Balada do Desastre Anunciado

Ah, dialética! Tua luz iluminaria a cachola de muita gente nestes nossos dias bravios. Infelizmente, tomados por um nobre afã de investigar as causas de mais um golpe de estado para a coleção brasileira, muitos esquerdistas parecem buscar em arroubos idealistas e românticos a lupa semântica para suas análises conceituais do motivo pela qual o segundo mandato de Dilma Rousseff nem mesmo aconteceu, apesar dos mais de 54 milhões de votos computados.

Qual o problema? Narrativa. Narrativas são peças do ficcional que se debruçam em elementos do real para formalizarem uma visão de mundo. Transpondo para o nosso léxico político: narrativa é uma visão romantizada de processos que se regulam por condições históricas e econômicas, criando assim uma idealização e um télos (finalidade) para um único evento, como que retirado do curso da história e acontecido devido a uma intervenção ahistórica de forças ideológicas.

O que esse palavrório todo nos diz é que boa parte destas interpretações dos eventos que culminaram na queda de Dilma acabam por resvalar numa compreensão que quer separar processos indissociáveis, como se cada um deles adviessem de movimentos sem relação e que, por acaso, culminaram todos ao mesmo tempo e causaram a queda da presidenta. Ou ainda: a ideia de que estes movimentos são produtos de grupos ligados à direita que engendraram uma luta de polos políticos contra a esquerda (PT), pois odeiam pobres e a classe trabalhadora (romantismo).

Percebam que estes dois elementos, ahistoricismo e romantismo, tão presentes nas análises, podem parecer em um primeiro momento distintos, mas se coadunam no grande esquema da cabeça liberal brasileira.

Pensar a história como uma sequência, um devir onde a geração seguinte pode ser explicada e nomeada pela geração anterior, parece uma obviedade. Porém, a compreensão moderna parece ter nos retirado da confluência histórica, como se existisse uma essência que está acima destes processos e se dá sem a intervenção nem a mínima influência de processos passados. Nossa cultural e expressão são produtos atemporais, assim como as passadas. Não se explica a nossa homofobia, por exemplo, através da digressão ao contexto histórico da religião, que funda sua própria compreensão do tema ainda nos romanos antigos, quando as relações homossexuais foram banidas, pois a classe política da época temia que houvesse um declínio na demografia (e você certamente já ouviu a mesma argumentação hoje em dia!).

Nada disso tem a ver com a nossa homofobia, pois são processos restritos às necessidades e realidades de seus tempos, ao passo que os nossos são produções que só existem no nosso tempo e, portanto, merecem compreensão completamente vanguardística e sem nenhum paralelo com o passado. Digo tudo isto para explicar o porquê desta pecha de retirar processos modernos de uma linha de sucessão histórica, que poderia ser o ponto de partida para entendermos o desfecho que assistimos atônitos nesta semana.

A segunda questão é o romantismo, que também poderíamos chamar de idealismo. Aqui entra a narrativa folclórica. Para além de uma série de processos chatos que versam sobre economia, política financeira, interesses fiscais, tráfico de influências, lobbies, taxas de juros, subsídio (…), a narrativa romântica vai polarizar  completamente o acontecimento: A direita, em sua sede de elitismo e pauperização da classe trabalhadora, se ofendeu com o fato de que o filho da faxineira estava estudando na mesma faculdade de seu filho e decidiu, através das forças reacionárias na política, tramar um golpe contra a presidente Dilma, representante magna dos interesses dos mais pobres. Sem sombra de dúvidas, é uma narrativa de contornos mais literários (e panfletários) que um papo chato economicista e jurídico.

O problema é que, nestes casos, o romântico é um bufão. Sua narrativa é eivada de tanto ilusionismo retórico quanto as manchetes ideológicas dos grande jornais, que creditam a crise a um avanço tirânico de ideologias comunistas que querem desestabilizar a economia. A diferença é que, no segundo caso, eles sabem que é tudo jogo de palavras e uma fantasia. No primeiro, não.

Para falar em governo de esquerda, temos de ser chatos e retirar do armário a foice e o martelo; o que faz um governo ser de esquerda ou não é o projeto econômico. Simples assim. O PT nunca teve um projeto econômico de esquerda, nem na época do Lula. Inserção de consumo, expansão de crédito, programas de transferência de renda; qualquer país socialdemocrata no mundo os possui. Não é coisa de comunista, apenas uma resposta possível aos interesses da fase atual de desenvolvimento capitalista que nos encontramos. Não seria possível a continuação de modelos anteriores, que eximiam do Estado a responsabilidade pelos processos de inserção do povo na economia. Aliás, era necessário que, na fase do consumismo, mais e mais o mercado se expandisse. Portanto, assim como a Rede Globo reinventou a roda (e a audiência) incluindo retratos das classes C e D em suas telenovelas, o capitalismo precisava passar a atrair estas audiências também e quem melhor que um capitalista roxo para saber que estas mixórdias do liberalismo econômico de “autorregulação” são piadas das mais passáveis? Era papel do novo estado, o de bem estar social, passar a dar um jeito de colocar um cartão de crédito na mão de mais gente e dar a permissão para destruir algum prédio histórico ou uma ordem judicial para tirar uns casebres a fim de mais um shopping ser construído.

Assistir alguém não quer dizer contrapartida. Ou seja, programas de assistencialismo são programas de caridade, tipo das Carmelitas. É uma ajuda. Transferir renda, em si mesmo, condensa a contrapartida de, uma vez munido de maior poder de compra, o sujeito passe a integrar o mercado consumidor. Desta maneira, o governo agradou gregos e troianos: a pessoa pobre, que nunca teve carro, pôde comprar o seu da montadora que agora tem mais demanda por seus modelos de baixo custo (os que realmente geram capital). Para além disso, o governo reduziu o IPI, imposto que aumentava o valor dos veículos, desabonando as montadoras e as permitindo a reduzir o custo de varejo (ainda que longe do custo de produção, como alardeavam). Por fim, o governo subsidia o preço da gasolina, impedindo artificialmente que as flutuações do preço do barril de petróleo cheguem ao consumidor final. Brilhante, não?

Um problema: isto tudo depende de uma abertura pesada de crédito por parte dos bancos, um intenso fluxo de caixa no Estado que permita subsídios, alívios fiscais e rotação de capital além, sobretudo, de uma forte plataforma de comércio internacional, com exportações de insumos básicos em alto valor no mercado mundial. Como os possuímos, durante a crise que começou em 2008, tínhamos as cartas na mão e éramos os negociadores, aqueles que tinham a palavra final. Haja vista a recuperação dos mercados mais fortes, o nosso poder de barganha caiu e a competição veio a desvalorizar os altos preços, incensados pela demanda intensa e baixa oferta que, por sua vez, causaram queda na produtividade.

E o Estado? Tem como continuar subsidiando preço da gasolina com barril de petróleo da Petrobras à 24 dólares? Não. O  Estado, nestes momentos, precisa de caixa e a forma mais fácil de fazer caixa é aumento, não diminuição, de carga tributária. Isto desaquece o consumo, as pessoas perdem seu poder de compra frente ao aumento dos preços e a desvalorização da moeda e temos um cenário como o atual.

Crises nada mais são que movimentos do capital para autopreservação. Um Estado de bem estar social só dura até a retração do mercado mundial indicar que é hora de parar. E então o Estado passa de bem estar social para bem estar econômico, o que significa salvar os bancos, as grandes empresas, acabar com qualquer barreira para o capital especulativo, desabonar o empregador através de ataques às leis trabalhistas, acabar com programas de transferência de renda, enxugar ministérios que trabalhem em questões da esfera social e trabalhista, pagar as dívidas do setor privado etc.

É por tudo isto dito acima que uma política de consumo e subsídio econômico não é de esquerda. Ela se arvora numa duna de areia, não em um rochedo. Além disto, mesmo quando na crista da onda de uma bonança econômica, ela tem seu limite fincado no jogo de interesses das elites financeiras, o que explica determinados paradigmas sociais que ficam intactos, intocados mesmo pelo espaço deixado para discussões de progresso da sociedade civil.

Assim se desmonta a ideia de que o petismo, em qualquer uma de ssuas encarnações enquanto esteve no poder, foi de esquerda. Sua política de conciliação de interesses antagônicos foi um jogo de luz e sombra para sempre atender aos interesses de uma classe, a saber a classe dominante financeira. Portanto, no parnaso da narrativa romântica de uma luta de classes que encarnou a esquerda na figura do petismo, a única realidade é a de sempre: manda quem pode, obedece quem tem juízo.

Assim, a queda de Rousseff pode ser vista como uma série de processos que se seguem. Era bem claro o movimento das elites financeiras antes mesmo da eleição de 2014, pedindo uma austeridade tunpiniquim, a fim de ter seu viçoso programa de assistencialismo em curso, com o Estado se tornando o papai que ajuda quando a fatura do cartão de crédito passou dos limites da mesada. Não se tem dinheiro para tudo, é claro. Assim, em primeiro lugar, pediu um reajuste fiscal bruto, que significaria cortes intensos nos investimentos sociais que o governo tinha contabilizado para este novo mandato. As tais pedaladas são um movimento de “expandir” as metas fiscais com o sentido de permitir que o governo siga a irrigar seus programas. As elites financeiras queriam metas fiscais esdrúxulas, que significariam a morte de diversos programas e aspirações civis, pois era sabido que, avizinhando a crise, nada mais que um reflexo tardio da recuperação dos mercados mais fortes, o governo precisaria de fartas reservas para subsidiá-los enquanto a tempestade urgia.

Rousseff tentou, novamente, conciliar estes interesses, mas já era tarde. Eleita novamente, ainda que gradualmente viesse a aplicar políticas de austeridade, ela não poderia fazê-lo de forma irrestrita e imediata. Como era de se esperar, não servia mais para a classe dirigente. As marionetes do  mundo político foram postas em trabalho. Aécio Neves, o pródigo imbecil, pediu recontagem de votos. O congresso abriu ordem para vetar todo e qualquer movimento de deter a crise, como pacotes de estímulo. O TCU e seus tecnocratas passaram a procurar qualquer tipo de desculpa para caracterizar crime de responsabilidade. Logo logo, a narrativa do impeachment estava pronta, sob alguma roupagem jurídica no aspecto da falta de responsabilidade fiscal, eivada pela imprensa de motivo para a crise, nada a ver com qualquer movimento financeiro mundial ou desvario dos capitalistas brasileiros. Logo, com a união de todos os setores políticos e financeiros e do departamento de marketing que é a imprensa nacional, o impeachment era a solução final, dita por eles como a vontade soberana do “povo”. 54 milhões de votos não eram vontade do povo; logo a Folha de São Paulo nos elucidou, de forma pedagógica, que fomos enganados por um governo que quer instalar o bolivarianismo da falida Venezuela por aqui.

Não é nenhuma coincidência o aumento da bancada “bbb” (bala, boi e bíblia). Não é acaso um projeto como “Escola Sem Partido”. Estes e outros eventos são todos movimentos que tiveram um objetivo: tramar o golpe a partir da esfera política. É bem sabido que houve conspiração de todos os poderes para tal. Mas todos apenas eivados de um ódio ao pobre que pôde comprar tv de tela plana? Ou apenas baseados em seus interesses de ficarem ricos através da corrupção? Ou será que existe um braço acima de todos eles que movimentou estas peças para pôr em xeque-mate a legitimidade do Estado brasileiro?

É da última suposição que as análises românticas ou episódicas carecem. A epifania final carrega em si o aperceber-se de que todo este golpe foi arquitetado por uma classe que está acima da política. O meio foi o parlamento e seus ilusionismos jurídicos, mas existe um interesse que moveu céus e terras (fazer um impeachment não é nada fácil!) para que o governo fosse deposto e, em seu lugar, entrasse um governo (ainda mais) fantoche. É claro que interesses localizados e menores foram conjugados; a mídia é um grupo de interesse em si, assim como os próprios políticos. Porém, sem o interesse da elite financeira, nada disso seria possível. Não é de hoje que o PT não conta com a simpatia dos grandes grupos de imprensa ou de boa parte da Câmara e do Senado, bem como tem claros opositores, indicados pela própria presidente e Lula, no STF. Porém, suas ojerizas não eram suficientes. Foi só quando as oligarquias financeiras deram o aval que o impeachment pôde sair. E o agora insuportável populismo bolivariano petista serviu durante muito tempo aos interesses de classe destes reis e rainhas.

Falhar em perceber isto nos turva a visão; é achar que o problema é político, quando a política é só uma organização animada e efusiva dos interesses de uma classe. A nós sempre só restaram migalhas e estas migalhas são jogadas para manter uma mínima estabilidade de ânimos. Agora, elas vão ser ainda mais raras, só que a queda de sua oferta defendida como “necessidade” para que o país não quebre. É necessário, por exemplo, que bancos privados lucrem recordes para que o país não quebre, bem como a lava-jato seja suspensa antes que todas as empreitas no país fechem. E é a velha dialética, nascida com os gregos, que pode nos iluminar quanto ao jogo de tabuleiro que assistimos, completamente passivos, nestes últimos meses.

Mãe Gaia, dê-nos um pouco de razão!

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Você se lembra daqueles bons tempos onde nós éramos ávidos amantes da ciência? Onde falávamos, com júbilo, dos avanços em áreas como patologia e o surgimento de informações sobre bactérias e vírus, dos fantásticos mecanismos eletromecânicos que pareciam anunciar revoluções na vida cotidiana e que, juntos, prometiam um futuro mais longo e cômodo para a nossa espécie? Onde nos detínhamos, ainda que limitados por uma ignorância contingente, sobre as origens do universo para além da especulação metafísica e da teologia e a cosmogonia dos antigos? Parecia que, enfim, poderíamos explicar nossa posição no universo através de métodos e teoremas, não mais de profecias ou ardis canhestros ilustrados com palavras crípticas.

Ah, bons tempos! Não se lembra? Bom, é possível que não, pois este tempo antecede em muito a data de seu nascimento. E agora cá estamos no século XXI. Se a ciência parecia ser o dínamo do progresso total da humanidade, de um ponto de vista técnico, tecnológico e mesmo civilizatório, desilusões nos tolheram da bonança de um novo Messias androide. Dúvidas metafísicas, problemas de ordem moral, agitos políticos, fome, miséria, guerras e destruição. Ainda que agora tivéssemos uma vida mais longa e um fluxo maior de informações, a ideia de encontrar a fórmula euclídica da paz, que iluminou vida e obra dos racionalistas e empiristas de outrora, parecia ficar mais distante e entrar para o clube da fantasia e do wishful thinking. Aliás, viver mais e com mais informação parecia aumentar nossa agonia.

E aumentou. Basta se debruçar sobre a filosofia do nosso tempo. Se os séculos iluminados pareciam pôr toda sua fé na ciência e a era da modernidade acabou, próxima ao fim, parindo proponentes de sistemas revolucionários universais de ordem política e moral, um grupo de pensadores já antevia nosso século XX. Dentre eles, o mais famoso, dono de bigode infame e egomania clínica. Para não nos estendermos, o niilismo, longa tradição humana que só ganhou nome nas páginas de romance russo, enfim se formalizou na dimensão da filosofia e deu o tom para o século onde o capitalismo evoluiria para estágios que nem os mais ardentes marxistas imaginariam – ainda que o próprio niilismo fosse, em si, o fundamento básico do zeitgeist capitalista. Do industrial, chegamos a uma acumulação e produção como nunca antes. Os antigos imaginariam que, a este ponto, nem uma alma pereceria frente ao fastio que tanto logrou vítimas em seus tempos de escassez. Porém, a riqueza do capital e a abundância da produção primária não chegaria a todos. E a quem chegasse, era limitada por um triste acaso de nascer no lugar errado e estar sujeito a uma máquina que se dizia divina e formalizava um determinismo social que faria Deus corar.

Os ratos de Veneza agora usavam tapa pós em Auschwitz. As espadas de Constantinopla morfavam-se nas metralhadoras das campanhas da Itália. A escatologia dos selos abertos tomavam forma na nuvem-cogumelo no horizonte de Nagasaki. A tecnologia parecia apenas fazer o homem ainda mais assassino e o mundo era, enfim, um retorno perpétuo de erro, dor e violência.

Se Deus morreu, a ciência e seu séquito de apóstatas revelava-se um culto a um Moloch feito de metal e pesadelo. Em sua barganha, ganhamos o dúbio direito de viver mais para trabalhar mais e sofrer mais. No seio desta desgraça cyberpunk, a filosofia rapidamente abandonava a indulgência da esperança para abraçar uma ampla desconfiança em absolutamente tudo o que havia sido sua bengala desde os antigos de Micenas.

Mas que efeito prático esta destruição teve? Passamos a ver a ciência não mais como um ídolo e nem um mecenas dos aristocratas da vanguarda do progresso. Agora, ela parecia mais um instrumento de dominação deitado a mão dos poderosos. E então suas verdades indubitáveis caíram e deixaram uma lacuna. Você já parou para pensar na astrologia? Esta projeção astral, anteriormente chamada pelos pedantes de “pseudociência”, parece estar mais em voga que nunca. Medicina oriental? Cristaloterapia? Reiki? Chi? Fortianismo? Todos ridicularizados pela ciência ocidental, todos recuperados pela pósmodernidade.

De repente, o antibiótico virou conspiração e os cristais viraram terapêuticos. As agulhas deixaram de inocular antígenos e passaram a perfurar os chakras. A radiografia deu espaço ao ectoplasma. A observação dos astros agora nos dava conselhos de amor nas contracapas de jornais. Enfim, o credo cético e empírico das ciências naturais formais pervertia-se em relações venéreas com o que houvesse de mais esotérico na ordem do dia. E assim a rigidez do método científico começou a deixar a filosofia para que a especulação voltasse a ser sua nau nos mares bravios do antirracionalismo.

O ceticismo para com a ciência ainda é intenso na cultura ocidental do pós-guerra. Cada dia, mais pessoas se negam a vacinar os filhos por crerem em conspirações do alto clero governamental ou na quimera de crenças ortodoxas. Mais mães decidem ter o parto em casa, pois parece ser mais natural e menos perigoso e artificial que no leito de um hospital, aderindo um simbolismo quasi-místico e transcendental  ao ato de dar a luz, que nos aproxima de um pensamento tribal, onde a doula vira um pagé de luvas antissépticas.

Aliás, nunca fomos tão obcecados com a natureza, de um ponto de vista do mito e da transcendência do material. Cremos piamente que dietas “naturais” podem prevenir danos internos e, até, externos em nosso corpo. É como se o combustível do carro o impedisse de ter seu motor fundido, de ter falha mecânica ou elétrica, de sofrer um acidente na estrada. Chegamos ao ponto de fazer dietas baseadas no que comia o homem paleolítico, que tinha a fome como sua principal causa de morte. Tudo o que cheira ao agridoce miasma de capim nos encanta. A vida dura da caça, das altíssimas taxas de mortalidade infantil por infecções no parto, da expectativa de vida que acabava nos primeiro passos da adultez… tudo parece ser melhor que o nosso mundo tecnocrático e frio. Toda a emulação de um estilo de vida naturalístico, ainda que, normalmente, apenas por um fim de semana e munido de muito protetor contra mosquitos, nos fascina. Ah, eram os antigos, antes do computador e do Prozac, que sabiam viver!

E é essa descrença com os avanços reluzentes da ciência que galopa no credo do dia a dia. Enquanto o capital escraviza os corpos e mentes de milhões, nossa fantasia é comprar um pacote de viagem até algum lugar “intocado” pelo homem, com todas as suas trilhas, guias e um McDonalds para as crianças fecharem a matraca. Nossa falta de fé no progresso, que agora simplesmente não existe já que incide numa ideia de universalidade e esta palavra é a gafe mais grosseira que alguém pode cometer no meio intelectual contemporâneo, nos faz nos refugiarmos num retorno ao primitivismo, sem medir nenhuma consequência real do que isto implicaria. Nossa resposta a patologia do selfie, ao narcisismo incontrolável e a era do ansiolítico não se debruçam numa investigação causal de nossa agonia moderna, mas apenas sintetizam um desejo de ser tolhido de ter acesso ao mundo civilizado, como crianças que, secretamente, clamam pela indiferença do pai.

Classes já não existem. O capitalismo, se um dia existiu, já acabou. Deixamos de enfrentar problemas complexos para jogarmos todas as contradições numa bacia das almas que se chama identidade. E é a identidade moderna que não suporta o progresso, pois ele a força a se mover, tal e qual os corpos celestes.Se nossa motivação no mundo não existe; não está na religião, não está na ciência e nem na revolução, o romance de um mundo pastoral e bucólico parece ser a única alternativa. E é a maldita ciência patriarcal que violenta nossos corpos e mentes para fazê-los facsímiles de suas fantasias high-tech. 

Entretanto, a experiência segue fazendo sua cama em cima de nossa metafísica irracionalista. A doula mata mais que o médico. A dieta da moda não nos dá o dom de Highlander e seu Deus não é nenhum nutricionista. A “medicinaalternativa pode te matar e, provavelmente, está te fazendo de bobo. Não vacinar seu filho pode te colocar na cadeia. Ainda que, obviamente, a nossa medicina não seja perfeita ou indefectível,  é curioso que ela sofra tanta resistência por sua porcentagem de falhas e a medicina alternativa siga a criar montanhas de evidências de sua ineficácia diariamente e ainda assim lhe damos atenção. É pensar em todo o processo como transcendência e não como, bem, algo que vai permitir que você continue vivo.

E, sim: quando você quiser voar, não conte com uma águia, mas sim com um avião; quando você quiser chegar a um lugar, não pedirá ajuda aos astros, mas ao gps; quando quebrar a perna não realinhará os chakras, mas sim seus ossos com um traumatologista;  quando seu parto chegar na marca de dezenas de horas e as dores excruciantes chegarem bem como o seu bebê correr risco de se enforcar dentro de você, nem todo o incenso, a meia-luz, o disco do Yanni no aparelho de som e o fino do hippie chic vai te impedir de ir para uma sala branca, com cheiro de desinfetante e com menos espiritualidade new age e mais treinamento obstetricio; quando você tiver que materializar sua tese de mestrado, nem todo o charme vintage de um papiro e tinta de urucum vão substituir a impressora e a folha A4; quando você estiver na natureza selvagem, nenhuma glossolalia excitada pelo espírito pantagruélico da Mãe Gaia vai te salvar da picada de uma cobra assustadora – a não ser que você seja agraciado pelo encontro randômico com uma ambulância cheia de antiofídico, desviada do caminho da cidade e perdida no coração da savana africana, comece a contar, com os números e medidas da matemática chauvinista, em minutos o seu tempo na terra.

Por pior, mais conturbada, mais patológica, mais decepcionante e vazia de significado universal, a vida é daquelas coisas que nutrimos um apego que está acima de nossas fantasias metafísicas. Tê-la por perto por mais tempo não é motivo para chorar. É claro que reduzi-la a um protobiologismo barato ou a um mero construto identitário que nos petrifica pode tornar o caminho mais árduo. É com o anúncio da morte da acética esperança que acabamos por deixar o progresso cair nas mãos de quem o quer fazer de arma, não de bálsamo. E é a atitude contra a ciência que nos deixa em desvantagem em uma batalha tão perene como esta.

É dela que precisamos nos apropriar, como um meio possível, para engendrar nossa vingança contra quem a sequestrou para o mal. Não é chamando a ciência de produto do patriarcado, mas apoiando meios para termos mais mulheres cientistas; não é negando a empiria, mas sim observando que nem tudo pode ser quantificado ou explicado apenas por uma metodologia precisada em modelos previamente dispostos; não é divorciando a ciência da política por completo, mas sim compreendendo que é só através do rigor que podemos estabelecer modelos que visem o progresso; não é destruir a natureza, mas sim usar-se da ciência, tanto como um poderoso argumento e também como meio, para impedir que a violência antinômica e niilista do capital siga a estuprando por lucro; não é negligenciando milhões de pessoas que passam fome que a fome vai desaparecer; não é apenas apontando o dedo para a maligna indústria farmacêutica que os bebês aidéticos do norte da África deixarão de receber um atestado de óbito no primeiro momento que respirarem o oxigênio do nosso mundo.

A ciência é um instrumento. Se ela é usada para escravizar, matar, separar, coagir e oprimir, é porque a abandonamos no primeiro sinal de que o projeto dos modernos e sua fé irrestrita nela talvez fossem um tanto exagerados. Não existe sociedade para o futuro sem tecnologia, queiram ou não queiram os antropólogos amadores e os hippies. Abrir mão dela não a destrói, só a faz um instrumento na mão daqueles que querem destruir o nosso planeta e nos obrigar a fazer parte disto. Negá-la é, enfim, negar o futuro da nossa espécie. Se você é tão romântico a ponto de achar isto bom e continuar com este pensamento ao olhar para o sorriso tímido de uma criança ou ao acordar toda manhã e vislumbrar o belíssimo céu anis da aurora, então boa sorte em sua viagem ao outro mundo. Eu prefiro ficar com a minha tola e débil esperança. E meu computador.

GULARTE

Rodrigo Gularte e a morte como transcendência

Existe um pequeno conto do americano Melville que tem como título “Bartleby, o escrivão”. Nele, o personagem Bartleby é um sujeito profundamente taciturno, de olhar sôfrego e de modos austeros. Seu chefe lhe manda fazer tarefas e ele se recusa, proferindo a infame resposta: “prefiro não fazer”. A forma com que Bartleby apresenta sua recusa, com total desapego e falta da mínima centelha de ousadia ou altivez, como que apenas desinteressado na ação e não movido por galhardia, acaba por provocar uma miríade de diferentes reações em seu empregador, narrador da história. Ora ele reage com espanto, ora com angústia até chegar a uma compaixão comedida e, mesmo, a repugnância por criatura tão vazia. De repente, o narrador se angustia de forma profunda e percebemos que o conto nunca foi sobre Bartleby, mas sobre o sóbrio chefe advogado, homem de seu tempo, de modos e éticas definidas, de regras e sentidos. Dentre o universo de interpretações, aquela que me atingiu foi a de que ele, o narrador, passou a se enxergar na figura vazia e oca de Bartleby, alguém sem alma, apenas a casca. Ou melhor; ele passa a enxergar um possível futuro inexequível uma vez que olhou nos olhos do mesmo. Um momento célebre do conto se passa quando o chefe e seus outros funcionários passam a utilizar o verbo preferir no presente do indicativo sem nem perceber o quão contagiados estão pelo misterioso colega. O ponto mais importante do desfecho do conto se dá na página final, quando o narrador nos confia um boato que poderia vir a explicar a inexplicável apatia do escrivão. Bartleby trabalhara, anteriormente, em uma seção dos correios onde recebia cartas extraviadas e tinha como missão queimá-las. Nos envelopes, cartas de amor, anéis de noivado, dinheiro para honrar com compromissos; enfim, toda uma dimensão afetiva se esvaia no fogo, como se fossem o que afinal eram – objetos atômicos que eram apenas unidades materiais em si, desprovidas de qualquer signo humano. Não recusaríamos a destruição daquela que, em última instância, é a nossa própria humanidade se fosse-nos pedido?

Nesta semana, o brasileiro Rodrigo Gularte foi executado na Indonésia pelo crime de tráfico de drogas. Como que alimentada pelo interesse mórbido de uma sociedade sempre fascinada pela destruição, a imprensa passou a publicar diversas matérias esmiuçando os detalhes mais íntimos da vida de Gularte. Aprendemos que ele era filho de latifundiário, oriundo de família rica e que sempre viveu cercado dos luxos que desejava. Soubemos que iniciou no mundo das drogas aos 13 anos, inalando solvente e passou boa parte da juventude em uma escalada de prazeres hedonistas e apreciação das luxúrias materiais. Nos contaram que seus pais abriram diversos negócios para ele gerenciar e todos, sem exceção, vieram a falência porque Rodrigo não tinha o mínimo interesse no trabalho. Até mesmo o fato de que a mãe do rapaz pagou um juiz para livrar-lhe de uma sentença veio a público. Posteriormente, Rodrigo decidiu se tornar um traficante “light” – em suas próprias palavras – e teve como destino as Indonésia, revendendo o material de um grande traficante fluminense. Segundo ele, se tivesse atingido seu objetivo, estaria surfando nas praias paradisíacas do país oriental, cercado das mais belas mulheres que o dinheiro pode comprar.

Curiosamente, estes detalhes causaram uma reação diversa em setores da opinião pública. Os que moralizaram o debate sobre a morte de Marco Archer, o que foi executado primeiro pelo mesmo crime, seguiram no mesmo tom, aumentando a reprimenda pelo fato de Rodrigo ser rico e ter “tudo o que se pode querer”. Entretanto, fenômeno mais interessante se deu nos círculos dos opositores radicais à pena de morta, que pareceram titubear frente à biografia controversa do homem. Para eles, a vítima da pena de morte precisa encarnar uma determinada identidade, que lhe agrega ao grupo das “vítimas sociais”. Caso sua biografia não possa ser distorcida ao ponto de se tornar irreconhecível, a oposição à pena de morte passa por uma mutação e torna-se uma espécie de ação condicionada identitária. “Ainda que siga sendo opositor, eu tenho a obrigação moral de inserir um asterisco que contém uma reprimenda ao estilo de vida do rapaz, a educação falha dos pais permissivos e o hedonismo produto da corrupção moral do capital”.

De certa forma, é uma oposição sujeita a intempérie dos afetos e da subjetividade, relegando ao sujeito a primazia da moralidade ou imoralidade da prerrogativa do assassinato nas mãos do Estado. Sob a letra escarlate da lei, não há diferença razoável entre um pedófilo, um assassino de bebês, um playboy mimado ou um camponês idoso que assassina um maligno latifundiário dada a invasão de sua terra arrendada; a pena de morte é inaplicável, independente de nossa simpatia, de nossas compaixões ou de nossa irascibilidade. Ao menos, esta é a práxis político-ideológica em seu estado ideal.

Mas, para além da questão superficial da pena de morte, existe uma discussão, encravada na crosta terrestre da tragédia de Rodrigo Gularte, que deve ser escavada, caso queiramos compreender o atual momento em que estamos inserido. Deslocando-se do terreno das amenidades morais e das picuinhas jurídicas, encontramos um campo árido, de difícil irrigação, que necessita de uma intensa batalha contra nosso próprio instinto erótico da autopreservação, dado o fato de que sua reflexão nos leva à verdades que não se comportam como metralhadoras que podemos apontar para fora, mas que precisam alvejar toda a organização de um sistema de sentidos interno.

Rodrigo foi buscar a morte nas Indonésia. Como? Que tipo de afirmação medonha é esta? Como um hedonista que nunca conheceu limites iria procurar logo o mais abreviador de todos os limites? O fato é que quando você passa a inalar tinner com 13 anos de idade, existe algo para além da obtenção momentânea do prazer que lhe impinge ação tão agressiva. Tudo o que ele disse ter ido buscar na Indonésia, ele possuía no Brasil. Com sua condição financeira, poderia ter o carro que quisesse, poderia surfar nas praias paradisíacas do Estado vizinho ao seu, poderia comprar as mulheres, poderia ter acesso livre às drogas, poderia gozar de tudo que queria na vida sem nenhum entrave. E teve tudo isto. Por qual motivo trocaria um País muito mais permissivo, de espírito legislativo muito mais corruptivo e onde estava perto de seus abastados provedores, para buscar os mesmos prazeres em um país distante, muito mais punitivo em relação, justamente, à atividade criminosa que praticava?

Estamos inseridos naquilo que teóricos como Jean Baudrillard e Zygmunt Bauman convencionaram chamar de “sociedade de consumo”. Digamos que este é o terceiro estágio “moral” do capitalismo, que sucede a era das relações mercantilistas e a da ética “workaholic” do capitalismo industrial. Poucos trabalhadores estão inseridos nos setores de produção de comoddities; a maioria se concentra no setor terciário, que vende estas comoddities, Isto se deu a partir de uma instrumentalização massiva das tecnologias, que acabaram por automatizar a produção e diminuir a necessidade da intervenção humana. Dado o novo contexto material de produção, o capitalismo passou por uma transformação radical, tornando obsoleto o léxico do velho socialismo já que, hoje, mesmo em um nível identitário, poucos se reconhecem como “proletários”.

O sociólogo Max Weber investigou o capital do início do fim do século XX e, ao invés de formular um tratado econômico sobre as condições materiais da expansão desenfreada capitalista, optou por fazer a hagiografia do “espírito” capitalista, remontando à reforma protestante. É dela, explica Weber, que o capitalismo industrial herdara a disposição perene ao trabalho. Na ética protestante, sobretudo com a revisão calvinista, o labor era, por si próprio, uma aproximação da certeza de predestinação à salvação, liberando o homem cristão ao cultivo do empreendedorismo que já não mais se censurava pela obtenção do excedente e por uma ganância branca. O que o capitalista ganhava era reinvestido no negócio, ampliando-o a velocidades notáveis.

Porém, com a transformação dos meios de produção durante a evolução do século XX, tal paradigma foi quebrado e a ética protestante acabou por se dissolver. A necessidade de criar uma sociedade onde o consumo seria o signo da solidariedade entre os homens se fez perene, a fim de criar o fluxo necessário para aplacar a formidável capacidade de produção em massa das novas forças produtoras. Ainda que sustentado por um esteio material, o novo formato do capitalismo acabou por ter de operar uma minuciosa transformação na relação da psique humana para com a sociedade. Se antes, o signo do trabalho era o dínamo das relações intrapessoais, agora era necessário manter a coesão através do consumo dos comoddities produzidos em massa.

E assim chegamos novamente em Rodrigo Gularte. O que ele tinha, ainda em tenra idade, é o que trabalhamos durante 30 ou 40 anos para comprar. Não se tratava da moeda papel em si mas sim de seu valor simbólico-fantasmático: a obtenção do gozo perpétuo. Rodrigo se defrontou com esta realidade muito cedo. Como um cidadão do mundo que lhe cerca, ele percebeu que estava no topo, que todos os outros sangravam para chegar, desde o princípio de sua vida. E, portanto, a narrativa ilusória do gozo perpétuo não pode lhe fazer companhia por muito tempo.

Se seguirmos abordando este viés, podemos articular algumas suposições. Em suas elaborações sobre o hedonismo, Freud nos revela importante minúcia sobre esta pulsão central na vida psíquica dos homens: o sentimento de busca incessante pelo prazer em detrimento a dor não é uma escolha ética mas sim uma imposição psíquica. Neste ponto, somos “programados” para viver uma incessante busca por um estado permanente e imóvel de prazer. Naturalmente, após suas experiências com a cocaína, Freud reconheceu a importância das drogas neste processo. Rodrigo teve acesso a todos os prazeres que poderia comprar quando ainda criança. E, ainda no princípio da adolescência, já estava envolvido com o que Freud chamava de o mais grosseiro método de influência.

Digressando ao ponto onde decidiu traficar drogas para a Indonésia, Gularte vivia uma experiência de administração de sua insatisfação. Existe um limite estabelecido para a sociedade de consumo e, ao atingi-lo, o consumidor-cidadão é exposto a uma verdade incômoda, que lhe traduz a dificuldade de converter a economia libidinal despendida a busca do prazer para conformar-se aos limites materiais do consumismo. Como as transcendências do passado foram excluídas do plano social por representarem uma espécie de revogação do espírito ao vazio da dinâmica do consumidor – a saber, a espiritualidade, a ideologia, o dogma -, a única potência humana que não pode ser apreendida por este Leviatã e que, inclusive, é indesejada em um primeiro momento, é a morte.

Perseguir a morte não é um tema pós-moderno. A escola socrática já contemplava o fim da vida biológica como um ato de transcendência das prisões fisiológicas de um corpo imperfeito. O “ser para morte” se modifica dentre diversas vozes do pensamento filosófico, desde Schopenhauer até Heidegger. Na psicologia, Freud retoma o tema com a pulsão para a morte, um processo que se revela como antagonista do instinto necessário de autopreservação. É nela que podemos nos aferrar quando pensamos na tragédia de Rodrigo Gularte.

Em uma entrevista cinco meses antes da execução, o prisioneiro contou que só foi  saber tardiamente sobre um aparelho de raio-x potente comprado pela Indonésia junto ao Japão – que detectou a cocaína escondida dentro de suas pranchas. Apesar de entrarmos em um terreno absolutamente especulativo, dada a escassez de dados e o fato que de que não tivemos uma transferência entre o homem e um profisional da psicoterapia para adentrar em suas minúcias, é possível imaginar que, talvez, Rodrigo tenha visto, sem grande interesse, uma matéria na televisão sobre tal máquina. Ou quem sabe alguém falou vagamente sobre tal. Não é preciso de muito para que o nosso inconsciente apreenda informações que fogem ao desatento consciente utilitarista.

Independente disto, é interessante, como processo de abstração, imaginar o porquê de pessoas bem sucedidas financeiramente irem de encontro a uma atividade sistemática de crime. O mundo do tráfico é hostil, hipermasculino e selvagem. Além de caminhar à margem da lei, o sujeito sabe que, a qualquer momento, o seu braço direito na organização pode lhe matar – e que deve matá-lo antes. Neste panorama, de ares de filme de gangster, materializa-se, claramente, uma pulsão destrutiva que, invariavelmente, se vira para dentro, à despeito dos danos exteriores que causa. Em nossa “cultura-para-a-morte”, levando em conta o pathos social (que é, hoje, o sentido mais possível de uma solidariedade organicista entre os homens) do desconforto com a dinâmica do consumismo, o bandido retorna a um lugar de destaque pois ele, ainda que por vias muito suspeitas, é agente de uma anomia que se põe contra a ordem estabelecida pela configuração do capital. Não é o complexo de Robin Hood; o que nos atrai é a destruição externa e interna que ele carrega em seus atos.

Gularte fala em reconhecimento. Nunca foi sobre dinheiro mas sobre uma transcendência que o colocaria na posição de um Radamantos, juiz acima da comunidade que lhe servia. Foi o desencantamento com a sociedade de consumo que o levou a desejar o crime. Porém, para além da realidade objetiva, o nada encontrado pelo jovem, que caminhava no círculo eterno do gozo dos prazeres inócuos e esvaziados de sentido de sua vida materialmente bem sucedida, talvez tenha sido o elemento central em sua jornada rumo ao perigo total de adentrar um dos países com legislação mais rigorosa do mundo com 50 kg de cocaína. É como ir de encontro ao limite de uma ponte; talvez você sobreviva mas as chances são próximas do zero.

Se a morte é a única experiência humana na sociedade de consumo, é preciso pensar em como ela reproduz sua disposição para lidar com este grave distúrbio do processo de dissolução identitária do eu. Se o fetichismo da mercadoria é o símbolo das relações consumistas de hoje, é natural que a morte componha o fetiche máximo da transcendência, visto que é a renúncia ao gozo das mercadorias. Como unidades biológicas, somos forçados a participar deste balcão de prazeres, ainda que sob o preço da enfermidade psíquica. Porém, o término das atividades de nosso corpo físico é a transgressão única possível.

O que nos causa enorme tensão ao olhar nos olhos de Bartleby não é o medo dele ou mesmo compaixão por, mas o medo de que sejamos o simulacro e ele a nossa realidade. E a urgência que a nossa psique patologizada imprime em nosso corpo, criando uma constante batalha entre a adequação da busca pela felicidade aos meios dispostos e a realização da impossibilidade da mesma se concretizar por mesmos meios, acaba por nos esmagar e nos direcionar rumo a uma necessidade de transcendência espiritual. Onde a religião já foi desmistificada, onde as ideologias se tornaram ensaios de uma mente infantil e onde o espírito já rendeu-se aos caprichos do corpo, não há mais lugar para nada humano – se não o meu domínio, só meu, de minha morte.

Bartleby, o escrivão, era um espelho para o angustiado narrador do conto de Melville. Nele, ele enxergava a dissolução total do espírito humano, que estava em curso na sua própria vida. E o abalo causado em sua vidinha regrada, de ganhos consideráveis por serviços mudanos e que se media na cortesia e na superficialidade de relações mecânicas acabaria por, para seu desespero, fazer todos os sentidos que criou para sua relação com aquele mundo, deixarem de, enfim, fazer sentido.

07.05.2011Ed Motta no seu apartamento no Jardim Botânico.Foto: Selmy Yassuda

Uma nota sobre o caso Ed Motta

Com a ascensão do modelo capitalista de produção em massa, ainda no século XIX, outros setores da atividade humana também passaram por processos de transformação. Mesmo os trabalhos que eram produtos da subjetividade tiveram de situar-se no novo paradigma, perpetuando a criação de mercados, nichos econômicos e, portanto, perderam o caráter ideativo de espontaneidade, tendo que se aproximar de um ambiente sistematizado para sua apreciação no plano competitivo do capital. Assim, expressões como “mercado editorial” se tornaram presentes na vida de escritores e, em um movimento ascendente, os editores e as grandes companhias de publicação (as publishing houses) passaram a assumir papel principal e não mais secundário e terciário como antigamente.

Desta maneira, a figura do artista teve de passar por uma metamorfose para adequar-se ao processo de objetivação da estética em mercadoria, tendo de acompanhar novas platitudes psíquicas como o “fetiche da mercadoria” e as neuroses adjuntas ao veloz crescimento da valoração financeira e medição de popularidade de suas obras, agora despersonalizadas pela pressão mercadológica do ramo editorial, de publicação ou, mesmo, dos circuitos de exibição de artes plásticas e visuais.

A evolução acabou criando uma dicotomia essencial, que ainda faz parte do nosso tempo: como apreender o objetivismo da mercadoria em uma obra de dimensão puramente estética e subjetiva? Neste sentido, grandes rompimentos se seguiram e as vanguardas do século XX passaram a apreciar a forma acima do conteúdo, como que enxergando na estética uma espécie de efeito valorativo criado pela apreciação do belo, comum à todas as encarnações das sociedades burguesas. O Dada, o Surrealismo, o Realismo Soviético (…) buscavam uma rejeição total do fetichismo adjacente à mercadoria, valendo-se de uma nova configuração de oposição ao que se associava ao clássico.

Posteriormente, após o advento das duas grandes guerras, as relações capitalistas passaram a se tornar ainda mais sofisticadas, engendrando um projeto de globalização através da criação de uma rede econômica de interdependência. A partir daí, novos segmentos da arte já nasciam sob os signos de mercado e mercadoria. É fato que a música popular, por exemplo, já “surge” como uma commodity, regulada pelos sabores do mercado. Ainda que movimentos como a musique concreté tenham despontado na mesma verve das rupturas estéticas do início do século, a música popular acabou por ter em si, a partir de uma origem antropológica, o signo do valor medido em bem comum maximizado.

Hoje, já no século XXI, existe uma percepção massiva de que um artista deve estar à serviço do mercado e, portanto, do consumidor. É por tal motivo que estranhamos quando alguém renega a este paradigma e nos sentimos ofendidos por tal disparate. Se as relações de consumo são todas mediadas pela percepção de que o valor pago em moeda representa uma espécie de apropriação de tal objeto, naturalmente a dicotomia do autor x mercado acaba por nortear um debate difícil e árido.

Ed Motta, centro de polêmica recente, vem, desde um tempo considerável, se retirando do espectro do popularesco, isto é, daquilo que se comporta como bem comum para o interesse do consumidor. Sua música é popular, apreendendo ritmos nascidos e criados nos grilhões da música pop. Porém, devido a um processo que passa pela intervenção de novas tecnologias, introdutórias de um modelo cada vez mais sintético que, por sua vez, acaba por desumanizar a música e aproximá-la de uma constante e idêntica produção mecânica em massa – algo como a subvenção da manufatura pelo processo industrial -, os ritmos abordados pelo trabalho do artista acabaram por ser absorvidos por um nicho de mercado; algo como uma reserva destinada a um grupo limitado e mais exigente de consumidores.

Motta manifestou-se pela internet alegando que não gostaria de ter fãs brasileiros pedindo, nos shows que realizaria em turnê pela Europa, canções mais populares de sua autoria que foram baluartes nas rádios nos anos 90. Ele, que apresenta projeto todo cantado em inglês, alega que este seria o mesmo público que consome o que há de mais popularesco na produção musical brasileira e que não estariam em seu show por um interesse no trabalho autoral do artista, mas sim para ouvir as poucas músicas que conhecem por intervenção dos meios de comunicação de massa.

O cantor e instrumentista prosseguiu sua diatribe quando foi alvo de comentários críticos, alegando que ele estaria se valendo de um posicionamento elitista e renegando sua identidade brasileira. Motta respondeu com insultos e falas de conteúdo preconceituoso, acirrando a polêmica e criando um mal-estar para o prosseguimento de sua série de apresentações.

Tirando os termos chulos e as colocações de cunho pedante e preconceituoso feitas posteriormente, provavelmente em parte frutos de um momento de indignação, Motta parece ter gerado o mal-estar no debate público por motivos diferentes daqueles apontados. Não é incomum que artistas que habitam um espectro menos comercial da produção musical no país apresentem tendências “aristocráticas”, valendo-se de uma maior erudição e sofisticação em suas composições para concluir que sua obra é de natureza seletiva. Dado o fenômeno, que parece ter raízes numa noção mercadológica que se apoia em uma espécie de publicidade calcada em um obscurantismo para vender o sentimento de superioridade intelectual sobre os demais, muitas vezes estes artistas incorrem em declarações polêmicas, que aprazem seus fãs e lhes garantem o rótulo de “incompreendidos” por uma maioria selvagem e sem educação.

Entretanto, escavando a superfície deste imbróglio, é possível apreender algumas dimensões que acabam mistificadas por um argumento identitário. Motta, inconscientemente, através do ato de renegar suas “mercadorias” mais valiosas, isto é, os hits estabelecidos, acaba por romper com o signo da arte como bem comum. O que isto quer dizer? Motta se colocou no “centro” do espetáculo e retirou os consumidores, isto é, aqueles que pagam o ingresso para assisti-lo, do comando de seu show. Uma vez que ele altera a dinâmica do espetáculo moderno, colocando o público na posição de passividade, causa uma revolta inconsciente, como se subvertesse todo um processo diário e contínuo de relações de consumo, forçando o espectador a ser, meramente, um observador e não mais um sujeito ativo.

É comum que pessoas aleguem que, quando estão pagando, isto é, trocando um bem de consumo ou serviço por dinheiro, têm todo o direito de exigir o que bem entenderem, ainda que as vezes as expectativas beirem o irreal. Artistas não têm o direito de pensar e executar sua obra apenas sob os auspícios de sua vontade. Uma vez que são pagos para perfomarem, os pagantes não podem sentir-se retirados do processo criativo. O ingresso vale mais para o aluguel de um espaço animado por um repertório de minha escolha, onde possa extravasar e cantar, rir e chorar, dançar e ter os sentidos excitados por parafernália visual e sonora, do que para ver um artista executar sua arte. O próprio conceito de show é resultado do processo de esvaziamento da performance de suas qualidades estéticas, tornando-o uma mera execução do que foi gravado anteriormente, com o sabor de ter os artistas, eles próprios mercadorias, executando o material mediante ao pagamento; o consumidor aluga o artista e o local por duas horas para que ele lhe sirva, tal qual um bardo.

Com esta finalidade, um show não é o espaço adequado para que um artista desvele sua visão de mundo; ele deve apreender o interesse comunitário de seus consumidores. Existe um contrato tácito que permite que ele execute canções que não são muito conhecidas ou que fazem parte de um trabalho recente desde que inclua aquelas pela qual o público pagou para ouvir.

Motta rejeitou este contrato e alegou que só tocaria as canções que deseja tocar, parte do novo trabalho que é apenas conhecido e apreciado por um nicho minoritário dos ouvintes. Ao fazê-lo, o público sentiu-se ameaçado e como não poderia recorrer ao “Procon”, criou uma argumentação para justificar um ataque ao artista que se recusou a ser mercadoria. Como a música ainda é percebida pelo público como uma manifestação subjetiva da alma humana – noção que o negócio multimilionário das gravadoras já desconstruiu há muito -, seria impossível reclamar na condição de consumidor, levando a adoção de uma argumento utilitário que considera Motta um traidor da pátria. E, posteriormente, o próprio colaborou para tal subterfúgio ter efeito.

O uníssono nas críticas ao músico não foi produto de uma hermenêutica coletiva acerca da rejeição identitária ou mesmo do sentimento de que havia ali uma ingratidão; estas críticas foram feitas por consumidores e não por cidadãos nativos ou apreciadores das artes. O teor ofensivo nas declarações de Motta é a devolução do “pagante” para o estado de passividade, invertendo um processo que norteia as relações de consumo em todo o aparato capitalista. Revoltados por não terem mais direitos em um domínio que julgavam seu, os consumidores de música sentiram-se impelidos a protestar, ainda que de forma sub-reptícia por uma questão de estarem tratando com um tipo de mercadoria que é considerada nobre demais para ser captada apenas em termos absolutamente frios e jurídicos.

Um Charlie Hebdo incomoda muita gente

Muito foi falado sobre a questão dos ataques à publicação francesa de extrema-esquerda Charlie Hebdo. Os conservadores tomaram a via da sagrada liberdade de expressão para defender e justificar a xenofobia e a provável tomada de decisões políticas e militares para atacarem imigrantes não ocidentais. Os ignorantes no assunto lamentaram as mortes, mas se posicionaram em cima do muro com relação ao debate axiomático da expressão sem limites x limite ético da liberdade, alegando não saberem dos fatos para tomarem, efetivamente, um lado. Entretanto, por uma questão de cretinice e conveniência, a direita acabou por se declarar a paladina da liberdade em nome do material que era publicado em Charlie Hebdo – na linha daquela citação erroneamente atribuída a Voltaire. Para a surpresa de ninguém, que mais atacou o conteúdo da revista foram os liberais.

O coro de que a publicação foi longe demais em suas provocações às religiões (leia: ao Islã) só poderia ser entoado pela esquerda de nosso tempo. Na tradição moderna da ambivalência binárias das forças políticas, a proposição é quase infantil: se a direita se posiciona contra o Islã, nós vamos defendê-lo. É a explicação simples que pode nos levar ao entendimento do porquê o catolicismo e o judaísmo não podem dar um “ai” sem serem atacados e o Islã, radical ou moderado, tem sempre seu direito de expressão assegurado como forma legítima de impedir um etnocidio cultural. É claro que a questão passa longe de ser resumida nesta forma simplória afinal existem grupos vulneráveis e marginalizados envolvidos nesta história e se faz esquerda, justamente, neste tipo de cenário. Porém, o ataque à revista francesa deixa claro que estamos tolerando de mais, no momento em que esta tolerância faz com que desamparemos os nossos e abracemos nossos inimigos políticos e morais.

A bandeira da antixenofobia é uma bandeira que deve ser levantada. Imigrantes islâmicos/árabes passam o inferno e sofrem uma rejeição cruel que não fica apenas no âmbito do convívio, mas toma forma material na instrumentalização política e no aparato repressor sob seu judice. Entretanto, como transpor este cenário e conseguir separá-lo da questão do terrorismo internacional? Será que estes movimentos são resultado da opressão praticada no mundo Ocidental e secular contra minorias religiosas? Não é bem o que vemos. Na verdade, isto é uma argumentação sofismática que sequestra um fato observável e o contorce para que lhe caiba à causa a ser defendida. E a parte preocupante é que, criando a ideia de que o gatilho do pseudofundamentalismo é, apenas, a opressão de minorias religiosas no mundo secular, estamos demonizando nossas virtudes e conjurando uma cortina de fumaça sob o debate.

Assim, caímos no jogo maniqueísta proposto pela direita: soa muito mais moderno e secular defender a liberdade de expressão do que se colocar em favor psicopatas que explodem pessoas – e a si mesmos – por uma crença religiosa. Qualquer sujeito sensato, que não esteja a par das nuances deste debate, tomaria a primeira via. E é este discurso, de aparência inócua e virtuosa, que se esconde a ignomínia perversa da xenofobia.

A situação é complexa: não podemos tomar o lado do cinismo das mãos dadas dos líderes europeus (e devemos lhes atacar por tal), mas correr para os braços de uma anticrítica multiculturalista, ambivalente e seletiva, que é igualmente oportunista, pode determinar a ruína do posicionamento liberal em relação a legitimidade dos direitos de imigrantes. Criticar o conteúdo de Charlie Hebdo neste momento é, sim, justificar o ataque. Apelar para um argumento dramático que joga a culpa na maioria católica da população francesa é contraprodutivo pois falha em contabilizar uma das principais características do “fundamentalismo” islâmico, observada por Slavoj Zizek: o incômodo causado pelo mundo secular é uma indicação direta de que existe um desejo interno de querer pertencer a ele. Um budista não mata porque o resto do mundo não está de acordo com sua teologia. O “nirvana” está na indiferença que ele nutre pelo mundo lá fora.  Desconsiderar este paradigma é legitimar a violência causada pela confusão psíquica e não por uma verdade transcendental. E fazendo isto, estamos a ajudar a tornar a via da psicose como única alternativa para jovens que estão lidando com as contradições da experiência material.

Ao invés de amparar aqueles que lutam pela humanização de suas sociedades, estamos nutrindo um sentimento de ódio e automutilação espiritual destas pessoas. Nosso ódio à colonização eurocêntrica e aos valores da democracia representativa nos levou a legitimar os comportamentos mais aberrantes, provenientes de psicoses e patologias individuais. Estamos incentivando o barbarismo sob o lema do “inimigo do meu inimigo é meu amigo”. Em última instância, estamos falhando miseravelmente em oferecer uma esperança, a força motriz do humanismo. Possivelmente, dentro de algum tempo, estaremos esperando, pacientemente, por nosso ingresso na Valhalla, para podermos escravizar nossas virgens por toda a eternidade.

Lacunas

O pensador cristão Santo Agostinho propôs uma resolução prática para um problema antigo da teologia cristã: o mal no mundo não era obra de Deus mas sim sua ausência. Quando um homem levantava a mão para matar outro, era uma lacuna da presença do próprio Deus que possibilitava sua ação. Lacunas, um espaço vazio. É este o panorama político da sociedade em que vivemos – um espaço minado de cantos e dobras vazias, que são preenchidas com substâncias nem sempre visíveis mas quase sempre incômodas.

A esquerda brasileira se pergunta como pôde haver uma ascensão tão expressiva do pensamento conservador reacionário sem que nenhum fenômeno prévio possa ter sido percebido. É uma boa pergunta mas deve ser feita, inicialmente, utilizando a primeira pessoa do singular: o que eu fiz (ou não fiz) para que isto fosse possível? Só após um exame de autoconsciência será possível chegar a uma resposta satisfatória.

Vivemos em tempos de maximização dos prazeres. Nas listas de best sellers, constam sempre três ou quatro livros de autoajuda, a teologia do século XXI. Neles, os mantras são repetidos ad nauseam: seja você mesmo; não se importe com o que os outros pensam; um erro seu é, na verdade, a incompreensão dos demais. Em última instância o dogma central desta nova religião é um: não se importe com os outros. Egoísmo requentado com uma bela roupagem florida – a cara simpática que Ayn Rand não soube dar ao seu discurso. Não aceitamos dor como produto da existência; só aceitamos gozo. Não aceitamos não; só aceitamos a aprovação total e geral do nosso comportamento. É fascismo porque pressupõe que uma superioridade individual legitima a ideia de que você pode exceder os limites práticos da lei, os limites tácitos do convívio e os limites abstratos da moral.

A lacuna deixada pela rigidez das verdades universais é preenchida com versões de uma moralidade dúbia e pobre, como a descrita acima. Não que estas verdades não tenham de passar diariamente pelo escrutínio da razão; porém, dados os devidos vaticínios, uma nova substância deve surgir. É isto, exatamente, que o liberalismo relativista e multicultural impede que a esquerda faça. No frenesi de se desconstruir, esta nova abstração reduz a si mesma a um paradoxo – uma cobra que morde o próprio rabo. E desta ação, resultam lacunas e lacunas, prontas para serem preenchidas com o que há de imediato à disposição. E é por isto que o pensamento reacionário que pulula, sobretudo, da cabeça de jovens em luta diária contra o vazio da existência nutre um profundo desgosto pela razão – na lacuna deixada pelo seu desuso.

Quando deixamos de pensar, tomamos por necessário achar um substituto. E são nestes momentos que o que há de mais danoso acaba saindo das cavernas íngremes da ignorância e toma forma no real. Falhamos espetacularmente em educar as gerações que vieram após a queda do regime militar. Devido a uma tendência mundial de abandonar qualquer pensamento que se deslocasse de mais para a esquerda após os horrores do Kremlin tombarem na lata de lixo da história, decidimos que a coalizão de forças absolutamente opostas seria o formato mais indicado para a continuação de um projeto de esquerda. E nesta nova realidade, um período de trevas, que ainda não bem acabara, teve de ser imediatamente apagado das nossas memórias para que não despertasse novos e velhos ressentimentos.

Onde chegamos com isto? Em jovens de 18 anos, separados pelo tempo e pela memória do período militar, clamando por um golpe protagonizado pelas forças armadas. Não há nada mais oposto aos nossos tempos do que a imposição de uma norma ditatorial de “ordem” e repressão. Os jovens que seguram cartazes pedindo intervenção militar são os mesmos que, todo fim de semana, usam a substância que tiverem em mãos em busca de prazeres baratos em baladas. Seriam os primeiros a terem conhecimento (e, possivelmente, a sentir fisicamente) o peso da falta de liberdade.

Mas nos mal acostumamos. Comunismo é palavrão e virou jargão de botequim. A vergonha que a esquerda sente de seu passado a levou aceitar o lugar comum imposto pela direita e a regurgitar mentiras e colóquios rasteiros sobre a enorme e imponente produção intelectual que gerou durante os séculos XVIII e XIX. A partir daí, qualquer leitura que se quer sugira a visão classista da história tornou-se sinônimo de totalitarismo que, na ignorância e má fé dos reacionários e no entreguismo e falta de coragem do liberalismo multiculturalista, é a “mesma coisa” que comunismo.

Dado este fenômeno, é possível considerar que um governo que possibilita lucros recordes para bancos privados é “comunista” por gastar uma ínfima quantia em programas de transferência de renda. É, também, devido a ele que programas sociais incomodam tanto. Temos, diariamente, princípios claros de revolta contra a condição de classe, na dinâmica do opressor-oprimido. Rapidamente, estes movimentos são sequestrados por um discurso de ódio à política ou são subvencionados pelo senso comum de que o problema está na deterioração de uma ordem inata, que respeita a família e as tradições. Naturalmente, estas pessoas confusas e revoltas passam a atacar minorias, aqueles que destoam do que está estabelecido como norma e o que temos são números recordistas de votação em candidatos de persuasão fascistoide.

Como não enxergar que eles estão vencendo? Você pode se indignar ao ver um deputado ou senador a falar atrocidades e declarar guerra a pessoas que estão em condição de vulnerabilidade. Mas eles estão falando e a lacuna deixada pela razão está sendo preenchida. Onde está a esquerda? Muito preocupada em se desconstruir e se liquefazer. O inimigo não precisa atacar pois a repressão é interna. Da falta de razão e do ódio ao pensar, surgem seres humanos amarrados em postes, como animais. Ficamos horrorizados, contamos uns aos outros e consideramos que quem defende tal barbárie está despido da mais básica e primeva humanidade. Porém quando foi que perdemos nosso tempo precioso, dentre produzir artigos inócuos e falar do sexo dos anjos, para educar esta gente? Se nem nós mais acreditamos que existam valores éticos e morais que são universais e absolutamente necessários enquanto projeto comunal de sociedade, o que teremos para falar que não um relativismo torpe e arbitrário, que defende, sobretudo, o direito de odiar a razão?

E neste abandono abissal, nosso mundo carece de direção. É nesta carestia que o ódio e a violência reproduzem-se e tomam-nos de assalto. Ao considerarmos que qualquer visão de mundo é validada por uma fantasia tecnicolor do mundo como um grande “love-in”, enfraqueceremos a nossa própria base. Ao aceitar que a razão seja golpeada, estamos incentivando o exato oposto do que defendemos – algo da qual nós nem temos certeza do que é. Retirar uma palavra do léxico ordinário do dia a dia por soar ofensiva a uma minoria não é solução para nada. Estas pessoas continuarão vulneráveis, sendo oprimidas em última instância por um projeto econômico que foi o responsável por criar uma cultura onde é normativa a exclusão e a marginalidade. Você pode até voltar para casa achando que está com o dever cumprido mas os que ficam continuarão a viver em estado de calamidade, amedrontados e dilacerados psiquicamente. Para que seu mundinho burocrata siga a fazer sentido, a raiz de todos os males que você diz combater deve permanecer fincada na terra e você pode seguir com seu teatro farsesco de que é o ser humano mais tolerante que já existiu.

Se acreditar e defender liberdade e igualdade é ser racista ou achar que existe uma visão de mundo correta, então que seja. Este é o caminho duro, no qual você tem de se defender até dos seus. Não é um discurso rosado, com paroxismos vazios que tentam considerar que até um mosquito tem o mesmo valor de um ser humano. Não é uma fantasia que crê que o mundo ocidental e secular é uma aberração em si mesmo e que culturas absolutamente idílicas são aquilo de que precisamos. Para quem acredita nisto, sinto dizer que, se posto em prática, causaria o maior genocídio da história. O mundo chegou a um ponto onde já não é mais possível a localização e a falta de uma gestão comunal e desfragmentada. Os caminhos estão postos: podemos continuar com o capital como centro nevrálgico de sociedade ou humanizar e comungar dos meios de produção para garantir uma vida digna a todos. Sentir vergonha de analisar a batalha da história com uma visão onde esta dicotomia está presente é negar à esquerda seu valor intelectual e prático. É, literalmente, esvaziá-la de sentido e torná-la um acessório cosmético para quem quer soar descolado. E no vão que deixa, brotam os movimentos históricos que nos constrangem até hoje. Teremos um novo período de trevas a caminho?

O racismo microcósmico e a negação patológica de um dos países mais preconceituosos do mundo

O racismo não tem a constituição de um nome próprio. Ele não atende por “Patrícia Moreira“. Tampouco o racismo tem clube de futebol favorito. Ele não é produto da subcultura de um Estado da Federação. Não é o Rio Grande do Sul que paga para os negros e pardos um pouco mais da metade do salário que paga para os brancos. É o Brasil continental, da qual o Estado gaúcho, mais “branco” da Federação, faz parte. Zulmira de Sousa Borges Cardoso, imigrante angolana pós-graduanda que estava a completar os estudos no Brasil, foi morta em 2012, no Brás em São Paulo, por um homem que a chamou de macaca minutos antes de desferir diversos tiros contra pessoas que nunca havia visto na vida. O rapper angolano Badharó viveu por 15 anos em uma comunidade carioca e crivou, sem medo, a solapada que tantos rejeitam: o Brasil é um dos países mais racistas do mundo, ainda que muitas vezes de forma velada. Reparem que o angolano, sem as vicissitudes e disputas folclóricas internas que insistem em rastejar por dentre os debates mais sérios, fala no País e não no Estado do Rio de Janeiro, seu lar após fugir da situação terrível de guerra civil de seu país, que divide a língua com o nosso.

Os exemplos pululam em outros Estados, mais representativos, da Nação. São Paulo, o berço industrial do País, ganha destaque por, inevitavelmente, dada sua condição de capital financeira, ser uma escolha de diversos brasileiros para a busca de uma vida melhor. Não é apenas o racismo que assola os paulistas; o preconceito pesado contra os “migrantes” nordestinos pauta discussões acaloradas há décadas.

Um caso lembra o atual no Rio Grande do Sul, dada a “virtualidade” e a pouca contextualização racial das ofensas. classificadas como “rotineiras”, em uma tentativa de naturalização do fato como defesa de ambas as perpetradoras. Em 2010 a estudante Mayara Petruso alegou que nordestinos não eram “gente” e pediu, como favor ao Estado de São Paulo, que estes fossem mortos por afogamento. É realmente possível traçar paralelos entre os dois casos? Neste exemplo, a moça veio a pedir desculpas e deu a entender que o comentário seria uma externalização de frustração sobre o resultado do pleito eleitoral que, à época, marcou a eleição da candidata do PT, Dilma Rousseff. Para ela, a reação extremada seria produto de uma narrativa que determinava que o partido havia ganho a eleição devido aos subsídios que pagava às [pedintes] populações sertanejas e ribeirinhas, “cântico” muito difundido pela oposição naquele período. Posteriormente, ela determinou que a única defesa viável para seu crime de ódio era de desconstruir o sentido preconceituoso das alegações, aderindo-lhes um elemento cultural autônomo e produto de fenômeno contemporâneo, dissociado de uma condição histórica de xenofobia. 

A torcedora do Grêmio parece ter ido pelo mesmo caminho. Não obstante de afirmar que fora um acidente ou reação momentânea, a defesa de Patrícia e os outros torcedores flagrados parece pairar sobre a ideia de que o epíteto “macaco” foi esvaziado culturalmente de seu sentido antropomorfo, parido em meio às teorias pseudocientíficas (algo chamado de “frenologia”) da existência de raças para a legitimação da escravidão. É de conhecimento público que o emprego do termo popular para o desígnio de uma série de espécies de símios é utilizado pela torcida gremista para designar torcedores do Internacional. Segundo as explicações, a origem se deu quando torcedores colorados trepavam em árvores para poderem assistir os jogos do Internacional em dado momento histórico. Outros dizem que o apelido pegou porque o clube costumava copiar ações do rival e que é da natureza dos macacos a imitação do comportamento de outras espécies.

Entretanto, um ponto sociocultural precisa ser levado em conta, ainda que eu não esteja interessado em me estender neste assunto: o Internacional é, historicamente, um clube ligado às massas populares e, portanto, é comum que a maioria dos torcedores negros, sobretudo na capital gaúcha, torçam para o clube, ainda que este dado seja resultado de uma narrativa cultural e não tenha sido provado por método empírico. O fato é que, dada a associação histórica do clube com esta epistemologia popular. é inevitável que a associação seja feita, lembrando que o termo tem origens na escravidão. A tentativa de dissociá-lo nasce de um esforço para naturalizar sua utilização – narrativa defendida por Patrícia e os torcedores do clube para justificar o uso do insulto e dar-lhe um significado único e intransponível no contexto do campo de futebol.

É bom lembrar que, em 2013, representantes da maior torcida organizada colorada chamaram um jogador do clube de “negro de merda”. Portanto, mesmo o clube que alega ser vítima de racismo por parte da torcida rival, apresenta quadros de agressões que aludem à raça, emitidos por figuras que detém representatividade dentre as torcidas. Estas demonstrações esquizofrênicas, levando em conta o fato de ambos os clubes contarem com diversos jogadores negros em seus plantéis, muitas vezes aplaudidos efusivamente pelos mesmos torcedores que gritam “macaco” ou definem um jogador de quem não gostam como “negro de merda”, nos afundam em uma realidade muito mais complexa. Agora, a imprensa parece estar travando uma verdadeira lavagem de consciência, cada um defendendo seu “território”. Jornais paulistas e cariocas não hesitam em lembrar que o caso aconteceu no “Rio Grande do Sul” em suas matérias. A mídia esportiva definiu que o clube Grêmio FBPA é a raiz de todo o racismo no futebol brasileiro, lembrando que trata-se de uma torcida reincidente. É como se o racismo no Brasil fosse uma entidade amorfa, que paira sobre os céus e, de vez em vez, possui uma corpo individual ou coletivo e demonstra sua sanha. Desta vez, (novamente) tomou forma na torcida do Grêmio, que há décadas utiliza o termo “macaco” para ofender seus rivais e, até agora, o tema nunca havia despertado reflexões maiores do que um bate papo de botequim. Amanhã, pode ser a declaração desavisada de um torcedor do Palmeiras no Twitter. Posteriormente, vai estar nas palavras de um industrial paulista. Talvez até encarne em uma arma disparada contra um negro em alguma comunidade interiorana. 

É sintomático de uma sociedade, onde o racismo está instrumentalizado em sua estrutural formal, tratar do tema sob um prisma microcósmico. Parece não haver relação real entre a morte da angolana em São Paulo, o racismo “velado” nas comunidades cariocas, o descaso com os imigrantes haitianos que foram vítimas de tráfico humano, as disparidades salariais, os números baixos de “coloureds” no ensino superior e todos os indicadores socioeconômicos que levaram o Estado à adotar as ações afirmativas; cada uma destas “casualidades” vivem em terrenos díspares, sem conexão estrutural, apenas sendo acasos que, de forma arbitrária, acabam assolando as comunidades negras. A naturalização de um epíteto racista, no conto daqueles que se recusam a enxergar o racismo estrutural das instituições brasileiras, é fato isolado, que pertence à cultura atrasada de um Estado ou, mesmo, de uma torcida de futebol específica. O fato de o Brasil ter um grande número de negros em seus indicadores de recenseamento e de haver um dispositivo penal específico para tratar de crimes de racismo demonstra que o fio que sustenta esta “democracia racial” imaginada está sempre à passos de ser arrebentado pelas forças hegemônicas de um cultura que nunca se livrou totalmente do traço da escravidão. Ainda que tenhamos nos livrado da experiência da segregação oficial, através de um aparato jurídico nacional, a segregação cultural é clara e se faz presente em qualquer indicador socioeconômico. Este é o racismo em sua práxis, que se apresenta na forma de uma distinção direta das capacidades e da aderência demográfica de brancos e negros. Instituído no mercado privado, esta representação acaba por se diluir no cotidiano, naturalizando epítetos que visam deformar a imagem social do negro na cultura nacional, aparentemente desconstruídos e revigorados como dispositivos semânticos de sátira ou, mesmo, de um pretenso afeto.

O desserviço que a polarização do racismo faz é gigantesco. Punições devem se seguir mas o trâmite de um debate que institucionaliza o crime de ódio na figura microcósmica é, sem dúvidas, uma tentativa de uma sociedade racista de internalizar este demônio particular e envernizá-lo com um discurso absolutamente moralista. Agora, todos correm para dizer que seu “povo” não é racista mas, sim, um vizinho em particular. Porém, no próximo caso, a entidade amorfa deverá pairar sobre outras pradarias e o debate, que mal se iniciou, será sepultado e dará lugar a uma nova acusação folclórica do País que não consegue se reconhecer como um dos mais racistas do mundo.