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Balada do Desastre Anunciado

Ah, dialética! Tua luz iluminaria a cachola de muita gente nestes nossos dias bravios. Infelizmente, tomados por um nobre afã de investigar as causas de mais um golpe de estado para a coleção brasileira, muitos esquerdistas parecem buscar em arroubos idealistas e românticos a lupa semântica para suas análises conceituais do motivo pela qual o segundo mandato de Dilma Rousseff nem mesmo aconteceu, apesar dos mais de 54 milhões de votos computados.

Qual o problema? Narrativa. Narrativas são peças do ficcional que se debruçam em elementos do real para formalizarem uma visão de mundo. Transpondo para o nosso léxico político: narrativa é uma visão romantizada de processos que se regulam por condições históricas e econômicas, criando assim uma idealização e um télos (finalidade) para um único evento, como que retirado do curso da história e acontecido devido a uma intervenção ahistórica de forças ideológicas.

O que esse palavrório todo nos diz é que boa parte destas interpretações dos eventos que culminaram na queda de Dilma acabam por resvalar numa compreensão que quer separar processos indissociáveis, como se cada um deles adviessem de movimentos sem relação e que, por acaso, culminaram todos ao mesmo tempo e causaram a queda da presidenta. Ou ainda: a ideia de que estes movimentos são produtos de grupos ligados à direita que engendraram uma luta de polos políticos contra a esquerda (PT), pois odeiam pobres e a classe trabalhadora (romantismo).

Percebam que estes dois elementos, ahistoricismo e romantismo, tão presentes nas análises, podem parecer em um primeiro momento distintos, mas se coadunam no grande esquema da cabeça liberal brasileira.

Pensar a história como uma sequência, um devir onde a geração seguinte pode ser explicada e nomeada pela geração anterior, parece uma obviedade. Porém, a compreensão moderna parece ter nos retirado da confluência histórica, como se existisse uma essência que está acima destes processos e se dá sem a intervenção nem a mínima influência de processos passados. Nossa cultural e expressão são produtos atemporais, assim como as passadas. Não se explica a nossa homofobia, por exemplo, através da digressão ao contexto histórico da religião, que funda sua própria compreensão do tema ainda nos romanos antigos, quando as relações homossexuais foram banidas, pois a classe política da época temia que houvesse um declínio na demografia (e você certamente já ouviu a mesma argumentação hoje em dia!).

Nada disso tem a ver com a nossa homofobia, pois são processos restritos às necessidades e realidades de seus tempos, ao passo que os nossos são produções que só existem no nosso tempo e, portanto, merecem compreensão completamente vanguardística e sem nenhum paralelo com o passado. Digo tudo isto para explicar o porquê desta pecha de retirar processos modernos de uma linha de sucessão histórica, que poderia ser o ponto de partida para entendermos o desfecho que assistimos atônitos nesta semana.

A segunda questão é o romantismo, que também poderíamos chamar de idealismo. Aqui entra a narrativa folclórica. Para além de uma série de processos chatos que versam sobre economia, política financeira, interesses fiscais, tráfico de influências, lobbies, taxas de juros, subsídio (…), a narrativa romântica vai polarizar  completamente o acontecimento: A direita, em sua sede de elitismo e pauperização da classe trabalhadora, se ofendeu com o fato de que o filho da faxineira estava estudando na mesma faculdade de seu filho e decidiu, através das forças reacionárias na política, tramar um golpe contra a presidente Dilma, representante magna dos interesses dos mais pobres. Sem sombra de dúvidas, é uma narrativa de contornos mais literários (e panfletários) que um papo chato economicista e jurídico.

O problema é que, nestes casos, o romântico é um bufão. Sua narrativa é eivada de tanto ilusionismo retórico quanto as manchetes ideológicas dos grande jornais, que creditam a crise a um avanço tirânico de ideologias comunistas que querem desestabilizar a economia. A diferença é que, no segundo caso, eles sabem que é tudo jogo de palavras e uma fantasia. No primeiro, não.

Para falar em governo de esquerda, temos de ser chatos e retirar do armário a foice e o martelo; o que faz um governo ser de esquerda ou não é o projeto econômico. Simples assim. O PT nunca teve um projeto econômico de esquerda, nem na época do Lula. Inserção de consumo, expansão de crédito, programas de transferência de renda; qualquer país socialdemocrata no mundo os possui. Não é coisa de comunista, apenas uma resposta possível aos interesses da fase atual de desenvolvimento capitalista que nos encontramos. Não seria possível a continuação de modelos anteriores, que eximiam do Estado a responsabilidade pelos processos de inserção do povo na economia. Aliás, era necessário que, na fase do consumismo, mais e mais o mercado se expandisse. Portanto, assim como a Rede Globo reinventou a roda (e a audiência) incluindo retratos das classes C e D em suas telenovelas, o capitalismo precisava passar a atrair estas audiências também e quem melhor que um capitalista roxo para saber que estas mixórdias do liberalismo econômico de “autorregulação” são piadas das mais passáveis? Era papel do novo estado, o de bem estar social, passar a dar um jeito de colocar um cartão de crédito na mão de mais gente e dar a permissão para destruir algum prédio histórico ou uma ordem judicial para tirar uns casebres a fim de mais um shopping ser construído.

Assistir alguém não quer dizer contrapartida. Ou seja, programas de assistencialismo são programas de caridade, tipo das Carmelitas. É uma ajuda. Transferir renda, em si mesmo, condensa a contrapartida de, uma vez munido de maior poder de compra, o sujeito passe a integrar o mercado consumidor. Desta maneira, o governo agradou gregos e troianos: a pessoa pobre, que nunca teve carro, pôde comprar o seu da montadora que agora tem mais demanda por seus modelos de baixo custo (os que realmente geram capital). Para além disso, o governo reduziu o IPI, imposto que aumentava o valor dos veículos, desabonando as montadoras e as permitindo a reduzir o custo de varejo (ainda que longe do custo de produção, como alardeavam). Por fim, o governo subsidia o preço da gasolina, impedindo artificialmente que as flutuações do preço do barril de petróleo cheguem ao consumidor final. Brilhante, não?

Um problema: isto tudo depende de uma abertura pesada de crédito por parte dos bancos, um intenso fluxo de caixa no Estado que permita subsídios, alívios fiscais e rotação de capital além, sobretudo, de uma forte plataforma de comércio internacional, com exportações de insumos básicos em alto valor no mercado mundial. Como os possuímos, durante a crise que começou em 2008, tínhamos as cartas na mão e éramos os negociadores, aqueles que tinham a palavra final. Haja vista a recuperação dos mercados mais fortes, o nosso poder de barganha caiu e a competição veio a desvalorizar os altos preços, incensados pela demanda intensa e baixa oferta que, por sua vez, causaram queda na produtividade.

E o Estado? Tem como continuar subsidiando preço da gasolina com barril de petróleo da Petrobras à 24 dólares? Não. O  Estado, nestes momentos, precisa de caixa e a forma mais fácil de fazer caixa é aumento, não diminuição, de carga tributária. Isto desaquece o consumo, as pessoas perdem seu poder de compra frente ao aumento dos preços e a desvalorização da moeda e temos um cenário como o atual.

Crises nada mais são que movimentos do capital para autopreservação. Um Estado de bem estar social só dura até a retração do mercado mundial indicar que é hora de parar. E então o Estado passa de bem estar social para bem estar econômico, o que significa salvar os bancos, as grandes empresas, acabar com qualquer barreira para o capital especulativo, desabonar o empregador através de ataques às leis trabalhistas, acabar com programas de transferência de renda, enxugar ministérios que trabalhem em questões da esfera social e trabalhista, pagar as dívidas do setor privado etc.

É por tudo isto dito acima que uma política de consumo e subsídio econômico não é de esquerda. Ela se arvora numa duna de areia, não em um rochedo. Além disto, mesmo quando na crista da onda de uma bonança econômica, ela tem seu limite fincado no jogo de interesses das elites financeiras, o que explica determinados paradigmas sociais que ficam intactos, intocados mesmo pelo espaço deixado para discussões de progresso da sociedade civil.

Assim se desmonta a ideia de que o petismo, em qualquer uma de ssuas encarnações enquanto esteve no poder, foi de esquerda. Sua política de conciliação de interesses antagônicos foi um jogo de luz e sombra para sempre atender aos interesses de uma classe, a saber a classe dominante financeira. Portanto, no parnaso da narrativa romântica de uma luta de classes que encarnou a esquerda na figura do petismo, a única realidade é a de sempre: manda quem pode, obedece quem tem juízo.

Assim, a queda de Rousseff pode ser vista como uma série de processos que se seguem. Era bem claro o movimento das elites financeiras antes mesmo da eleição de 2014, pedindo uma austeridade tunpiniquim, a fim de ter seu viçoso programa de assistencialismo em curso, com o Estado se tornando o papai que ajuda quando a fatura do cartão de crédito passou dos limites da mesada. Não se tem dinheiro para tudo, é claro. Assim, em primeiro lugar, pediu um reajuste fiscal bruto, que significaria cortes intensos nos investimentos sociais que o governo tinha contabilizado para este novo mandato. As tais pedaladas são um movimento de “expandir” as metas fiscais com o sentido de permitir que o governo siga a irrigar seus programas. As elites financeiras queriam metas fiscais esdrúxulas, que significariam a morte de diversos programas e aspirações civis, pois era sabido que, avizinhando a crise, nada mais que um reflexo tardio da recuperação dos mercados mais fortes, o governo precisaria de fartas reservas para subsidiá-los enquanto a tempestade urgia.

Rousseff tentou, novamente, conciliar estes interesses, mas já era tarde. Eleita novamente, ainda que gradualmente viesse a aplicar políticas de austeridade, ela não poderia fazê-lo de forma irrestrita e imediata. Como era de se esperar, não servia mais para a classe dirigente. As marionetes do  mundo político foram postas em trabalho. Aécio Neves, o pródigo imbecil, pediu recontagem de votos. O congresso abriu ordem para vetar todo e qualquer movimento de deter a crise, como pacotes de estímulo. O TCU e seus tecnocratas passaram a procurar qualquer tipo de desculpa para caracterizar crime de responsabilidade. Logo logo, a narrativa do impeachment estava pronta, sob alguma roupagem jurídica no aspecto da falta de responsabilidade fiscal, eivada pela imprensa de motivo para a crise, nada a ver com qualquer movimento financeiro mundial ou desvario dos capitalistas brasileiros. Logo, com a união de todos os setores políticos e financeiros e do departamento de marketing que é a imprensa nacional, o impeachment era a solução final, dita por eles como a vontade soberana do “povo”. 54 milhões de votos não eram vontade do povo; logo a Folha de São Paulo nos elucidou, de forma pedagógica, que fomos enganados por um governo que quer instalar o bolivarianismo da falida Venezuela por aqui.

Não é nenhuma coincidência o aumento da bancada “bbb” (bala, boi e bíblia). Não é acaso um projeto como “Escola Sem Partido”. Estes e outros eventos são todos movimentos que tiveram um objetivo: tramar o golpe a partir da esfera política. É bem sabido que houve conspiração de todos os poderes para tal. Mas todos apenas eivados de um ódio ao pobre que pôde comprar tv de tela plana? Ou apenas baseados em seus interesses de ficarem ricos através da corrupção? Ou será que existe um braço acima de todos eles que movimentou estas peças para pôr em xeque-mate a legitimidade do Estado brasileiro?

É da última suposição que as análises românticas ou episódicas carecem. A epifania final carrega em si o aperceber-se de que todo este golpe foi arquitetado por uma classe que está acima da política. O meio foi o parlamento e seus ilusionismos jurídicos, mas existe um interesse que moveu céus e terras (fazer um impeachment não é nada fácil!) para que o governo fosse deposto e, em seu lugar, entrasse um governo (ainda mais) fantoche. É claro que interesses localizados e menores foram conjugados; a mídia é um grupo de interesse em si, assim como os próprios políticos. Porém, sem o interesse da elite financeira, nada disso seria possível. Não é de hoje que o PT não conta com a simpatia dos grandes grupos de imprensa ou de boa parte da Câmara e do Senado, bem como tem claros opositores, indicados pela própria presidente e Lula, no STF. Porém, suas ojerizas não eram suficientes. Foi só quando as oligarquias financeiras deram o aval que o impeachment pôde sair. E o agora insuportável populismo bolivariano petista serviu durante muito tempo aos interesses de classe destes reis e rainhas.

Falhar em perceber isto nos turva a visão; é achar que o problema é político, quando a política é só uma organização animada e efusiva dos interesses de uma classe. A nós sempre só restaram migalhas e estas migalhas são jogadas para manter uma mínima estabilidade de ânimos. Agora, elas vão ser ainda mais raras, só que a queda de sua oferta defendida como “necessidade” para que o país não quebre. É necessário, por exemplo, que bancos privados lucrem recordes para que o país não quebre, bem como a lava-jato seja suspensa antes que todas as empreitas no país fechem. E é a velha dialética, nascida com os gregos, que pode nos iluminar quanto ao jogo de tabuleiro que assistimos, completamente passivos, nestes últimos meses.

Lacunas

O pensador cristão Santo Agostinho propôs uma resolução prática para um problema antigo da teologia cristã: o mal no mundo não era obra de Deus mas sim sua ausência. Quando um homem levantava a mão para matar outro, era uma lacuna da presença do próprio Deus que possibilitava sua ação. Lacunas, um espaço vazio. É este o panorama político da sociedade em que vivemos – um espaço minado de cantos e dobras vazias, que são preenchidas com substâncias nem sempre visíveis mas quase sempre incômodas.

A esquerda brasileira se pergunta como pôde haver uma ascensão tão expressiva do pensamento conservador reacionário sem que nenhum fenômeno prévio possa ter sido percebido. É uma boa pergunta mas deve ser feita, inicialmente, utilizando a primeira pessoa do singular: o que eu fiz (ou não fiz) para que isto fosse possível? Só após um exame de autoconsciência será possível chegar a uma resposta satisfatória.

Vivemos em tempos de maximização dos prazeres. Nas listas de best sellers, constam sempre três ou quatro livros de autoajuda, a teologia do século XXI. Neles, os mantras são repetidos ad nauseam: seja você mesmo; não se importe com o que os outros pensam; um erro seu é, na verdade, a incompreensão dos demais. Em última instância o dogma central desta nova religião é um: não se importe com os outros. Egoísmo requentado com uma bela roupagem florida – a cara simpática que Ayn Rand não soube dar ao seu discurso. Não aceitamos dor como produto da existência; só aceitamos gozo. Não aceitamos não; só aceitamos a aprovação total e geral do nosso comportamento. É fascismo porque pressupõe que uma superioridade individual legitima a ideia de que você pode exceder os limites práticos da lei, os limites tácitos do convívio e os limites abstratos da moral.

A lacuna deixada pela rigidez das verdades universais é preenchida com versões de uma moralidade dúbia e pobre, como a descrita acima. Não que estas verdades não tenham de passar diariamente pelo escrutínio da razão; porém, dados os devidos vaticínios, uma nova substância deve surgir. É isto, exatamente, que o liberalismo relativista e multicultural impede que a esquerda faça. No frenesi de se desconstruir, esta nova abstração reduz a si mesma a um paradoxo – uma cobra que morde o próprio rabo. E desta ação, resultam lacunas e lacunas, prontas para serem preenchidas com o que há de imediato à disposição. E é por isto que o pensamento reacionário que pulula, sobretudo, da cabeça de jovens em luta diária contra o vazio da existência nutre um profundo desgosto pela razão – na lacuna deixada pelo seu desuso.

Quando deixamos de pensar, tomamos por necessário achar um substituto. E são nestes momentos que o que há de mais danoso acaba saindo das cavernas íngremes da ignorância e toma forma no real. Falhamos espetacularmente em educar as gerações que vieram após a queda do regime militar. Devido a uma tendência mundial de abandonar qualquer pensamento que se deslocasse de mais para a esquerda após os horrores do Kremlin tombarem na lata de lixo da história, decidimos que a coalizão de forças absolutamente opostas seria o formato mais indicado para a continuação de um projeto de esquerda. E nesta nova realidade, um período de trevas, que ainda não bem acabara, teve de ser imediatamente apagado das nossas memórias para que não despertasse novos e velhos ressentimentos.

Onde chegamos com isto? Em jovens de 18 anos, separados pelo tempo e pela memória do período militar, clamando por um golpe protagonizado pelas forças armadas. Não há nada mais oposto aos nossos tempos do que a imposição de uma norma ditatorial de “ordem” e repressão. Os jovens que seguram cartazes pedindo intervenção militar são os mesmos que, todo fim de semana, usam a substância que tiverem em mãos em busca de prazeres baratos em baladas. Seriam os primeiros a terem conhecimento (e, possivelmente, a sentir fisicamente) o peso da falta de liberdade.

Mas nos mal acostumamos. Comunismo é palavrão e virou jargão de botequim. A vergonha que a esquerda sente de seu passado a levou aceitar o lugar comum imposto pela direita e a regurgitar mentiras e colóquios rasteiros sobre a enorme e imponente produção intelectual que gerou durante os séculos XVIII e XIX. A partir daí, qualquer leitura que se quer sugira a visão classista da história tornou-se sinônimo de totalitarismo que, na ignorância e má fé dos reacionários e no entreguismo e falta de coragem do liberalismo multiculturalista, é a “mesma coisa” que comunismo.

Dado este fenômeno, é possível considerar que um governo que possibilita lucros recordes para bancos privados é “comunista” por gastar uma ínfima quantia em programas de transferência de renda. É, também, devido a ele que programas sociais incomodam tanto. Temos, diariamente, princípios claros de revolta contra a condição de classe, na dinâmica do opressor-oprimido. Rapidamente, estes movimentos são sequestrados por um discurso de ódio à política ou são subvencionados pelo senso comum de que o problema está na deterioração de uma ordem inata, que respeita a família e as tradições. Naturalmente, estas pessoas confusas e revoltas passam a atacar minorias, aqueles que destoam do que está estabelecido como norma e o que temos são números recordistas de votação em candidatos de persuasão fascistoide.

Como não enxergar que eles estão vencendo? Você pode se indignar ao ver um deputado ou senador a falar atrocidades e declarar guerra a pessoas que estão em condição de vulnerabilidade. Mas eles estão falando e a lacuna deixada pela razão está sendo preenchida. Onde está a esquerda? Muito preocupada em se desconstruir e se liquefazer. O inimigo não precisa atacar pois a repressão é interna. Da falta de razão e do ódio ao pensar, surgem seres humanos amarrados em postes, como animais. Ficamos horrorizados, contamos uns aos outros e consideramos que quem defende tal barbárie está despido da mais básica e primeva humanidade. Porém quando foi que perdemos nosso tempo precioso, dentre produzir artigos inócuos e falar do sexo dos anjos, para educar esta gente? Se nem nós mais acreditamos que existam valores éticos e morais que são universais e absolutamente necessários enquanto projeto comunal de sociedade, o que teremos para falar que não um relativismo torpe e arbitrário, que defende, sobretudo, o direito de odiar a razão?

E neste abandono abissal, nosso mundo carece de direção. É nesta carestia que o ódio e a violência reproduzem-se e tomam-nos de assalto. Ao considerarmos que qualquer visão de mundo é validada por uma fantasia tecnicolor do mundo como um grande “love-in”, enfraqueceremos a nossa própria base. Ao aceitar que a razão seja golpeada, estamos incentivando o exato oposto do que defendemos – algo da qual nós nem temos certeza do que é. Retirar uma palavra do léxico ordinário do dia a dia por soar ofensiva a uma minoria não é solução para nada. Estas pessoas continuarão vulneráveis, sendo oprimidas em última instância por um projeto econômico que foi o responsável por criar uma cultura onde é normativa a exclusão e a marginalidade. Você pode até voltar para casa achando que está com o dever cumprido mas os que ficam continuarão a viver em estado de calamidade, amedrontados e dilacerados psiquicamente. Para que seu mundinho burocrata siga a fazer sentido, a raiz de todos os males que você diz combater deve permanecer fincada na terra e você pode seguir com seu teatro farsesco de que é o ser humano mais tolerante que já existiu.

Se acreditar e defender liberdade e igualdade é ser racista ou achar que existe uma visão de mundo correta, então que seja. Este é o caminho duro, no qual você tem de se defender até dos seus. Não é um discurso rosado, com paroxismos vazios que tentam considerar que até um mosquito tem o mesmo valor de um ser humano. Não é uma fantasia que crê que o mundo ocidental e secular é uma aberração em si mesmo e que culturas absolutamente idílicas são aquilo de que precisamos. Para quem acredita nisto, sinto dizer que, se posto em prática, causaria o maior genocídio da história. O mundo chegou a um ponto onde já não é mais possível a localização e a falta de uma gestão comunal e desfragmentada. Os caminhos estão postos: podemos continuar com o capital como centro nevrálgico de sociedade ou humanizar e comungar dos meios de produção para garantir uma vida digna a todos. Sentir vergonha de analisar a batalha da história com uma visão onde esta dicotomia está presente é negar à esquerda seu valor intelectual e prático. É, literalmente, esvaziá-la de sentido e torná-la um acessório cosmético para quem quer soar descolado. E no vão que deixa, brotam os movimentos históricos que nos constrangem até hoje. Teremos um novo período de trevas a caminho?

Lobão se tornou uma olavete envergonhada

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Muito se fala sobre Lobão, o músico. No debate, ele, ao menos, atingiu aquele ponto onde sua figura não pode inspirar indiferença, posição rara em tempos onde artistas tomam caminhos estritamente corporativos e colaboracionistas. Quando despertou para o debate político, Lobão trouxe uma perspectiva radicalmente diferente da imagem de contracultura estabelecida na década de 80; ao invés de um discurso liberal e de tom acusativo contra o capitalismo, o músico decidiu iniciar uma análise do panorama artístico brasileiro, com críticas ao que ele via como uma máfia que operava no MinC e uma oposição, de certa forma, bem-vinda a um renascimento da cisma da antiga esquerda nacional contra aquilo que vinha de fora, em sua quimérica tentativa de estabelecer uma cultura tradicionalista unificada o que, de fato, ainda lhe rendia alguns aplausos por parte de esquerdistas que consideravam o processo de “cultura universal” preponderante para uma modernização da posição liberal frente ao mundo pós-moderno.

Além de um interesse pela literatura, Lobão demonstrava ser um talentoso frasista, autor de silogismos satíricos e bem colocados. Seu uso de um palavrório sofisticado, provavelmente adquirido com o gosto pelos livros, aderia ainda mais sarcasmo à seu estilo. Por mais que operando em um discurso contra o governo e posicionamentos sobre o plano cultural que tendiam à calçada esquerda, Lobão era um interessante e satisfatório sopro de ar novo sobre um debate que já demonstrava pertencer ao passado, guiado por velhos buldogues, que há muito babavam na gravata e, com seus sorrisos e dentes amarelados, faziam da direita uma opção única para quem realmente detinha o poder e o pequeno burguês que achava que participava do jogo.

Entretanto, sua liderança como figura carismática e que desconstruia o dogma moralista e carola da direita tradicional brasileira começou a chamar a atenção de velhos proponentes dos mesmos discursos anacrônicos que Lobão parecia evitar. Um deles, é claro, foi Olavo de Carvalho, há muito auto exilado nos Estados Unidos, que por longo tempo só ganhava atenção de meia dúzia de astrólogos amadores que se propunham a participar de seus cursos online. Em um curto período, Olavo e Lobão se tornaram figuras indissociáveis; a partir dos hangouts organizados pelo segundo, Olavo foi introduzido a uma nova geração que começava a surgir junto a Lobão, ainda virgem e nada familiarizada com os arroubos conspiracionistas do velho nêmesis das esquerdas brasileiras.

Assim, um debate que poderia ser pautado por uma coerência causal e pela ânsia de encontrar novos rumos para a política nacional, dialogando com o conservadorismo clássico, deteriorou-se em um velho arremedo de discursos reacionários, munidos de um precário conhecimento acerca das ideias dos pensadores conservadores, cercado de preconceitos diversos introduzidos como “resposta” às supostas conspirações esquerdistas para dominar o mundo e, claro, uma boa dose de carolagem. Foi-se o Lobão de uma suposta contracultura que combateria uma hegemonia que se apropriou de um discurso de esquerda para estabelecer sua posição de poder e entra o que temos hoje: mais um arauto do moralismo que fala em PT a cada duas palavras em cada sentença.

Figuras como Roberto Campos e Assis Chateaubriand representavam a base intelectual conservadora no Brasil. Respeitados por seus inimigos no campo ideológico, estes pensadores se destacavam, não apenas pela elegância mas, também, por sua densidade discursiva. Nelson Rodrigues, então, nem se fala. A nova direita é, acima de tudo, analfabeta funcional. Não que seus (velhos) arautos o sejam mas, quando pularam da cadeira e utilizaram a notícia de que um grande número de universitários eram analfabetos funcionais para atacar o governo petista, não levaram em conta que diversos (eu diria, informalmente, a maioria) de seus seguidores que estão ligados à academia são parte daquela porcentagem que tanto os arrepiou.

Em cursos de humanas, sobretudo campos como filosofia e sociologia, não é difícil reconhecer o “reaça” da turma: no lugar da discussão sobre a teoria das mãos invisíveis e sua aplicação na economia globalizada, entram coléricos xingamentos contra o “gayzismo” (ativismo GLBT) e aos “esquerdopatas” que “defendem” o bandido; em detrimento a um debate pautado pela justaposição das ideias de filósofos, sobretudo, morais da escola austríaca como Adam Smith e Ludwig Von Mises, e as contradições de uma nova sociedade que inclui vetores diversos daqueles que arbitravam a estrutura social nos ferventes séculos XVIII e XIX (ascensão profissional das mulheres, o progresso tecnológico da indústria, a transformação do Estado militar em Estado de bem estar social…), o que faz a cabeça dos novos conservadores é a defesa de figuras públicas extremamente ignorantes que proclamam linchamentos e violência generalizada, supostamente justificada por uma falta de ainda mais repressão por parte do aparato de segurança pública (o que causaria náuseas aos mesmos filósofos que tanto invocam o nome).

Assim como a esquerda ainda encontra dificuldades em imaginar um cenário pós-capitalista, os neo conservadores só querem ver o PT ir a bancarrota. Não importa que o ideário do PSDB não seja muito compatível com o substrato intelectual dos autores clássicos e, mesmo, de economistas modernos; a única coisa que importa é que o Partido dos Trabalhadores saia do poder e então teremos quatro anos para dissipar críticas à provável montanha de escândalos que se seguirão na gestão de Aécio Neves, como produtos da mídia esquerdopata. Ideólogas, partidárias e pouco interessadas com o plano social, as “olavetes” só querem que Jean Wyllis leve uma surra, Dilma Rousseff seja assassinada e a “escumalha” petista vá para trás das grades. Depois? Pouco importa; eles já venceram. É hora de desligar o videogame e voltar a ser alienado.

A transformação de uma direita moderna brasileira, apoiada no liberalismo econômico, em um vulgar arremedo de conspiração Iluminati, pobre-fobia e uma presunção fascistoide de monopólio da virtude (justo do que acusam a esquerda!), infelizmente, passa por Lobão e sua transição de crítico cultural autônomo a reacionário de apartamento. Nos hangouts, em diversos momentos, Lobão claramente fica constrangido mas responde com sorrisos acanhados quando Olavo começa a despejar suas doses nada homeopáticas de preconceito contra homossexuais e usuários de drogas. E o iconoclasta que defenderia, se preciso a tapas, a honra de seu maior amigo e parceiro, Cazuza? E o roqueiro que foi preso, fez amizade com o PCC e levou vaias no Rock In Rio por trazer a cultura popular brasileira para o palco, em meio à guitarras e pedais de overdrive? Ele ficaria calado e desconversaria frente ao preconceito barato de um carola que baseia boa parte de seu discurso em uma ortodoxia que envergonharia até a Igreja Católica?

Vejam que até Rodrigo Constantino, que sempre levantou a bandeira do liberalismo econômico e travou batalhas cheias de ofensas ad hominem com Carvalho, alegando que a direita precisava se livrar do anacronismo e dos preconceitos herdados de sua base religiosa em busca de um capitalismo livre de regulagem moralista, baixou a bola e acabou se tornando mais um papagaio da ótica míope dos conservadores ressentidos e movidos pelo ódio dos fracassos em deter a tomada de consciência sobre a condição proletária e da consequente remodelação da organização social para chegar em um molde muito mais inclusivo e com um Estado mais empenhado em defender os pobres ante a apenas ser um maquinário burocrático burguês nas mãos daqueles que detém os meios de produção e precisam de gente como Carvalho e tantos outros para manter o povo em condição de servilidade, com base em conspirações imaginárias e fantasias de descontrole social e imoralidade absoluta.

De fato, a possível nascença de uma direita brasileira moderna, livre das imposturas de Carvalho, do deboche derrotista de Mainardi, da egomania descontrolada de Azevedo (…), deu lugar a uma massa amorfa que engole todos estes velhos paradigmas fundados no revanchismo e no ressentimento e toma forma no discurso datilografado de pessoas ainda ignorantes em relação àquilo que criticam e que apenas se baseiam em uma ilusória e nebulosa percepção sensorial da realidade objetiva para tal. Daí surge a representatividade de Rachel Sheherazade e Marco Feliciano, para citar dois atuando em campos diferentes. Lobão, culto e contumaz, poderia ser a antítese à esta deformação, sempre comum à boa parte da história conservadora no Brasil. Infelizmente, agora parasitado, é apenas mais um reaça de apartamento.