Review: Don’t Be Afraid Of The Dark (Não Tenha Medo do Escuro) – 2011

Ou “O filme com mais buracos no roteiro de 2011”.

Sinopse: Sally Hurst (Bailee Madison), uma criança solitária e introvertida, acaba de chegar a Rhode Island para morar com o pai, Alex (Guy Pearce), e a nova namorada dele, Kim (Katie Holmes), na mansão do século 19 que eles estão reformando. Enquanto explora a ampla propriedade, a menina descobre um porão oculto, intocado desde o estranho desaparecimento do construtor da mansão um século antes. Quando Sally, inadvertidamente, liberta uma raça antiga e obscura de criaturas que conspiram para dragá-la para as profundezas infinitas da misteriosa casa, ela precisa convencer Alex e Kim que não se trata de uma fantasia – antes que o mal que espreita na escuridão os consuma.

Escrito por Guillermo Del Toro (O Labirinto de Fauno) e Matthew Robbins (THX 1138 e Encontros Imediatos de Terceiro Grau), produzido por Del Toro e Mark Johnson (Rain Man) e dirigido por Troy Nixey (ilustrador de comic books de Neil Gaiman). Com tantas mãos talentosas trabalhando, o que poderia dar errado? Bem, é um remake de um obscuro telefilme da década de 70 mas com todo esse pessoal envolvido, talvez com este seja diferente.

Não é muito alentador mas Don’t Be Afraid of The Dark (chamemos de “The Dark”) poderia ser escrito e dirigido por qualquer um, desde Marcus Nispel até ser produzido pela Platinum Dunes, não faria qualquer diferença porque apresenta os mesmos problemas e furos que eu, você e muitos outros já criticaram nos remakes modernos. A história não é uma transcrição literal do telefilme original mas perde muito em originalidade e ganha muito em falta de imaginação. Aqui os vilões são criaturinhas ridículas (que mais parecem Gremlins, sem um terço do carisma dos monstrinhos de Joe Dante), totalmente criadas por CGI, que soam falsas e aparecem demais ao longo do filme. Mas e se eu disser que esse é o menor dos problemas do longa de Nixey?

Filmes de horror deveriam seguir uma regra natural. Apesar de serem livres para utilizar o elemento fantástico na história, é preciso situá-lo em uma situação plausível, que obedeça uma ordem de acontecimentos que sejam próximos da realidade. Ou seja, ele precisa ser no estilo “e se isso acontecesse de verdade?”, utilizando seu elemento sobrenatural em um cenário em que seja possível acreditar. The Dark passa longe de conseguir fazer isso, muito pelo contrário. Em dados momentos as soluções de seu roteiro (ou a falta das mesmas) nos levam a acreditar que este tenha sido escrito por uma criança de 10 anos. É admirável a quantidade de furos e situações inacabadas que a história criada por Del Toro e Matthew Robbins, deixam para trás. Mesmo que você não se ligue tanto nesta questão de plausibilidade do roteiro, vai ser difícil não fazer comentários do tipo “Peraí, como isso foi possível?” ou “porque ela não fez isso?”.

Começando pelo início, o cast não é exatamente uma luz no fim do túnel que salva a produção da medíocridade. A Sra. Cruise, Katie Holmes, mantém o nível geral de suas interpretações e promove um show de caretas e falsas emoções, que certamente não convencem nem uma criança. Seu marido, Guy Pearce (um bom ator), entrega uma atuação distraída, assim como seu personagem pede (que, caso não existisse, com algumas mudanças na trama, não faria nenhuma falta). Quem rouba a cena é a menina Bailee Madison (que, apesar da pouca idade, já possui uma carreira em seriados de tv), aqui fazendo a estranha Sally, uma menina com espírito de velha, bastante deprimida e mais adulta que boa parte do elenco.

Em termos da trama, como já foi dito, existem buracos do tamanho da lua em pontos centrais do roteiro. Um dos mais explícitos acontece quando o caseiro Mr. Harris (Jack Thompson), confronta as pequenas criaturinhas no porão. Elas promovem uma verdadeira chacina, enfiando uma tesoura em seu ombro e seu olho arrancado (em um gore totalmente feito por CGI). Harris diz para sua mulher que se trata de um acidente e, quando a polícia chega, concluem de imediato que foi um acidente caseiro, sem fazer uma investigação ou mesmo qualquer tipo de entrevista com os moradores da casa. De tão incompetentes, nem mesmo visitam a cena do crime! Em outro momento, mais adiante, a personagem de Katie Holmes visita Harris no hospital. Para se manter fiel ao clichê, Harris (que sabe sobre a existências das fadas, gremlins ou seja lá o que for) é perguntado sobre as alegações da menina e fala de forma extremamente críptica, ao invés de apenas dizer que são verdadeiras, existem criaturas na casa e eles têm de sair de lá. Ao invés disso, fica dizendo que a menina precisa sair da casa, balbucia algo sobre um lote na biblioteca pública da cidade, tudo isso falando com a voz do Cryptkeeper da série Contos da Cripta. Isto nos leva à próxima cena, quando Holmes vai até a biblioteca e pede para visitar o tal lote. O bibliotecário a leva até lá, conta que o dono do lote, Sr. Blackwood (que morou na casa), tinha um filho que desapareceu, fala sobre um mosaico perdido e permite que uma mulher totalmente desconhecida veja os últimos desenhos de Blackwood, antes dizendo que possuia ordens explícitas para não mostrar pra ninguém. Como se fosse pouco, ela pede para tirar cópias e o bibliotecário aceita na hora. Então, não apenas Kim não sabia nada sobre a vida de Blackwood (e alega ter estudado tudo sobre o mesmo) como também burla regras com a maior facilidade. O roteiro nem se dá o trabalho de demonstrar que o bibliotecário poderia estar querendo sair com ela, logo logo ele sai de cena e nunca mais ouvimos sobre o coitado.

Mas ainda tem mais, muito mais! Logo quando as criaturas surgem, elas contam à Sally que não suportam luz mas, ao longo da história, surgem em diversos momentos onde a luz bate diretamente contra eles como quando alguns se escondem em um vaso de flores, em uma peça totalmente iluminada, em meio à uma festa na mansão! Em uma cena na biblioteca da casa, Sally fica presa à mercê das criaturinhas e consegue esmagar uma delas em uma prateleira. Logo em seguida seu pai entra no lugar para resgatá-la e ela simplesmente esquece do corpo da “fada” esmagado, sendo que passa a cena inteira tentando tirar fotos para provar para o próprio pai e a madrasta a existência das criaturas que alega ver.

Por fim, Kim se sacrifica para salvar a menina e acaba sendo sugada para dentro da caldeira onde os monstrinhos habitam. Novamente as autoridades preguiçosas Rhode Island não dão a mínima para o desaparecimento, não procuram o marido para fazer perguntas e nem mesmo ele se importa de chamar uma equipe de escavação para resgatar o corpo. Como vão explicar para os familiares de Kim que ela foi sugada para dentro de um poço sem fundo que leva direto ao inferno, habitado por demônios mirins … não sei!

O roteiro também deixa situações em aberto e não explora possibilidades. Em dado momento, Sally coloca uns dentes que encontrou no porão debaixo de seu travesseiro e acorda com uma moeda antiga posta no lugar, dando a entender que estas seriam as famosas “fadas do dente”. Posteriormente, falam algo sobre um acordo entre as criaturas e o papa para que provessem dentes e elas não incomodariam os seres humanos mas logo isso é esquecido e nada mais é falado. Como as situações vêm e vão, é totalmente impossível encontrar uma linha lógica na trama de Del Toro, que mais parece um samba do crioulo doido, esquecendo de que as situações criadas precisam ter fim e explicação. Não é raro encontrar situações deixadas de lado por conveniência, fazendo com o que o espectador fique puto imaginando o porquê de soluções tão simplórias. E estamos falando aqui sobre um cara que escreveu roteiros complexos e detalhistas como O Labirinto de Fauno, A Espinha do Diabo e Cronos!

É complicado mensurar o porquê de “The Dark” ter acabado de forma tão formulaica, preguiçosa e estúpida, uma vez que poderia ser um redentor para a interminável onda de remakes americanos. Se você quer um filme descompromissado, assustador e bem escrito, apelarei para o clichê de mandar procurar o original, feito para a tv.

3 comentários

  1. Também concordo com a tua longa análise ;)…A minha foi resumida, mas achei o filme mesmo péssimo e difícil de dispensar tempo a escrever sobre ele de tão ridículo que consegue ser. é de pensar como Del Toro assinou algo assim…

    cumprimentos,
    cinemaschallenge.blogspot.com

  2. Foi a maior desilusão que tive em 2011. Pelas pessoas envolvidas que bem salientas esperava-se mais, esperava-se melhor.

    A miúda está muito bem mas o filme na sua generalidade não tem interesse nenhum. Não há suspense, não há nada (ou muito pouco).

    Uma pena.

    Abraço

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