volta muitas coisas negativas que deveriam ficar presas à um momento transitório do cinema de horror. O fato de jogar na cara do espectador há todo o instante aquilo que deveria ficar implícito e ser combustível para a imaginação de quem está assistindo, acaba por tirar totalmente a possibilidade de interagir e se sentir perdido como um dos personagens do longa. A natureza rasa de seus personagens também aliena e faz com que não sejam simpáticos ou afáveis ao espectador, criando assim uma sensação de desinteresse em seus destinos. Por fim, Insidious até pode ser superior à uma enorme leva de filmes recentes no mesmo tema mas ainda passa muito longe do ideal, ideal este que pode ser atingido e funcionar com audiências modernas, como Session 9 prova. Ou, como na época de Poltergeist, filmaços como “The Changeling” ou “Ghost Story” provaram.

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