A Era Vulgaris do Stoner Rock/Doom Metal

Electric Wizard – Dopethrone

Electric Wizard - 2000 - Dopethrone

Curiosamente, como nota pessoal, eu prefiro sempre as bandas influenciadas (muitas vezes, soando realmente semelhante) do que o próprio Black Sabbath. Este é o caso de “Electric Wizard”, que toma seu nome emprestado de uma música do Sabbath. Porém, se for possível descrever seu som com uma anedota boba, a banda teria levado os dois primeiros discos do velho Sabb para uma cabana no meio do mato, portando uma quantidade de maconha que desmancharia o cérebro de qualquer hippie que vende bijuteria nas calçadas, e encontraram um livro com escrituras sombrias, ditas em voz alta despertando demônios anciães que possuíram os membros e gravaram, em um toca-fitas extremamente lo-fi, material suficiente para uma carreira inteira.

“Dopethrone” é o disco mais sujo e mais brutal da banda. Com vocais quase inaudíveis e fuzz box em todos os lados, o Electric Wizard faz doom metal da maneira como deve ser feito: sem teclados bobos e synths bregas, sem letras sobre fantasia ou chororô adolescente, apenas um som extremamente pesado, com os knobs de grave no máximo em todos os amplificadores e uma gravação com pouquíssima definição, que só adiciona ao clima sombrio e satânico do disco. Coisa fina, feita para ser tocada em vinil, “Dopethrone” pede um stereo, a porta fechada e muita fumaça saindo do bong.

Belzebong – Sonic Scapes and Weedy Grooves

cover

Seguindo a linha do doom/stoner rock, o criativamente nomeado Belzebong é uma das bandas mais pesadas que eu já ouvi na vida. O “buzz” do baixo é tão pesado, potencializado por um fuzz box no máximo, que vai fazer os mais exagerados pensarem duas vezes em pôr o volume máximo enquanto escutam em fones de ouvido. Diferindo um pouco de Electric Wizard, o Belzebong flerta mais com o hard rock setentista, se dando ao luxo de wah-wahs e riffs que capturaram elementos de bandas como “Mountain” e “Budgie”, naquele estilo casca-grossa dos desertos americanos, que iriam parir a cena Stoner no futuro, com seus Kyuss e os diversos projetos que nasceram da banda.

Quase instrumental, o disco apresenta apenas quatro músicas sendo duas faixas bem longas e duas um tanto menores e mais estruturadas. “Acid Funeral” é uma espécie de sumário do gênero, com riffs arrastados, hi-hats abertos marcando e efeitos sonoros que parecem ter sido gravados em algum culto/orgia no meio de uma floresta, iluminada apenas pela pálida luz da lua. Quem é fã do maravilhoso (e muito mais mainstream) “NOLA” do Down merece ouvir esta maravilha “marijuanada” até o talo.

The Want – 5 O’ Clock Orange

thewant

As duas bandas acima são produtos de seu tempo, isto é, uma época mais moderna, que conheceu o metal dos anos 80 e o nascimento de toda uma cena que retornava às raízes das fuzz/garage band do fim dos anos 60. Porém, The Want é uma banda nascida em 1969 que, por um acaso, entrou em um vórtex temporal e acabou sendo jogada nos anos 90. Com Humble Pie correndo nas veias, os quatros rapazes de Jersey praticam em seu debut uma mistura lisérgica que encontra Zeppelin nos incríveis vocais de Kenneth Leer e o timbre mágico das Gibson que tanto fizeram a cabeça dos guitar heroes das década de 70. “Rail”, por exemplo, é Steppenwolf. Mas, como neste nicho, não há a necessidade de grande originalidade, o “The Want” poderia ter sido uma peça chave, ainda que tardia, do movimento stoner americano. Só que a recusa da banda em sair do meio underground impossibilitou voos mais altos. Não sei dizer se é uma pena afinal o tipo de música praticado por eles, realmente, pertence à garagem e ao whisky bar mais próximo.

All Them Witches – Our Mother Eletricity

ALL-THEM-WITCHES-Our-Mother-Electricity-CD

Uma das piores coisas acerca de bandas como Black Crowes e Wolfmother são o fato de que cada nota de cada música soa derivativa ao máximo, forçando o indivíduo a imaginar qual “banda” está ouvindo na música de ambos ao invés de aproveitar. Mesmo que bandas de stoner rock/doom não sejam exatamente muito originais, ainda assim algumas conseguem, através da amálgama de elementos que as compõe, criar uma identidade. É o caso do All Them Witches. Um cínico poderia citar o de sempre (Black Sabbath) mas, de fato, adições como um venenoso Hammond B3 e baladas neo-psicodélicas como “Easy” renovam a banda e conseguem manter uma roupagem atemporal, ainda que a bela e clara produção entregue que o disco foi feito recentemente. O disco é bem balanceado entre um material pesado e baladas que bebem na fonte de Allman Brothers.

Colour Haze – Colour Haze

Colour-Haze-self-titled

Vinda da Alemanha, a banda traz, em um disco fantástico, elementos de blues, psicodelia, stoner rock  um trabalho de guitarras admirável, para nenhum fã de Hendrix colocar defeito. Este talvez seja o diferencial do grupo; enquanto bandas deste estilo não são particularmente lembradas por grandes solos de guitarra, apesar dos riffs, Colour Haze é totalmente guitar-driven, com riffs agressivos alternando com momentos incríveis, onde o blues toma vida e dá um elemento mais orgânico para o disco, resgatando dos padrões próximos do drone que povoam as músicas de bandas neste estilo.

Setentista, o álbum abre com “Mountain”, quem sabe uma homenagem para a banda homônima. Nela, o Colour Haze apresenta suas armas, com doses admiráveis de peso, na junção das guitarras e do baixo. Porém, o seu segredo de sucesso surge quando a riff machine dá lugar à passagens texturizadas, com solos de guitarra com ganchos a lá Duane Allman e, porque não, Hendrix. Outro destaque do disco é a faixa final, “Flowers”, que intercepta um violão cheio de harmônicos e uma linha dual de baixo/guitarra que segue ao som de um acompanhamento marcial da bateria. Essencial!

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