terror

Mudança…

Pessoal, apenas para fins informativos, o blog sofrerá uma mudança radical. Manterei os artigos sobre cinema de horror no arquivo mas pretendo torná-lo, daqui para frente, um espaço para artigos sobre cultura de uma forma geral, incluindo música e cinema de arte. Desde que criei este blog, meus gostos amadureceram muito e o cinema de horror, tal qual apresentado aqui, parou de ser algo relevante em meu “espectro” cultural.  Aproveitarei a plataforma para transformar este blog em algo atrativo, novamente, a mim para que volte a escrever com alguma frequência.

Agradeço muito pelas visitas e comentários. Recebi vários elogios sinceros e tive um número de visitas fantástico, que eu nunca esperaria ter (e tive vários outros blogs que passaram longe disto). Espero que gostem do novo conteúdo.

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Review: Evil Dead 2013

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Faz um bom tempo que não escrevo nada para o Rewind, Please. E devo continuar sem fazê-lo. Porém, minha conjuração que trará, mesmo que brevemente, o blog do mundo dos mortos é produto de um profundo desgosto. Revisando as postagens, eu descobri que, para todos os remakes que resenhei, fui extremamente crítico. Não é o caso de ser um chato purista; todos os remakes feitos a partir da década de 2000 que assisti foram muito ruins. Talvez exista algum muito bom, melhor que o original, dando sopa por aí. Até agora, ainda é uma miragem para mim.

Existem duas premissas básicas hoje em dia para o cinema de horror – e digo cinema de horror porque deste mal padecem filmes mainstream e, até mesmo, os independentes. Você pode trabalhar em seu filme sob o frame de “horror psicológico” ou “torture porn”. Nada entre eles é permitido. São dois extremos do espectro; de um lado estão os genéricos suspenses que vão escalando em intensidade até um final sobrenatural “full time”. Do outro, está o roteiro bobo que usa qualquer desculpa para colocar um monte de adolescentes ou gente burra para morrer. No primeiro, temos os artifícios que subestimam as audiências como a personagem (invariavelmente) feminina que passa a ter visões e é sempre desacreditada pela família até que o próprio diabo apareça – e acredite, mesmo assim ainda haverá um personagem idiota para contestar a explicação sobrenatural para a mixórdia em que está vivendo. No segundo, temos um monte de gente morrendo; alguns filmes com mais sangue, outros mais explícitos, todos com uma overdose de câmera tremendo, jump cuts e sustos falsos.

Evil Dead 2013 é, basicamente, um torture porn. Porém, ele vai um pouco além; em sua composição encontramos elementos do “horror psicológico”. Há quem diga que o filme é o máximo que um grande estúdio hollywoodiano poderia chegar de um splatter. Eu, particularmente, já identifiquei aqui mesmo no blog a tendência de exagerar no sangue para maquiar falta de coragem dos roteiristas. A nossa bola da vez é toda pautada em cima do modelo do torture porn. Essa é sua base e o próprio início do filme deixa isto bem claro. Trata-se de um longa realmente recheado de charope Karo: tem muito sangue espalhado para todos os lados! A conexão com o Evil Dead original não poderia ser menor; basicamente, uma leitura rápida da sinopse do filme na wikipedia poderia garantir aos roteiristas do remake material suficiente para escrever a besteira que escreveram.

O original dispensa grandes discussões porque elas já foram feitas extensivamente pela internet. Foi o filme que foi porque possuía um time de pessoas, jovens e sem oportunidade no grande negócio hollywoodiano, com uma câmera na mão e muitas ideias incríveis na cabeça. A criatividade que dribla os aspectos low-budget da produção elevou Evil Dead à condição de cânone do horror no cinema. Desde as tomadas POV na floresta (um dos poucos elementos trazidos para o remake, de forma tímida) até um roteiro que manda a tradição de “tomar tempo desenvolvendo os personagens desinteressantes para que morram logo em seguida” às favas. jogando na cara do espectador uma sequência de tirar o fôlego já no início do filme. Ash, o grande herói de Bruce Campbell, surge só na metade final, causando surpresa já que o outro personagem masculino, por menos interessante que fosse, ainda parecia com mais cara de “mocinho” do que Campbell, que depois viraria cult nas sequências.

Já Evil Dead 2013 não sai da base, mantendo-se sempre preso a uma pletora de regras e clichês que pautam os torture porn. É sangrento, tenta ser “realista” (e o roteiro não poderia ser mais paradoxal neste sentido), já começa sinistro, com estes terríveis filtros azulados escurecendo a imagem e faz com que a audiência torça pelos “bandidos” enquanto têm síncopes de raiva devido às ações bestas dos personagens. A culpa nem é dos atores; se você for ensaiar um papel de um personagem que tem paralisia cerebral, você o fará de acordo com o paralelo com a vida real. Em Evil Dead 2013, todos os personagens (inclusive os demônios) possuem metade do cérebro paralisado. É muita idiotice reunida.

No original (prometo que cesso as comparações porque é até heresia), temos uma cabana normal no meio do mato e um grupo normal de jovens (ainda que “românticos”, para dizer o mínimo) a habitando. Até o momento onde o livro é capturado, temos uma história que poderia vir de um melodrama dos anos 50. O contraste é intencional; minutos depois temos o inferno, literalmente, acontecendo na frente das câmeras. O remake decide já começar com uma cena onde uma menina é queimada viva por um grupo de pessoas feiosas. Não há ambiguidade; ela está possuída pelas entidades que vão aparecer posteriormente. Assim, é claro, o remake já sai explicando o background, algo que o original nunca faz, em nenhum momento (apenas toca, muito por cima, com as gravações do professor). Aí, musiquinhas de piano do tipo “coisas ruins irão acontecer” a parte, o grupo tirado direto da agência de modelos chega na cabana. Tudo é azulado, tudo é sinistro. Logo logo, descobrem um porão com um monte de gatos mortos pendurados por ganchos, Lá no fundo, alguém avista o Necronomicon (que ganha outro título com mais cara de “coisa séria”, apesar das gravuras de álbum de black metal gravado em garagem).

Aí um dos palermas da turma, que mais parece uma espécie de “Kurt Cobain” com constipação, descobre umas inscrições escondidas no livros e as recita. A entidade começa a se mover dentre a mata. Uma das personagens mais insuportáveis do remake é, logo, a protagonista, Poupo o spoiler, é isso mesmo. Viciada em drogas (algo que deve ter sido toque da roteirista ou revisora de roteiro Diablo Cody), ela vai com os amigos e o irmão para a cabana, a fim de se livrar da dependência, coisa que, com uns 20 minutos, já não faz mais diferença nenhuma. Perdia na mata, ela acaba sendo atacada pela “floresta” e é presa por alguns galhos. Quem viu o original, pensou saber o que aconteceria. Não; a brutalidade do estupro das vinhas é trocada por uma figurinha fantasmagórica que vomita um troço preto. O troço preto penetra a mocinha e aí ela passa carregar o mal. Lembra quando, no original, precisava de uns líquidos pretos para que alguém ficasse possuído? Eu não lembro.

A partir daí, o filme começa a derramar seus galões de sangue. Cortes expostos, tiros, mordidas, vômito, lacerações e sangue. Muito sangue. Já frisei o suficiente? Mesmo com todos os indícios possíveis de manifestação sobrenatural, com direito a vozes demoníacas e aberturas súbitas de portas e janelas, a patota segue a achar que são sintomas da abstinência. Uma personagem tem a cara de pau de dizer “ela está psicótica”, depois da mocinha vomitar litros de sangue na cara dela. Lembra do “horror psicológico”? Este é o elemento obrigatório no estilo. Quem disse que a periferia do cinema de horror não pode ser promíscua?

Os personagens vão morrendo ou sendo possuídos. Os dois homens do grupo apanham e apanham muito. Tomam tiros de calibre 12, sofrem cortes profundos, apanham com pé de cabra, são perfurados por pregos, são cravejados por agulhas na face e, minutos depois, estão conversando, de pé, lúcidos, como se nada tivesse acontecido. Decepar membros é moleza! Existe uma expressão americana utilizada quando cineastas requerem que as audiências deixem para lá embasamentos na realidade. Evil Dead 2013 é como se a “suspension of disbelief” fosse, ela mesma, roteirizada e filmada!

Perto do fim, aprendemos que bastava o irmão chatíssimo ter enterrado a personagem possuída para ela voltar ao normal. Ele, um jovem normal que deveria gastar seu tempo na vida da cidade transando, fumando erva e estudando para a faculdade, cria, sozinho, um rudimentar mas complexo desfibrilador caseiro para reviver sua irmã. Ela morre. Frase dramática e música em tom menor seguem. Ela revive e o final feliz se aproxima. Só que um dos personagens retorna como demônio e o irmão se sacrifica, explodindo a cabana. Aí o “twist” politicamente correto se dá; com os homens mortos, é a histérica e chata ex-possuída que vira a heroína, cortando ao meio uma entidade profundamente poderosa, com uma serra elétrica – olha mãe, ela é o Ash, só que do sexo frágil. Parabéns Evil Dead 2013 pelo ambivalente comentário social.

Como vocês podem notar, não escrevi o nome de nenhum dos personagens porque, de fato, não lembro de nenhum deles. E eu assisti o filme há uns 30 minutos atrás! Admito: não estou a fim de procurar na internet. Não há nada neste remake que não tenhamos visto em outros. Tem muito sangue mas em termos de gore, perde feio para outras chatices, do tipo O Albergue. Com uns 50 minutos, eu já estava implorando para que acabasse para ir embora do cinema mas a joça tinha mais uns quarenta minutos de sofrimento. Vi gente dita entendida de cinema de horror elogiando o filme. Eu não entendo nada de cinema de horror mas, com auxílio dos meus olhos, ouvidos e neurônios, cheguei a conclusão que este filme é, na medida de todos os outros, uma bela merda (acho que este é o primeiro palavrão que uso aqui no blog).

Enfim, se não viu, não veja, Se já viu, desista. Eu já desisti; o cinema americano parou de tentar há muito tempo. Agora, nem sei mais qual clássico eles vão estuprar até porque os mais conhecidos já foram, todos, para a magnífica fábrica de blockbusters que serão esquecidos em 5 minutos após sair do cinema. Dá dinheiro, até mesmo para pagar críticos para dizerem que o filme está a par com a grandiosidade do original. Para chegar a tal conclusão, sem ser pago, é preciso comungar da paralisia cerebral dos personagens do filme. Fique longe desta porcaria!

Review: Don’t Be Afraid Of The Dark (Não Tenha Medo do Escuro) – 2011

Ou “O filme com mais buracos no roteiro de 2011”.

Sinopse: Sally Hurst (Bailee Madison), uma criança solitária e introvertida, acaba de chegar a Rhode Island para morar com o pai, Alex (Guy Pearce), e a nova namorada dele, Kim (Katie Holmes), na mansão do século 19 que eles estão reformando. Enquanto explora a ampla propriedade, a menina descobre um porão oculto, intocado desde o estranho desaparecimento do construtor da mansão um século antes. Quando Sally, inadvertidamente, liberta uma raça antiga e obscura de criaturas que conspiram para dragá-la para as profundezas infinitas da misteriosa casa, ela precisa convencer Alex e Kim que não se trata de uma fantasia – antes que o mal que espreita na escuridão os consuma.

Escrito por Guillermo Del Toro (O Labirinto de Fauno) e Matthew Robbins (THX 1138 e Encontros Imediatos de Terceiro Grau), produzido por Del Toro e Mark Johnson (Rain Man) e dirigido por Troy Nixey (ilustrador de comic books de Neil Gaiman). Com tantas mãos talentosas trabalhando, o que poderia dar errado? Bem, é um remake de um obscuro telefilme da década de 70 mas com todo esse pessoal envolvido, talvez com este seja diferente.

Não é muito alentador mas Don’t Be Afraid of The Dark (chamemos de “The Dark”) poderia ser escrito e dirigido por qualquer um, desde Marcus Nispel até ser produzido pela Platinum Dunes, não faria qualquer diferença porque apresenta os mesmos problemas e furos que eu, você e muitos outros já criticaram nos remakes modernos. A história não é uma transcrição literal do telefilme original mas perde muito em originalidade e ganha muito em falta de imaginação. Aqui os vilões são criaturinhas ridículas (que mais parecem Gremlins, sem um terço do carisma dos monstrinhos de Joe Dante), totalmente criadas por CGI, que soam falsas e aparecem demais ao longo do filme. Mas e se eu disser que esse é o menor dos problemas do longa de Nixey?

Filmes de horror deveriam seguir uma regra natural. Apesar de serem livres para utilizar o elemento fantástico na história, é preciso situá-lo em uma situação plausível, que obedeça uma ordem de acontecimentos que sejam próximos da realidade. Ou seja, ele precisa ser no estilo “e se isso acontecesse de verdade?”, utilizando seu elemento sobrenatural em um cenário em que seja possível acreditar. The Dark passa longe de conseguir fazer isso, muito pelo contrário. Em dados momentos as soluções de seu roteiro (ou a falta das mesmas) nos levam a acreditar que este tenha sido escrito por uma criança de 10 anos. É admirável a quantidade de furos e situações inacabadas que a história criada por Del Toro e Matthew Robbins, deixam para trás. Mesmo que você não se ligue tanto nesta questão de plausibilidade do roteiro, vai ser difícil não fazer comentários do tipo “Peraí, como isso foi possível?” ou “porque ela não fez isso?”.

Começando pelo início, o cast não é exatamente uma luz no fim do túnel que salva a produção da medíocridade. A Sra. Cruise, Katie Holmes, mantém o nível geral de suas interpretações e promove um show de caretas e falsas emoções, que certamente não convencem nem uma criança. Seu marido, Guy Pearce (um bom ator), entrega uma atuação distraída, assim como seu personagem pede (que, caso não existisse, com algumas mudanças na trama, não faria nenhuma falta). Quem rouba a cena é a menina Bailee Madison (que, apesar da pouca idade, já possui uma carreira em seriados de tv), aqui fazendo a estranha Sally, uma menina com espírito de velha, bastante deprimida e mais adulta que boa parte do elenco.

Em termos da trama, como já foi dito, existem buracos do tamanho da lua em pontos centrais do roteiro. Um dos mais explícitos acontece quando o caseiro Mr. Harris (Jack Thompson), confronta as pequenas criaturinhas no porão. Elas promovem uma verdadeira chacina, enfiando uma tesoura em seu ombro e seu olho arrancado (em um gore totalmente feito por CGI). Harris diz para sua mulher que se trata de um acidente e, quando a polícia chega, concluem de imediato que foi um acidente caseiro, sem fazer uma investigação ou mesmo qualquer tipo de entrevista com os moradores da casa. De tão incompetentes, nem mesmo visitam a cena do crime! Em outro momento, mais adiante, a personagem de Katie Holmes visita Harris no hospital. Para se manter fiel ao clichê, Harris (que sabe sobre a existências das fadas, gremlins ou seja lá o que for) é perguntado sobre as alegações da menina e fala de forma extremamente críptica, ao invés de apenas dizer que são verdadeiras, existem criaturas na casa e eles têm de sair de lá. Ao invés disso, fica dizendo que a menina precisa sair da casa, balbucia algo sobre um lote na biblioteca pública da cidade, tudo isso falando com a voz do Cryptkeeper da série Contos da Cripta. Isto nos leva à próxima cena, quando Holmes vai até a biblioteca e pede para visitar o tal lote. O bibliotecário a leva até lá, conta que o dono do lote, Sr. Blackwood (que morou na casa), tinha um filho que desapareceu, fala sobre um mosaico perdido e permite que uma mulher totalmente desconhecida veja os últimos desenhos de Blackwood, antes dizendo que possuia ordens explícitas para não mostrar pra ninguém. Como se fosse pouco, ela pede para tirar cópias e o bibliotecário aceita na hora. Então, não apenas Kim não sabia nada sobre a vida de Blackwood (e alega ter estudado tudo sobre o mesmo) como também burla regras com a maior facilidade. O roteiro nem se dá o trabalho de demonstrar que o bibliotecário poderia estar querendo sair com ela, logo logo ele sai de cena e nunca mais ouvimos sobre o coitado.

Mas ainda tem mais, muito mais! Logo quando as criaturas surgem, elas contam à Sally que não suportam luz mas, ao longo da história, surgem em diversos momentos onde a luz bate diretamente contra eles como quando alguns se escondem em um vaso de flores, em uma peça totalmente iluminada, em meio à uma festa na mansão! Em uma cena na biblioteca da casa, Sally fica presa à mercê das criaturinhas e consegue esmagar uma delas em uma prateleira. Logo em seguida seu pai entra no lugar para resgatá-la e ela simplesmente esquece do corpo da “fada” esmagado, sendo que passa a cena inteira tentando tirar fotos para provar para o próprio pai e a madrasta a existência das criaturas que alega ver.

Por fim, Kim se sacrifica para salvar a menina e acaba sendo sugada para dentro da caldeira onde os monstrinhos habitam. Novamente as autoridades preguiçosas Rhode Island não dão a mínima para o desaparecimento, não procuram o marido para fazer perguntas e nem mesmo ele se importa de chamar uma equipe de escavação para resgatar o corpo. Como vão explicar para os familiares de Kim que ela foi sugada para dentro de um poço sem fundo que leva direto ao inferno, habitado por demônios mirins … não sei!

O roteiro também deixa situações em aberto e não explora possibilidades. Em dado momento, Sally coloca uns dentes que encontrou no porão debaixo de seu travesseiro e acorda com uma moeda antiga posta no lugar, dando a entender que estas seriam as famosas “fadas do dente”. Posteriormente, falam algo sobre um acordo entre as criaturas e o papa para que provessem dentes e elas não incomodariam os seres humanos mas logo isso é esquecido e nada mais é falado. Como as situações vêm e vão, é totalmente impossível encontrar uma linha lógica na trama de Del Toro, que mais parece um samba do crioulo doido, esquecendo de que as situações criadas precisam ter fim e explicação. Não é raro encontrar situações deixadas de lado por conveniência, fazendo com o que o espectador fique puto imaginando o porquê de soluções tão simplórias. E estamos falando aqui sobre um cara que escreveu roteiros complexos e detalhistas como O Labirinto de Fauno, A Espinha do Diabo e Cronos!

É complicado mensurar o porquê de “The Dark” ter acabado de forma tão formulaica, preguiçosa e estúpida, uma vez que poderia ser um redentor para a interminável onda de remakes americanos. Se você quer um filme descompromissado, assustador e bem escrito, apelarei para o clichê de mandar procurar o original, feito para a tv.

Insidious (Sobrenatural) – Review

 

Sinopse (SPOILERS): A trama conta a história de um casal (Patrick Wilson e Rose Byrne) que tenta evitar que o seu filho, que se encontra em estado de coma, seja encarcerado por espíritos demoníacos.

O professor Josh Lambert e sua esposa Renai se movem com seus três filhos, Dalton, Foster e o bebê Cali, para uma antiga e grande casa. Quando Dalton explora o sótão, ele cai da escada e bate a cabeça no chão. Na manhã seguinte, Dalton não acorda e permanece em coma, mas os médicos não são capazes de diagnosticar seu problema. Três meses depois, coisas estranhas acontecem na casa e Renai vê aparições. Ela tem certeza de que a casa está assombrada e convence Josh a se mudar para outra casa. Mais cedo, Renai vê fantasmas na casa nova e Josh não acredita em sua esposa. Mas sua mãe Lorraine diz que ela tinha tido um sonho onde viu um demônio no quarto de Dalton. Eles convidam a médium Elise Rainier, que traz sua equipe de investigadores paranormais para investigar o fenômeno sobrenatural. Elise explica que Dalton é um viajante com a capacidade de deixar seu corpo físico e viajar em projeção astral. Agora seu corpo espiritual está perdido em um lugar chamado “O Distante”. Nesta dimensão, existem entidades que saíram de seu corpo físico para “perambular” pelo lugar. Entre essas entidades, há um demônio que necessita do corpo de Dalton para causar dor aos outros. Além disso, Lorraine revela que Josh também é um viajante talentoso e deve procurar Dalton e trazê-lo de volta.

 

Antes de começar a falar de Insidious, gostaria de abrir um parenteses para outra obra de horror, desta vez muita mais conceituada no meio. O nome? Poltergeist, filme “dirigido” por Tobe Hooper e produzido e escrito por Steven Spielberg no auge de seu sucesso enquanto dono de Hollywood. A história é clássica, eventos sobrenaturais acontecem em uma casa, inicialmente tudo parece maravilhoso até que espíritos malignos surgem, uma garotinha é sugada pela televisão e uma medium é chamada para exorcisar o local e trazer de volta a filha que ficou perdida no “outro mundo”. Bem, este longa é considerado um dos pilares modernos para os filmes de horror em uma veia mais psicológica, surgido em meio à um domínio manifesto dos slashers, onde muito sangue e vilões mais interessantes que suas vítimas viraram norma. Mas não pense que Poltergeist bebe na fonte de um clássico como “Os Inocentes” ou ainda possui a sutileza enlouquecedora de “O Bebê de Rosemary”. Na verdade, se trata de um filme muito mais próximo da profusão de efeitos especiais e trilhas sonoras barulhentas que começaram a ganhar força no cinema de horror ainda nos anos 70. Só que o longa produzido por Spielberg é uma espécie de pináculo deste estilo de contar histórias, elevando tudo à enésima potência, deixando totalmente de lado a regra do “quanto menos mostrar, melhor” e se usando de toda e qualquer novidade tecnológica da época para recriar o que seria um verdadeiro circo armado pelos fantasmas dos índios enterrados no solo da vizinhaça dos Freeling. Particularmente, Poltergeist hoje se sustenta (apenas) na nostalgia mas o “estrago” já estava feito e, além de suas próprias continuações, gerou uma nova brecha no cinema do estilo que, na verdade, sugou quase todos os filmes que propunham tratar deste tipo de história.

Mas por que, afinal, estou falando em um filme extremamente distante em tempo de Insidious, o mote deste post? Caso você já tenha visto ambos os filmes, vai pescar de primeira a ligação. Caso não, permita-me discorrer em algumas palavras … O longa, lançado em 2010 e dirigido por James Wan (diretor e produtor da série “Jogos Mortais“), é uma espécie de reciclagem da cartilha ensinada por Poltergeist, mastigada para as audiências modernas. O fato é que hoje, para quem não cresceu assistindo o filme dirigido por Hooper, Poltergeist soará extremamente ingênuo e, devido a precariedade dos efeitos especiais da época, provoca mais risos do que tensão. Insidious preserva a lição ensinada pelo roteiro de Spielberg mas adiciona alguns elementos modernos na narrativa e busca atualizar a extremamente saturada história de casas mal-assombradas. Mas não pense que velhos clichês não surgem a toda hora no roteiro de Leigh Wannell. Estão lá os sustos falsos, a mulher que vê as aparições e é desacreditada por todos, temendo por sua sanidade, as crianças que enxergam coisas durante a noite para as quais seus pais não dão atenção, o alívio cômico em dois personagens um tanto bobos e a médium que tem todas as respostas.

O casal de protagonistas é formado por Patrick Wilson e  a bela Rose Byrne. Espero que não soe como uma mera implicância mas é difícil de engolir Wilson no papel de Josh Lambert, um pacato professor, pai de família, assim como foi difícil de engolir quando fez o pedófilo em “Menina má.com“. Wilson tem a cara e o padrão físico de famoso galã e ator hollywoodiano, tornando complicado imaginá-lo na posição de uma pessoa comum e, verdade seja dita, sua atuação não ajuda, sempre beirando ao exagero. Rose Byrne também não parece muito disposta a apresentar a gama de emoções que sua personagem solicita e passa o longa inteiro com cara de sofrimento, sem que o roteiro dê o suporte e background necessário para entender sua melancolia, mesmo quando tudo está bem e a família recém se mudou para a casa nova. Ambos os personagens não funcionam como casal porque são extremamente distantes, tornando difícil para o espectador acreditar que realmente estão juntos há algum tempo e já possuem três filhos. A abordagem para a mudança (ou retomada) do comportamento distante de Josh é muito superficial e soa intrusiva, afinal no momento em que sua mulher está à beira de um colapso, o marido cada vez mais se distancia sem dar grandes motivos para tal. Por estes motivos, é difícil simpatizar com o casal, ao passo que não temos informações suficientes para compreendê-los enquanto uma família. Outros personagens são inseridos e retirados como que ferramentas que servem à uma cena ou duas. Um deles é o filho mais velho que está alí apenas para informar à sua mãe que vê Dalton vagando pela casa à noite. É claríssima a negligência com o menino e o roteiro arranha esta superfície quando Renai encontra um prêmio dado em sua classe e o menino demonstra indiferença à mostrar para seus pais. Logo este ponto é suprimido e, literalmente, não o vemos mais em cena. O mesmo vale para o bebê que serve apenas para chorar e nos agraciar com a melhor cena do longa onde, na verdade, o monitor presente em seu quarto é que faz a diferença. Existe, também, um descaso com outros personagens secundários que surgem ao longo da obra. Um deles é a médium que quase morre na sessão espírita promovida para se comunicar com o espírito de Dalton e ninguém parece dar a mínima para sua condição. Outra possibilidade levantada difícil de ser encarada como plausível é o descrédito de Josh. O roteiro não é nada sútil e, em determinado momento, podemos ver o quarto de Dalton todo revirado, com todas as janelas quebradas e cheio de marcas de sangue nas paredes. Mesmo assim, o pai ainda guarda suas dúvidas com relação à natureza dos fenômenos que ocorrem com seu filho (e só muda de opinião quando vê um desenho feito por Dalton).

Entretanto, o maior problema de Insidious está no exagero. Já na metade, o filme apresenta poucas cartas na manga para assustar e surpreender o espectador porque já superexpôs seus efeitos especiais e seus monstros no armário. Em uma cena que poderia ter enorme impacto, onde um menino dança ao som de uma canção antiga e Renai o persegue pela casa, temos muito acesso à sua imagem, incluindo a exposição de seu rosto. Em outro momento, enquanto Josh, sua mãe e Renai estão conversando, o demônio que assombra a família surge (em uma maquiagem um tanto carnavalesca) e, posteriormente, o vemos em uma espécie de inferno, dentro de uma “casa” cheia de ferramentas, resultando em uma cena até mesmo cômica. Há também uma possível citação à “O Iluminado“, quando um dos empregados da médium Elise utiliza um óculos especial e vê duas irmãs gêmeas vestidas de forma muito semelhante às famosas gêmeas do corredor do filme de Stanley Kubrick. O final rivaliza com a infame conclusão de Poltergeist, levando Josh para o “além” e exibindo uma profusão de fantasmas que aparecem à todo o instante, a ponto do espectador se acostumar com suas presenças. O efeito desta superexposição é a perda do fator assustador que o roteiro poderia criar. Como vemos tudo o tempo inteiro, a tensão vai pelos ares e passamos a apenas esperar qual será  a nova maquiagem e o novo susto que vão surgir na sequência, certamente o que não deve acontecer em um longa desta natureza. Como diria uma música dos Beatles, it’s all too much …

Como fator positivo, é possível ressaltar uma maior presença de maquiagem em detrimento ao CGI e algumas cenas esparsas que podem garantir um bom susto para quem compra a idéia do filme. Mas, de certa forma, Insidious traz de volta muitas coisas negativas que deveriam ficar presas à um momento transitório do cinema de horror. O fato de jogar na cara do espectador há todo o instante aquilo que deveria ficar implícito e ser combustível para a imaginação de quem está assistindo, acaba por tirar totalmente a possibilidade de interagir e se sentir perdido como um dos personagens do longa. A natureza rasa de seus personagens também aliena e faz com que não sejam simpáticos ou afáveis ao espectador, criando assim uma sensação de desinteresse em seus destinos. Por fim, Insidious até pode ser superior à uma enorme leva de filmes recentes no mesmo tema mas ainda passa muito longe do ideal, ideal este que pode ser atingido e funcionar com audiências modernas, como Session 9 prova. Ou, como na época de Poltergeist, filmaços como “The Changeling” ou “Ghost Story” provaram.

As Piores (ou melhores) capas dos VHS

Dance Or Die (1987)

Quando você ver um daqueles professores de dança com cara de psicóticos e achar que ainda existe alguma profissão que o cinema não transformou em slasher, está enganado. E não, o Kieffer da capa não é o Jack Bauer.

The Cop In Blue Jeans (1977)

Jack Palance era um ator versátil, colecionava tanto oscars quanto vergonhas extremas em sua prateleira.

The Burning (1981) aka Chamas da Morte

Este slasher é conhecido por ser um dos trabalhos mais impressionantes de maquiagem de Tom Savini mas, certamente, o boneco de plástico usado em testes de batidas de automóveis, não é o seu melhor portfólio.

The Boob Tube (1975)

É difícil comentar sobre esta capa, tem tantas coisas erradas …

Dr. Butcher MD (1975) aka Zombie Holocaust

Se você acha que capas totalmente mentirosas com relação ao conteúdo de seus filmes são um fenômeno moderno da era dos DVDs, esta acima prova que a picaretagem italiana influenciou os distribuidores norte-americanos a usarem de todos os artifícios para fazer “Zombie Holocaust” (onde os vilões são, adivinhe, zumbis e canibais!), parecer um slasher sobre um médico assassino.

Programmed to Kill (1987)

Rip-off bagaceiro de O Exterminador do Futuro + Loira com topete oitentista + Trans World Entertainment + Robert Ginty = WIN!

Highway To Hell (1991) aka Assassinos da Estrada

Quando amaldiçoar a mãe do cara que faz as montagens toscas de photoshop nas capas de dvds da Continental, lembre-se que um dia já usaram o Paintbrush para tal.

Slaughter in San Francisco – Karate Cop (1974) aka Massacre em São Francisco

Chuck Norris interpreta Chuck Slaughter (genial!), neste clássico que, provavelmente, carrega a maior nota no IMDB, como um filme onde o mesmo é o ator principal – um bombástico e explosivo 3.8!

Atente ao detalhe que a imagem do mestre utilizada nessa capa, retrata um Chuck Norris muito mais velho do que no filme em questão.

Grandmother’s House (1989)

Quando o tricô, o ócio e o desespero picareta encontram a morte.

Deadly Dreams (1988)

Quem explicar do que se trata a criatura acima, ganha uma cópia de Karate Cop e um guia de atuação de Billy Drago.

Arizona Heat (1988)

Existem atores talhados para os filmes de tv e de classe Z. Michael Parks, um queridinho de Tarantino, é a cara da picaretagem. Alguém está projetando uma cena de Arizona Heat contra Parks e ele não consegue suportar tal ofensa ? Essa é a idéia da capa ? Bem, no filme, a moça é lésbica, então talvez ele tenha vergonha do que acontece a seguir nesta cena, afinal inversão de valores já existia nos anos 80 …

Dominique (1980)

O mesmo camarada que reclama das capas de dvd com spoilers, deveria saber que, novamente, elas apenas seguiram o que foi ensinado no passado.

Hellmaster (1992)

Um Kit-kat de graça para quem descobrir de qual filme Hellmaster é um rip-off. Mande uma carta com a resposta para o Marrocos, Rua das Lamentações, número 2127 e receberá seu prêmio. Obs: John Saxon se diz extremamente embaraçado de ter participado de Cannibal Apocalypse. Compare o mesmo com o filme acima e tire suas conclusões sobre conceitos de vergonha.

Warriors Of The Wind (1984) aka Nausicaä do Vale do Vento

Lembra daqueles desenhos psicodélicos que sua irmã menor fazia e sua mãe colava na parede da sala ? Bem, ela poderia ganhar dinheiro com isso!

Hollow Gate (1988)

Bem, a julgar pelas expressões faciais, as atuações devem ser superiores às do remake de Gus Van Sant.

Hush Little Baby Don’t You Cry (1986)

Um título absurdamente longo, um dos infames quadros de crianças chorando, maçãs sangrando, alguém pedindo ajuda para acabar o dever de matemática e um cachorro vestido, decorando a embalagem de papel higiênico em cima de um microondas … Vem cá, esse não é o roteiro do novo filme do Jodorowsky ?

Back In Action (1993)

Um negro musculoso, sem camiseta, fazendo pose com um coroa e sua carranca de durão, cercados por uma explosão randômica ao fundo e com um título fazendo trocadilho ao genêro do filme. Esta poderia ser a capa para qualquer filme de ação B (e existe filme de ação A ?) dos anos 90 mas esta, particularmente, salta aos olhos pela presença de Roddy Piper, o tira durão, mais um dos vários wrestlers que decidiram lutar (Rá!) pelo título de pior ator.

Son Of Darkness: To Die For 2 (1991) aka Drácula: Pacto de Sangue 2

Eu não sabia que Drácula era pedófilo, possuia o poder de tornar gigante sua cabeça e era estrábico. Mas quem se importa ? Quando o filme utiliza como marketing, um quote do Daily Variety dizendo que se trata de uma rara continuação muito superior ao original, você sabe que deve evitar.

Americana (1983)

Um filme dirigido e estrelado por David Carradine, com outro Carradine e Barbara Hershey no elenco, já mereceria por sí só sua atenção. Mas tudo é elevado à uma nova esfera quando temos uma capa Drew-Struzan-wannabe, com Carradine admirando o horizonte, enquanto carrega um cavalinho roubado do carrossel ao fundo.

Rabid Grannies (1988)

Eu achei que seria injusto incluir capas da Troma nessa seleção, que deveria ser apenas de capas “não-intencionalmente” horríveis. Mas, a inclusão desta peça serve apenas para elucidar o leitor de que sua vó pode guardar um terrível segredo assassino, já que o cinema faz questão de torná-las tão malignas.

Ghostkeeper (1986)

Esta poderia ser mais uma capa padrão para filmes de horror oitentistas que ninguém viu, SE o esqueleto não estivesse tirando com o dedo, o fiapinho de manga do almoço de ontém. brrr

Hobgoblins (1988)

A capa para um dos mais baixos rip-offs de Gremlins, dá uma aula do que NÃO fazer quando não se têm dinheiro para pagar por um boneco bem acabado. E a vuvzela do lado faz o charme.

Revenge Of The Zombie (1981) aka Kiss Daddy Goodbye

Outro exemplo divertido de como enganar um desavisado para alugar um filme onde o título e a capa não tem nada a ver com o plot. Mas o nome de Marilyn Burns abrilhanta a fita.

Brain Smasher (1993)

Existem tantas coisas erradas com a capa deste filme de Albert Pyun … É interessante começar abordando o título e o subtítulo, que fazem uma sintônia tremenda. Logo após, temos um sujeito com um mullet horrendo, extremamente mal dimensionado em relação à mulher atrás dele, enquanto um bando de mau-elementos vindos direto do clipe de Beat It, caminham rumo ao encontro do título. Ah, e a tagline tenta ser engraçadinha. Oh não.

Ghosthouse (1988) aka La Casa 3

Olha lá, sua irmã faturando alto de novo, desta vez com direito à giz de cera!

The Killing Of Satan (1983)

Satan deve ser durão quando conta com uma naja, a múmia carbonizada, uma pantera negra e a mulher invisível em seu exército. Mas claro, tudo é pouco para enfrentar o Ash mexicano e seu bastão de ferro de bicicleta. Eu poderia dizer que este filme foi dirigido pelo mesmo cara que concebeu Manos: The Hands of Fate mas este aqui vêm direto das Filipinas.

Last House on The Left (1972)

Deve ser divertido imaginar quantas vezes o sujeito locou este filme pensando se tratar de um erótico softcore para apimentar a noite com sua namorada e teve de ouvir ela reclamando daquela parte em que eles forçam uma virgem a urinar. Sabe como é, scat não pega bem quando você quer causar uma boa impressão. Mas bem pudera, não se pode confiar em uma capa onde um muro fantasma tem uma pichação dizendo “3coco”.

Gargoyles (1972)

Lembra da capa de Hobgoblins ? Certamente o designer (???) que a criou, teve a inspiração que merecia.

Into The Darkness (1986)

Se um dia esta tranqueira for lançada em dvd, gostaria que houvesse um featurette apenas para explicar qual seria o motivo de colocar uma 3×4 de Donald Pleasence na capa, mostrando toda sua satisfação ao integrar o elenco de tal obra. Ah, e é sempre válido avisar ao espectador que um filme de 1986 é colorido. Bem, não é apenas colorido, é “sangue-coaguladamente” colorido!

Class Reunion Massacre (1978) aka The Redeemer: Son of Satan!

Houve um tempo onde não se podia enfiar um vhs dentro do computador e, portanto, não se podia tirar uma still image da fita. Para tal, era necessário aproximar a câmera fotográfica ao máximo na tela da tv, e rezar para que o flash não ofuscasse toda a imagem. Ah, bons tempos.

The Satanic Rites of Dracula (1973) aka Os Ritos Satânicos de Drácula (dã)

É impressão minha ou alguém pegou a imagem da capa de A Return To Salem’s Lot e colou a cara do Christopher Lee em cima ?

Até onde vai a censura ?

Recentemente, surgiu por aí a notícia que Angel Sala, organizador de um tradicional festival espanhol de cinema (Sitges Film Festival) pode enfrentar um ano na prisão por exibição de pornografia infantil.

Pode parecer rotineiro afinal todo ano milhares de pessoas são presas por crimes semelhantes. Entretanto, a tal pornografia infantil referida se trata do filme “Srpski” aka A Serbian Film, o polêmica e brutal filme sérvio que causou frisson no circuito underground no ano passado.

Sim, um homem pode pegar cadeia por exibir um filme em um festival, tal qual você que está lendo pode acabar sofrendo do mesmo mal caso organize um festival em sua cidade e exiba Srpski. Algo me faz lembrar da década de 80 e o escândalo causado pelos infames Video Nasties no Reino Unido, o que causou a prisão de vários donos de locadoras que ousavam comprar as fitas malditas que continham os escárnios banidos pelo conselho de cinema de lá.

Enfim, vivemos em uma era onde a liberdade de informação ultrapassou todas as barreiras do puritanismo e, com a ajuda da internet, permitiu que vozes de todo o planeta pudessem ser ouvidas. Mas o mundo “real” parece não gozar da mesma facilidade e ainda precisamos conviver com violências, verdadeiros linchamentos contra esta liberdade, direito que deveria ser outorgado mundialmente como básico para todo  e qualquer ser humano.

Angel Salas

Angel Sala

À cerca do filme, existem algumas cenas que envolvem menores de idade em violência sexual sim mas, dentro do seu próprio universo, plenamente justificáveis como arte. Claro, conceitos de arte são um tabu antigo mas isto não vem tanto ao caso, já que não existem parâmetros universais de qualificação acerca disso.

O que vem ao caso é o que tange a lei e Srpski não atinge quaisquer parâmetros para ser enquadrado como “pornografia infantil” deliberadamente. Todas as cenas são, obviamente, encenações, algumas envolvendo atores, outras envolvendo bonecos. Todas estas encenações são apresentadas de forma off-screen, já que Srpski não possui nenhuma cena onde existam closes genitais de penetração. Não existe nudez e nem estimulação sexual com os atores menores de idade. Ou seja, não existe absolutamente NADA que descaracterize o longa sérvio como unica e exclusivamente cinema.

Duvidoso ou não, sensacionalista ou artístico, condenar um homem por exibir um filme em um festival de cinema é quase tão absurdo quanto seria colocar atrás das grades um musico que escrevesse uma canção contra algum orgão governamental ou personalidade pública. Não levantaríamos nossa voz em apoio ao indivíduo ?

Srpski levanta a bandeira de temas extremamente controversos, o que não quer dizer que eles sejam irreais, muito pelo contrário. Basta ligar todo o dia o jornal, aquele exibido na televisão diariamente, para ser achincalhado com uma tonelada de notícias envolvendo abuso, violência psicológica e física, agressão e maus-tratos à menores de idade. Como contraponto, as vezes os próprios menores são os vilões, assassinando os pais, agredindo irmãos, abusando sexualmente de crianças menores (…), um show de estupidez que deveria ficar apenas no âmbito do ficcional mas que escoa pelas nossas televisões todos os dias.

O mundo hoje, apesar de imerso em uma letargia onde  depravação é marketing, vive uma crise de autoafirmação, onde todo e qualquer tipo de grupo precisa levantar bandeiras. A cruzada moral contra a pedofilia é, muitas vezes burra, estupida e redundante. O fato é que, para lutar – e isso quer dizer, diminuir a incidência de casos – contra a pedofilia hoje, é preciso lutar contra a sexualização da infância. A mesma rede de televisão que exibe comerciais conscientizando contra tais crimes é aquela que exibe novelas onde meninas de 8, 9 anos já falam em namorados, consideram brincar de bonecas como sendo algo ultrapassado para sua idade, em alguns casos até mesmo já pensam em iniciar suas vidas sexuais, cercadas por príncipes encantados, normalmente mais velhos. Cada vez mais cedo, pais aceitam que seus filhos se envolvam em relações amorosas da qual não possuem qualquer maturidade para entender, levando ao ponto de permitirem que crianças se tranquem no quarto com seus pares, sob o teto onde estão aqueles da qual deveriam zelar por sua segurança.

Este que vos escreve passa longe de ser moralista mas preciso admitr que me revolta quando vejo uma criança desperdiçar a infância, época em que deveria fugir ao máximo das futuras atribulações da vida adulta, se envolvendo em assuntos de “gente grande” da qual não fazem a mínima idéia de como conciliar.

Isto é danoso, isto é a gênese de muitos casos futuros de abuso, de gravidez na adolescência, de videos humilhantes entre meninas abaixo de 15 anos de idade transando com homens mais velhos que caem na internet para qualquer um ver, de disseminação de DSTs e Aids entre menores de idade. Não um filme estritamente proibido para menores de 18 anos que eventualmente foi exibido em um festival.

Em tempos como estes, provavelmente daqui há algum tempo, se eu assistir um filme como Pretty Baby ou similares (envolvendo cenas de nudez com menores de idade), estarei sujeito a ser preso por posse de material pornográfico infantil. Álias, se planejava comprar o dvd de Srpski, vou ter de pensar duas vezes agora.

Parece que a censura não desapareceu, apenas se camuflou, tomou rumos mais sórdidos e traiçoeiros e vem assombrando a visão artística ainda hoje. Esta possível prisão de Sala, um improvável “mártir”, é um ataque frontal a nossa própria liberdade, uma vez que manda uma mensagem bem clara sobre como a criatividade e a expressão humana ainda vive sitiada e existem leis que corroboram, incitam este tipo de violência contra a liberdade.

UPDATE (29/07/11):

Cá estou eu, depois de tanto tempo e escrevendo sobre Srpski de novo!

A nova agora envolve nosso querido Brasil como mais um país da lista da censura explícita (deveria virar um gênero cinematográfico), com a proibição de exibição da película no estado do Rio de Janeiro.

Inicialmente, “A Serbian Film – Terror sem limites”, bancado pelo distribuidor Rafaelle Petrini, foi vetado de ser exibido no festival carioca RioFan, organizado pela Caixa Econômica do Brasil (ninguém quer sua marca relacionada à esse filme, não é ?). Mas, posteriormente, a justiça determinou que o filme estava proibido de ser exibido no estado inteiro, com uma liminar que caçou cópias e tudo mais, em um autêntico  caso “Video Nasties” brasileiro.

Mas não parou por aí, apesar de ser exibido em alguns festivais como o Fantaspoa, Srpski também foi proibido em Minas Gerais, via recomendação da justiça brasileira.

É, meus caros amigos, depois de 27 anos, um filme foi oficialmente censurado e proibido no Brasil. O que podemos esperar mais ? O distribuidor ser preso por acusação de “incitar pedofilia” ?

Obs: Segundo Petrini, o filme ainda sim será lançado nos cinemas brasileira através de cópias digitais, já que a cópia de 35mm foi apreendida pela justiça carioca.

O Exorcista III: Uma continuação quase superior ao original

A história por trás do filme

Quando “O Exorcista”, adaptação de um best-seller escrito por William Petter Blatty, estreou no cinema em 1973, pouco se imaginava o efeito que o longa causaria cerca de quase 40 anos após sua feitura. Através dos anos, o clássico moderno consolidou uma posição de “filme de horror definitivo” causando repulsa e fascínio nas audiências do mundo inteiro, tanto no lançamento original, quanto no relançamento em nova versão na década de 2000.

Centenas de rip-offs, livros e documentários pipocaram desde sua feitura, elevando o filme a um patamar em que poucos outros chegam, fazendo parte de uma selecionada filmografia básica para qualquer amante de cinema que se preze.
Entretanto, o mundo do cinemão blockbuster não costuma “perdoar” estes sucessos fenomenais e costuma não se satisfazer em devorar até o ultimo farelo, tirar o ultimo centavo que eles podem proporcionar. Em 1977, a Warner Bros decidiu entrar na brincadeira das franquias e usar um nome poderoso para lançar uma possível cinessérie que parecia grana fácil e duradoura, este nome era “O Exorcista”.

Como a sensatez manda, tudo o que deveria ser feito era uma espécie de “refilmagem” do original com o uso de alguns efeitos especiais novos e voilá, um novo sucesso no cinema. Mas como nem tudo é óbvio, William Friedkin disse um sonoro não para os produtores e o bom diretor John Boorman foi chamado para dirigir a segunda parte. Não havia roteiro para se adaptar, não existia uma sequela para o livro e Blatty não estava nem um pouco inclinado em participar, o jeito era “improvisar”.

Dessa improvisação, saiu um longa extremamente confuso, atirando para todos os lados, com direito a  filosofia “hippie” de quarta, misticismo africano, teologia, atuações vexatórias e muito pouco dos exageros gráficos e agressividade visual do original.

O público queria “sangue” e odiou a abordagem mais psicológica, os críticos queriam um bom argumento para o roteiro e odiaram a viagem mística e dúbia oferecida por Boorman e o desastre estava completo. A WB sofreu o trauma e decidiu enterrar o nome “O Exorcista”, vivendo dos royalties do original e tentando apagar lentamente o dano causado pela continuação.

Ainda na década de 70, Blatty se aproximou novamente de Friedkin afim de que o mesmo dirigisse uma “idéia” que ele tinha na cabeça para ser a continuação real do original. O diretor gostou do que ouviu mas alegou que era necessário ter cuidado porque poderiam produzir um filme na sombra de “O Hérege” e acabar fadado ao infortúnio, antes mesmo de ser lançado para os cinemas.

Devido a desentendimentos sobre “visão artística”, Blatty acabou por, em 1983, escrever um livro chamado “Legião” que seria, segundo o próprio, uma história ambientada no mesmo universo de “O Exorcista”, após os acontecimentos do original mas sem ter a pretensão de ser uma continuação direta.

Legião diferia novamente do que o público esperava de uma continuação para a história original mas, dessa vez, com o álibi de não carregar nome nem imagem com fins promocionais, apenas sendo um livro que misturava horror e um interessante enredo policial, envolvendo alguns personagens que apareceram em “O Exorcista”e nada mais. Assim como em Legião, Blatty havia escrito “The Ninth Configuration” em 1978, novamente trazendo personagens que apareceram em “O Exorcista” e situando a história no mesmo espaço e tempo de sua mais famosa novela.

Desta vez, a idéia deu certo e os méritos de Legião o levaram a um moderado sucesso, não repetindo o poder de fogo do livro de 1971 mas conseguindo cativar tanto os fãs do original quanto um publico novo e próprio.

Não era exatamente uma surpresa que um dia ganharia uma adaptação para o cinema e em 1990, o sonho de muitos admiradores do livro veio a se tornar parcialmente real.

O próprio Blatty assumiu a direção daquela que deveria ser a adaptação literal da obra de 1983. Para completar o elenco, chamou novamente Jason Miller, adicionando os talentos de George C. Scott (como o tenente Kinderman, já que  Lee J. Cobb, o ator que o interpretou no filme de 1973, havia falecido três anos após o seu lançamento), Brad Douriff e Ned Flanders.

O escritor não era exatamente novato na cadeira de diretor pois, em 1980, adaptou outro dos seus livros para um longa metragem, novamente relacionado à “O Exorcista” – o ótimo Ninth Configuration.

As filmagens se iniciaram no meio de 1989, durante oito semanas, com um budget moderado de 11 milhões de dólares. Quando Blatty o apresentou para os produtores da Morgan Creek, ouviu as palavrinhas mágicas que qualquer diretor com visão artística teme: Você terá de filmar um novo final.

Contrariado, o diretor decidiu aceitar as condições e fechar o filme com um exorcismo, a exigência primária dos produtores que não conseguiam conceber um “Exorcista” sem ter uma cena que literalmente transcrevesse o título. Posteriormente, Blatty não manteve o silêncio e confessou para a imprensa seu descontentamento com o resultado final.

“A história original que vendi  (para Morgan Creek) e que filmei, terminava com Kinderman acabando com o Paciente X. Não havia exorcismo. Mas houve uma rixa entre mim e o estúdio. O filme como concebi foi designado para um preview, após isso eles poderiam fazer o que bem entendesse.Me deram o preview mas com a pior e mais baixa audiência que já havia visto em minha vida. Trouxeram zumbis do Haiti para assistirem o filme. Foi inacreditável. Mas decidi que deveria fazê-lo do que deixar que outro fizesse em meu lugar. Pensei estupidamente: Posso fazer um bom exorcismo, vou tornar esta orelha de porco em uma bolsa de seda. Então o fiz.”
The Exorcist: Out of the Shadows (Omnibus Press, 1999)

 

Ainda sobre a regravação, Brad Douriff relembra que o clima era pesado e o cast estava todo a favor da visão artística de Blatty e contra as exigências comerciais impostas pela Morgan Creek.

“Nós nos sentimos muito mal sobre isso. Mas Blatty tentou fazer o melhor sob circunstâncias muito complicadas. E lembro de George C. Scott dizendo que os caras do estúdio só ficariam satisfeitos se Madonna cantasse a musica de encerramento! A versão original era muito mais pura e me agradou muito mais. Como está hoje, é um filme medíocre. Existem momentos que não tinham direito de estar alí”
Fangoria #122 (Maio de 1993)

 

Em 1990, o filme enfim fora lançado para exibição nos cinemas como “O Exorcista III” – totalmente a contragosto de Blatty, desta vez sendo distribuído pela Fox ao invés da Warner Brothers. Nesta mesma época, estava marcado o lançamento de “Repossuída”, a sátira ao longa original com Leslie Nielsen, da qual a Fox acabou atrasando o lançamento em um mês.

Como o próprio diretor esperava, a associação com o original e, especialmente, sendo apontado oficialmente como uma continuação do segundo filme, foi danoso ao box-office e resultou em críticas negativos por parte da imprensa especializada. Blatty contou que, na terceira semana após o lançamento, o estúdio lhe disse “Vamos lhe dar a razão do box-office, vai doer, você não vai gostar – a razão é O Exorcista II”, o que deixou o diretor pasmo pela cara-de-pau de apontarem agora como se este tivesse sido um erro estratégico cometido por ele próprio!

Entretanto, mesmo com todos os contratempos causados pela imposição comercial do estúdio, Blatty considerou O Exorcista III como um filme superior, inclusive, ao original e alegou o desejo de juntar as peças que ficaram de fora para montar o longa que planejou desde o início. Apesar desta inclinação, a Morgan Creek alega que as filmagens extras foram perdidas e que seria impossível recuperá-las, o que não impediu fãs ao redor do mundo de fazerem abaixo-assinados pedindo uma director’s Cut para Exorcista III, ou melhor, Legião.

Como o tempo é o melhor remédio, o filme inicialmente detonado pelos críticos e público, acabou ganhando a alcunha de “filme de culto”, angariando uma legião (perdão pelo trocadilho) de apreciadores ao redor do mundo, muitos dos quais concordam com Blatty quanto a esta sequela ser superior ao “O Exorcista” de 1973. Isto pode ser notado através da quantidade enorme de livros, websites e foruns dedicados  a analisar e contar a atribulada história de um longa de qualidades artísticas que acabou evoluindo para uma peça comercial que poderia ser considerada um “Exorcisploitation”. Até mesmo a crítica especializada deu o braço a torcer e considerou o filme como uma sequência digna e de qualidade incontestável, apesar das óbvias limitações quanto ao livro e a visão original do diretor.

Review de “O Exorcista III”

Em primeiro lugar, para assistir este filme, é preciso eliminar da cabeça a continuação anterior, já que o próprio enredo trata de desconsiderar totalmente os fatos apresentados em “O Hérege”. Feito isso, esqueça também do estilo e atmosfera do original, dos momentos mais célebres e apenas guarde o nome dos personagens e um resumo do que aconteceu em Georgetown em 1973. Agora você está apto para entrar no universo de Blatty e de seu filme.

 

Constantemente, continuações costumam ser duvidosas e um caminho perigoso para se trilhar. As coisas ficam mais difíceis quando se tratam de continuações de sucessos, com box-offices generosos e com uma fanbase formada ao redor do mundo. Deste mal padeceu “O Exorcista II: O Hérege”, a esquisita e psicológica continuação do clássico original que acabou por afundar o nome e quaisquer pretensões de um terceiro filme.

Entretanto, as vezes os realizadores originais revisitam suas obras e William Petter Blatty, escritor do best-seller original, decidiu dirigir uma continuação digna da obra-prima que ajudou a criar. Em 1990, tomou a atitude de adaptar seu livro, Legião, para o cinema, uma continuação oficialmente não-oficial que habitava o mesmo universo de O Exorcista mas nascia como uma entidade separada, totalmente desprovida da pretensão de ser igual ou melhor, apenas uma boa história.

Porém, meus caros amigos, o mundo não é um lugar muito justo para com artistas e suas visões e Blatty sofreu na mão da produtora, exigindo cortes, refilmagens e uma mudança geral no espírito do roteiro literal sobre Legião. Até o nome precisou ser mudado, afim de linkar de qualquer maneira o novo longa ao sucesso comercial do filme de 1973. Nascia mais um desastre mas, desta vez, injustamente.

A história se passa 15 anos após o mal-fadado exorcismo de Regan Macneill. O assassinato de um menino de 12 anos, Thomas Kintry, com motivos aparentemente satânicos leva o Tenente Kinderman (George C. Scott) para a cena do crime. Em seguida, Kinderman se encontra com o padre Dyer (Ed Flanders) e o convida ao cinema para assistir “It’s a Wonderful Life” para depois relatar ao padre os detalhes do assassinato e confessar que as vezes tem sua fé testada por eventos como esse. Um novo assassinato acontece, desta vez com um padre local, em uma cena arrepiante onde aparentemente uma senhora de idade confessa que cometeu um crime até decapitar violentamente o homem que ouvia a confissão.

Dyer é hospitalizado e acaba sendo encontrado morto na manhã seguinte, com todo seu sangue colocado em potes para coleta de amostras e a inscrição “It’s a Wonderful life” em sangue, na parede do quarto do hospital. Kinderman se vê confuso e perdido com a morte do amigo e acaba se jogando de corpo e alma no caso, afim de descobrir quem seria o responsável. A cada cena de crime, é encontrada uma impressão digital diferente, tornando virtualmente impossível que fossem cometido pela mesma pessoa, onde as três vítimas possuiam seu dedo do meio cortado e a inscrição do símbolo zodiacal de gêmeos na palma de sua mão direta. A inquietação de Kinderman se deve ao fato de que um antigo assassino conhecido como “Gemini Killer” (Brad Douriff) possuia o mesmo modus operandi, lembrando o fato de que na época os jornais publicaram notas invertidas sobre estes detalhes e o assassino atual sabia exatamente como era a forma de identificação do serial killer. O problema é que Gemini Killer havia sido executado cerca de 15 anos antes, na mesma época dos acontecimentos do caso Macneill, e Kinderman estava presente para garantir que o assassino havia sido morto.

O chefe da psiquiatria do hospital onde Dyer esteve, Dr. Temple (Scott Wilson), conta para tenente que há um paciente na cela 11 da qual foi internado há 15 anos e chegou apresentando um caso severo de amnésia. O homem estava catatônico até alguns dias quando acordou e começou a agir de forma agressiva, alegando ser Gemini Killer. Kinderman o visita e se espanta ao identificar uma semelhança enorme com o padre Karras (Jason Miller). Ao indagar sobre isso, o homem alega não saber quem seria este padre e ironiza o assassinato do padre Dyer, dando a entender que estaria por trás.

Mais dois assassinatos dentro do hospital se sucedem, uma enfermeira e o Dr. Temple, e Kinderman novamente interroga o homem conhecido como Paciente X, desta vez para saber que ele alega ser a alma de Gemini Killer dentro do corpo do padre Karras. Apesar de não ser explícito, o roteiro dá a entender que teria sido obra do demônio Pazuzu, uma vez que Karras o tirou do corpo de Regan e como forma de vingança, ele o possuiu com a identidade do serial killer.

É bom observar que é neste momento onde as mudanças mais radicais feitas pelos produtores começam a aparecer. Até então, O Exorcista III caminhava como um thriller com viés sobrenatural mas sútil e psicológico para agora assumir uma ligação mais direta com os acontecimento do filme de 1973. É complicado mensurar o quão positivo e negativo esta ligação é para o filme, uma vez que teremos excelentes cenas intercaladas por alguns exageiros e truques visuais que não encaixam de forma inteligente na proposta geral do longa.

Continuando com a história, Karras (ou Gemini Killer) revela para Kinderman que a cada manhã, possui um dos idosos dementes que habitam a unidade de tratamento psiquiátrico do hospital e os utilizam para cometer os assassinatos. Além disso, ele alega que forçou o Dr. Temple a trazer o tenente para o caso, ameaçando que se não o fizesse, tornaria sua vida extremamente infeliz, o que levou Temple, um alcólatra inverterado, a cometer suicídio na noite anterior.

Como o ceticismo de Kinderman persiste, Gemini Killer possui uma idosa e a leva até a casa do tenente afim de matar sua filha Julie, frustrada pela intervenção do próprio, que comprova os poderes reais do paciente X. A paciente tenta atacar o tenente mas acaba caindo em um estado catatônico quando o padre Morning (Nicol Williamson) chega até o corredor que leva a sala 11, afim de exorcisar Karras/Gemini Killer. O exorcismo dá errado e o padre acaba sendo colado ao teto da cela, até a chegada de Kinderman que procura performar uma eutanásia em Karras. O paciente X (agora interpretado por Brad Douriff) o espera, enquanto a personalidade de Karras se manifesta e pede ao tenente para que o execute. Kinderman, com pesar, atira no corpo do amigo e o liberta do controle do serial killer. Karras o agradece e pede para que desfira o ultimo tiro, afim de matá-lo já que está agonizando. O filme encerra com o funeral do padre e o tenente jogando uma flor em direção a sua lápide, até o fade e o início dos créditos.

Existem muitas discrepâncias entre o conteúdo do livro e o roteiro do filme. O enredo segue uma direção não-canônica em relação ao “O Exorcista”, habitando o mesmo universo, trazendo de volta alguns personagens mas não oferecendo um approach literal, extremamente fiel aos acontecimentos do original. Isto pode ser notado quando Kinderman revela que Karras era um dos seus melhores amigos, quando no longa de 1973, sabemos que eles se conhecem por um curto período de tempo e apenas interagem uma única vez. Tanto na novela quanto no filme, é revelado que a pessoa da qual auxilia Karras a decifrar a linguagem utilizada por Regan na sala de gravação seria a mãe do menino Kintry enquanto, nesta cena, originalmente é visto um rapaz, aparentemente técnico em som o auxiliando.

O próprio roteiro original de Blatty também guarda algumas diferenças com relação ao livro como a idade de alguns personagens, a forma como Gemini Killer foi executado (no livro através de tiros, no filme através da cadeira elétrica) e os nomes utilizados.

Além disso, na novela, o envolvimento de Pazuzu e a sua “vingança” contra Karras e Kinderman são implícitos, enquanto no filme o próprio paciente X revela que estaria sendo uma das diversas personalidades do demônio.

A forma como Blatty dirige seu filme é severamente diferente do clima pesado, extremamente sombrio e impenetrável de Friedkin em “O Exorcista”. Na verdade, tanto a novela como a adaptação possuem contornos de humor negro no personagem de Kinderman, já no original sendo bastante peculiar e aqui bem mais desenvolvido. Sua personalidade é explosiva e inconsequente, gerando algumas cenas divertidas como a briga que tem com Dr. Temple quando afirma que nem todas as evidências sobre o caso Gemini Killer estão nos arquivos.

Blatty também se mostra influenciado por cineastas como Kubrick e Ken Russel, impregnando em imagens desconexas, diversos simbolismos e interpretações visuais como na abertura do longa e a cena em que Kinderman sonha que está em uma espécie de céu onde anjos, pessoas deformadas e idosos cohabitam, em uma fotografia saturada e embaçada, criando uma sensação onírica e perturbadora.

O diretor se usa destes artifícios visuais para criar cenas impactantes e assustadoras como quando vemos uma idosa caminhar pelas paredes do hospital como réptil (com reminiscências de uma outra tomada da famosa “spider walk” onde Regan caminha de quatro pela sala, colocando a língua para fora como uma cobra) e, é claro, a antológica cena da morte da enfermeira onde uma forma humanóide vestida com roupas satirizando o clero persegue a vítima com uma faca, como se a imagem de um pesadelo assumisse a forma real.

A cena final é a apoteose de efeitos especiais e, provavelmente, o momento mais gratuíto do filme. Apesar de Blatty não deixa-la cair em uma cópia maçante do original, acaba por descaracterizar o clima sútil e psicológico do resto do longa, tornando-no mais próximo das diversas produções da época em que apostavam em efeitos especiais, muitas vezes datados, para impressionar o espectador.

Existem algumas nuances do classico de 1973 em momentos, como a questão de perda da fé, desta vez incorporada no personagem do tenente Kinderman, quando questiona como acreditar em um deus que permita atrocidades como o crime contra o menino no início, semelhante ao questionamento de Karras que não entendia os motivos da escolha de uma menina de 12 anos (coincidência de idades ?) pela entidade que a possuia. A dualidade do paciente X, ora interpretado por Jason Miller, ora por Brad Douriff, é um artifício interessante mas de origem confusa, sem nunca haver uma afirmação de que Gemini Killer era uma identidade de Pazuzu ou se trata de um dos espíritos que o acompanhava, como evidenciado quando o próprio Karras pergunta para o demônio qual seria o seu nome, no filme original. Talvez o nome da novela seja uma pista, talvez não.

The Ninth Configuration, o outro longa de Blatty adaptado da obra literária de mesmo nome também possui conexões com a história de 1971, assim como é (ainda mais) carregado de imagens simbólicas e humor negro, com ecos em o Exorcista III e seu estilo artístico.

Quando escrevo o título deste post como “Uma continuação quase superior ao original”, não é pura provocaçãou ou heresia. Se trata de uma constatação pelo fato de Legião é um livro superior ao “O Exorcista” de 1971 em quase tudo, desde seu andamento, a trama policial, o personagem de Kinderman e a abordagem mais sútil e, por consequência, mais climática que o ataque massivo do original. Tendo a oportunidade de dirigir, Blatty sabia exatamente as qualidades do livro e procurou evidencia-las nesta adaptação. Mesmo com toda interferência, O Exorcista III carrega uma espécie de mobilidade e clima que o torna mais perturbador e inquietante. A presença de atores como George C. Scott e Brad Douriff dão um tom ainda mais especial e único a atmosfera intimista e sombria criada pelo diretor. Temas como zombaria religiosa, profanação, violência ligada a ocultismo e bruxaria (…) acabam por puxar O Exorcista III para uma realidade mais contumaz do que o perfeccionismo cinematográfico do original.

As Diferenças entre os dois filmes (Legião x O Exorcista III)

Não é segredo para ninguém que o longa idealizado por William Peter Blatty não se tornou o resultado final de O Exorcista III, quase como uma espécie de híbrido entre o roteiro de “Legião – O Filme” e a exigência comercial de que esta fosse uma continuação explícita de “O Exorcista”.

Muitas exigências foram feitas para que Legião assumisse uma maior pr0ximidade do original inclusive, é claro, a mudança de nome que acabou por ajudar a afundar o filme na época de seu lançamento. Quando Blatty entregou um corte ainda inacabado de seu filme para a avaliação da Morgan Creek, os produtores definiram como um filme confuso, sem apelo e sem graça, de forma com que precisava de uma cena de exorcismo para se tornar apelativo (literalmente) para as audiências.

Algumas das medidas adotadas foram trazer de volta Jason Miller para repetir seu papel de Karras, cortando boa parte da presença em cena de Brad Douriff como paciente X. Além disso, a sequência final foi completamente alterada trocando um duelo tenso e opressivo entre Kinderman e Gemini Killer, por um show de efeitos especiais, olhos amarelados e risadas diabólicas. O que era para ser um thriller sobrenatural acabou como uma exagerada colagem de efeitos especiais pré-CGI, ora bem realizados, ora bem falsos e datados.

O único trailer lançado para o filme, antes desta interferência geral do estúdio, possui algumas cenas que ficaram de fora do corte final, como a já famosa cena “face morphing”.

Você pode ler a tradução de um trecho do artigo de Mark Kermode, famoso crítico de cinema britânico, fã devoto de filmes de horror, sobre a atribulada realização deste longa:

Em 1990, o autor William Peter Blatty escreveu e dirigiu uma continuação low-key para Morgan Creek baseada em sua novela best-seller Legion que não era baseada nem em efeitos especiais ou exorcismos satânicos.  Ao invés, a pirotecnia do filme vinha de diversas cenas tensas e aterrorizantes mas visualmente discretas e uma assombrosa relação entre o vencedor do Oscar George C. Scott e Brad Douriff como policial e paciente psiquiátrico respectivamente. Em uma prévia do que aconteceria com a prequela de Schrader no futuro (Exorcista: O Início), o primeiro corte de Blatty foi mal recebido pelos executivos do estudio que exigiram saber “Que diabos iste tem a ver com O Exorcista ?”. A Refilmagem foi prontamente ordenada, com a perfomance de Douriff extremamente reduzida e reeditada em algumas cenas finais, a nova estrela Jason Miller foi designado para repetir o papel de padre Karras, presente no filme original; o título foi mudado para O Exorcista III; e o legendário ator Nicol Williamson foi chamado para fazer um espetacular (se não, claramente fora do lugar) exorcismo cheio de fogos, pirotecnia, levitação, um mar de cobras e até esfacelação. E com um custo de $4m. “Eu disse que não faço cenas de batalhas nem cenas de exorcismo,” Blatty me contou naquela época. “Mas após ver o primeiro corte, eles apenas disseram ‘tem de haver um exorcismo.'”
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O mesmo é veradeiro sobre o corte original de Blatty, Legião / O Exorcista III,, Da qual eu vi uma versão inconclusiva no início da década de 90, e ainda me assombra até hoje. “Foi sempre para ser um thriller psicológico, não um filme de horror baseado em efeitos especiais,” disse Blatty, que mantém um silêncio diplomático sobre a situação que enfrentou e aquele que enfrentou Schrader. “Não posso comentar sobre isso,” ele disse, “mas ficaria muito feliz se um dia as pessoas pudessem ver minha versão original para Legião ao invés desta que está aí hoje, chamada de Exorcista III.”