Cinema

A ninfômana, o crítico e a hipocrisia

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Este texto possui spoilers e é recomendada a leitura  apenas para quem já viu ambos os volumes de Ninfomaníaca

Existe uma brincadeira recorrente entre meus amigos que dá conta de que, se um dia um filme de Lars Von Trier for recebido com aclames universais, o planeta Melancholia já estará em um curso irremediável de colisão com a Terra. Naturalmente, seu último trabalho, Ninfomaníaca, despertou críticas iradas de babões raivosos que pouco tiveram tempo para captar a riqueza psicológica da obra pois se apegaram nos detalhes mais ínfimos para redigir críticas imponderáveis. Mesmo quem elogiou, o fez com ressalvas, sobretudo ligadas à “pornografia” e ao potencial choque que assistir um pênis badalando na tela da tevê pode causar a um adulto.

Entretanto, me chamou a atenção a dificuldade de críticos profissionais de cinema em compreender o final do segundo volume de Ninfomaníaca. Várias das críticas que li falam que o desfecho fere o conteúdo da obra e parece “arbitrário”, nas palavras de Pablo Villaça. Curiosamente, todas as críticas que continham uma interpretação confusa ou nula do epílogo da história de Joe conservavam apenas uma leitura feminista da obra. Von Trier é um auteur hábil; como em todas as grandes obras, seu filme suscita diversos debates e pontos de vista. Enquanto Villaça apenas o olhou como uma “tese contra a misoginia”, Vladimir Safatle traz uma leitura moral da obra e Luiz Felipe Pondé – que se difere de ambos por ser um filósofo conservador – lê sob uma ótica psicanalítica e encontra uma crítica à discursos políticos pós-modernos como a revolução sexual. De todos estes ângulos, Ninfomaníaca oferece munição necessária para tais digressões.

Entretanto, quando o sujeito considera que Von Trier está apenas a fazer mea culpa (ou “mea maxima vulva“) com as acusações de misoginia em outros trabalhos seus – frutos de leituras preguiçosas dos outros dois filmes que compõem a corretamente intitulada “Trilogia da Depressão” -, perde-se muito e, naturalmente, uma análise profunda está descartada.

O infame fim de Ninfomaníaca Vol. II foca, justamente, em um dos temas que escaparam à críticos como Villaça: a hipocrisia. Joe apresenta diversos exemplos, em sua narrativa, acerca de um tratamento hipócrita dado à ela por seus pares, pretensamente sãos e moralmente “em dia” com suas obrigações de serem higiênicos aos olhos dos outros. No começo do primeiro volume, uma de suas melhores amigas e co-criadora de um clube estritamente feminino feito para celebrar o sexo livre, desiste de todas as pretensões revolucionárias pois se apaixona por um garoto. Avançando para o capítulo II, outra cena emblemática é quando Joe deixa o bebê em casa, só, para visitar um sadomasoquista “profissional”. Jérome, seu marido, ameaça, na noite de natal que, se Joe sair novamente de casa para procurar sexo na rua, ela não verá mais ele nem seu filho. Ela sai e Jérome vai embora, para aparecer novamente apenas na conclusão desta segunda parte.

Dois pontos importantes podem ser levantados com esta cena capital, negligenciada pelas críticas que só se preocuparam em tornar a obra uma diatribe feminista: a) o marido captura o bebê que está quase a cair da sacada do apartamento dias antes de isto acontecer, enquanto estava só, abandonado pela mãe. Porém ele só ameaça de ir embora quando confrontado com a realidade de que Joe sairá de casa na noite de natal para ter sexo com outro homem; b) Jérome leva a criança embora e o confidente de Joe, Seligman, interrompe a história para lhe perguntar o que aconteceu com o filho, ao que pronto ela acusa o marido de enorme hipocrisia ao tirar a criança dela por abandono do lar mas, tempos depois, entregá-la a um orfanato pois criar um filho por conta própria iria atrapalhar sua vida profissional. Tente criar uma enquete mental para imaginar quem, na opinião pública, seria maior merecedor da pena capital: o homem solteiro que não vai criar o filho porque quer ter um futuro viável ou a mulher que expõem a criança à situações de risco, em busca de prazer sexual? Eu consigo imaginar até os argumentos…

O elemento da hipocrisia tem seu ápice na obra justamente no desfecho. Seligman declara-se, no início do volume II, virgem e assexuado. Ele interrompe Joe o tempo inteiro para atrelar significados científicos, metafísicos e psicológicos à narrativa da personagem, emanando discursos modernos e progressista para confrontar a afirmação de que Joe seria, apenas, uma pessoa má. Entretanto, após a longa história, Joe tem uma epifania, dizendo que irá consumir todo seu esforço para tornar-se, como Seligman, assexuada. Ela diz que, enfim, encontrou um amigo em sua vida, um homem que enxergava além do instinto sexual. Entretanto, dentre a miríade de cenas explícitas, o momento mais perturbador do filme se segue quando o homem tenta estuprar Joe enquanto ela dorme. Ela acorda com ele tentando penetrá-la e o rejeita. “Mas você já fodeu com mais de mil homens, por que não a mim?”, indaga Seligman. A tela fica negra e escutamos o barulho de um tiro, desferido por uma pistola que Joe utiliza, sem sucesso, anteriormente em sua história.

Talvez esta linha de diálogo seja uma das frases mais reveladoras sobre a temática de um filme, já escrita para o cinema. A traição é tão brutal que Joe pôde apenas responder àquilo terminando com a vida de seu interlocutor. De todas as situações apresentadas, esta foi a que mais me perturbou. Em primeiro plano, fica clara a mensagem: Von Trier, misantropo e niilista, mostra para Joe que não exista tal coisa como um “amigo” para alguém como ela. Quando Joe conta que, em seu emprego de “coletora de dívidas” para um grupo criminoso, ela fez um homem chorar ao fazê-lo se excitar com um cenário de pedofilia, libertando um ensejo extremamente reprimido, que nem ele mesmo tinha dimensão da existência, o semblante de Seligman muda. Quando pergunta à Joe o por quê dela fazer sexo oral no homem após confissão tão monstruosa, ela responde que sentiu empatia nele por descobrir que vivia com o martírio de uma sexualidade proibida e que ele era fadado à solidão, assim como ela. Talvez neste momento os desejos do próprio confidente tenham sido libertados por Joe. Para dar lugar à esta natureza tácita, ele trai tudo o que falou durante as quase quatro horas de enredo e, subsequentemente, morre por ser hipócrita.

É claro que a leitura feminista é predominante também nesta cena: em nenhum outro momento do longa Joe é subjugada pelos homens com quem se envolve. Ela sempre procura, mesmo as situação mais perigosas e aberrantes. O único momento em que diz não é quando um homem tenta subjugá-la, lhe conferindo a estética de uma espécie de anti-heroína feminista. É claro que o vício de Joe de forma alguma configura uma experiência positiva. O que Von Trier parece dizer é que existem pessoas que não podem ser o que ela são pois nunca serão aceitas desta maneira e, caso optem por esta liberdade, só causarão dor a si mesmas e deixarão um rastro de destruição para trás. Não há uma mensagem conservadora aqui, apenas a constatação de que o preço da total liberdade é tão alto que sua única herança é a marginalidade.

O pedófilo inconsciente que Joe desperta é, de fato, uma pessoa em sofrimento. Ele vive uma vida tendo de reprimir brutalmente um desejo ardente e devastador pois, caso perca esta batalha diária, ele o levará a ruína e vitimará outras pessoas no processo. Assim como Joe que desfaz casamentos, brinca com os sentimentos de homens e mulheres e, até mesmo, comete crimes em nome da plena liberdade para ser uma ninfomaníaca que resiste e vê no amor uma prisão. Não seria sua liberdade uma prisão também?

Ninfomaníaca talvez seja o melhor longa de Von Trier. É, ao lado de Dogville, o que mais suscita discussões. Sem dúvidas, é o trabalho de uma vida e apenas um diretor como o dinamarquês poderia, em nosso tempo, engendrar obra tão incômoda e necessária. Trier vai de Sade à Wagner, de conceitos de pescaria à polifonia, do cristianismo ao paganismo. Entretanto, sua erudição passa longe de ser a verve de suas obras. Em Anticristo, ele ridiculariza o personagem cético e racional que se vê perdido dentre uma dimensão mística e caótica da natureza. Em Melancolia, o homem da ciência comete suicídio frente ao fim da existência, que ele passa negando a partir de cálculos que não conseguem capturar o incomensurável. Em Ninfomaníaca, o seu homo sapiens é uma ilusão que dá lugar ao demens, incontrolável e primitivo, ao fim da epopeia sobre a vida de Joe, uma viciada em sexo.

Infelizmente, teremos de esperar para assistir as versões de três horas, como foram originalmente concebidas pelo diretor. Se alguns plots soam um tanto mau desenvolvidos, é possível concluir que a culpa não é de Trier que, à época, causou espanto ao, jocosamente, anunciar que faria um filme pornô de seis horas de duração. Entretanto, com o que temos, é possível concluir que Ninfomaníaca é a nossa vanguarda artística. Que Pablo Villaça e outros – incluindo a mim – me perdoem mas tentar sintetizar obra tão rica em um review de blog é recorrer ao pecado da vaidade.

Mudança…

Pessoal, apenas para fins informativos, o blog sofrerá uma mudança radical. Manterei os artigos sobre cinema de horror no arquivo mas pretendo torná-lo, daqui para frente, um espaço para artigos sobre cultura de uma forma geral, incluindo música e cinema de arte. Desde que criei este blog, meus gostos amadureceram muito e o cinema de horror, tal qual apresentado aqui, parou de ser algo relevante em meu “espectro” cultural.  Aproveitarei a plataforma para transformar este blog em algo atrativo, novamente, a mim para que volte a escrever com alguma frequência.

Agradeço muito pelas visitas e comentários. Recebi vários elogios sinceros e tive um número de visitas fantástico, que eu nunca esperaria ter (e tive vários outros blogs que passaram longe disto). Espero que gostem do novo conteúdo.

Review: Evil Dead 2013

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Faz um bom tempo que não escrevo nada para o Rewind, Please. E devo continuar sem fazê-lo. Porém, minha conjuração que trará, mesmo que brevemente, o blog do mundo dos mortos é produto de um profundo desgosto. Revisando as postagens, eu descobri que, para todos os remakes que resenhei, fui extremamente crítico. Não é o caso de ser um chato purista; todos os remakes feitos a partir da década de 2000 que assisti foram muito ruins. Talvez exista algum muito bom, melhor que o original, dando sopa por aí. Até agora, ainda é uma miragem para mim.

Existem duas premissas básicas hoje em dia para o cinema de horror – e digo cinema de horror porque deste mal padecem filmes mainstream e, até mesmo, os independentes. Você pode trabalhar em seu filme sob o frame de “horror psicológico” ou “torture porn”. Nada entre eles é permitido. São dois extremos do espectro; de um lado estão os genéricos suspenses que vão escalando em intensidade até um final sobrenatural “full time”. Do outro, está o roteiro bobo que usa qualquer desculpa para colocar um monte de adolescentes ou gente burra para morrer. No primeiro, temos os artifícios que subestimam as audiências como a personagem (invariavelmente) feminina que passa a ter visões e é sempre desacreditada pela família até que o próprio diabo apareça – e acredite, mesmo assim ainda haverá um personagem idiota para contestar a explicação sobrenatural para a mixórdia em que está vivendo. No segundo, temos um monte de gente morrendo; alguns filmes com mais sangue, outros mais explícitos, todos com uma overdose de câmera tremendo, jump cuts e sustos falsos.

Evil Dead 2013 é, basicamente, um torture porn. Porém, ele vai um pouco além; em sua composição encontramos elementos do “horror psicológico”. Há quem diga que o filme é o máximo que um grande estúdio hollywoodiano poderia chegar de um splatter. Eu, particularmente, já identifiquei aqui mesmo no blog a tendência de exagerar no sangue para maquiar falta de coragem dos roteiristas. A nossa bola da vez é toda pautada em cima do modelo do torture porn. Essa é sua base e o próprio início do filme deixa isto bem claro. Trata-se de um longa realmente recheado de charope Karo: tem muito sangue espalhado para todos os lados! A conexão com o Evil Dead original não poderia ser menor; basicamente, uma leitura rápida da sinopse do filme na wikipedia poderia garantir aos roteiristas do remake material suficiente para escrever a besteira que escreveram.

O original dispensa grandes discussões porque elas já foram feitas extensivamente pela internet. Foi o filme que foi porque possuía um time de pessoas, jovens e sem oportunidade no grande negócio hollywoodiano, com uma câmera na mão e muitas ideias incríveis na cabeça. A criatividade que dribla os aspectos low-budget da produção elevou Evil Dead à condição de cânone do horror no cinema. Desde as tomadas POV na floresta (um dos poucos elementos trazidos para o remake, de forma tímida) até um roteiro que manda a tradição de “tomar tempo desenvolvendo os personagens desinteressantes para que morram logo em seguida” às favas. jogando na cara do espectador uma sequência de tirar o fôlego já no início do filme. Ash, o grande herói de Bruce Campbell, surge só na metade final, causando surpresa já que o outro personagem masculino, por menos interessante que fosse, ainda parecia com mais cara de “mocinho” do que Campbell, que depois viraria cult nas sequências.

Já Evil Dead 2013 não sai da base, mantendo-se sempre preso a uma pletora de regras e clichês que pautam os torture porn. É sangrento, tenta ser “realista” (e o roteiro não poderia ser mais paradoxal neste sentido), já começa sinistro, com estes terríveis filtros azulados escurecendo a imagem e faz com que a audiência torça pelos “bandidos” enquanto têm síncopes de raiva devido às ações bestas dos personagens. A culpa nem é dos atores; se você for ensaiar um papel de um personagem que tem paralisia cerebral, você o fará de acordo com o paralelo com a vida real. Em Evil Dead 2013, todos os personagens (inclusive os demônios) possuem metade do cérebro paralisado. É muita idiotice reunida.

No original (prometo que cesso as comparações porque é até heresia), temos uma cabana normal no meio do mato e um grupo normal de jovens (ainda que “românticos”, para dizer o mínimo) a habitando. Até o momento onde o livro é capturado, temos uma história que poderia vir de um melodrama dos anos 50. O contraste é intencional; minutos depois temos o inferno, literalmente, acontecendo na frente das câmeras. O remake decide já começar com uma cena onde uma menina é queimada viva por um grupo de pessoas feiosas. Não há ambiguidade; ela está possuída pelas entidades que vão aparecer posteriormente. Assim, é claro, o remake já sai explicando o background, algo que o original nunca faz, em nenhum momento (apenas toca, muito por cima, com as gravações do professor). Aí, musiquinhas de piano do tipo “coisas ruins irão acontecer” a parte, o grupo tirado direto da agência de modelos chega na cabana. Tudo é azulado, tudo é sinistro. Logo logo, descobrem um porão com um monte de gatos mortos pendurados por ganchos, Lá no fundo, alguém avista o Necronomicon (que ganha outro título com mais cara de “coisa séria”, apesar das gravuras de álbum de black metal gravado em garagem).

Aí um dos palermas da turma, que mais parece uma espécie de “Kurt Cobain” com constipação, descobre umas inscrições escondidas no livros e as recita. A entidade começa a se mover dentre a mata. Uma das personagens mais insuportáveis do remake é, logo, a protagonista, Poupo o spoiler, é isso mesmo. Viciada em drogas (algo que deve ter sido toque da roteirista ou revisora de roteiro Diablo Cody), ela vai com os amigos e o irmão para a cabana, a fim de se livrar da dependência, coisa que, com uns 20 minutos, já não faz mais diferença nenhuma. Perdia na mata, ela acaba sendo atacada pela “floresta” e é presa por alguns galhos. Quem viu o original, pensou saber o que aconteceria. Não; a brutalidade do estupro das vinhas é trocada por uma figurinha fantasmagórica que vomita um troço preto. O troço preto penetra a mocinha e aí ela passa carregar o mal. Lembra quando, no original, precisava de uns líquidos pretos para que alguém ficasse possuído? Eu não lembro.

A partir daí, o filme começa a derramar seus galões de sangue. Cortes expostos, tiros, mordidas, vômito, lacerações e sangue. Muito sangue. Já frisei o suficiente? Mesmo com todos os indícios possíveis de manifestação sobrenatural, com direito a vozes demoníacas e aberturas súbitas de portas e janelas, a patota segue a achar que são sintomas da abstinência. Uma personagem tem a cara de pau de dizer “ela está psicótica”, depois da mocinha vomitar litros de sangue na cara dela. Lembra do “horror psicológico”? Este é o elemento obrigatório no estilo. Quem disse que a periferia do cinema de horror não pode ser promíscua?

Os personagens vão morrendo ou sendo possuídos. Os dois homens do grupo apanham e apanham muito. Tomam tiros de calibre 12, sofrem cortes profundos, apanham com pé de cabra, são perfurados por pregos, são cravejados por agulhas na face e, minutos depois, estão conversando, de pé, lúcidos, como se nada tivesse acontecido. Decepar membros é moleza! Existe uma expressão americana utilizada quando cineastas requerem que as audiências deixem para lá embasamentos na realidade. Evil Dead 2013 é como se a “suspension of disbelief” fosse, ela mesma, roteirizada e filmada!

Perto do fim, aprendemos que bastava o irmão chatíssimo ter enterrado a personagem possuída para ela voltar ao normal. Ele, um jovem normal que deveria gastar seu tempo na vida da cidade transando, fumando erva e estudando para a faculdade, cria, sozinho, um rudimentar mas complexo desfibrilador caseiro para reviver sua irmã. Ela morre. Frase dramática e música em tom menor seguem. Ela revive e o final feliz se aproxima. Só que um dos personagens retorna como demônio e o irmão se sacrifica, explodindo a cabana. Aí o “twist” politicamente correto se dá; com os homens mortos, é a histérica e chata ex-possuída que vira a heroína, cortando ao meio uma entidade profundamente poderosa, com uma serra elétrica – olha mãe, ela é o Ash, só que do sexo frágil. Parabéns Evil Dead 2013 pelo ambivalente comentário social.

Como vocês podem notar, não escrevi o nome de nenhum dos personagens porque, de fato, não lembro de nenhum deles. E eu assisti o filme há uns 30 minutos atrás! Admito: não estou a fim de procurar na internet. Não há nada neste remake que não tenhamos visto em outros. Tem muito sangue mas em termos de gore, perde feio para outras chatices, do tipo O Albergue. Com uns 50 minutos, eu já estava implorando para que acabasse para ir embora do cinema mas a joça tinha mais uns quarenta minutos de sofrimento. Vi gente dita entendida de cinema de horror elogiando o filme. Eu não entendo nada de cinema de horror mas, com auxílio dos meus olhos, ouvidos e neurônios, cheguei a conclusão que este filme é, na medida de todos os outros, uma bela merda (acho que este é o primeiro palavrão que uso aqui no blog).

Enfim, se não viu, não veja, Se já viu, desista. Eu já desisti; o cinema americano parou de tentar há muito tempo. Agora, nem sei mais qual clássico eles vão estuprar até porque os mais conhecidos já foram, todos, para a magnífica fábrica de blockbusters que serão esquecidos em 5 minutos após sair do cinema. Dá dinheiro, até mesmo para pagar críticos para dizerem que o filme está a par com a grandiosidade do original. Para chegar a tal conclusão, sem ser pago, é preciso comungar da paralisia cerebral dos personagens do filme. Fique longe desta porcaria!

Review: Don’t Be Afraid Of The Dark (Não Tenha Medo do Escuro) – 2011

Ou “O filme com mais buracos no roteiro de 2011”.

Sinopse: Sally Hurst (Bailee Madison), uma criança solitária e introvertida, acaba de chegar a Rhode Island para morar com o pai, Alex (Guy Pearce), e a nova namorada dele, Kim (Katie Holmes), na mansão do século 19 que eles estão reformando. Enquanto explora a ampla propriedade, a menina descobre um porão oculto, intocado desde o estranho desaparecimento do construtor da mansão um século antes. Quando Sally, inadvertidamente, liberta uma raça antiga e obscura de criaturas que conspiram para dragá-la para as profundezas infinitas da misteriosa casa, ela precisa convencer Alex e Kim que não se trata de uma fantasia – antes que o mal que espreita na escuridão os consuma.

Escrito por Guillermo Del Toro (O Labirinto de Fauno) e Matthew Robbins (THX 1138 e Encontros Imediatos de Terceiro Grau), produzido por Del Toro e Mark Johnson (Rain Man) e dirigido por Troy Nixey (ilustrador de comic books de Neil Gaiman). Com tantas mãos talentosas trabalhando, o que poderia dar errado? Bem, é um remake de um obscuro telefilme da década de 70 mas com todo esse pessoal envolvido, talvez com este seja diferente.

Não é muito alentador mas Don’t Be Afraid of The Dark (chamemos de “The Dark”) poderia ser escrito e dirigido por qualquer um, desde Marcus Nispel até ser produzido pela Platinum Dunes, não faria qualquer diferença porque apresenta os mesmos problemas e furos que eu, você e muitos outros já criticaram nos remakes modernos. A história não é uma transcrição literal do telefilme original mas perde muito em originalidade e ganha muito em falta de imaginação. Aqui os vilões são criaturinhas ridículas (que mais parecem Gremlins, sem um terço do carisma dos monstrinhos de Joe Dante), totalmente criadas por CGI, que soam falsas e aparecem demais ao longo do filme. Mas e se eu disser que esse é o menor dos problemas do longa de Nixey?

Filmes de horror deveriam seguir uma regra natural. Apesar de serem livres para utilizar o elemento fantástico na história, é preciso situá-lo em uma situação plausível, que obedeça uma ordem de acontecimentos que sejam próximos da realidade. Ou seja, ele precisa ser no estilo “e se isso acontecesse de verdade?”, utilizando seu elemento sobrenatural em um cenário em que seja possível acreditar. The Dark passa longe de conseguir fazer isso, muito pelo contrário. Em dados momentos as soluções de seu roteiro (ou a falta das mesmas) nos levam a acreditar que este tenha sido escrito por uma criança de 10 anos. É admirável a quantidade de furos e situações inacabadas que a história criada por Del Toro e Matthew Robbins, deixam para trás. Mesmo que você não se ligue tanto nesta questão de plausibilidade do roteiro, vai ser difícil não fazer comentários do tipo “Peraí, como isso foi possível?” ou “porque ela não fez isso?”.

Começando pelo início, o cast não é exatamente uma luz no fim do túnel que salva a produção da medíocridade. A Sra. Cruise, Katie Holmes, mantém o nível geral de suas interpretações e promove um show de caretas e falsas emoções, que certamente não convencem nem uma criança. Seu marido, Guy Pearce (um bom ator), entrega uma atuação distraída, assim como seu personagem pede (que, caso não existisse, com algumas mudanças na trama, não faria nenhuma falta). Quem rouba a cena é a menina Bailee Madison (que, apesar da pouca idade, já possui uma carreira em seriados de tv), aqui fazendo a estranha Sally, uma menina com espírito de velha, bastante deprimida e mais adulta que boa parte do elenco.

Em termos da trama, como já foi dito, existem buracos do tamanho da lua em pontos centrais do roteiro. Um dos mais explícitos acontece quando o caseiro Mr. Harris (Jack Thompson), confronta as pequenas criaturinhas no porão. Elas promovem uma verdadeira chacina, enfiando uma tesoura em seu ombro e seu olho arrancado (em um gore totalmente feito por CGI). Harris diz para sua mulher que se trata de um acidente e, quando a polícia chega, concluem de imediato que foi um acidente caseiro, sem fazer uma investigação ou mesmo qualquer tipo de entrevista com os moradores da casa. De tão incompetentes, nem mesmo visitam a cena do crime! Em outro momento, mais adiante, a personagem de Katie Holmes visita Harris no hospital. Para se manter fiel ao clichê, Harris (que sabe sobre a existências das fadas, gremlins ou seja lá o que for) é perguntado sobre as alegações da menina e fala de forma extremamente críptica, ao invés de apenas dizer que são verdadeiras, existem criaturas na casa e eles têm de sair de lá. Ao invés disso, fica dizendo que a menina precisa sair da casa, balbucia algo sobre um lote na biblioteca pública da cidade, tudo isso falando com a voz do Cryptkeeper da série Contos da Cripta. Isto nos leva à próxima cena, quando Holmes vai até a biblioteca e pede para visitar o tal lote. O bibliotecário a leva até lá, conta que o dono do lote, Sr. Blackwood (que morou na casa), tinha um filho que desapareceu, fala sobre um mosaico perdido e permite que uma mulher totalmente desconhecida veja os últimos desenhos de Blackwood, antes dizendo que possuia ordens explícitas para não mostrar pra ninguém. Como se fosse pouco, ela pede para tirar cópias e o bibliotecário aceita na hora. Então, não apenas Kim não sabia nada sobre a vida de Blackwood (e alega ter estudado tudo sobre o mesmo) como também burla regras com a maior facilidade. O roteiro nem se dá o trabalho de demonstrar que o bibliotecário poderia estar querendo sair com ela, logo logo ele sai de cena e nunca mais ouvimos sobre o coitado.

Mas ainda tem mais, muito mais! Logo quando as criaturas surgem, elas contam à Sally que não suportam luz mas, ao longo da história, surgem em diversos momentos onde a luz bate diretamente contra eles como quando alguns se escondem em um vaso de flores, em uma peça totalmente iluminada, em meio à uma festa na mansão! Em uma cena na biblioteca da casa, Sally fica presa à mercê das criaturinhas e consegue esmagar uma delas em uma prateleira. Logo em seguida seu pai entra no lugar para resgatá-la e ela simplesmente esquece do corpo da “fada” esmagado, sendo que passa a cena inteira tentando tirar fotos para provar para o próprio pai e a madrasta a existência das criaturas que alega ver.

Por fim, Kim se sacrifica para salvar a menina e acaba sendo sugada para dentro da caldeira onde os monstrinhos habitam. Novamente as autoridades preguiçosas Rhode Island não dão a mínima para o desaparecimento, não procuram o marido para fazer perguntas e nem mesmo ele se importa de chamar uma equipe de escavação para resgatar o corpo. Como vão explicar para os familiares de Kim que ela foi sugada para dentro de um poço sem fundo que leva direto ao inferno, habitado por demônios mirins … não sei!

O roteiro também deixa situações em aberto e não explora possibilidades. Em dado momento, Sally coloca uns dentes que encontrou no porão debaixo de seu travesseiro e acorda com uma moeda antiga posta no lugar, dando a entender que estas seriam as famosas “fadas do dente”. Posteriormente, falam algo sobre um acordo entre as criaturas e o papa para que provessem dentes e elas não incomodariam os seres humanos mas logo isso é esquecido e nada mais é falado. Como as situações vêm e vão, é totalmente impossível encontrar uma linha lógica na trama de Del Toro, que mais parece um samba do crioulo doido, esquecendo de que as situações criadas precisam ter fim e explicação. Não é raro encontrar situações deixadas de lado por conveniência, fazendo com o que o espectador fique puto imaginando o porquê de soluções tão simplórias. E estamos falando aqui sobre um cara que escreveu roteiros complexos e detalhistas como O Labirinto de Fauno, A Espinha do Diabo e Cronos!

É complicado mensurar o porquê de “The Dark” ter acabado de forma tão formulaica, preguiçosa e estúpida, uma vez que poderia ser um redentor para a interminável onda de remakes americanos. Se você quer um filme descompromissado, assustador e bem escrito, apelarei para o clichê de mandar procurar o original, feito para a tv.

Insidious (Sobrenatural) – Review

 

Sinopse (SPOILERS): A trama conta a história de um casal (Patrick Wilson e Rose Byrne) que tenta evitar que o seu filho, que se encontra em estado de coma, seja encarcerado por espíritos demoníacos.

O professor Josh Lambert e sua esposa Renai se movem com seus três filhos, Dalton, Foster e o bebê Cali, para uma antiga e grande casa. Quando Dalton explora o sótão, ele cai da escada e bate a cabeça no chão. Na manhã seguinte, Dalton não acorda e permanece em coma, mas os médicos não são capazes de diagnosticar seu problema. Três meses depois, coisas estranhas acontecem na casa e Renai vê aparições. Ela tem certeza de que a casa está assombrada e convence Josh a se mudar para outra casa. Mais cedo, Renai vê fantasmas na casa nova e Josh não acredita em sua esposa. Mas sua mãe Lorraine diz que ela tinha tido um sonho onde viu um demônio no quarto de Dalton. Eles convidam a médium Elise Rainier, que traz sua equipe de investigadores paranormais para investigar o fenômeno sobrenatural. Elise explica que Dalton é um viajante com a capacidade de deixar seu corpo físico e viajar em projeção astral. Agora seu corpo espiritual está perdido em um lugar chamado “O Distante”. Nesta dimensão, existem entidades que saíram de seu corpo físico para “perambular” pelo lugar. Entre essas entidades, há um demônio que necessita do corpo de Dalton para causar dor aos outros. Além disso, Lorraine revela que Josh também é um viajante talentoso e deve procurar Dalton e trazê-lo de volta.

 

Antes de começar a falar de Insidious, gostaria de abrir um parenteses para outra obra de horror, desta vez muita mais conceituada no meio. O nome? Poltergeist, filme “dirigido” por Tobe Hooper e produzido e escrito por Steven Spielberg no auge de seu sucesso enquanto dono de Hollywood. A história é clássica, eventos sobrenaturais acontecem em uma casa, inicialmente tudo parece maravilhoso até que espíritos malignos surgem, uma garotinha é sugada pela televisão e uma medium é chamada para exorcisar o local e trazer de volta a filha que ficou perdida no “outro mundo”. Bem, este longa é considerado um dos pilares modernos para os filmes de horror em uma veia mais psicológica, surgido em meio à um domínio manifesto dos slashers, onde muito sangue e vilões mais interessantes que suas vítimas viraram norma. Mas não pense que Poltergeist bebe na fonte de um clássico como “Os Inocentes” ou ainda possui a sutileza enlouquecedora de “O Bebê de Rosemary”. Na verdade, se trata de um filme muito mais próximo da profusão de efeitos especiais e trilhas sonoras barulhentas que começaram a ganhar força no cinema de horror ainda nos anos 70. Só que o longa produzido por Spielberg é uma espécie de pináculo deste estilo de contar histórias, elevando tudo à enésima potência, deixando totalmente de lado a regra do “quanto menos mostrar, melhor” e se usando de toda e qualquer novidade tecnológica da época para recriar o que seria um verdadeiro circo armado pelos fantasmas dos índios enterrados no solo da vizinhaça dos Freeling. Particularmente, Poltergeist hoje se sustenta (apenas) na nostalgia mas o “estrago” já estava feito e, além de suas próprias continuações, gerou uma nova brecha no cinema do estilo que, na verdade, sugou quase todos os filmes que propunham tratar deste tipo de história.

Mas por que, afinal, estou falando em um filme extremamente distante em tempo de Insidious, o mote deste post? Caso você já tenha visto ambos os filmes, vai pescar de primeira a ligação. Caso não, permita-me discorrer em algumas palavras … O longa, lançado em 2010 e dirigido por James Wan (diretor e produtor da série “Jogos Mortais“), é uma espécie de reciclagem da cartilha ensinada por Poltergeist, mastigada para as audiências modernas. O fato é que hoje, para quem não cresceu assistindo o filme dirigido por Hooper, Poltergeist soará extremamente ingênuo e, devido a precariedade dos efeitos especiais da época, provoca mais risos do que tensão. Insidious preserva a lição ensinada pelo roteiro de Spielberg mas adiciona alguns elementos modernos na narrativa e busca atualizar a extremamente saturada história de casas mal-assombradas. Mas não pense que velhos clichês não surgem a toda hora no roteiro de Leigh Wannell. Estão lá os sustos falsos, a mulher que vê as aparições e é desacreditada por todos, temendo por sua sanidade, as crianças que enxergam coisas durante a noite para as quais seus pais não dão atenção, o alívio cômico em dois personagens um tanto bobos e a médium que tem todas as respostas.

O casal de protagonistas é formado por Patrick Wilson e  a bela Rose Byrne. Espero que não soe como uma mera implicância mas é difícil de engolir Wilson no papel de Josh Lambert, um pacato professor, pai de família, assim como foi difícil de engolir quando fez o pedófilo em “Menina má.com“. Wilson tem a cara e o padrão físico de famoso galã e ator hollywoodiano, tornando complicado imaginá-lo na posição de uma pessoa comum e, verdade seja dita, sua atuação não ajuda, sempre beirando ao exagero. Rose Byrne também não parece muito disposta a apresentar a gama de emoções que sua personagem solicita e passa o longa inteiro com cara de sofrimento, sem que o roteiro dê o suporte e background necessário para entender sua melancolia, mesmo quando tudo está bem e a família recém se mudou para a casa nova. Ambos os personagens não funcionam como casal porque são extremamente distantes, tornando difícil para o espectador acreditar que realmente estão juntos há algum tempo e já possuem três filhos. A abordagem para a mudança (ou retomada) do comportamento distante de Josh é muito superficial e soa intrusiva, afinal no momento em que sua mulher está à beira de um colapso, o marido cada vez mais se distancia sem dar grandes motivos para tal. Por estes motivos, é difícil simpatizar com o casal, ao passo que não temos informações suficientes para compreendê-los enquanto uma família. Outros personagens são inseridos e retirados como que ferramentas que servem à uma cena ou duas. Um deles é o filho mais velho que está alí apenas para informar à sua mãe que vê Dalton vagando pela casa à noite. É claríssima a negligência com o menino e o roteiro arranha esta superfície quando Renai encontra um prêmio dado em sua classe e o menino demonstra indiferença à mostrar para seus pais. Logo este ponto é suprimido e, literalmente, não o vemos mais em cena. O mesmo vale para o bebê que serve apenas para chorar e nos agraciar com a melhor cena do longa onde, na verdade, o monitor presente em seu quarto é que faz a diferença. Existe, também, um descaso com outros personagens secundários que surgem ao longo da obra. Um deles é a médium que quase morre na sessão espírita promovida para se comunicar com o espírito de Dalton e ninguém parece dar a mínima para sua condição. Outra possibilidade levantada difícil de ser encarada como plausível é o descrédito de Josh. O roteiro não é nada sútil e, em determinado momento, podemos ver o quarto de Dalton todo revirado, com todas as janelas quebradas e cheio de marcas de sangue nas paredes. Mesmo assim, o pai ainda guarda suas dúvidas com relação à natureza dos fenômenos que ocorrem com seu filho (e só muda de opinião quando vê um desenho feito por Dalton).

Entretanto, o maior problema de Insidious está no exagero. Já na metade, o filme apresenta poucas cartas na manga para assustar e surpreender o espectador porque já superexpôs seus efeitos especiais e seus monstros no armário. Em uma cena que poderia ter enorme impacto, onde um menino dança ao som de uma canção antiga e Renai o persegue pela casa, temos muito acesso à sua imagem, incluindo a exposição de seu rosto. Em outro momento, enquanto Josh, sua mãe e Renai estão conversando, o demônio que assombra a família surge (em uma maquiagem um tanto carnavalesca) e, posteriormente, o vemos em uma espécie de inferno, dentro de uma “casa” cheia de ferramentas, resultando em uma cena até mesmo cômica. Há também uma possível citação à “O Iluminado“, quando um dos empregados da médium Elise utiliza um óculos especial e vê duas irmãs gêmeas vestidas de forma muito semelhante às famosas gêmeas do corredor do filme de Stanley Kubrick. O final rivaliza com a infame conclusão de Poltergeist, levando Josh para o “além” e exibindo uma profusão de fantasmas que aparecem à todo o instante, a ponto do espectador se acostumar com suas presenças. O efeito desta superexposição é a perda do fator assustador que o roteiro poderia criar. Como vemos tudo o tempo inteiro, a tensão vai pelos ares e passamos a apenas esperar qual será  a nova maquiagem e o novo susto que vão surgir na sequência, certamente o que não deve acontecer em um longa desta natureza. Como diria uma música dos Beatles, it’s all too much …

Como fator positivo, é possível ressaltar uma maior presença de maquiagem em detrimento ao CGI e algumas cenas esparsas que podem garantir um bom susto para quem compra a idéia do filme. Mas, de certa forma, Insidious traz de volta muitas coisas negativas que deveriam ficar presas à um momento transitório do cinema de horror. O fato de jogar na cara do espectador há todo o instante aquilo que deveria ficar implícito e ser combustível para a imaginação de quem está assistindo, acaba por tirar totalmente a possibilidade de interagir e se sentir perdido como um dos personagens do longa. A natureza rasa de seus personagens também aliena e faz com que não sejam simpáticos ou afáveis ao espectador, criando assim uma sensação de desinteresse em seus destinos. Por fim, Insidious até pode ser superior à uma enorme leva de filmes recentes no mesmo tema mas ainda passa muito longe do ideal, ideal este que pode ser atingido e funcionar com audiências modernas, como Session 9 prova. Ou, como na época de Poltergeist, filmaços como “The Changeling” ou “Ghost Story” provaram.

As Piores (ou melhores) capas dos VHS

Dance Or Die (1987)

Quando você ver um daqueles professores de dança com cara de psicóticos e achar que ainda existe alguma profissão que o cinema não transformou em slasher, está enganado. E não, o Kieffer da capa não é o Jack Bauer.

The Cop In Blue Jeans (1977)

Jack Palance era um ator versátil, colecionava tanto oscars quanto vergonhas extremas em sua prateleira.

The Burning (1981) aka Chamas da Morte

Este slasher é conhecido por ser um dos trabalhos mais impressionantes de maquiagem de Tom Savini mas, certamente, o boneco de plástico usado em testes de batidas de automóveis, não é o seu melhor portfólio.

The Boob Tube (1975)

É difícil comentar sobre esta capa, tem tantas coisas erradas …

Dr. Butcher MD (1975) aka Zombie Holocaust

Se você acha que capas totalmente mentirosas com relação ao conteúdo de seus filmes são um fenômeno moderno da era dos DVDs, esta acima prova que a picaretagem italiana influenciou os distribuidores norte-americanos a usarem de todos os artifícios para fazer “Zombie Holocaust” (onde os vilões são, adivinhe, zumbis e canibais!), parecer um slasher sobre um médico assassino.

Programmed to Kill (1987)

Rip-off bagaceiro de O Exterminador do Futuro + Loira com topete oitentista + Trans World Entertainment + Robert Ginty = WIN!

Highway To Hell (1991) aka Assassinos da Estrada

Quando amaldiçoar a mãe do cara que faz as montagens toscas de photoshop nas capas de dvds da Continental, lembre-se que um dia já usaram o Paintbrush para tal.

Slaughter in San Francisco – Karate Cop (1974) aka Massacre em São Francisco

Chuck Norris interpreta Chuck Slaughter (genial!), neste clássico que, provavelmente, carrega a maior nota no IMDB, como um filme onde o mesmo é o ator principal – um bombástico e explosivo 3.8!

Atente ao detalhe que a imagem do mestre utilizada nessa capa, retrata um Chuck Norris muito mais velho do que no filme em questão.

Grandmother’s House (1989)

Quando o tricô, o ócio e o desespero picareta encontram a morte.

Deadly Dreams (1988)

Quem explicar do que se trata a criatura acima, ganha uma cópia de Karate Cop e um guia de atuação de Billy Drago.

Arizona Heat (1988)

Existem atores talhados para os filmes de tv e de classe Z. Michael Parks, um queridinho de Tarantino, é a cara da picaretagem. Alguém está projetando uma cena de Arizona Heat contra Parks e ele não consegue suportar tal ofensa ? Essa é a idéia da capa ? Bem, no filme, a moça é lésbica, então talvez ele tenha vergonha do que acontece a seguir nesta cena, afinal inversão de valores já existia nos anos 80 …

Dominique (1980)

O mesmo camarada que reclama das capas de dvd com spoilers, deveria saber que, novamente, elas apenas seguiram o que foi ensinado no passado.

Hellmaster (1992)

Um Kit-kat de graça para quem descobrir de qual filme Hellmaster é um rip-off. Mande uma carta com a resposta para o Marrocos, Rua das Lamentações, número 2127 e receberá seu prêmio. Obs: John Saxon se diz extremamente embaraçado de ter participado de Cannibal Apocalypse. Compare o mesmo com o filme acima e tire suas conclusões sobre conceitos de vergonha.

Warriors Of The Wind (1984) aka Nausicaä do Vale do Vento

Lembra daqueles desenhos psicodélicos que sua irmã menor fazia e sua mãe colava na parede da sala ? Bem, ela poderia ganhar dinheiro com isso!

Hollow Gate (1988)

Bem, a julgar pelas expressões faciais, as atuações devem ser superiores às do remake de Gus Van Sant.

Hush Little Baby Don’t You Cry (1986)

Um título absurdamente longo, um dos infames quadros de crianças chorando, maçãs sangrando, alguém pedindo ajuda para acabar o dever de matemática e um cachorro vestido, decorando a embalagem de papel higiênico em cima de um microondas … Vem cá, esse não é o roteiro do novo filme do Jodorowsky ?

Back In Action (1993)

Um negro musculoso, sem camiseta, fazendo pose com um coroa e sua carranca de durão, cercados por uma explosão randômica ao fundo e com um título fazendo trocadilho ao genêro do filme. Esta poderia ser a capa para qualquer filme de ação B (e existe filme de ação A ?) dos anos 90 mas esta, particularmente, salta aos olhos pela presença de Roddy Piper, o tira durão, mais um dos vários wrestlers que decidiram lutar (Rá!) pelo título de pior ator.

Son Of Darkness: To Die For 2 (1991) aka Drácula: Pacto de Sangue 2

Eu não sabia que Drácula era pedófilo, possuia o poder de tornar gigante sua cabeça e era estrábico. Mas quem se importa ? Quando o filme utiliza como marketing, um quote do Daily Variety dizendo que se trata de uma rara continuação muito superior ao original, você sabe que deve evitar.

Americana (1983)

Um filme dirigido e estrelado por David Carradine, com outro Carradine e Barbara Hershey no elenco, já mereceria por sí só sua atenção. Mas tudo é elevado à uma nova esfera quando temos uma capa Drew-Struzan-wannabe, com Carradine admirando o horizonte, enquanto carrega um cavalinho roubado do carrossel ao fundo.

Rabid Grannies (1988)

Eu achei que seria injusto incluir capas da Troma nessa seleção, que deveria ser apenas de capas “não-intencionalmente” horríveis. Mas, a inclusão desta peça serve apenas para elucidar o leitor de que sua vó pode guardar um terrível segredo assassino, já que o cinema faz questão de torná-las tão malignas.

Ghostkeeper (1986)

Esta poderia ser mais uma capa padrão para filmes de horror oitentistas que ninguém viu, SE o esqueleto não estivesse tirando com o dedo, o fiapinho de manga do almoço de ontém. brrr

Hobgoblins (1988)

A capa para um dos mais baixos rip-offs de Gremlins, dá uma aula do que NÃO fazer quando não se têm dinheiro para pagar por um boneco bem acabado. E a vuvzela do lado faz o charme.

Revenge Of The Zombie (1981) aka Kiss Daddy Goodbye

Outro exemplo divertido de como enganar um desavisado para alugar um filme onde o título e a capa não tem nada a ver com o plot. Mas o nome de Marilyn Burns abrilhanta a fita.

Brain Smasher (1993)

Existem tantas coisas erradas com a capa deste filme de Albert Pyun … É interessante começar abordando o título e o subtítulo, que fazem uma sintônia tremenda. Logo após, temos um sujeito com um mullet horrendo, extremamente mal dimensionado em relação à mulher atrás dele, enquanto um bando de mau-elementos vindos direto do clipe de Beat It, caminham rumo ao encontro do título. Ah, e a tagline tenta ser engraçadinha. Oh não.

Ghosthouse (1988) aka La Casa 3

Olha lá, sua irmã faturando alto de novo, desta vez com direito à giz de cera!

The Killing Of Satan (1983)

Satan deve ser durão quando conta com uma naja, a múmia carbonizada, uma pantera negra e a mulher invisível em seu exército. Mas claro, tudo é pouco para enfrentar o Ash mexicano e seu bastão de ferro de bicicleta. Eu poderia dizer que este filme foi dirigido pelo mesmo cara que concebeu Manos: The Hands of Fate mas este aqui vêm direto das Filipinas.

Last House on The Left (1972)

Deve ser divertido imaginar quantas vezes o sujeito locou este filme pensando se tratar de um erótico softcore para apimentar a noite com sua namorada e teve de ouvir ela reclamando daquela parte em que eles forçam uma virgem a urinar. Sabe como é, scat não pega bem quando você quer causar uma boa impressão. Mas bem pudera, não se pode confiar em uma capa onde um muro fantasma tem uma pichação dizendo “3coco”.

Gargoyles (1972)

Lembra da capa de Hobgoblins ? Certamente o designer (???) que a criou, teve a inspiração que merecia.

Into The Darkness (1986)

Se um dia esta tranqueira for lançada em dvd, gostaria que houvesse um featurette apenas para explicar qual seria o motivo de colocar uma 3×4 de Donald Pleasence na capa, mostrando toda sua satisfação ao integrar o elenco de tal obra. Ah, e é sempre válido avisar ao espectador que um filme de 1986 é colorido. Bem, não é apenas colorido, é “sangue-coaguladamente” colorido!

Class Reunion Massacre (1978) aka The Redeemer: Son of Satan!

Houve um tempo onde não se podia enfiar um vhs dentro do computador e, portanto, não se podia tirar uma still image da fita. Para tal, era necessário aproximar a câmera fotográfica ao máximo na tela da tv, e rezar para que o flash não ofuscasse toda a imagem. Ah, bons tempos.

The Satanic Rites of Dracula (1973) aka Os Ritos Satânicos de Drácula (dã)

É impressão minha ou alguém pegou a imagem da capa de A Return To Salem’s Lot e colou a cara do Christopher Lee em cima ?

Até onde vai a censura ?

Recentemente, surgiu por aí a notícia que Angel Sala, organizador de um tradicional festival espanhol de cinema (Sitges Film Festival) pode enfrentar um ano na prisão por exibição de pornografia infantil.

Pode parecer rotineiro afinal todo ano milhares de pessoas são presas por crimes semelhantes. Entretanto, a tal pornografia infantil referida se trata do filme “Srpski” aka A Serbian Film, o polêmica e brutal filme sérvio que causou frisson no circuito underground no ano passado.

Sim, um homem pode pegar cadeia por exibir um filme em um festival, tal qual você que está lendo pode acabar sofrendo do mesmo mal caso organize um festival em sua cidade e exiba Srpski. Algo me faz lembrar da década de 80 e o escândalo causado pelos infames Video Nasties no Reino Unido, o que causou a prisão de vários donos de locadoras que ousavam comprar as fitas malditas que continham os escárnios banidos pelo conselho de cinema de lá.

Enfim, vivemos em uma era onde a liberdade de informação ultrapassou todas as barreiras do puritanismo e, com a ajuda da internet, permitiu que vozes de todo o planeta pudessem ser ouvidas. Mas o mundo “real” parece não gozar da mesma facilidade e ainda precisamos conviver com violências, verdadeiros linchamentos contra esta liberdade, direito que deveria ser outorgado mundialmente como básico para todo  e qualquer ser humano.

Angel Salas

Angel Sala

À cerca do filme, existem algumas cenas que envolvem menores de idade em violência sexual sim mas, dentro do seu próprio universo, plenamente justificáveis como arte. Claro, conceitos de arte são um tabu antigo mas isto não vem tanto ao caso, já que não existem parâmetros universais de qualificação acerca disso.

O que vem ao caso é o que tange a lei e Srpski não atinge quaisquer parâmetros para ser enquadrado como “pornografia infantil” deliberadamente. Todas as cenas são, obviamente, encenações, algumas envolvendo atores, outras envolvendo bonecos. Todas estas encenações são apresentadas de forma off-screen, já que Srpski não possui nenhuma cena onde existam closes genitais de penetração. Não existe nudez e nem estimulação sexual com os atores menores de idade. Ou seja, não existe absolutamente NADA que descaracterize o longa sérvio como unica e exclusivamente cinema.

Duvidoso ou não, sensacionalista ou artístico, condenar um homem por exibir um filme em um festival de cinema é quase tão absurdo quanto seria colocar atrás das grades um musico que escrevesse uma canção contra algum orgão governamental ou personalidade pública. Não levantaríamos nossa voz em apoio ao indivíduo ?

Srpski levanta a bandeira de temas extremamente controversos, o que não quer dizer que eles sejam irreais, muito pelo contrário. Basta ligar todo o dia o jornal, aquele exibido na televisão diariamente, para ser achincalhado com uma tonelada de notícias envolvendo abuso, violência psicológica e física, agressão e maus-tratos à menores de idade. Como contraponto, as vezes os próprios menores são os vilões, assassinando os pais, agredindo irmãos, abusando sexualmente de crianças menores (…), um show de estupidez que deveria ficar apenas no âmbito do ficcional mas que escoa pelas nossas televisões todos os dias.

O mundo hoje, apesar de imerso em uma letargia onde  depravação é marketing, vive uma crise de autoafirmação, onde todo e qualquer tipo de grupo precisa levantar bandeiras. A cruzada moral contra a pedofilia é, muitas vezes burra, estupida e redundante. O fato é que, para lutar – e isso quer dizer, diminuir a incidência de casos – contra a pedofilia hoje, é preciso lutar contra a sexualização da infância. A mesma rede de televisão que exibe comerciais conscientizando contra tais crimes é aquela que exibe novelas onde meninas de 8, 9 anos já falam em namorados, consideram brincar de bonecas como sendo algo ultrapassado para sua idade, em alguns casos até mesmo já pensam em iniciar suas vidas sexuais, cercadas por príncipes encantados, normalmente mais velhos. Cada vez mais cedo, pais aceitam que seus filhos se envolvam em relações amorosas da qual não possuem qualquer maturidade para entender, levando ao ponto de permitirem que crianças se tranquem no quarto com seus pares, sob o teto onde estão aqueles da qual deveriam zelar por sua segurança.

Este que vos escreve passa longe de ser moralista mas preciso admitr que me revolta quando vejo uma criança desperdiçar a infância, época em que deveria fugir ao máximo das futuras atribulações da vida adulta, se envolvendo em assuntos de “gente grande” da qual não fazem a mínima idéia de como conciliar.

Isto é danoso, isto é a gênese de muitos casos futuros de abuso, de gravidez na adolescência, de videos humilhantes entre meninas abaixo de 15 anos de idade transando com homens mais velhos que caem na internet para qualquer um ver, de disseminação de DSTs e Aids entre menores de idade. Não um filme estritamente proibido para menores de 18 anos que eventualmente foi exibido em um festival.

Em tempos como estes, provavelmente daqui há algum tempo, se eu assistir um filme como Pretty Baby ou similares (envolvendo cenas de nudez com menores de idade), estarei sujeito a ser preso por posse de material pornográfico infantil. Álias, se planejava comprar o dvd de Srpski, vou ter de pensar duas vezes agora.

Parece que a censura não desapareceu, apenas se camuflou, tomou rumos mais sórdidos e traiçoeiros e vem assombrando a visão artística ainda hoje. Esta possível prisão de Sala, um improvável “mártir”, é um ataque frontal a nossa própria liberdade, uma vez que manda uma mensagem bem clara sobre como a criatividade e a expressão humana ainda vive sitiada e existem leis que corroboram, incitam este tipo de violência contra a liberdade.

UPDATE (29/07/11):

Cá estou eu, depois de tanto tempo e escrevendo sobre Srpski de novo!

A nova agora envolve nosso querido Brasil como mais um país da lista da censura explícita (deveria virar um gênero cinematográfico), com a proibição de exibição da película no estado do Rio de Janeiro.

Inicialmente, “A Serbian Film – Terror sem limites”, bancado pelo distribuidor Rafaelle Petrini, foi vetado de ser exibido no festival carioca RioFan, organizado pela Caixa Econômica do Brasil (ninguém quer sua marca relacionada à esse filme, não é ?). Mas, posteriormente, a justiça determinou que o filme estava proibido de ser exibido no estado inteiro, com uma liminar que caçou cópias e tudo mais, em um autêntico  caso “Video Nasties” brasileiro.

Mas não parou por aí, apesar de ser exibido em alguns festivais como o Fantaspoa, Srpski também foi proibido em Minas Gerais, via recomendação da justiça brasileira.

É, meus caros amigos, depois de 27 anos, um filme foi oficialmente censurado e proibido no Brasil. O que podemos esperar mais ? O distribuidor ser preso por acusação de “incitar pedofilia” ?

Obs: Segundo Petrini, o filme ainda sim será lançado nos cinemas brasileira através de cópias digitais, já que a cópia de 35mm foi apreendida pela justiça carioca.