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Os filmes de horror baseados em fatos reais

Táticas de marketing no cinema são essenciais para que produtores vendam seu peixe e garantam o interesse do público. Ao longo dos anos, estas táticas evoluíram e novos métodos agressivos foram sendo introduzidos, dentre eles os filmes “baseados em fatos reais”. Apesar de alguns realmente fazerem jus à tagline, outros apenas tomam uma leve inspiração ou mesmo recriam completamente alguma história ou lenda apartir de relatos prévios. O “reais” de “baseado em fatos reais” normalmente é bastante questionável já que os próprios fatos não-ficcionais podem sofrer adultérios ou mesmo possam ser boatos completamente falsos, tornando novelizações baseadas neles pura ficção antes mesmo de serem feitas.

O poder de garantir que tal longa é baseado em fatos reais sobre nós, os espectadores, promove um interesse maior, já que garante que aquilo é apenas uma recriação de fatos que poderiam acontecer comigo, com você ou quem quer que assista tal filme. No cinema de horror, este “poder” é ainda maior já que se tratam de casos normalmente mexendo com o sobrenatural ou as facetas mais sombrias da natureza humana, sucitando um misto de curiosidade e espanto por fatos que aconteceram no “nosso mundo” e não são apenas obras da cabeça de algum diretor maluco ou escritor perturbado.

Vejamos quais filmes, dentro desta idéia, que podem ser considerados os mais marcantes e interessantes:

Gothic (1986)

A História do filme:

Este onírico, metafórico e provocante filme, dirigido pelo genial e controverso cineasta britânico Ken Russel, conta a história de Lord Byron (Gabriel Byrne) que convida o poeta Percy Shelley e sua noiva, Mary, junto de sua meia-irmã Claire e o médico de Byron, John Polidori para uma noite em sua mansão na Suiça. Eles contam histórias de fantasmas durante a noite e começam a presenciar eventos sobrenaturais da qual julgam manifestações físicas de seus próprios medos.

A História real:

Em 1816, Percy Shelley e sua futura esposa visitaram Byron em sua mansão. Devido ao dia chuvoso, ficaram dentro da casa conversando sobre possibilidades de reanimação dos mortos e contando histórias de fantasmas alemãs. Byron sugeriu que cada um escrevesse um conto sobre o sobrenatural. Desta sugestão, nasceram “Frankenstein” e o que depois se tornaria “The Vampyre”, escrito por Byron e readaptado por John Polidori.

A Sombra do Vampiro (2000)

A história do filme:

No debut de Elias Merhige como diretor de grandes produções (após a explosão do seu estranho e cultuado “Begotten”), “A Sombra do Vampiro” conta a história de Max Schreck (Willem Dafoe) e Murnau na realização do clássico expressionista “Nosferatu”, centrando-se no comportamento bizarro de Schreck, a visão de Murnau sobre o próprio filme e o fato de que acabou por fazer acordo com um vampiro real para atuar como Conde Orlok e garantir o máximo de realismo.

A história real:

Depois das filmagens de Nosferatu, muitas lendas surgiram sobre o comportamento estranho, o metodicismo e a personalidade de Schreck. Muitos que conviveram com o ator, afirmaram que ele se mantinha afastado dos demais, tinha um senso de humor estranho e uma habilidade marcante para atuar em papéis grotescos. Para adicionar mais mistério, o próprio certa vez afirmou que “vivia em um remoto e estranho mundo” e que passava seus dias caminhando por florestas escuras o que, provavelmente, possa ter sido uma brincadeira sobre os rumores que o cercavam.

Enigma do Mal (1981)

A história do filme:

Carla Moran, mãe solteira com três filhos, é assombrada por uma entidade que a agride e abusa sexualmente diversas vezes. Ela recebe ajuda de pesquisadores paranormais, que documentam e tentam prender o espírito que a atormenta.

A história real:

Em 1974, os pesquisadores Kerry Gaynor e Barry Taff investigaram um caso de uma mulher chamada Doris Bither, que vivia na Califórnia e contou ser violentada por uma entidade sobrenatural. Os dois dizem ter presenciado objetos se movendo, luzes que flutuavam pela casa e a aparição de uma silhueta humana mas não chegaram a documentar agressões físicas à mulher. Gaynor reportou que os ataques diminuiram quando Bither se mudou da casa.

Ils (2006)

A história do filme:

Em mais uma rendição da clássica história sobre uma família presa em sua própria casa por assassinos, um casal é ameaçado por um bando de invasores que os assustam fazendo barulhos, ligando a televisão no meio da noite, roubando seu carro e cometendo atos de tortura e violência sem motivos e nem grandes explicações (semelhante à outro filme que se diz baseado em fatos reais, “Os Estranhos”).

A história real:

O plot do filme se baseia no caso de um casal austríaco que foi torturado e morto dentro de sua própria casa por um grupo de três adolescentes. Apesar de não ser uma rendição literal do evento, Ils é fiel à natureza brutal do crime, levantando a questão de que “crianças” podem ser capaz de atos inimagináveis de violência apenas por diversão.

The Hills Have Eyes (1977)

A história do filme:

Uma família viajando pelo deserto ao sudoeste americano toma um atalho e acaba se deparando com canibais mutantes que vivem escondidos dentro das cavernas nas colinas.

A história real:

O filme, alegadamente, tem inspiração na lenda de Alexander “Sawney” Bean, um escocês do século 15 ou 16, líder de  um grupo de mais de 40 indivíduos que, supostamente, assassinaram e comeram um número em torno de 1000 pessoas, vivendo em cavernas por 25 anos até serem condenados e mortos por seus crimes. Este famoso caso não apenas inspirou o filme de Wes Craven, como também foi a base para o video nasty britânico “Raw Meat”. Entretanto, a maioria dos historiadores acreditam que Sawney nem mesmo existiu, sendo apenas uma lenda contada pelo povo local.

Henry: Portrait of a Serial Killer (1986)

A história do filme:

Henry (Michael Rooker) é um serial killer que matou diversas pessoas ao longo de sua vida. Vivendo junto de seu amigo e parceiro de crime, Ottis, ele acaba desenvolvendo um interesse amoroso na irmã do mesmo, enquanto continua praticando atos de crueldade e violência em uma das produções mais realistas e impactante sobre o tema.

A história real:

John Mcnaughton, o diretor e roteirista do longa, se inspirou na vida de Henry Lee Lucas que possuia um cúmplice chamado Ottis Toole e um interesse romântico na sobrinha Frieda Powell. Entretanto, o roteiro foca mais nas confissões de Lucas do que na realidade, já que o assassino aumentou severamente os números de pessoas que matou, em parte porque estas confissões lhe renderiam condições melhores na cadeia. O serial Killer foi condenado por 11 mortes, incluindo a de Powell.

Wolf Creek (2005)

A história do filme:

Duas turistas britânicas e um australiano saem em viajem na Autralia para acampar no parque nacional Wolf Creek. Quando seu carro quebra no meio da estrada, são ajudados por um caminhoneiro, o homem que futuramente irá torturar e executar os três viajantes.

A história real:

Escrito primariamente para ser totalmente ficcional, o roteiro acabou aderindo uma ligação com fatos reais quando seu escritor, Greg Mclean, soube de dois assassinos australianos que atacavam viajantes.

Um deles, Bradley John Murdoch, assassinou um jovem britânico e tentou sequestrar outro, em 2001 quando foi pego. O outro era Ivan Milat que capturava viajantes, oferecendo carona e os levando para a floresta afim de torturá-los. Ambos foram sentenciados a passar o resto da vida na prisão.

Contatos de Quarto Grau (2009)

A história do filme:

Em um a pequena cidade do Alaska, misteriosos desaparecimentos começam a ocorrer e a psicóloga Abigail Emily Tyler decide continuar sua pesquisa com pacientes que sofreram de insônia e amnesia após avistarem uma “coruja branca”. Abigail acaba avistando a misteriosa figura e se envolve em um caso de abduções alienígenas.

A história real:

Em 2005, o FBI enviou detetives para investigar casos em aberto sobre desaparecimentos e mortes em Nome, no Alaska. A conclusão da investigação era que “o excessivo consumo de alcool e o forte inverno na região” eram os motivos para que estes desaparecimentos acontecessem.

O filme fala sobre Abigail como sendo uma pessoa real mas não existe qualquer indício ou registro que comprove a existência de uma psicóloga com o mesmo nome nesta região do Alaska e nem mesmo o periódico científico onde o filme afirma que Abigail divulgava suas descobertas quanto ao caso. Mais neste artigo do site ceticismo aberto.

O Horror de Amityville (1979)

A história do filme:

A família Lutz se muda para uma casa onde um assassinato em massa ocorreu no ano anterior. Eles se deparam com diversos acontecimentos paranormais, entidades que tentam controlar George Lutz e acabam saindo da casa apenas 28 dias após comprarem.

A história real:

O casal Lutz contratou um escritor profissional para contarem o que viveram durante os dias que estiveram morando em Amityville, o que acabou gerando um best-seller e um dos filmes de horror mais famosos inspirado em um caso não-ficcional. Apesar de muito já ter sido especulado sobre a história e o fato de que a família Defeo realmente fora assassinada na casa, o próprio casal admitiu “por tabela” que a história tinha elementos adicionados para se tornar mais interessante ao leitor e, consequentemente, ao público que assistisse o filme. Mesmo com muitos pontos de interrogação nesta história, o caso Amityville continua despertando interesse e o filme ganhou diversas continuações e um remake, em 2005.

Cannibal Holocaust (1980)

A história do filme:

Um grupo de jornalistas parte para a Amazônia afim de fazer um documentário sobre tribos canibais e acabam sendo vítimas da fúria que despertam nos índios após cometerem atos imorais e violentos contra os nativos. O início do filme mostra um outro grupo de pessoas que foram até o local recolher as fitas e descobrir o que havia acontecido com o grupo anterior, em um estilo documental criado sob medida por Ruggero Deodato.

A história real:

Cannibal Holocaust não é baseado em uma história real e nem tampouco foi promovido como tal mas sua presença aqui é obrigatória porque se trata do primeiro filme a dar um passo à frente e se declarar como sendo a filmagem de um evento que realmente aconteceu. Esta “evolução” do “baseado em fatos reais” é uma tática ainda mais agressiva de marketing que acabou gerando vários frutos, criando alguns dos filmes independentes mais bem sucedidos de todos os tempos.

Gêmeos – Mórbida Semelhança (1988)

A história do filme:

Dois gêmeos ginecologistas (ambos interpretados por Jeremy Irons)  possuem o hábito de dividir suas conquistas amorosas. Entretanto um deles, Beverly , se apaixona pela última conquista. que acaba por descobrir o esquema entre os irmãos e rompe o namoro. Assim, Beverly acaba se tornando um dependente químico e compromete a vida de seu irmão, neste thriller assinado por David Cronenberg.

A história real:

Em 1975, o corpo de dois gêmeos ginecologistas fora encontrado em um apartamento, já em estado avançado de decomposição. A causa de suas mortes foi motivada pelo vício em barbitúricos, o que os levou a se excluírem socialmente. O por quê de tal ato permanece sem respostas.

O Exorcista (1973)

A história do filme:

Uma menina de 12 anos (Linda Blair) começa a apresentar um quadro mental instável, junto de fenômenos como sua cama sacudindo. Após sua mãe a levar em vários especialistas e nenhum apresentar conclusões satisfatórias, a hipótese de que ela está possuída por uma entidade maligna é levada em consideração e dois padres são chamados para realizarem um exorcismo, com o custo de suas próprias vidas.

A história real:

William Peter Blatty leu um artigo reportando um caso de exorcismo em um menino de 13 anos de idade em Maryland no ano de 1949. Apesar de ser uma história bastante adulterada, possívelmente para proteger a família envolvida, foi a inspiração para que Blatty escrevesse o best-seller que resultou em um dos filmes de h0rror mais bem sucedidos. O caso, supostamente real, que inspirou “O Exorcista” não possui nem de perto os detalhes escatológicos e violentos que são descritos no livro e filme.

O Exorcismo de Emily Rose (2005)

A história do filme:

O filme acompanha o julgamento de um padre pela morte de uma menina chamada Emily Rose, durante um exorcismo. Através de flashbacks, é possível assistir a história de Emily e as manifestações sobrenaturais que se abateram sobre ela.

A história real:

Apesar de mudar os nomes e alguns elementos, o filme é inspirado pelo caso da jovem alemã Anneliese Michel que, em 1968, começou a demonstrar sintomas estranhos como paralisia, auto-flagelação e visões. Em 1975, dois padres performam um exorcismo por 10 meses seguidos até Anneliese morrer de fome em julho de 1976. Os pais da menina e os padres foram julgados por homicídio culposo, sendo sentenciados por 6 meses na cadeia. Fotos da menina e uma suposta gravação de audio podem ser encontrados pela internet.

The Girl Next Door (2007)

A história do filme:

Em 1958, duas adolescentes que, após perderem os pais em um acidente de carro, vivem com sua tia Ruth, uma psicopata sádica. Sem conhecimento da vizinhança, as duas meninas enfrentam atos de tortura e punição nas mãos de sua tia e seus três filhos.

A história real:

O filme foi baseado em um livro de Jack Ketchum que, por sua vez, foi baseado em uma história real sobre uma menina chamada Slyvia,  torturada brutalmente e assassinada pela mulher que estava com sua custódia, junto de outras crianças do bairro. Este é um dos raros casos onde a história real é mais impactante e violenta que a versão novelizada, já que Slyvia sofreu abusos de todos os tipos e morreu de hemorragia cerebral, atada em um porão por meses. O filme “An American Crime” é também baseado na história, desta vez literalmente, contando com detalhes o fato real que inspirou Ketchum.

A Última Profecia (2002)

A história do filme:

O reporter John Klein se perde enquanto dirige e acaba em Point Pleasant onde se encontra com uma lendária criatura chamada Mothman. Ele acaba descobrindo que suas aparições são relacionadas com tragédias que estavam para acontecer e isso tem relação com um disastre que viria a acontecer em uma ponte na cidade.

A história real:

Foram reportadas diversas aparições de uma criatura alada em Point Pleasant durante 1966 e 1967. Em dezembro do último ano, a ponte que ficava acima do rio Ohio despencou e se criou-se a crença de que as aparições de Mothman antecediam desastres futuros.

A Maldição dos Mortos Vivos (1988)

A história do filme:

Um antropologista americano Dennis Alana é contratado por uma empresa farmaceutica para adquirir uma amostra de uma droga usada no Haiti em rituais de voodoo, com um suposto poder de reavivar os mortos.

A história real:

O filme é uma versão “aumentada” de um livro do canadense Wade Davis contando suas experiências com a zumbificação haitiana. Segundo suas anotações, um pó local possuia uma toxina que induzia um estado de “morte” em indivíduos posteriormente ressucitados através de um transe hipnótico por um “mestre controlador”. Um dos casos mais famosos tratava de um homem que viveu como um zumbi durante dois anos na década de 60. Até hoje, a veracidade destes relatos é discutida.

Mar Aberto (2004)

A história do filme:

Um casal divorciado sai em viagem para um mergulho em grupo até ser deixado para trás pelo barco por um erro, no mar cercado por tubarões.

A história real:

Em 1998, o casal Tom e Eileen Lonergan desapareceram no mar australiano após um compania de mergulho acidentalmente deixa-los para trás. Levou dois dias para a equipe perceber que os dois haviam sido deixados no mar e, após diversas buscas, os corpos nunca foram encontrados. Pertences encontrados pelo mar não mostram sinais de um ataque por tubarões como no filme.

O Massacre da Serra Elétrica (1974)

A história do filme:

Um grupo de jovens viajando por uma zona rural acaba caindo no território de uma família de canibais, incluindo Leatherface, vestindo uma máscara feita de pele humana.

A história real:

O remake de 2003 ajudou a perpretar a idéia, através de sua campanha de marketing, que “O Massacre da Serra Elétrica” era baseado em fatos reais, levando diversas pessoas a acreditarem que a história do filme realmente havia acontecido. Entretant0, a inspiração inicial de Tobe Hooper nasceu apartir de uma visita à uma loja que vendia serras-elétricas, fantasiando a idéia de sair com uma matando pessoas por aí. Parte da idéia para a criação de Leatherface e da “decoração” da casa da família Sawyer surgiu do psicopata Ed Gein, que assassinou duas mulheres na década de 50 e fazia ornamentos caseiros utilizando ossos e pele humana.

Gein inspirou outros dois personagens famosos do cinema, Norman Bates de “Psicose” e o Buffalo Bill, o serial killer de “O Silêncio dos Inocentes”.

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Reciclagem em Hollywood Parte 3D – O Retorno dos Que não foram

A terra do cinema americano é um lugar semelhante à uma sala de aula do primário; há sempre o popular da classe, o mais influente, aquele que dita às regras e os outros o seguem.

Um belo dia, esse menino(a) popular traz para a classe um novo brinquedo, transado e irresistível e o proclama como sendo a melhor coisa que surgiu no mundo. No outro dia metade da classe estará com o seu em mãos até o momento em que saia de moda e o popular traga outro brinquedo para o desespero dos pais.

E o que tem a ver isso tudo com Hollywood ? Bem, por lá basta o”popular” da vez inventar uma nova tendência, que é rapidamente absorvida pela industria e os clones pipocam sem parar até tirar o ultimo centavo do bolso do espectador. O “bam-bam-bam” da vez foi James Cameron que, com seu épico orçamentário Avatar, “revolucionou” a industria com o uso do artifício 3D, o messias que veio trazer uma nova maneira de fazer cinema.

Os Na'vis antes do computador ...

Apartir daí, uma enxurrada de outras produções integraram o 3D em sua campanha promocional e lotaram os cinemas do mundo na procura pela última bolacha do pacote em termos da nova mania, desde “Clash of Titans” até pornografia em terceira dimensão!

Mas será que o 3D no cinema é uma novidade criada por James Cameron ? Será que é apenas um dejavu a sensação de que essa “mania” já aconteceu há um bom tempo atrás e se repete agora ?
Não, caro amigo, não é um dejavu, a industria do cinema não envisionou o poder da terceira dimensão junto de Avatar mas sim apenas reviveu um recurso que já havia virado piada, coisa antiga e ultrapassada e que agora é cool.

E até mesmo as cretinices atuais de colocar uma cena lá que outra que um personagem atira algo na tela e o filme já ganha o “3D” no cartaz são recursos que fizeram a fama de “tapa-furo para chamar gente para o cinema” do  3D no passado e, após um amnesia geral no planeta terra, fazem nos dias de hoje em pleno 2010.

A História do 3D no cinema

A idéia de juntar cinema com o recurso de terceira dimensão inicia em 1890 quando o britânico William Friese-Geene patentiou a idéia de colocar dois filmes distintos rodando em uma única tela, onde o espectador olhava através de um estereoscópico que “misturava” ambas as imagens e criava um efeito que a imagem saia da tela (semelhante ao processo de estereoscopia em fotos, as famosas fotos em 3D).

A idéia era boa mas impraticável e muito cara e já no início de 1900, Friese-Geene criou uma câmera munida de duas lentes que registrava em terceira dimensão diretamente, sem a necessidade do estereoscópico.

Em 1915 foi mostrada para audiências, pela primeira vez, os famosos anaglifos em vermelho e azul (padrão que continua até hoje) e a introdução do (desconfortável) óculos para assistir as produções.

Diversos curtas foram produzidos, ao longo dos anos, utilizando essa tecnologia até que em 1951 foi lançado “Bwana Devil”, um longa totalmente em terceira dimensão que iniciou a febre na década de 50, considerada os anos de ouro da técnica no cinema.

O primeiro filme em 3D de terror, genêro em que  a técnica mais prosperou, foi “A Casa de Cera” dirigido por André de Toth e estrelando Vincent Price, filme responsável pela mania terceira-dimensão no cinema americano. Ele também foi responsável por criar uma gama de clichês típicos de produções utilizando esta técnica como em um incêndio no museu de cera que “saia” da tela, um homem sendo lançado em direção aos espectadores e muito mais.

Jogando Ping-Pong com o público

Uma irônica curiosidade sobre o filme é que o diretor de Toth era cego de um olho e não pôde apreciar o filme em 3D, o que causou um divertido comentário por parte de Price: “Andre de Toth era um excelente diretor, mas ele realmente era errado para dirigir um filme em 3D. Ele ficava irritado e dizia, ‘Porque todos estão excitados a respeito disso?’ não fazia qualquer sentido para ele”.

Em 1953, a Universal lançou o sci-fi “A Ameaça veio do Espaço” dirigido por Jack Arnold, o primeiro do estudio utilizando a nova tecnologia. O filme foi um sucesso enorme de público, se tornando a sétima maior bilheteria do ano. Na mesma época, a primeira comédia em 3D foi lançada, um filme dos três Patetas Spooks and Pardon My Backfire”.

No ano seguinte, em 1954, um eterno representante do horror clássico foi lançado pela Universal utilizando a tecnologia, “O Monstro da Lagoa Negra” dirigido pelo mesmo Jack Arnold e que gerou uma continuação, “A Vingança da Criatura” que ainda usou o efeito e é lembrado como o último filme da “era de ouro do 3D” utilizando a técnica.

Um dos exemplos mais celebrados de bom uso da técnica é o clássico “Disque M para Matar” de Hitchcock que, ironicamente, não foi exibido na época de lançamento em 3D e só foi lançado desta forma na década de 80 após um enorme sucesso em exibições teste nos Estados Unidos.

Após 1954, a técnica perdeu força com a chegada  do formato Widescreen nos cinemas e a era de ouro teve fim com a continuação de um dos maiores sucessos no estilo que, ironicamente, fez um bom box-office na época de lançamento.

A volta do 3D na década de 80

Apesar de ter perdido força, o 3D nunca chegou a morrer e no início da década de 60 era comum o lançamento de exploitations obscuros utilizando anaglifos, levando a técnica para o “underground”.

Arch Oboler, responsável pela explosão do 3D na década de 50 reinventou criando uma nova forma de fazer, inventando um formato que utilizava sobreposição de imagens em apenas uma tela, o que facilitava a exibição e permitia ser exibido em Widescreen, sem possibilidade de ficar fora de sincronia.

A nova técnica trouxe de volta a possibilidade de exibição nos cinemas e uma nova compania especializada foi criada chamada Stereovision e, já nos anos 70, lançou a comédia erótica softcore “The Stewardesses” que custou a bagatela de $100,000 e rendeu incríveis $27,000,000, se tornando o filme 3D mais rentável da história até aquele momento, recriando o interesse das majors pela técnica até então adormecida.

Hmmm ... Não, obrigado!

Com a chegada da década de 80, horror e filmes eróticos acabaram se tornando o alvo da renovada tecnologia 3D, rendendo diversas continuações de franquias já consagradas no formato e tornando a idéia de 3D como sendo um dispositivo promocional poderoso, já que poucas vezes o artifício era usado e acabava sendo um recurso muito mais desviar a atenção do público de roteiros frágeis e ruins.

Se tornou comum o clichê de lançar a “parte III” de uma franquia em 3D, fazendo uma analogia ao numeral que o filme carregava. Abaixo uma lista de produções que utilizaram a técnica nos anos 80:

  • Parasite (1982) – Esta tranqueira dirigida por Charles Band e contando com Demi Moore no elenco, se usou da tagline “The first futuristic monster movie in 3-D” para fazer caixa no cinema.
  • Dogs of Hell aka Rottweiler (1982) – Esta desconhecida pérola conta com o técnico Chris Condon que serviu de consultor 3D para várias produções da época
  • Friday the 13th Part III (1982) – Dirigido por Steve Miner e conhecido por ser o primeiro filme da franquia a ter Jason com a máscara de hoquei, o filme reciclou clichês como jogar a toda hora pessoas contra a tela.
  • Amityville 3D (1983) – Considerado o início do declínio total de uma série já irregular, esta terceira parte foi lançada com recursos em terceira dimensão nos cinemas.
  • Jaws 3D (1983) – Terceira parte da franquia iniciada por Steven Spielberg, o filme se usa do recurso 3D especialmente nas partes finais com a destruição de um parque aquático pelo tubarão.
  • Hyperspace aka Gremloids (1984) – Estranho filme que parodia Star Wars, dirigida por Todd Durham e estrelando Chris Elliott (ator famoso posteriormente por estrelar em várias séries).
  • Plan 3-D from Outer Space (1985) – O filme mais famoso de Ed Wood foi relançado nos cinemas em 3D na década de 80

Foi nesse momento que o 3D ganhou fama de puro oportunismo por acompanhar produções pobres, com roteiros razos e até mesmo pouquíssimas cenas que utilizavam o recurso, sensação essa que perdura até hoje e fez escola para diversos diretores atuais voltarem a faturar dessa forma.

Ele vai te pegar!

Na década seguinte, alguns outros filmes de horror investiram na tecnologia como a sexta parte de “A Hora do Pesadelo” lançada em 1991 e tranqueiras como Dino Island II e T-Rex – Back to the Cretaceous.

James Cameron teve contato com a tecnologia em um curta para a Universal chamado “Terminator 2: 3-D: Battle Across Time” e posteriormente lançou “Into the Deep” para os cinemas Imax inteiramente filmado em terceira dimensão.

O Segundo retorno nos anos 2000

Durante os anos 2000, a tecnologia foi muito utilizada em produções para Imax como viagens ao fundo do mar e curtas infantis até retornar com força no cinema mainstream através de Avatar. Somado à isso, diversos filmes foram relançados para cinemas especiais usando a tencologia como “A Noite dos Mortos Vivos” original e “The Nightmare Before Christmas”.

No cinema de horror e fantasia em geral, o 3D voltou com força estampando cartazes promocionais de filmes como “Premonição 4” e  o remake de “Dia dos Namorados Macabro” além de estar confirmado em produções futuras como “Resident Evil: Afterlife 3D” e “Piranha: 3D”.

A antiga tecnologia não apenas pegou de assalto o cinema mas também contagiou a industria eletrônica que já lançou televisões que permitem o uso de efeitos em 3D além de videogames e outros dispositivos eletrônicos que prometem trazer uma experiência em terceira dimensão para o consumidor.

É bom ou é ruim ?

A volta do 3D no cinema sucita uma pergunta que qualquer cinéfilo deve estar se fazendo: “Isso vai ajudar a termos filmes melhores ou só vai piorar ?”.

Apesar de ser uma pergunta generalista, é difícil analisar se o uso da tecnologia é benéfica de um modo geral ou será apenas um dispositivo promocional usado por produtores para chamar público para os cinemas. Avatar pode ter inúmeros defeitos como filme mas dá uma aula de como usar o 3D de forma a contribuir para uma experiência audio-visual diferente, talvez porque James Cameron concebeu o filme pensando no uso da tecnologia.

Entretanto, por outro lado, a parte ruim é que iniciada a moda, diversas produções que nada tinham a ver com o pastel inseriram algumas (poucas) cenas que utilizam a técnica e sairam vendendo seu peixe como sendo a ultima novidade 3D do momento. Se por um lado isso é interessante para a industria do segmento, por outro é uma enganação total utilizando o hype para lucrar o que, por sinal, foi o que matou o 3D nas outras duas vezes em que se tornou mania.

E apesar de ser uma tecnologia promissora, em especial pela evolução enorme dos efeitos especiais, pode acabar sendo sinônimo de oportunismo na mão de produtores mal-intencionados que entreguem ao consumidor trabalhos mal feitos, sem sentido nenhum e que se escondem atrás de uma ceninha onde alguém é jogado contra a tela.

O próprio Tim Burton que, dirigiu o esperado “Alice in Wonderland” utilizando a tecnologia falou “Com certeza nós iremos ver vários filmes em 3D péssimos em um futuro próximo, porque Hollywood canibaliza qualquer coisa por sucesso, é como a industria funciona… É algo incrível quando você o usa como uma ferramenta técnica e não como uma arma poderosa”.

A tentativa de enfiar a tecnologia guela a baixo do consumidor também é cretina, televisões com 3D são caríssimas e não fogem do uso dos tradicionais (e incitadores de dores de cabeça) óculos, prometendo mundos e fundos com belos comerciais mas esbarrando nas limitações que já existem há, pelo menos, 5 décadas.

Se vai passar ? Bem, das outras duas vezes em que se tornou mania, o 3D acabou morrendo vítima de quem o explorou de forma errada e que minou as audiências a evitarem a sigla como sinônimo de coisa ruim mas agora, apesar de acontecer a mesma coisa, uma enorme parte da industria descobriu a nova mina de ouro e por algum tempo ouviremos falar desta antiga tecnologia requentada por quem a esqueceu …