Mês: janeiro 2012

Review: Don’t Be Afraid Of The Dark (Não Tenha Medo do Escuro) – 2011

Ou “O filme com mais buracos no roteiro de 2011”.

Sinopse: Sally Hurst (Bailee Madison), uma criança solitária e introvertida, acaba de chegar a Rhode Island para morar com o pai, Alex (Guy Pearce), e a nova namorada dele, Kim (Katie Holmes), na mansão do século 19 que eles estão reformando. Enquanto explora a ampla propriedade, a menina descobre um porão oculto, intocado desde o estranho desaparecimento do construtor da mansão um século antes. Quando Sally, inadvertidamente, liberta uma raça antiga e obscura de criaturas que conspiram para dragá-la para as profundezas infinitas da misteriosa casa, ela precisa convencer Alex e Kim que não se trata de uma fantasia – antes que o mal que espreita na escuridão os consuma.

Escrito por Guillermo Del Toro (O Labirinto de Fauno) e Matthew Robbins (THX 1138 e Encontros Imediatos de Terceiro Grau), produzido por Del Toro e Mark Johnson (Rain Man) e dirigido por Troy Nixey (ilustrador de comic books de Neil Gaiman). Com tantas mãos talentosas trabalhando, o que poderia dar errado? Bem, é um remake de um obscuro telefilme da década de 70 mas com todo esse pessoal envolvido, talvez com este seja diferente.

Não é muito alentador mas Don’t Be Afraid of The Dark (chamemos de “The Dark”) poderia ser escrito e dirigido por qualquer um, desde Marcus Nispel até ser produzido pela Platinum Dunes, não faria qualquer diferença porque apresenta os mesmos problemas e furos que eu, você e muitos outros já criticaram nos remakes modernos. A história não é uma transcrição literal do telefilme original mas perde muito em originalidade e ganha muito em falta de imaginação. Aqui os vilões são criaturinhas ridículas (que mais parecem Gremlins, sem um terço do carisma dos monstrinhos de Joe Dante), totalmente criadas por CGI, que soam falsas e aparecem demais ao longo do filme. Mas e se eu disser que esse é o menor dos problemas do longa de Nixey?

Filmes de horror deveriam seguir uma regra natural. Apesar de serem livres para utilizar o elemento fantástico na história, é preciso situá-lo em uma situação plausível, que obedeça uma ordem de acontecimentos que sejam próximos da realidade. Ou seja, ele precisa ser no estilo “e se isso acontecesse de verdade?”, utilizando seu elemento sobrenatural em um cenário em que seja possível acreditar. The Dark passa longe de conseguir fazer isso, muito pelo contrário. Em dados momentos as soluções de seu roteiro (ou a falta das mesmas) nos levam a acreditar que este tenha sido escrito por uma criança de 10 anos. É admirável a quantidade de furos e situações inacabadas que a história criada por Del Toro e Matthew Robbins, deixam para trás. Mesmo que você não se ligue tanto nesta questão de plausibilidade do roteiro, vai ser difícil não fazer comentários do tipo “Peraí, como isso foi possível?” ou “porque ela não fez isso?”.

Começando pelo início, o cast não é exatamente uma luz no fim do túnel que salva a produção da medíocridade. A Sra. Cruise, Katie Holmes, mantém o nível geral de suas interpretações e promove um show de caretas e falsas emoções, que certamente não convencem nem uma criança. Seu marido, Guy Pearce (um bom ator), entrega uma atuação distraída, assim como seu personagem pede (que, caso não existisse, com algumas mudanças na trama, não faria nenhuma falta). Quem rouba a cena é a menina Bailee Madison (que, apesar da pouca idade, já possui uma carreira em seriados de tv), aqui fazendo a estranha Sally, uma menina com espírito de velha, bastante deprimida e mais adulta que boa parte do elenco.

Em termos da trama, como já foi dito, existem buracos do tamanho da lua em pontos centrais do roteiro. Um dos mais explícitos acontece quando o caseiro Mr. Harris (Jack Thompson), confronta as pequenas criaturinhas no porão. Elas promovem uma verdadeira chacina, enfiando uma tesoura em seu ombro e seu olho arrancado (em um gore totalmente feito por CGI). Harris diz para sua mulher que se trata de um acidente e, quando a polícia chega, concluem de imediato que foi um acidente caseiro, sem fazer uma investigação ou mesmo qualquer tipo de entrevista com os moradores da casa. De tão incompetentes, nem mesmo visitam a cena do crime! Em outro momento, mais adiante, a personagem de Katie Holmes visita Harris no hospital. Para se manter fiel ao clichê, Harris (que sabe sobre a existências das fadas, gremlins ou seja lá o que for) é perguntado sobre as alegações da menina e fala de forma extremamente críptica, ao invés de apenas dizer que são verdadeiras, existem criaturas na casa e eles têm de sair de lá. Ao invés disso, fica dizendo que a menina precisa sair da casa, balbucia algo sobre um lote na biblioteca pública da cidade, tudo isso falando com a voz do Cryptkeeper da série Contos da Cripta. Isto nos leva à próxima cena, quando Holmes vai até a biblioteca e pede para visitar o tal lote. O bibliotecário a leva até lá, conta que o dono do lote, Sr. Blackwood (que morou na casa), tinha um filho que desapareceu, fala sobre um mosaico perdido e permite que uma mulher totalmente desconhecida veja os últimos desenhos de Blackwood, antes dizendo que possuia ordens explícitas para não mostrar pra ninguém. Como se fosse pouco, ela pede para tirar cópias e o bibliotecário aceita na hora. Então, não apenas Kim não sabia nada sobre a vida de Blackwood (e alega ter estudado tudo sobre o mesmo) como também burla regras com a maior facilidade. O roteiro nem se dá o trabalho de demonstrar que o bibliotecário poderia estar querendo sair com ela, logo logo ele sai de cena e nunca mais ouvimos sobre o coitado.

Mas ainda tem mais, muito mais! Logo quando as criaturas surgem, elas contam à Sally que não suportam luz mas, ao longo da história, surgem em diversos momentos onde a luz bate diretamente contra eles como quando alguns se escondem em um vaso de flores, em uma peça totalmente iluminada, em meio à uma festa na mansão! Em uma cena na biblioteca da casa, Sally fica presa à mercê das criaturinhas e consegue esmagar uma delas em uma prateleira. Logo em seguida seu pai entra no lugar para resgatá-la e ela simplesmente esquece do corpo da “fada” esmagado, sendo que passa a cena inteira tentando tirar fotos para provar para o próprio pai e a madrasta a existência das criaturas que alega ver.

Por fim, Kim se sacrifica para salvar a menina e acaba sendo sugada para dentro da caldeira onde os monstrinhos habitam. Novamente as autoridades preguiçosas Rhode Island não dão a mínima para o desaparecimento, não procuram o marido para fazer perguntas e nem mesmo ele se importa de chamar uma equipe de escavação para resgatar o corpo. Como vão explicar para os familiares de Kim que ela foi sugada para dentro de um poço sem fundo que leva direto ao inferno, habitado por demônios mirins … não sei!

O roteiro também deixa situações em aberto e não explora possibilidades. Em dado momento, Sally coloca uns dentes que encontrou no porão debaixo de seu travesseiro e acorda com uma moeda antiga posta no lugar, dando a entender que estas seriam as famosas “fadas do dente”. Posteriormente, falam algo sobre um acordo entre as criaturas e o papa para que provessem dentes e elas não incomodariam os seres humanos mas logo isso é esquecido e nada mais é falado. Como as situações vêm e vão, é totalmente impossível encontrar uma linha lógica na trama de Del Toro, que mais parece um samba do crioulo doido, esquecendo de que as situações criadas precisam ter fim e explicação. Não é raro encontrar situações deixadas de lado por conveniência, fazendo com o que o espectador fique puto imaginando o porquê de soluções tão simplórias. E estamos falando aqui sobre um cara que escreveu roteiros complexos e detalhistas como O Labirinto de Fauno, A Espinha do Diabo e Cronos!

É complicado mensurar o porquê de “The Dark” ter acabado de forma tão formulaica, preguiçosa e estúpida, uma vez que poderia ser um redentor para a interminável onda de remakes americanos. Se você quer um filme descompromissado, assustador e bem escrito, apelarei para o clichê de mandar procurar o original, feito para a tv.

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Insidious (Sobrenatural) – Review

 

Sinopse (SPOILERS): A trama conta a história de um casal (Patrick Wilson e Rose Byrne) que tenta evitar que o seu filho, que se encontra em estado de coma, seja encarcerado por espíritos demoníacos.

O professor Josh Lambert e sua esposa Renai se movem com seus três filhos, Dalton, Foster e o bebê Cali, para uma antiga e grande casa. Quando Dalton explora o sótão, ele cai da escada e bate a cabeça no chão. Na manhã seguinte, Dalton não acorda e permanece em coma, mas os médicos não são capazes de diagnosticar seu problema. Três meses depois, coisas estranhas acontecem na casa e Renai vê aparições. Ela tem certeza de que a casa está assombrada e convence Josh a se mudar para outra casa. Mais cedo, Renai vê fantasmas na casa nova e Josh não acredita em sua esposa. Mas sua mãe Lorraine diz que ela tinha tido um sonho onde viu um demônio no quarto de Dalton. Eles convidam a médium Elise Rainier, que traz sua equipe de investigadores paranormais para investigar o fenômeno sobrenatural. Elise explica que Dalton é um viajante com a capacidade de deixar seu corpo físico e viajar em projeção astral. Agora seu corpo espiritual está perdido em um lugar chamado “O Distante”. Nesta dimensão, existem entidades que saíram de seu corpo físico para “perambular” pelo lugar. Entre essas entidades, há um demônio que necessita do corpo de Dalton para causar dor aos outros. Além disso, Lorraine revela que Josh também é um viajante talentoso e deve procurar Dalton e trazê-lo de volta.

 

Antes de começar a falar de Insidious, gostaria de abrir um parenteses para outra obra de horror, desta vez muita mais conceituada no meio. O nome? Poltergeist, filme “dirigido” por Tobe Hooper e produzido e escrito por Steven Spielberg no auge de seu sucesso enquanto dono de Hollywood. A história é clássica, eventos sobrenaturais acontecem em uma casa, inicialmente tudo parece maravilhoso até que espíritos malignos surgem, uma garotinha é sugada pela televisão e uma medium é chamada para exorcisar o local e trazer de volta a filha que ficou perdida no “outro mundo”. Bem, este longa é considerado um dos pilares modernos para os filmes de horror em uma veia mais psicológica, surgido em meio à um domínio manifesto dos slashers, onde muito sangue e vilões mais interessantes que suas vítimas viraram norma. Mas não pense que Poltergeist bebe na fonte de um clássico como “Os Inocentes” ou ainda possui a sutileza enlouquecedora de “O Bebê de Rosemary”. Na verdade, se trata de um filme muito mais próximo da profusão de efeitos especiais e trilhas sonoras barulhentas que começaram a ganhar força no cinema de horror ainda nos anos 70. Só que o longa produzido por Spielberg é uma espécie de pináculo deste estilo de contar histórias, elevando tudo à enésima potência, deixando totalmente de lado a regra do “quanto menos mostrar, melhor” e se usando de toda e qualquer novidade tecnológica da época para recriar o que seria um verdadeiro circo armado pelos fantasmas dos índios enterrados no solo da vizinhaça dos Freeling. Particularmente, Poltergeist hoje se sustenta (apenas) na nostalgia mas o “estrago” já estava feito e, além de suas próprias continuações, gerou uma nova brecha no cinema do estilo que, na verdade, sugou quase todos os filmes que propunham tratar deste tipo de história.

Mas por que, afinal, estou falando em um filme extremamente distante em tempo de Insidious, o mote deste post? Caso você já tenha visto ambos os filmes, vai pescar de primeira a ligação. Caso não, permita-me discorrer em algumas palavras … O longa, lançado em 2010 e dirigido por James Wan (diretor e produtor da série “Jogos Mortais“), é uma espécie de reciclagem da cartilha ensinada por Poltergeist, mastigada para as audiências modernas. O fato é que hoje, para quem não cresceu assistindo o filme dirigido por Hooper, Poltergeist soará extremamente ingênuo e, devido a precariedade dos efeitos especiais da época, provoca mais risos do que tensão. Insidious preserva a lição ensinada pelo roteiro de Spielberg mas adiciona alguns elementos modernos na narrativa e busca atualizar a extremamente saturada história de casas mal-assombradas. Mas não pense que velhos clichês não surgem a toda hora no roteiro de Leigh Wannell. Estão lá os sustos falsos, a mulher que vê as aparições e é desacreditada por todos, temendo por sua sanidade, as crianças que enxergam coisas durante a noite para as quais seus pais não dão atenção, o alívio cômico em dois personagens um tanto bobos e a médium que tem todas as respostas.

O casal de protagonistas é formado por Patrick Wilson e  a bela Rose Byrne. Espero que não soe como uma mera implicância mas é difícil de engolir Wilson no papel de Josh Lambert, um pacato professor, pai de família, assim como foi difícil de engolir quando fez o pedófilo em “Menina má.com“. Wilson tem a cara e o padrão físico de famoso galã e ator hollywoodiano, tornando complicado imaginá-lo na posição de uma pessoa comum e, verdade seja dita, sua atuação não ajuda, sempre beirando ao exagero. Rose Byrne também não parece muito disposta a apresentar a gama de emoções que sua personagem solicita e passa o longa inteiro com cara de sofrimento, sem que o roteiro dê o suporte e background necessário para entender sua melancolia, mesmo quando tudo está bem e a família recém se mudou para a casa nova. Ambos os personagens não funcionam como casal porque são extremamente distantes, tornando difícil para o espectador acreditar que realmente estão juntos há algum tempo e já possuem três filhos. A abordagem para a mudança (ou retomada) do comportamento distante de Josh é muito superficial e soa intrusiva, afinal no momento em que sua mulher está à beira de um colapso, o marido cada vez mais se distancia sem dar grandes motivos para tal. Por estes motivos, é difícil simpatizar com o casal, ao passo que não temos informações suficientes para compreendê-los enquanto uma família. Outros personagens são inseridos e retirados como que ferramentas que servem à uma cena ou duas. Um deles é o filho mais velho que está alí apenas para informar à sua mãe que vê Dalton vagando pela casa à noite. É claríssima a negligência com o menino e o roteiro arranha esta superfície quando Renai encontra um prêmio dado em sua classe e o menino demonstra indiferença à mostrar para seus pais. Logo este ponto é suprimido e, literalmente, não o vemos mais em cena. O mesmo vale para o bebê que serve apenas para chorar e nos agraciar com a melhor cena do longa onde, na verdade, o monitor presente em seu quarto é que faz a diferença. Existe, também, um descaso com outros personagens secundários que surgem ao longo da obra. Um deles é a médium que quase morre na sessão espírita promovida para se comunicar com o espírito de Dalton e ninguém parece dar a mínima para sua condição. Outra possibilidade levantada difícil de ser encarada como plausível é o descrédito de Josh. O roteiro não é nada sútil e, em determinado momento, podemos ver o quarto de Dalton todo revirado, com todas as janelas quebradas e cheio de marcas de sangue nas paredes. Mesmo assim, o pai ainda guarda suas dúvidas com relação à natureza dos fenômenos que ocorrem com seu filho (e só muda de opinião quando vê um desenho feito por Dalton).

Entretanto, o maior problema de Insidious está no exagero. Já na metade, o filme apresenta poucas cartas na manga para assustar e surpreender o espectador porque já superexpôs seus efeitos especiais e seus monstros no armário. Em uma cena que poderia ter enorme impacto, onde um menino dança ao som de uma canção antiga e Renai o persegue pela casa, temos muito acesso à sua imagem, incluindo a exposição de seu rosto. Em outro momento, enquanto Josh, sua mãe e Renai estão conversando, o demônio que assombra a família surge (em uma maquiagem um tanto carnavalesca) e, posteriormente, o vemos em uma espécie de inferno, dentro de uma “casa” cheia de ferramentas, resultando em uma cena até mesmo cômica. Há também uma possível citação à “O Iluminado“, quando um dos empregados da médium Elise utiliza um óculos especial e vê duas irmãs gêmeas vestidas de forma muito semelhante às famosas gêmeas do corredor do filme de Stanley Kubrick. O final rivaliza com a infame conclusão de Poltergeist, levando Josh para o “além” e exibindo uma profusão de fantasmas que aparecem à todo o instante, a ponto do espectador se acostumar com suas presenças. O efeito desta superexposição é a perda do fator assustador que o roteiro poderia criar. Como vemos tudo o tempo inteiro, a tensão vai pelos ares e passamos a apenas esperar qual será  a nova maquiagem e o novo susto que vão surgir na sequência, certamente o que não deve acontecer em um longa desta natureza. Como diria uma música dos Beatles, it’s all too much …

Como fator positivo, é possível ressaltar uma maior presença de maquiagem em detrimento ao CGI e algumas cenas esparsas que podem garantir um bom susto para quem compra a idéia do filme. Mas, de certa forma, Insidious traz de volta muitas coisas negativas que deveriam ficar presas à um momento transitório do cinema de horror. O fato de jogar na cara do espectador há todo o instante aquilo que deveria ficar implícito e ser combustível para a imaginação de quem está assistindo, acaba por tirar totalmente a possibilidade de interagir e se sentir perdido como um dos personagens do longa. A natureza rasa de seus personagens também aliena e faz com que não sejam simpáticos ou afáveis ao espectador, criando assim uma sensação de desinteresse em seus destinos. Por fim, Insidious até pode ser superior à uma enorme leva de filmes recentes no mesmo tema mas ainda passa muito longe do ideal, ideal este que pode ser atingido e funcionar com audiências modernas, como Session 9 prova. Ou, como na época de Poltergeist, filmaços como “The Changeling” ou “Ghost Story” provaram.