Um Charlie Hebdo incomoda muita gente

Muito foi falado sobre a questão dos ataques à publicação francesa de extrema-esquerda Charlie Hebdo. Os conservadores tomaram a via da sagrada liberdade de expressão para defender e justificar a xenofobia e a provável tomada de decisões políticas e militares para atacarem imigrantes não ocidentais. Os ignorantes no assunto lamentaram as mortes, mas se posicionaram em cima do muro com relação ao debate axiomático da expressão sem limites x limite ético da liberdade, alegando não saberem dos fatos para tomarem, efetivamente, um lado. Entretanto, por uma questão de cretinice e conveniência, a direita acabou por se declarar a paladina da liberdade em nome do material que era publicado em Charlie Hebdo – na linha daquela citação erroneamente atribuída a Voltaire. Para a surpresa de ninguém, que mais atacou o conteúdo da revista foram os liberais.

O coro de que a publicação foi longe demais em suas provocações às religiões (leia: ao Islã) só poderia ser entoado pela esquerda de nosso tempo. Na tradição moderna da ambivalência binárias das forças políticas, a proposição é quase infantil: se a direita se posiciona contra o Islã, nós vamos defendê-lo. É a explicação simples que pode nos levar ao entendimento do porquê o catolicismo e o judaísmo não podem dar um “ai” sem serem atacados e o Islã, radical ou moderado, tem sempre seu direito de expressão assegurado como forma legítima de impedir um etnocidio cultural. É claro que a questão passa longe de ser resumida nesta forma simplória afinal existem grupos vulneráveis e marginalizados envolvidos nesta história e se faz esquerda, justamente, neste tipo de cenário. Porém, o ataque à revista francesa deixa claro que estamos tolerando de mais, no momento em que esta tolerância faz com que desamparemos os nossos e abracemos nossos inimigos políticos e morais.

A bandeira da antixenofobia é uma bandeira que deve ser levantada. Imigrantes islâmicos/árabes passam o inferno e sofrem uma rejeição cruel que não fica apenas no âmbito do convívio, mas toma forma material na instrumentalização política e no aparato repressor sob seu judice. Entretanto, como transpor este cenário e conseguir separá-lo da questão do terrorismo internacional? Será que estes movimentos são resultado da opressão praticada no mundo Ocidental e secular contra minorias religiosas? Não é bem o que vemos. Na verdade, isto é uma argumentação sofismática que sequestra um fato observável e o contorce para que lhe caiba à causa a ser defendida. E a parte preocupante é que, criando a ideia de que o gatilho do pseudofundamentalismo é, apenas, a opressão de minorias religiosas no mundo secular, estamos demonizando nossas virtudes e conjurando uma cortina de fumaça sob o debate.

Assim, caímos no jogo maniqueísta proposto pela direita: soa muito mais moderno e secular defender a liberdade de expressão do que se colocar em favor psicopatas que explodem pessoas – e a si mesmos – por uma crença religiosa. Qualquer sujeito sensato, que não esteja a par das nuances deste debate, tomaria a primeira via. E é este discurso, de aparência inócua e virtuosa, que se esconde a ignomínia perversa da xenofobia.

A situação é complexa: não podemos tomar o lado do cinismo das mãos dadas dos líderes europeus (e devemos lhes atacar por tal), mas correr para os braços de uma anticrítica multiculturalista, ambivalente e seletiva, que é igualmente oportunista, pode determinar a ruína do posicionamento liberal em relação a legitimidade dos direitos de imigrantes. Criticar o conteúdo de Charlie Hebdo neste momento é, sim, justificar o ataque. Apelar para um argumento dramático que joga a culpa na maioria católica da população francesa é contraprodutivo pois falha em contabilizar uma das principais características do “fundamentalismo” islâmico, observada por Slavoj Zizek: o incômodo causado pelo mundo secular é uma indicação direta de que existe um desejo interno de querer pertencer a ele. Um budista não mata porque o resto do mundo não está de acordo com sua teologia. O “nirvana” está na indiferença que ele nutre pelo mundo lá fora.  Desconsiderar este paradigma é legitimar a violência causada pela confusão psíquica e não por uma verdade transcendental. E fazendo isto, estamos a ajudar a tornar a via da psicose como única alternativa para jovens que estão lidando com as contradições da experiência material.

Ao invés de amparar aqueles que lutam pela humanização de suas sociedades, estamos nutrindo um sentimento de ódio e automutilação espiritual destas pessoas. Nosso ódio à colonização eurocêntrica e aos valores da democracia representativa nos levou a legitimar os comportamentos mais aberrantes, provenientes de psicoses e patologias individuais. Estamos incentivando o barbarismo sob o lema do “inimigo do meu inimigo é meu amigo”. Em última instância, estamos falhando miseravelmente em oferecer uma esperança, a força motriz do humanismo. Possivelmente, dentro de algum tempo, estaremos esperando, pacientemente, por nosso ingresso na Valhalla, para podermos escravizar nossas virgens por toda a eternidade.

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