Mãe Gaia, dê-nos um pouco de razão!

16f1eb1b042120528d60a45c271e2a2aeffdb0e534d1cb962ea2a78843cab4e8

Você se lembra daqueles bons tempos onde nós éramos ávidos amantes da ciência? Onde falávamos, com júbilo, dos avanços em áreas como patologia e o surgimento de informações sobre bactérias e vírus, dos fantásticos mecanismos eletromecânicos que pareciam anunciar revoluções na vida cotidiana e que, juntos, prometiam um futuro mais longo e cômodo para a nossa espécie? Onde nos detínhamos, ainda que limitados por uma ignorância contingente, sobre as origens do universo para além da especulação metafísica e da teologia e a cosmogonia dos antigos? Parecia que, enfim, poderíamos explicar nossa posição no universo através de métodos e teoremas, não mais de profecias ou ardis canhestros ilustrados com palavras crípticas.

Ah, bons tempos! Não se lembra? Bom, é possível que não, pois este tempo antecede em muito a data de seu nascimento. E agora cá estamos no século XXI. Se a ciência parecia ser o dínamo do progresso total da humanidade, de um ponto de vista técnico, tecnológico e mesmo civilizatório, desilusões nos tolheram da bonança de um novo Messias androide. Dúvidas metafísicas, problemas de ordem moral, agitos políticos, fome, miséria, guerras e destruição. Ainda que agora tivéssemos uma vida mais longa e um fluxo maior de informações, a ideia de encontrar a fórmula euclídica da paz, que iluminou vida e obra dos racionalistas e empiristas de outrora, parecia ficar mais distante e entrar para o clube da fantasia e do wishful thinking. Aliás, viver mais e com mais informação parecia aumentar nossa agonia.

E aumentou. Basta se debruçar sobre a filosofia do nosso tempo. Se os séculos iluminados pareciam pôr toda sua fé na ciência e a era da modernidade acabou, próxima ao fim, parindo proponentes de sistemas revolucionários universais de ordem política e moral, um grupo de pensadores já antevia nosso século XX. Dentre eles, o mais famoso, dono de bigode infame e egomania clínica. Para não nos estendermos, o niilismo, longa tradição humana que só ganhou nome nas páginas de romance russo, enfim se formalizou na dimensão da filosofia e deu o tom para o século onde o capitalismo evoluiria para estágios que nem os mais ardentes marxistas imaginariam – ainda que o próprio niilismo fosse, em si, o fundamento básico do zeitgeist capitalista. Do industrial, chegamos a uma acumulação e produção como nunca antes. Os antigos imaginariam que, a este ponto, nem uma alma pereceria frente ao fastio que tanto logrou vítimas em seus tempos de escassez. Porém, a riqueza do capital e a abundância da produção primária não chegaria a todos. E a quem chegasse, era limitada por um triste acaso de nascer no lugar errado e estar sujeito a uma máquina que se dizia divina e formalizava um determinismo social que faria Deus corar.

Os ratos de Veneza agora usavam tapa pós em Auschwitz. As espadas de Constantinopla morfavam-se nas metralhadoras das campanhas da Itália. A escatologia dos selos abertos tomavam forma na nuvem-cogumelo no horizonte de Nagasaki. A tecnologia parecia apenas fazer o homem ainda mais assassino e o mundo era, enfim, um retorno perpétuo de erro, dor e violência.

Se Deus morreu, a ciência e seu séquito de apóstatas revelava-se um culto a um Moloch feito de metal e pesadelo. Em sua barganha, ganhamos o dúbio direito de viver mais para trabalhar mais e sofrer mais. No seio desta desgraça cyberpunk, a filosofia rapidamente abandonava a indulgência da esperança para abraçar uma ampla desconfiança em absolutamente tudo o que havia sido sua bengala desde os antigos de Micenas.

Mas que efeito prático esta destruição teve? Passamos a ver a ciência não mais como um ídolo e nem um mecenas dos aristocratas da vanguarda do progresso. Agora, ela parecia mais um instrumento de dominação deitado a mão dos poderosos. E então suas verdades indubitáveis caíram e deixaram uma lacuna. Você já parou para pensar na astrologia? Esta projeção astral, anteriormente chamada pelos pedantes de “pseudociência”, parece estar mais em voga que nunca. Medicina oriental? Cristaloterapia? Reiki? Chi? Fortianismo? Todos ridicularizados pela ciência ocidental, todos recuperados pela pósmodernidade.

De repente, o antibiótico virou conspiração e os cristais viraram terapêuticos. As agulhas deixaram de inocular antígenos e passaram a perfurar os chakras. A radiografia deu espaço ao ectoplasma. A observação dos astros agora nos dava conselhos de amor nas contracapas de jornais. Enfim, o credo cético e empírico das ciências naturais formais pervertia-se em relações venéreas com o que houvesse de mais esotérico na ordem do dia. E assim a rigidez do método científico começou a deixar a filosofia para que a especulação voltasse a ser sua nau nos mares bravios do antirracionalismo.

O ceticismo para com a ciência ainda é intenso na cultura ocidental do pós-guerra. Cada dia, mais pessoas se negam a vacinar os filhos por crerem em conspirações do alto clero governamental ou na quimera de crenças ortodoxas. Mais mães decidem ter o parto em casa, pois parece ser mais natural e menos perigoso e artificial que no leito de um hospital, aderindo um simbolismo quasi-místico e transcendental  ao ato de dar a luz, que nos aproxima de um pensamento tribal, onde a doula vira um pagé de luvas antissépticas.

Aliás, nunca fomos tão obcecados com a natureza, de um ponto de vista do mito e da transcendência do material. Cremos piamente que dietas “naturais” podem prevenir danos internos e, até, externos em nosso corpo. É como se o combustível do carro o impedisse de ter seu motor fundido, de ter falha mecânica ou elétrica, de sofrer um acidente na estrada. Chegamos ao ponto de fazer dietas baseadas no que comia o homem paleolítico, que tinha a fome como sua principal causa de morte. Tudo o que cheira ao agridoce miasma de capim nos encanta. A vida dura da caça, das altíssimas taxas de mortalidade infantil por infecções no parto, da expectativa de vida que acabava nos primeiro passos da adultez… tudo parece ser melhor que o nosso mundo tecnocrático e frio. Toda a emulação de um estilo de vida naturalístico, ainda que, normalmente, apenas por um fim de semana e munido de muito protetor contra mosquitos, nos fascina. Ah, eram os antigos, antes do computador e do Prozac, que sabiam viver!

E é essa descrença com os avanços reluzentes da ciência que galopa no credo do dia a dia. Enquanto o capital escraviza os corpos e mentes de milhões, nossa fantasia é comprar um pacote de viagem até algum lugar “intocado” pelo homem, com todas as suas trilhas, guias e um McDonalds para as crianças fecharem a matraca. Nossa falta de fé no progresso, que agora simplesmente não existe já que incide numa ideia de universalidade e esta palavra é a gafe mais grosseira que alguém pode cometer no meio intelectual contemporâneo, nos faz nos refugiarmos num retorno ao primitivismo, sem medir nenhuma consequência real do que isto implicaria. Nossa resposta a patologia do selfie, ao narcisismo incontrolável e a era do ansiolítico não se debruçam numa investigação causal de nossa agonia moderna, mas apenas sintetizam um desejo de ser tolhido de ter acesso ao mundo civilizado, como crianças que, secretamente, clamam pela indiferença do pai.

Classes já não existem. O capitalismo, se um dia existiu, já acabou. Deixamos de enfrentar problemas complexos para jogarmos todas as contradições numa bacia das almas que se chama identidade. E é a identidade moderna que não suporta o progresso, pois ele a força a se mover, tal e qual os corpos celestes.Se nossa motivação no mundo não existe; não está na religião, não está na ciência e nem na revolução, o romance de um mundo pastoral e bucólico parece ser a única alternativa. E é a maldita ciência patriarcal que violenta nossos corpos e mentes para fazê-los facsímiles de suas fantasias high-tech. 

Entretanto, a experiência segue fazendo sua cama em cima de nossa metafísica irracionalista. A doula mata mais que o médico. A dieta da moda não nos dá o dom de Highlander e seu Deus não é nenhum nutricionista. A “medicinaalternativa pode te matar e, provavelmente, está te fazendo de bobo. Não vacinar seu filho pode te colocar na cadeia. Ainda que, obviamente, a nossa medicina não seja perfeita ou indefectível,  é curioso que ela sofra tanta resistência por sua porcentagem de falhas e a medicina alternativa siga a criar montanhas de evidências de sua ineficácia diariamente e ainda assim lhe damos atenção. É pensar em todo o processo como transcendência e não como, bem, algo que vai permitir que você continue vivo.

E, sim: quando você quiser voar, não conte com uma águia, mas sim com um avião; quando você quiser chegar a um lugar, não pedirá ajuda aos astros, mas ao gps; quando quebrar a perna não realinhará os chakras, mas sim seus ossos com um traumatologista;  quando seu parto chegar na marca de dezenas de horas e as dores excruciantes chegarem bem como o seu bebê correr risco de se enforcar dentro de você, nem todo o incenso, a meia-luz, o disco do Yanni no aparelho de som e o fino do hippie chic vai te impedir de ir para uma sala branca, com cheiro de desinfetante e com menos espiritualidade new age e mais treinamento obstetricio; quando você tiver que materializar sua tese de mestrado, nem todo o charme vintage de um papiro e tinta de urucum vão substituir a impressora e a folha A4; quando você estiver na natureza selvagem, nenhuma glossolalia excitada pelo espírito pantagruélico da Mãe Gaia vai te salvar da picada de uma cobra assustadora – a não ser que você seja agraciado pelo encontro randômico com uma ambulância cheia de antiofídico, desviada do caminho da cidade e perdida no coração da savana africana, comece a contar, com os números e medidas da matemática chauvinista, em minutos o seu tempo na terra.

Por pior, mais conturbada, mais patológica, mais decepcionante e vazia de significado universal, a vida é daquelas coisas que nutrimos um apego que está acima de nossas fantasias metafísicas. Tê-la por perto por mais tempo não é motivo para chorar. É claro que reduzi-la a um protobiologismo barato ou a um mero construto identitário que nos petrifica pode tornar o caminho mais árduo. É com o anúncio da morte da acética esperança que acabamos por deixar o progresso cair nas mãos de quem o quer fazer de arma, não de bálsamo. E é a atitude contra a ciência que nos deixa em desvantagem em uma batalha tão perene como esta.

É dela que precisamos nos apropriar, como um meio possível, para engendrar nossa vingança contra quem a sequestrou para o mal. Não é chamando a ciência de produto do patriarcado, mas apoiando meios para termos mais mulheres cientistas; não é negando a empiria, mas sim observando que nem tudo pode ser quantificado ou explicado apenas por uma metodologia precisada em modelos previamente dispostos; não é divorciando a ciência da política por completo, mas sim compreendendo que é só através do rigor que podemos estabelecer modelos que visem o progresso; não é destruir a natureza, mas sim usar-se da ciência, tanto como um poderoso argumento e também como meio, para impedir que a violência antinômica e niilista do capital siga a estuprando por lucro; não é negligenciando milhões de pessoas que passam fome que a fome vai desaparecer; não é apenas apontando o dedo para a maligna indústria farmacêutica que os bebês aidéticos do norte da África deixarão de receber um atestado de óbito no primeiro momento que respirarem o oxigênio do nosso mundo.

A ciência é um instrumento. Se ela é usada para escravizar, matar, separar, coagir e oprimir, é porque a abandonamos no primeiro sinal de que o projeto dos modernos e sua fé irrestrita nela talvez fossem um tanto exagerados. Não existe sociedade para o futuro sem tecnologia, queiram ou não queiram os antropólogos amadores e os hippies. Abrir mão dela não a destrói, só a faz um instrumento na mão daqueles que querem destruir o nosso planeta e nos obrigar a fazer parte disto. Negá-la é, enfim, negar o futuro da nossa espécie. Se você é tão romântico a ponto de achar isto bom e continuar com este pensamento ao olhar para o sorriso tímido de uma criança ou ao acordar toda manhã e vislumbrar o belíssimo céu anis da aurora, então boa sorte em sua viagem ao outro mundo. Eu prefiro ficar com a minha tola e débil esperança. E meu computador.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s