O Exorcista e suas interpretações

Em tempos de uma overdose incessante de filmes sobre exorcismo, aproveitei o ensejo para re-assistir meu filme predileto de todos os tempos: o magnum-opus do horror visceral, “O Exorcista”, desta vez, em alta definição.

Ao fim do longa, comecei a pensar sobre a interpretação unilateral que lhe é constantemente atribuída, em especial ligada a conceitos religiosos, na concepção básica de “bem versus mal”, a vitória da fé renovada e o reencontro religioso apartir do evento sobrenatural, preliminarmente tratado com ceticismo.

Esta intepretação constitui o corpo básico de quase todos os filmes sobre exorcismo, utilizando o teste da fé e o descrédito progressivo da religião como temas secundários que vão sendo desenvolvidos paralelamente ao evento principal, normalmente revertidos ao fim da história.

Entretanto, esta bíblia de clichês que, aparentemente, foram “criados” pelo filme de William Friedkin, na verdade não são exatamente objetivos, uma vez que permitem diferentes realizações sobre as suas aspirações.

Acima de tudo, uma constante reclamação que alguns fãs de cinema atribuem ao roteiro adaptado de William Petter Blatty são os contornos pró-catolicismo, uma vez que a mensagem central do filme seria o conceito clássico do bem vencendo o mal através da renovação da fé.

Mas, se percebermos de forma mais profunda, o final da excruciante cena de exorcismo que fecha o longa não possui quaisquer contornos religiosos, uma vez que a solução adotada pelo desesperado padre Karras é o sacrifício do próprio corpo afim de aprisionar a legião de espíritos sombrios que dominam a menina Regan. Esta atitude só é tomada após um exorcismo totalmente falho, que toma a vida do experiente padre Merrin, interpretado vorazmente por Max Von Sidow.

O fechamento de “O Exorcista” deixa claro que o ritual católico, que exigia o demônio a ser “compelido pelo poder de cristo”, não obteve qualquer efeito, uma vez que se mantém intacto o estado de possessão até Karras convidar a legião a entrar em seu corpo.

Outra nuance do filme explorada é  a perda de fé do padre Damien Karras, confuso entre a morte de sua mãe e o crescente ceticismo referente ao seus conhecimentos psiquiátricos e científicos. De certa forma, sob certo espectro, o epílogo confirma a perda de fé em um bem maior, quando o exorcismo falha e Karras precisa tomar uma decisão totalmente humana afim de salvar a menina do furioso estado de possessão em que se encontra, afirmando a existência do mal mas deixando claro que o poder ritualístico de um deus que representa a antítese do diabo, falhou miseravelmente em sua missão.

Talvez existam alguns contornos existenciais circundando “O Exorcista”, refletindo o estado caótico que o mundo e, especialmente, os EUA pós-guerra viviam nos anos 70, imerso em um estado de catarse, incredulidade e pessimismo. Quando o mal assume o controle e só é vencido através do sacrifício, Blatty não faz concessões quanto a evidenciar que rituais místicos utilizados em épocas onde a ignorância religiosa ocupava o lugar da ciência e medicina moderna, não podem deter a força maligna que domina o ser humano.

A certa feita, Stanley Kubrick reconstrui a idéia do famoso filósofo francês Rousseau sobre a corrupção da sociedade sobre o ser humano. Kubrick contrapôs que a sociedade é um produto da natureza deturpada do homem, uma vez que foi ele quem a constituiu e não se trata de uma força natural.

O mal que possuiu Regan não parece ser tão diferente do mal que leva os homens a cometerem incalculáveis crimes, a travarem guerras sangrentas e a força opressora de uma sociedade doente. Na verdade, quando Karras pergunta a Merrin o  por quê da escolha de possuir uma criança, símbolo da pureza e inocência, o padre replica que o intento do demônio é colocar em teste a fé e sanidade do ser humano. Em uma análise mais cética, a posessão da menina indicaria que o mal é inerente ao ser humano e se manifesta de maneira simbólica. É claro que o filme de Friedkin deixa óbvia a nuance sobrenatural, muito mais que a novela de Blatty, com uma colocação mais dúbia sobre a real natureza dos fatos expostos. Entretanto o motivo pela qual Regan é o alvo da força maligna é obscuro e aberto a interpretações, tornando O Exorcista muito mais rico que um mero filme pró-catolicismo onde o bem, representado por um deus de ritos um tanto medievais, enfrenta o mal simbolizado por um demônio.

Enfim, se existe alguma mensagem positiva no longa, na minha interpretação essa se configura na idéia de que, independente da existência de um deus misericordioso e representante do bem, o ser humano pode se redimir do mal que causa quando exibe sentimentos como a compaixão e o sacrifício. O fechamento de “O Exorcista” apenas deixa claro que Karras se sacrificou por uma menina que nem chegou a conhecer, talvez demonstrando que não é necessário um deus ou ritos medievais para que exista o amor ao próximo.

William Peter Blatty certamente desaprovaria com veemência esse post, a existência da versão lançada em 2000 se deve à vontade do escritor e roteirista de ter “O Exorcista” como sendo um filme mais unilateral, com uma única interpretação, aquela que o mesmo desejou quando escreveu a novela. Friedkin surgiu como um promissor diretor da “nova Hollywood”, movimento determinado a trazer idéias do cinema europeu e imprimir características mais artísticas e autorais ao seu trabalho. O diretor percebeu que não poderia macular o filme como sendo unidimensional e muito voltado à uma questão teológica, afim de não alienar um público que não fosse religioso. Muito em função disto, seu mais famoso trabalho chegará aos 30 anos de idade ainda sendo debatido e adorado por uma legião de velhos e novos cinéfilos.

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