Balada do Desastre Anunciado

Ah, dialética! Tua luz iluminaria a cachola de muita gente nestes nossos dias bravios. Infelizmente, tomados por um nobre afã de investigar as causas de mais um golpe de estado para a coleção brasileira, muitos esquerdistas parecem buscar em arroubos idealistas e românticos a lupa semântica para suas análises conceituais do motivo pela qual o segundo mandato de Dilma Rousseff nem mesmo aconteceu, apesar dos mais de 54 milhões de votos computados.

Qual o problema? Narrativa. Narrativas são peças do ficcional que se debruçam em elementos do real para formalizarem uma visão de mundo. Transpondo para o nosso léxico político: narrativa é uma visão romantizada de processos que se regulam por condições históricas e econômicas, criando assim uma idealização e um télos (finalidade) para um único evento, como que retirado do curso da história e acontecido devido a uma intervenção ahistórica de forças ideológicas.

O que esse palavrório todo nos diz é que boa parte destas interpretações dos eventos que culminaram na queda de Dilma acabam por resvalar numa compreensão que quer separar processos indissociáveis, como se cada um deles adviessem de movimentos sem relação e que, por acaso, culminaram todos ao mesmo tempo e causaram a queda da presidenta. Ou ainda: a ideia de que estes movimentos são produtos de grupos ligados à direita que engendraram uma luta de polos políticos contra a esquerda (PT), pois odeiam pobres e a classe trabalhadora (romantismo).

Percebam que estes dois elementos, ahistoricismo e romantismo, tão presentes nas análises, podem parecer em um primeiro momento distintos, mas se coadunam no grande esquema da cabeça liberal brasileira.

Pensar a história como uma sequência, um devir onde a geração seguinte pode ser explicada e nomeada pela geração anterior, parece uma obviedade. Porém, a compreensão moderna parece ter nos retirado da confluência histórica, como se existisse uma essência que está acima destes processos e se dá sem a intervenção nem a mínima influência de processos passados. Nossa cultural e expressão são produtos atemporais, assim como as passadas. Não se explica a nossa homofobia, por exemplo, através da digressão ao contexto histórico da religião, que funda sua própria compreensão do tema ainda nos romanos antigos, quando as relações homossexuais foram banidas, pois a classe política da época temia que houvesse um declínio na demografia (e você certamente já ouviu a mesma argumentação hoje em dia!).

Nada disso tem a ver com a nossa homofobia, pois são processos restritos às necessidades e realidades de seus tempos, ao passo que os nossos são produções que só existem no nosso tempo e, portanto, merecem compreensão completamente vanguardística e sem nenhum paralelo com o passado. Digo tudo isto para explicar o porquê desta pecha de retirar processos modernos de uma linha de sucessão histórica, que poderia ser o ponto de partida para entendermos o desfecho que assistimos atônitos nesta semana.

A segunda questão é o romantismo, que também poderíamos chamar de idealismo. Aqui entra a narrativa folclórica. Para além de uma série de processos chatos que versam sobre economia, política financeira, interesses fiscais, tráfico de influências, lobbies, taxas de juros, subsídio (…), a narrativa romântica vai polarizar  completamente o acontecimento: A direita, em sua sede de elitismo e pauperização da classe trabalhadora, se ofendeu com o fato de que o filho da faxineira estava estudando na mesma faculdade de seu filho e decidiu, através das forças reacionárias na política, tramar um golpe contra a presidente Dilma, representante magna dos interesses dos mais pobres. Sem sombra de dúvidas, é uma narrativa de contornos mais literários (e panfletários) que um papo chato economicista e jurídico.

O problema é que, nestes casos, o romântico é um bufão. Sua narrativa é eivada de tanto ilusionismo retórico quanto as manchetes ideológicas dos grande jornais, que creditam a crise a um avanço tirânico de ideologias comunistas que querem desestabilizar a economia. A diferença é que, no segundo caso, eles sabem que é tudo jogo de palavras e uma fantasia. No primeiro, não.

Para falar em governo de esquerda, temos de ser chatos e retirar do armário a foice e o martelo; o que faz um governo ser de esquerda ou não é o projeto econômico. Simples assim. O PT nunca teve um projeto econômico de esquerda, nem na época do Lula. Inserção de consumo, expansão de crédito, programas de transferência de renda; qualquer país socialdemocrata no mundo os possui. Não é coisa de comunista, apenas uma resposta possível aos interesses da fase atual de desenvolvimento capitalista que nos encontramos. Não seria possível a continuação de modelos anteriores, que eximiam do Estado a responsabilidade pelos processos de inserção do povo na economia. Aliás, era necessário que, na fase do consumismo, mais e mais o mercado se expandisse. Portanto, assim como a Rede Globo reinventou a roda (e a audiência) incluindo retratos das classes C e D em suas telenovelas, o capitalismo precisava passar a atrair estas audiências também e quem melhor que um capitalista roxo para saber que estas mixórdias do liberalismo econômico de “autorregulação” são piadas das mais passáveis? Era papel do novo estado, o de bem estar social, passar a dar um jeito de colocar um cartão de crédito na mão de mais gente e dar a permissão para destruir algum prédio histórico ou uma ordem judicial para tirar uns casebres a fim de mais um shopping ser construído.

Assistir alguém não quer dizer contrapartida. Ou seja, programas de assistencialismo são programas de caridade, tipo das Carmelitas. É uma ajuda. Transferir renda, em si mesmo, condensa a contrapartida de, uma vez munido de maior poder de compra, o sujeito passe a integrar o mercado consumidor. Desta maneira, o governo agradou gregos e troianos: a pessoa pobre, que nunca teve carro, pôde comprar o seu da montadora que agora tem mais demanda por seus modelos de baixo custo (os que realmente geram capital). Para além disso, o governo reduziu o IPI, imposto que aumentava o valor dos veículos, desabonando as montadoras e as permitindo a reduzir o custo de varejo (ainda que longe do custo de produção, como alardeavam). Por fim, o governo subsidia o preço da gasolina, impedindo artificialmente que as flutuações do preço do barril de petróleo cheguem ao consumidor final. Brilhante, não?

Um problema: isto tudo depende de uma abertura pesada de crédito por parte dos bancos, um intenso fluxo de caixa no Estado que permita subsídios, alívios fiscais e rotação de capital além, sobretudo, de uma forte plataforma de comércio internacional, com exportações de insumos básicos em alto valor no mercado mundial. Como os possuímos, durante a crise que começou em 2008, tínhamos as cartas na mão e éramos os negociadores, aqueles que tinham a palavra final. Haja vista a recuperação dos mercados mais fortes, o nosso poder de barganha caiu e a competição veio a desvalorizar os altos preços, incensados pela demanda intensa e baixa oferta que, por sua vez, causaram queda na produtividade.

E o Estado? Tem como continuar subsidiando preço da gasolina com barril de petróleo da Petrobras à 24 dólares? Não. O  Estado, nestes momentos, precisa de caixa e a forma mais fácil de fazer caixa é aumento, não diminuição, de carga tributária. Isto desaquece o consumo, as pessoas perdem seu poder de compra frente ao aumento dos preços e a desvalorização da moeda e temos um cenário como o atual.

Crises nada mais são que movimentos do capital para autopreservação. Um Estado de bem estar social só dura até a retração do mercado mundial indicar que é hora de parar. E então o Estado passa de bem estar social para bem estar econômico, o que significa salvar os bancos, as grandes empresas, acabar com qualquer barreira para o capital especulativo, desabonar o empregador através de ataques às leis trabalhistas, acabar com programas de transferência de renda, enxugar ministérios que trabalhem em questões da esfera social e trabalhista, pagar as dívidas do setor privado etc.

É por tudo isto dito acima que uma política de consumo e subsídio econômico não é de esquerda. Ela se arvora numa duna de areia, não em um rochedo. Além disto, mesmo quando na crista da onda de uma bonança econômica, ela tem seu limite fincado no jogo de interesses das elites financeiras, o que explica determinados paradigmas sociais que ficam intactos, intocados mesmo pelo espaço deixado para discussões de progresso da sociedade civil.

Assim se desmonta a ideia de que o petismo, em qualquer uma de ssuas encarnações enquanto esteve no poder, foi de esquerda. Sua política de conciliação de interesses antagônicos foi um jogo de luz e sombra para sempre atender aos interesses de uma classe, a saber a classe dominante financeira. Portanto, no parnaso da narrativa romântica de uma luta de classes que encarnou a esquerda na figura do petismo, a única realidade é a de sempre: manda quem pode, obedece quem tem juízo.

Assim, a queda de Rousseff pode ser vista como uma série de processos que se seguem. Era bem claro o movimento das elites financeiras antes mesmo da eleição de 2014, pedindo uma austeridade tunpiniquim, a fim de ter seu viçoso programa de assistencialismo em curso, com o Estado se tornando o papai que ajuda quando a fatura do cartão de crédito passou dos limites da mesada. Não se tem dinheiro para tudo, é claro. Assim, em primeiro lugar, pediu um reajuste fiscal bruto, que significaria cortes intensos nos investimentos sociais que o governo tinha contabilizado para este novo mandato. As tais pedaladas são um movimento de “expandir” as metas fiscais com o sentido de permitir que o governo siga a irrigar seus programas. As elites financeiras queriam metas fiscais esdrúxulas, que significariam a morte de diversos programas e aspirações civis, pois era sabido que, avizinhando a crise, nada mais que um reflexo tardio da recuperação dos mercados mais fortes, o governo precisaria de fartas reservas para subsidiá-los enquanto a tempestade urgia.

Rousseff tentou, novamente, conciliar estes interesses, mas já era tarde. Eleita novamente, ainda que gradualmente viesse a aplicar políticas de austeridade, ela não poderia fazê-lo de forma irrestrita e imediata. Como era de se esperar, não servia mais para a classe dirigente. As marionetes do  mundo político foram postas em trabalho. Aécio Neves, o pródigo imbecil, pediu recontagem de votos. O congresso abriu ordem para vetar todo e qualquer movimento de deter a crise, como pacotes de estímulo. O TCU e seus tecnocratas passaram a procurar qualquer tipo de desculpa para caracterizar crime de responsabilidade. Logo logo, a narrativa do impeachment estava pronta, sob alguma roupagem jurídica no aspecto da falta de responsabilidade fiscal, eivada pela imprensa de motivo para a crise, nada a ver com qualquer movimento financeiro mundial ou desvario dos capitalistas brasileiros. Logo, com a união de todos os setores políticos e financeiros e do departamento de marketing que é a imprensa nacional, o impeachment era a solução final, dita por eles como a vontade soberana do “povo”. 54 milhões de votos não eram vontade do povo; logo a Folha de São Paulo nos elucidou, de forma pedagógica, que fomos enganados por um governo que quer instalar o bolivarianismo da falida Venezuela por aqui.

Não é nenhuma coincidência o aumento da bancada “bbb” (bala, boi e bíblia). Não é acaso um projeto como “Escola Sem Partido”. Estes e outros eventos são todos movimentos que tiveram um objetivo: tramar o golpe a partir da esfera política. É bem sabido que houve conspiração de todos os poderes para tal. Mas todos apenas eivados de um ódio ao pobre que pôde comprar tv de tela plana? Ou apenas baseados em seus interesses de ficarem ricos através da corrupção? Ou será que existe um braço acima de todos eles que movimentou estas peças para pôr em xeque-mate a legitimidade do Estado brasileiro?

É da última suposição que as análises românticas ou episódicas carecem. A epifania final carrega em si o aperceber-se de que todo este golpe foi arquitetado por uma classe que está acima da política. O meio foi o parlamento e seus ilusionismos jurídicos, mas existe um interesse que moveu céus e terras (fazer um impeachment não é nada fácil!) para que o governo fosse deposto e, em seu lugar, entrasse um governo (ainda mais) fantoche. É claro que interesses localizados e menores foram conjugados; a mídia é um grupo de interesse em si, assim como os próprios políticos. Porém, sem o interesse da elite financeira, nada disso seria possível. Não é de hoje que o PT não conta com a simpatia dos grandes grupos de imprensa ou de boa parte da Câmara e do Senado, bem como tem claros opositores, indicados pela própria presidente e Lula, no STF. Porém, suas ojerizas não eram suficientes. Foi só quando as oligarquias financeiras deram o aval que o impeachment pôde sair. E o agora insuportável populismo bolivariano petista serviu durante muito tempo aos interesses de classe destes reis e rainhas.

Falhar em perceber isto nos turva a visão; é achar que o problema é político, quando a política é só uma organização animada e efusiva dos interesses de uma classe. A nós sempre só restaram migalhas e estas migalhas são jogadas para manter uma mínima estabilidade de ânimos. Agora, elas vão ser ainda mais raras, só que a queda de sua oferta defendida como “necessidade” para que o país não quebre. É necessário, por exemplo, que bancos privados lucrem recordes para que o país não quebre, bem como a lava-jato seja suspensa antes que todas as empreitas no país fechem. E é a velha dialética, nascida com os gregos, que pode nos iluminar quanto ao jogo de tabuleiro que assistimos, completamente passivos, nestes últimos meses.

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