GULARTE

Rodrigo Gularte e a morte como transcendência

Existe um pequeno conto do americano Melville que tem como título “Bartleby, o escrivão”. Nele, o personagem Bartleby é um sujeito profundamente taciturno, de olhar sôfrego e de modos austeros. Seu chefe lhe manda fazer tarefas e ele se recusa, proferindo a infame resposta: “prefiro não fazer”. A forma com que Bartleby apresenta sua recusa, com total desapego e falta da mínima centelha de ousadia ou altivez, como que apenas desinteressado na ação e não movido por galhardia, acaba por provocar uma miríade de diferentes reações em seu empregador, narrador da história. Ora ele reage com espanto, ora com angústia até chegar a uma compaixão comedida e, mesmo, a repugnância por criatura tão vazia. De repente, o narrador se angustia de forma profunda e percebemos que o conto nunca foi sobre Bartleby, mas sobre o sóbrio chefe advogado, homem de seu tempo, de modos e éticas definidas, de regras e sentidos. Dentre o universo de interpretações, aquela que me atingiu foi a de que ele, o narrador, passou a se enxergar na figura vazia e oca de Bartleby, alguém sem alma, apenas a casca. Ou melhor; ele passa a enxergar um possível futuro inexequível uma vez que olhou nos olhos do mesmo. Um momento célebre do conto se passa quando o chefe e seus outros funcionários passam a utilizar o verbo preferir no presente do indicativo sem nem perceber o quão contagiados estão pelo misterioso colega. O ponto mais importante do desfecho do conto se dá na página final, quando o narrador nos confia um boato que poderia vir a explicar a inexplicável apatia do escrivão. Bartleby trabalhara, anteriormente, em uma seção dos correios onde recebia cartas extraviadas e tinha como missão queimá-las. Nos envelopes, cartas de amor, anéis de noivado, dinheiro para honrar com compromissos; enfim, toda uma dimensão afetiva se esvaia no fogo, como se fossem o que afinal eram – objetos atômicos que eram apenas unidades materiais em si, desprovidas de qualquer signo humano. Não recusaríamos a destruição daquela que, em última instância, é a nossa própria humanidade se fosse-nos pedido?

Nesta semana, o brasileiro Rodrigo Gularte foi executado na Indonésia pelo crime de tráfico de drogas. Como que alimentada pelo interesse mórbido de uma sociedade sempre fascinada pela destruição, a imprensa passou a publicar diversas matérias esmiuçando os detalhes mais íntimos da vida de Gularte. Aprendemos que ele era filho de latifundiário, oriundo de família rica e que sempre viveu cercado dos luxos que desejava. Soubemos que iniciou no mundo das drogas aos 13 anos, inalando solvente e passou boa parte da juventude em uma escalada de prazeres hedonistas e apreciação das luxúrias materiais. Nos contaram que seus pais abriram diversos negócios para ele gerenciar e todos, sem exceção, vieram a falência porque Rodrigo não tinha o mínimo interesse no trabalho. Até mesmo o fato de que a mãe do rapaz pagou um juiz para livrar-lhe de uma sentença veio a público. Posteriormente, Rodrigo decidiu se tornar um traficante “light” – em suas próprias palavras – e teve como destino as Indonésia, revendendo o material de um grande traficante fluminense. Segundo ele, se tivesse atingido seu objetivo, estaria surfando nas praias paradisíacas do país oriental, cercado das mais belas mulheres que o dinheiro pode comprar.

Curiosamente, estes detalhes causaram uma reação diversa em setores da opinião pública. Os que moralizaram o debate sobre a morte de Marco Archer, o que foi executado primeiro pelo mesmo crime, seguiram no mesmo tom, aumentando a reprimenda pelo fato de Rodrigo ser rico e ter “tudo o que se pode querer”. Entretanto, fenômeno mais interessante se deu nos círculos dos opositores radicais à pena de morta, que pareceram titubear frente à biografia controversa do homem. Para eles, a vítima da pena de morte precisa encarnar uma determinada identidade, que lhe agrega ao grupo das “vítimas sociais”. Caso sua biografia não possa ser distorcida ao ponto de se tornar irreconhecível, a oposição à pena de morte passa por uma mutação e torna-se uma espécie de ação condicionada identitária. “Ainda que siga sendo opositor, eu tenho a obrigação moral de inserir um asterisco que contém uma reprimenda ao estilo de vida do rapaz, a educação falha dos pais permissivos e o hedonismo produto da corrupção moral do capital”.

De certa forma, é uma oposição sujeita a intempérie dos afetos e da subjetividade, relegando ao sujeito a primazia da moralidade ou imoralidade da prerrogativa do assassinato nas mãos do Estado. Sob a letra escarlate da lei, não há diferença razoável entre um pedófilo, um assassino de bebês, um playboy mimado ou um camponês idoso que assassina um maligno latifundiário dada a invasão de sua terra arrendada; a pena de morte é inaplicável, independente de nossa simpatia, de nossas compaixões ou de nossa irascibilidade. Ao menos, esta é a práxis político-ideológica em seu estado ideal.

Mas, para além da questão superficial da pena de morte, existe uma discussão, encravada na crosta terrestre da tragédia de Rodrigo Gularte, que deve ser escavada, caso queiramos compreender o atual momento em que estamos inserido. Deslocando-se do terreno das amenidades morais e das picuinhas jurídicas, encontramos um campo árido, de difícil irrigação, que necessita de uma intensa batalha contra nosso próprio instinto erótico da autopreservação, dado o fato de que sua reflexão nos leva à verdades que não se comportam como metralhadoras que podemos apontar para fora, mas que precisam alvejar toda a organização de um sistema de sentidos interno.

Rodrigo foi buscar a morte nas Indonésia. Como? Que tipo de afirmação medonha é esta? Como um hedonista que nunca conheceu limites iria procurar logo o mais abreviador de todos os limites? O fato é que quando você passa a inalar tinner com 13 anos de idade, existe algo para além da obtenção momentânea do prazer que lhe impinge ação tão agressiva. Tudo o que ele disse ter ido buscar na Indonésia, ele possuía no Brasil. Com sua condição financeira, poderia ter o carro que quisesse, poderia surfar nas praias paradisíacas do Estado vizinho ao seu, poderia comprar as mulheres, poderia ter acesso livre às drogas, poderia gozar de tudo que queria na vida sem nenhum entrave. E teve tudo isto. Por qual motivo trocaria um País muito mais permissivo, de espírito legislativo muito mais corruptivo e onde estava perto de seus abastados provedores, para buscar os mesmos prazeres em um país distante, muito mais punitivo em relação, justamente, à atividade criminosa que praticava?

Estamos inseridos naquilo que teóricos como Jean Baudrillard e Zygmunt Bauman convencionaram chamar de “sociedade de consumo”. Digamos que este é o terceiro estágio “moral” do capitalismo, que sucede a era das relações mercantilistas e a da ética “workaholic” do capitalismo industrial. Poucos trabalhadores estão inseridos nos setores de produção de comoddities; a maioria se concentra no setor terciário, que vende estas comoddities, Isto se deu a partir de uma instrumentalização massiva das tecnologias, que acabaram por automatizar a produção e diminuir a necessidade da intervenção humana. Dado o novo contexto material de produção, o capitalismo passou por uma transformação radical, tornando obsoleto o léxico do velho socialismo já que, hoje, mesmo em um nível identitário, poucos se reconhecem como “proletários”.

O sociólogo Max Weber investigou o capital do início do fim do século XX e, ao invés de formular um tratado econômico sobre as condições materiais da expansão desenfreada capitalista, optou por fazer a hagiografia do “espírito” capitalista, remontando à reforma protestante. É dela, explica Weber, que o capitalismo industrial herdara a disposição perene ao trabalho. Na ética protestante, sobretudo com a revisão calvinista, o labor era, por si próprio, uma aproximação da certeza de predestinação à salvação, liberando o homem cristão ao cultivo do empreendedorismo que já não mais se censurava pela obtenção do excedente e por uma ganância branca. O que o capitalista ganhava era reinvestido no negócio, ampliando-o a velocidades notáveis.

Porém, com a transformação dos meios de produção durante a evolução do século XX, tal paradigma foi quebrado e a ética protestante acabou por se dissolver. A necessidade de criar uma sociedade onde o consumo seria o signo da solidariedade entre os homens se fez perene, a fim de criar o fluxo necessário para aplacar a formidável capacidade de produção em massa das novas forças produtoras. Ainda que sustentado por um esteio material, o novo formato do capitalismo acabou por ter de operar uma minuciosa transformação na relação da psique humana para com a sociedade. Se antes, o signo do trabalho era o dínamo das relações intrapessoais, agora era necessário manter a coesão através do consumo dos comoddities produzidos em massa.

E assim chegamos novamente em Rodrigo Gularte. O que ele tinha, ainda em tenra idade, é o que trabalhamos durante 30 ou 40 anos para comprar. Não se tratava da moeda papel em si mas sim de seu valor simbólico-fantasmático: a obtenção do gozo perpétuo. Rodrigo se defrontou com esta realidade muito cedo. Como um cidadão do mundo que lhe cerca, ele percebeu que estava no topo, que todos os outros sangravam para chegar, desde o princípio de sua vida. E, portanto, a narrativa ilusória do gozo perpétuo não pode lhe fazer companhia por muito tempo.

Se seguirmos abordando este viés, podemos articular algumas suposições. Em suas elaborações sobre o hedonismo, Freud nos revela importante minúcia sobre esta pulsão central na vida psíquica dos homens: o sentimento de busca incessante pelo prazer em detrimento a dor não é uma escolha ética mas sim uma imposição psíquica. Neste ponto, somos “programados” para viver uma incessante busca por um estado permanente e imóvel de prazer. Naturalmente, após suas experiências com a cocaína, Freud reconheceu a importância das drogas neste processo. Rodrigo teve acesso a todos os prazeres que poderia comprar quando ainda criança. E, ainda no princípio da adolescência, já estava envolvido com o que Freud chamava de o mais grosseiro método de influência.

Digressando ao ponto onde decidiu traficar drogas para a Indonésia, Gularte vivia uma experiência de administração de sua insatisfação. Existe um limite estabelecido para a sociedade de consumo e, ao atingi-lo, o consumidor-cidadão é exposto a uma verdade incômoda, que lhe traduz a dificuldade de converter a economia libidinal despendida a busca do prazer para conformar-se aos limites materiais do consumismo. Como as transcendências do passado foram excluídas do plano social por representarem uma espécie de revogação do espírito ao vazio da dinâmica do consumidor – a saber, a espiritualidade, a ideologia, o dogma -, a única potência humana que não pode ser apreendida por este Leviatã e que, inclusive, é indesejada em um primeiro momento, é a morte.

Perseguir a morte não é um tema pós-moderno. A escola socrática já contemplava o fim da vida biológica como um ato de transcendência das prisões fisiológicas de um corpo imperfeito. O “ser para morte” se modifica dentre diversas vozes do pensamento filosófico, desde Schopenhauer até Heidegger. Na psicologia, Freud retoma o tema com a pulsão para a morte, um processo que se revela como antagonista do instinto necessário de autopreservação. É nela que podemos nos aferrar quando pensamos na tragédia de Rodrigo Gularte.

Em uma entrevista cinco meses antes da execução, o prisioneiro contou que só foi  saber tardiamente sobre um aparelho de raio-x potente comprado pela Indonésia junto ao Japão – que detectou a cocaína escondida dentro de suas pranchas. Apesar de entrarmos em um terreno absolutamente especulativo, dada a escassez de dados e o fato que de que não tivemos uma transferência entre o homem e um profisional da psicoterapia para adentrar em suas minúcias, é possível imaginar que, talvez, Rodrigo tenha visto, sem grande interesse, uma matéria na televisão sobre tal máquina. Ou quem sabe alguém falou vagamente sobre tal. Não é preciso de muito para que o nosso inconsciente apreenda informações que fogem ao desatento consciente utilitarista.

Independente disto, é interessante, como processo de abstração, imaginar o porquê de pessoas bem sucedidas financeiramente irem de encontro a uma atividade sistemática de crime. O mundo do tráfico é hostil, hipermasculino e selvagem. Além de caminhar à margem da lei, o sujeito sabe que, a qualquer momento, o seu braço direito na organização pode lhe matar – e que deve matá-lo antes. Neste panorama, de ares de filme de gangster, materializa-se, claramente, uma pulsão destrutiva que, invariavelmente, se vira para dentro, à despeito dos danos exteriores que causa. Em nossa “cultura-para-a-morte”, levando em conta o pathos social (que é, hoje, o sentido mais possível de uma solidariedade organicista entre os homens) do desconforto com a dinâmica do consumismo, o bandido retorna a um lugar de destaque pois ele, ainda que por vias muito suspeitas, é agente de uma anomia que se põe contra a ordem estabelecida pela configuração do capital. Não é o complexo de Robin Hood; o que nos atrai é a destruição externa e interna que ele carrega em seus atos.

Gularte fala em reconhecimento. Nunca foi sobre dinheiro mas sobre uma transcendência que o colocaria na posição de um Radamantos, juiz acima da comunidade que lhe servia. Foi o desencantamento com a sociedade de consumo que o levou a desejar o crime. Porém, para além da realidade objetiva, o nada encontrado pelo jovem, que caminhava no círculo eterno do gozo dos prazeres inócuos e esvaziados de sentido de sua vida materialmente bem sucedida, talvez tenha sido o elemento central em sua jornada rumo ao perigo total de adentrar um dos países com legislação mais rigorosa do mundo com 50 kg de cocaína. É como ir de encontro ao limite de uma ponte; talvez você sobreviva mas as chances são próximas do zero.

Se a morte é a única experiência humana na sociedade de consumo, é preciso pensar em como ela reproduz sua disposição para lidar com este grave distúrbio do processo de dissolução identitária do eu. Se o fetichismo da mercadoria é o símbolo das relações consumistas de hoje, é natural que a morte componha o fetiche máximo da transcendência, visto que é a renúncia ao gozo das mercadorias. Como unidades biológicas, somos forçados a participar deste balcão de prazeres, ainda que sob o preço da enfermidade psíquica. Porém, o término das atividades de nosso corpo físico é a transgressão única possível.

O que nos causa enorme tensão ao olhar nos olhos de Bartleby não é o medo dele ou mesmo compaixão por, mas o medo de que sejamos o simulacro e ele a nossa realidade. E a urgência que a nossa psique patologizada imprime em nosso corpo, criando uma constante batalha entre a adequação da busca pela felicidade aos meios dispostos e a realização da impossibilidade da mesma se concretizar por mesmos meios, acaba por nos esmagar e nos direcionar rumo a uma necessidade de transcendência espiritual. Onde a religião já foi desmistificada, onde as ideologias se tornaram ensaios de uma mente infantil e onde o espírito já rendeu-se aos caprichos do corpo, não há mais lugar para nada humano – se não o meu domínio, só meu, de minha morte.

Bartleby, o escrivão, era um espelho para o angustiado narrador do conto de Melville. Nele, ele enxergava a dissolução total do espírito humano, que estava em curso na sua própria vida. E o abalo causado em sua vidinha regrada, de ganhos consideráveis por serviços mudanos e que se media na cortesia e na superficialidade de relações mecânicas acabaria por, para seu desespero, fazer todos os sentidos que criou para sua relação com aquele mundo, deixarem de, enfim, fazer sentido.

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