Mês: maio 2014

Sheik, não estrague o espetáculo!

Leiam esta notícia e eu retorno com um pequeno comentário:

http://espn.uol.com.br/noticia/413993_emerson-chama-lucio-de-mau-carater-e-acusa-me-chamou-de-gay-como-se-fosse-um-monstro

 

Em primeiro lugar, não me interessa nem um pouco se o jogador Lúcio realmente chamou o Emerson Sheik de alguma coisa. O fato central foi o tratamento dado pela imprensa especializada, pela imprensa não-especializada e pela sociedade de maneira geral. O que tivemos foi um jogador de futebol acusando, publicamente, um outro de ato de homofobia. “Mas como pode ser homofóbico se o Sheik diz que não é gay?”, perguntaria um incauto. Insultos como este não afetam apenas a vítima direta; eles reafirmam um paradigma cultural. É por isto que, sem medo de acabar preso em uma hipérbole argumentativa, é possível afirmar que o “viado” dito por um infantojuvenil ou por Lúcio, o jogador do Palmeiras, é o combustível para que neonazis saiam para a rua a arrebentar a cabeça de homossexuais contra o asfalto.

Eu assistia a transmissão de outro jogo através do pacote pago do PFC e soube do fato, com comentários nada aprazíveis da equipe que cobria Sport x Grêmio. Infelizmente, não me recordo do nome de todos, só lembro que fazia parte o ex-jogador Belleti. Um deles, o comentarista da partida, disse que Emerson Sheik “acha que pode falar tudo o que quer” e Belleti, conhecido por ter um dos melhores empresários da história do futebol moderno, aplicou um “tem que pensar no espetáculo antes de falar estas coisas”.

Suponhamos que Lúcio tivesse chamado Emerson de “macaco”. Você acha que a reação teria sido a mesma? Será que os comentaristas e colunistas especializados cobrariam de Emerson provas, com a veemência que cobraram neste caso? Será que diriam que o Sheik deveria ter “cuidado com o espetáculo” antes de acusar o zagueiro de tal disparate? Veja bem, penso eu que o racismo nos campos merece ainda mais do que fazem. Entretanto, o fato é que estes cruzados morais realmente acreditam que existam preconceitos aceitáveis ou, pelo menos, “menores”. Talvez o preconceito “menor” da homofobia explique os 26 assassinatos por hora motivados por estes crimes de ódio. O “espetáculo” dos comentaristas do PFC não pode ser manchado com o sangue destes mais de 300 homossexuais, número contabilizado que apenas risca uma superfície de casos no Brasil, o campeão mundial de crimes desta natureza, mais até do que países que possuem em seu código legal dispositivos para aplicação de pena sumária para homossexuais. Varre-se para baixo do tapete e Belleti pode ir dormir tranquilo, julgando que o espetáculo que assistiu ficou incólume ao ataque dos “gayzistas” e essa “marcha para transformar o Brasil em um País de viados”.

Emerson Sheik foi chamado de gay por ter tirado uma foto dando um selinho em um amigo. 300 pessoas por ano não são apenas chamadas de gays; elas são brutalmente espancadas e assassinadas no meio da rua ou, mesmo, dentro de suas casas, pelo epíteto que Lúcio e a imprensa esportiva acharam “natural” e “coisa pequena”. Chamar alguém de macaco não implica apenas uma conotação depreciativa; são séculos e séculos de violência, brutalidade e opressão carregados na estrutura semântica da palavra. O “viado” também. Mas, parece, esta causa ainda terá de carregar umas boas centenas de milhares de cadáveres para que os comentaristas do PFC a julguem mais importante que o “espetáculo”.

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A ninfômana, o crítico e a hipocrisia

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Este texto possui spoilers e é recomendada a leitura  apenas para quem já viu ambos os volumes de Ninfomaníaca

Existe uma brincadeira recorrente entre meus amigos que dá conta de que, se um dia um filme de Lars Von Trier for recebido com aclames universais, o planeta Melancholia já estará em um curso irremediável de colisão com a Terra. Naturalmente, seu último trabalho, Ninfomaníaca, despertou críticas iradas de babões raivosos que pouco tiveram tempo para captar a riqueza psicológica da obra pois se apegaram nos detalhes mais ínfimos para redigir críticas imponderáveis. Mesmo quem elogiou, o fez com ressalvas, sobretudo ligadas à “pornografia” e ao potencial choque que assistir um pênis badalando na tela da tevê pode causar a um adulto.

Entretanto, me chamou a atenção a dificuldade de críticos profissionais de cinema em compreender o final do segundo volume de Ninfomaníaca. Várias das críticas que li falam que o desfecho fere o conteúdo da obra e parece “arbitrário”, nas palavras de Pablo Villaça. Curiosamente, todas as críticas que continham uma interpretação confusa ou nula do epílogo da história de Joe conservavam apenas uma leitura feminista da obra. Von Trier é um auteur hábil; como em todas as grandes obras, seu filme suscita diversos debates e pontos de vista. Enquanto Villaça apenas o olhou como uma “tese contra a misoginia”, Vladimir Safatle traz uma leitura moral da obra e Luiz Felipe Pondé – que se difere de ambos por ser um filósofo conservador – lê sob uma ótica psicanalítica e encontra uma crítica à discursos políticos pós-modernos como a revolução sexual. De todos estes ângulos, Ninfomaníaca oferece munição necessária para tais digressões.

Entretanto, quando o sujeito considera que Von Trier está apenas a fazer mea culpa (ou “mea maxima vulva“) com as acusações de misoginia em outros trabalhos seus – frutos de leituras preguiçosas dos outros dois filmes que compõem a corretamente intitulada “Trilogia da Depressão” -, perde-se muito e, naturalmente, uma análise profunda está descartada.

O infame fim de Ninfomaníaca Vol. II foca, justamente, em um dos temas que escaparam à críticos como Villaça: a hipocrisia. Joe apresenta diversos exemplos, em sua narrativa, acerca de um tratamento hipócrita dado à ela por seus pares, pretensamente sãos e moralmente “em dia” com suas obrigações de serem higiênicos aos olhos dos outros. No começo do primeiro volume, uma de suas melhores amigas e co-criadora de um clube estritamente feminino feito para celebrar o sexo livre, desiste de todas as pretensões revolucionárias pois se apaixona por um garoto. Avançando para o capítulo II, outra cena emblemática é quando Joe deixa o bebê em casa, só, para visitar um sadomasoquista “profissional”. Jérome, seu marido, ameaça, na noite de natal que, se Joe sair novamente de casa para procurar sexo na rua, ela não verá mais ele nem seu filho. Ela sai e Jérome vai embora, para aparecer novamente apenas na conclusão desta segunda parte.

Dois pontos importantes podem ser levantados com esta cena capital, negligenciada pelas críticas que só se preocuparam em tornar a obra uma diatribe feminista: a) o marido captura o bebê que está quase a cair da sacada do apartamento dias antes de isto acontecer, enquanto estava só, abandonado pela mãe. Porém ele só ameaça de ir embora quando confrontado com a realidade de que Joe sairá de casa na noite de natal para ter sexo com outro homem; b) Jérome leva a criança embora e o confidente de Joe, Seligman, interrompe a história para lhe perguntar o que aconteceu com o filho, ao que pronto ela acusa o marido de enorme hipocrisia ao tirar a criança dela por abandono do lar mas, tempos depois, entregá-la a um orfanato pois criar um filho por conta própria iria atrapalhar sua vida profissional. Tente criar uma enquete mental para imaginar quem, na opinião pública, seria maior merecedor da pena capital: o homem solteiro que não vai criar o filho porque quer ter um futuro viável ou a mulher que expõem a criança à situações de risco, em busca de prazer sexual? Eu consigo imaginar até os argumentos…

O elemento da hipocrisia tem seu ápice na obra justamente no desfecho. Seligman declara-se, no início do volume II, virgem e assexuado. Ele interrompe Joe o tempo inteiro para atrelar significados científicos, metafísicos e psicológicos à narrativa da personagem, emanando discursos modernos e progressista para confrontar a afirmação de que Joe seria, apenas, uma pessoa má. Entretanto, após a longa história, Joe tem uma epifania, dizendo que irá consumir todo seu esforço para tornar-se, como Seligman, assexuada. Ela diz que, enfim, encontrou um amigo em sua vida, um homem que enxergava além do instinto sexual. Entretanto, dentre a miríade de cenas explícitas, o momento mais perturbador do filme se segue quando o homem tenta estuprar Joe enquanto ela dorme. Ela acorda com ele tentando penetrá-la e o rejeita. “Mas você já fodeu com mais de mil homens, por que não a mim?”, indaga Seligman. A tela fica negra e escutamos o barulho de um tiro, desferido por uma pistola que Joe utiliza, sem sucesso, anteriormente em sua história.

Talvez esta linha de diálogo seja uma das frases mais reveladoras sobre a temática de um filme, já escrita para o cinema. A traição é tão brutal que Joe pôde apenas responder àquilo terminando com a vida de seu interlocutor. De todas as situações apresentadas, esta foi a que mais me perturbou. Em primeiro plano, fica clara a mensagem: Von Trier, misantropo e niilista, mostra para Joe que não exista tal coisa como um “amigo” para alguém como ela. Quando Joe conta que, em seu emprego de “coletora de dívidas” para um grupo criminoso, ela fez um homem chorar ao fazê-lo se excitar com um cenário de pedofilia, libertando um ensejo extremamente reprimido, que nem ele mesmo tinha dimensão da existência, o semblante de Seligman muda. Quando pergunta à Joe o por quê dela fazer sexo oral no homem após confissão tão monstruosa, ela responde que sentiu empatia nele por descobrir que vivia com o martírio de uma sexualidade proibida e que ele era fadado à solidão, assim como ela. Talvez neste momento os desejos do próprio confidente tenham sido libertados por Joe. Para dar lugar à esta natureza tácita, ele trai tudo o que falou durante as quase quatro horas de enredo e, subsequentemente, morre por ser hipócrita.

É claro que a leitura feminista é predominante também nesta cena: em nenhum outro momento do longa Joe é subjugada pelos homens com quem se envolve. Ela sempre procura, mesmo as situação mais perigosas e aberrantes. O único momento em que diz não é quando um homem tenta subjugá-la, lhe conferindo a estética de uma espécie de anti-heroína feminista. É claro que o vício de Joe de forma alguma configura uma experiência positiva. O que Von Trier parece dizer é que existem pessoas que não podem ser o que ela são pois nunca serão aceitas desta maneira e, caso optem por esta liberdade, só causarão dor a si mesmas e deixarão um rastro de destruição para trás. Não há uma mensagem conservadora aqui, apenas a constatação de que o preço da total liberdade é tão alto que sua única herança é a marginalidade.

O pedófilo inconsciente que Joe desperta é, de fato, uma pessoa em sofrimento. Ele vive uma vida tendo de reprimir brutalmente um desejo ardente e devastador pois, caso perca esta batalha diária, ele o levará a ruína e vitimará outras pessoas no processo. Assim como Joe que desfaz casamentos, brinca com os sentimentos de homens e mulheres e, até mesmo, comete crimes em nome da plena liberdade para ser uma ninfomaníaca que resiste e vê no amor uma prisão. Não seria sua liberdade uma prisão também?

Ninfomaníaca talvez seja o melhor longa de Von Trier. É, ao lado de Dogville, o que mais suscita discussões. Sem dúvidas, é o trabalho de uma vida e apenas um diretor como o dinamarquês poderia, em nosso tempo, engendrar obra tão incômoda e necessária. Trier vai de Sade à Wagner, de conceitos de pescaria à polifonia, do cristianismo ao paganismo. Entretanto, sua erudição passa longe de ser a verve de suas obras. Em Anticristo, ele ridiculariza o personagem cético e racional que se vê perdido dentre uma dimensão mística e caótica da natureza. Em Melancolia, o homem da ciência comete suicídio frente ao fim da existência, que ele passa negando a partir de cálculos que não conseguem capturar o incomensurável. Em Ninfomaníaca, o seu homo sapiens é uma ilusão que dá lugar ao demens, incontrolável e primitivo, ao fim da epopeia sobre a vida de Joe, uma viciada em sexo.

Infelizmente, teremos de esperar para assistir as versões de três horas, como foram originalmente concebidas pelo diretor. Se alguns plots soam um tanto mau desenvolvidos, é possível concluir que a culpa não é de Trier que, à época, causou espanto ao, jocosamente, anunciar que faria um filme pornô de seis horas de duração. Entretanto, com o que temos, é possível concluir que Ninfomaníaca é a nossa vanguarda artística. Que Pablo Villaça e outros – incluindo a mim – me perdoem mas tentar sintetizar obra tão rica em um review de blog é recorrer ao pecado da vaidade.

O fim da civilização

Um pequeno intervalo para tratar de um assunto sério, sobre o assombroso caso do linchamento em São Paulo.

 

O meu maior problema foi ouvir algum as pessoas dizendo: “que horror, ela nem tinha feito nada do que era acusada, foi um engano”. E se tivesse? Digamos que ela tivesse sequestrado dezenas de crianças e as entregue para a execução em rituais de magia negra. O fato de um bando de pessoas se reunirem e marcarem por antecedência um linchamento público, com nuances de “programa para fim de tarde”, as faria exatamente iguais ao objeto do linchamento. Aliás, talvez as fizesse piores afinal, enquanto a criminosa teria suas motivações escusas para fazer o que fazia (dinheiro, participação nos rituais), estas pessoas estavam invocando a “justiça” enquanto brutalizavam um ser humano. Todos sabemos o quanto o dinheiro é sujo de sangue todos os anos, contando os inúmeros crimes que são cometidos em seu nome. A natureza de um ritual de magia negra é ligada ao desejo mundano por posses, violência e sexo. Entretanto, o ente abstrato da justiça não deveria ser invocado como justificativa para a violência.

Os poucos assassinos que foram capturados pela polícia se mostravam altivos na tela da televisão, invocando sua condição de “pais de família”. Nada de rostos cobertos ou aquele semblante de miséria emocional. Talvez eles estejam um pouco consternados pelo fato de terem assassinado uma inocente. Mas não se incomodam nem um pouco com o conceito do linchamento. Não se sentem culpados por deixarem os filhos em casa para irem espancar uma mulher em um local público. Talvez até devem ter levado algum dos filhos e, enquanto assistiam complacentes uma vida ser aniquilada pela fúria cega de uma turba, diziam às crianças: “é isto que as pessoas do mal merecem por fazer maldades”.

Toda uma civilização morre a cada vez que estes episódios tomam forma. Quem já não viu algum daqueles vídeos gravados em pequenas cidades nordestinas onde, por alguma acusação, alguém é brutalmente espancado e morto a tiros. Em um deles, é possível ver crianças brincando de corrida enquanto um corpo ensanguentado se retorce no chão, pedindo clemência. Que tipos de seres humanos teremos no futuro?

Em um linchamento, o comportamento de grupo toma sua forma mais primal. Os que batem nem lembram ao certo o motivo pela violência. Em seus olhos, queimam frustrações e, em lugar da razão, um movimento brusco de ódio os reserva comportamento mais selvagem que o mais selvagem dos animais. É a consumação de uma cultura de ódio, ora produto da perversidade, ora em nome da “justiça”. O que aconteceu em São Paulo empurra nosso estado civilizatório para um estado embrionário. E cada vez que alguém pensa que seria atenuante caso ela fosse a pessoa que eles realmente estavam procurando, o embrião é desfeito em um aborto espontâneo.

A Era Vulgaris do Stoner Rock/Doom Metal

Electric Wizard – Dopethrone

Electric Wizard - 2000 - Dopethrone

Curiosamente, como nota pessoal, eu prefiro sempre as bandas influenciadas (muitas vezes, soando realmente semelhante) do que o próprio Black Sabbath. Este é o caso de “Electric Wizard”, que toma seu nome emprestado de uma música do Sabbath. Porém, se for possível descrever seu som com uma anedota boba, a banda teria levado os dois primeiros discos do velho Sabb para uma cabana no meio do mato, portando uma quantidade de maconha que desmancharia o cérebro de qualquer hippie que vende bijuteria nas calçadas, e encontraram um livro com escrituras sombrias, ditas em voz alta despertando demônios anciães que possuíram os membros e gravaram, em um toca-fitas extremamente lo-fi, material suficiente para uma carreira inteira.

“Dopethrone” é o disco mais sujo e mais brutal da banda. Com vocais quase inaudíveis e fuzz box em todos os lados, o Electric Wizard faz doom metal da maneira como deve ser feito: sem teclados bobos e synths bregas, sem letras sobre fantasia ou chororô adolescente, apenas um som extremamente pesado, com os knobs de grave no máximo em todos os amplificadores e uma gravação com pouquíssima definição, que só adiciona ao clima sombrio e satânico do disco. Coisa fina, feita para ser tocada em vinil, “Dopethrone” pede um stereo, a porta fechada e muita fumaça saindo do bong.

Belzebong – Sonic Scapes and Weedy Grooves

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Seguindo a linha do doom/stoner rock, o criativamente nomeado Belzebong é uma das bandas mais pesadas que eu já ouvi na vida. O “buzz” do baixo é tão pesado, potencializado por um fuzz box no máximo, que vai fazer os mais exagerados pensarem duas vezes em pôr o volume máximo enquanto escutam em fones de ouvido. Diferindo um pouco de Electric Wizard, o Belzebong flerta mais com o hard rock setentista, se dando ao luxo de wah-wahs e riffs que capturaram elementos de bandas como “Mountain” e “Budgie”, naquele estilo casca-grossa dos desertos americanos, que iriam parir a cena Stoner no futuro, com seus Kyuss e os diversos projetos que nasceram da banda.

Quase instrumental, o disco apresenta apenas quatro músicas sendo duas faixas bem longas e duas um tanto menores e mais estruturadas. “Acid Funeral” é uma espécie de sumário do gênero, com riffs arrastados, hi-hats abertos marcando e efeitos sonoros que parecem ter sido gravados em algum culto/orgia no meio de uma floresta, iluminada apenas pela pálida luz da lua. Quem é fã do maravilhoso (e muito mais mainstream) “NOLA” do Down merece ouvir esta maravilha “marijuanada” até o talo.

The Want – 5 O’ Clock Orange

thewant

As duas bandas acima são produtos de seu tempo, isto é, uma época mais moderna, que conheceu o metal dos anos 80 e o nascimento de toda uma cena que retornava às raízes das fuzz/garage band do fim dos anos 60. Porém, The Want é uma banda nascida em 1969 que, por um acaso, entrou em um vórtex temporal e acabou sendo jogada nos anos 90. Com Humble Pie correndo nas veias, os quatros rapazes de Jersey praticam em seu debut uma mistura lisérgica que encontra Zeppelin nos incríveis vocais de Kenneth Leer e o timbre mágico das Gibson que tanto fizeram a cabeça dos guitar heroes das década de 70. “Rail”, por exemplo, é Steppenwolf. Mas, como neste nicho, não há a necessidade de grande originalidade, o “The Want” poderia ter sido uma peça chave, ainda que tardia, do movimento stoner americano. Só que a recusa da banda em sair do meio underground impossibilitou voos mais altos. Não sei dizer se é uma pena afinal o tipo de música praticado por eles, realmente, pertence à garagem e ao whisky bar mais próximo.

All Them Witches – Our Mother Eletricity

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Uma das piores coisas acerca de bandas como Black Crowes e Wolfmother são o fato de que cada nota de cada música soa derivativa ao máximo, forçando o indivíduo a imaginar qual “banda” está ouvindo na música de ambos ao invés de aproveitar. Mesmo que bandas de stoner rock/doom não sejam exatamente muito originais, ainda assim algumas conseguem, através da amálgama de elementos que as compõe, criar uma identidade. É o caso do All Them Witches. Um cínico poderia citar o de sempre (Black Sabbath) mas, de fato, adições como um venenoso Hammond B3 e baladas neo-psicodélicas como “Easy” renovam a banda e conseguem manter uma roupagem atemporal, ainda que a bela e clara produção entregue que o disco foi feito recentemente. O disco é bem balanceado entre um material pesado e baladas que bebem na fonte de Allman Brothers.

Colour Haze – Colour Haze

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Vinda da Alemanha, a banda traz, em um disco fantástico, elementos de blues, psicodelia, stoner rock  um trabalho de guitarras admirável, para nenhum fã de Hendrix colocar defeito. Este talvez seja o diferencial do grupo; enquanto bandas deste estilo não são particularmente lembradas por grandes solos de guitarra, apesar dos riffs, Colour Haze é totalmente guitar-driven, com riffs agressivos alternando com momentos incríveis, onde o blues toma vida e dá um elemento mais orgânico para o disco, resgatando dos padrões próximos do drone que povoam as músicas de bandas neste estilo.

Setentista, o álbum abre com “Mountain”, quem sabe uma homenagem para a banda homônima. Nela, o Colour Haze apresenta suas armas, com doses admiráveis de peso, na junção das guitarras e do baixo. Porém, o seu segredo de sucesso surge quando a riff machine dá lugar à passagens texturizadas, com solos de guitarra com ganchos a lá Duane Allman e, porque não, Hendrix. Outro destaque do disco é a faixa final, “Flowers”, que intercepta um violão cheio de harmônicos e uma linha dual de baixo/guitarra que segue ao som de um acompanhamento marcial da bateria. Essencial!