Lacunas

O pensador cristão Santo Agostinho propôs uma resolução prática para um problema antigo da teologia cristã: o mal no mundo não era obra de Deus mas sim sua ausência. Quando um homem levantava a mão para matar outro, era uma lacuna da presença do próprio Deus que possibilitava sua ação. Lacunas, um espaço vazio. É este o panorama político da sociedade em que vivemos – um espaço minado de cantos e dobras vazias, que são preenchidas com substâncias nem sempre visíveis mas quase sempre incômodas.

A esquerda brasileira se pergunta como pôde haver uma ascensão tão expressiva do pensamento conservador reacionário sem que nenhum fenômeno prévio possa ter sido percebido. É uma boa pergunta mas deve ser feita, inicialmente, utilizando a primeira pessoa do singular: o que eu fiz (ou não fiz) para que isto fosse possível? Só após um exame de autoconsciência será possível chegar a uma resposta satisfatória.

Vivemos em tempos de maximização dos prazeres. Nas listas de best sellers, constam sempre três ou quatro livros de autoajuda, a teologia do século XXI. Neles, os mantras são repetidos ad nauseam: seja você mesmo; não se importe com o que os outros pensam; um erro seu é, na verdade, a incompreensão dos demais. Em última instância o dogma central desta nova religião é um: não se importe com os outros. Egoísmo requentado com uma bela roupagem florida – a cara simpática que Ayn Rand não soube dar ao seu discurso. Não aceitamos dor como produto da existência; só aceitamos gozo. Não aceitamos não; só aceitamos a aprovação total e geral do nosso comportamento. É fascismo porque pressupõe que uma superioridade individual legitima a ideia de que você pode exceder os limites práticos da lei, os limites tácitos do convívio e os limites abstratos da moral.

A lacuna deixada pela rigidez das verdades universais é preenchida com versões de uma moralidade dúbia e pobre, como a descrita acima. Não que estas verdades não tenham de passar diariamente pelo escrutínio da razão; porém, dados os devidos vaticínios, uma nova substância deve surgir. É isto, exatamente, que o liberalismo relativista e multicultural impede que a esquerda faça. No frenesi de se desconstruir, esta nova abstração reduz a si mesma a um paradoxo – uma cobra que morde o próprio rabo. E desta ação, resultam lacunas e lacunas, prontas para serem preenchidas com o que há de imediato à disposição. E é por isto que o pensamento reacionário que pulula, sobretudo, da cabeça de jovens em luta diária contra o vazio da existência nutre um profundo desgosto pela razão – na lacuna deixada pelo seu desuso.

Quando deixamos de pensar, tomamos por necessário achar um substituto. E são nestes momentos que o que há de mais danoso acaba saindo das cavernas íngremes da ignorância e toma forma no real. Falhamos espetacularmente em educar as gerações que vieram após a queda do regime militar. Devido a uma tendência mundial de abandonar qualquer pensamento que se deslocasse de mais para a esquerda após os horrores do Kremlin tombarem na lata de lixo da história, decidimos que a coalizão de forças absolutamente opostas seria o formato mais indicado para a continuação de um projeto de esquerda. E nesta nova realidade, um período de trevas, que ainda não bem acabara, teve de ser imediatamente apagado das nossas memórias para que não despertasse novos e velhos ressentimentos.

Onde chegamos com isto? Em jovens de 18 anos, separados pelo tempo e pela memória do período militar, clamando por um golpe protagonizado pelas forças armadas. Não há nada mais oposto aos nossos tempos do que a imposição de uma norma ditatorial de “ordem” e repressão. Os jovens que seguram cartazes pedindo intervenção militar são os mesmos que, todo fim de semana, usam a substância que tiverem em mãos em busca de prazeres baratos em baladas. Seriam os primeiros a terem conhecimento (e, possivelmente, a sentir fisicamente) o peso da falta de liberdade.

Mas nos mal acostumamos. Comunismo é palavrão e virou jargão de botequim. A vergonha que a esquerda sente de seu passado a levou aceitar o lugar comum imposto pela direita e a regurgitar mentiras e colóquios rasteiros sobre a enorme e imponente produção intelectual que gerou durante os séculos XVIII e XIX. A partir daí, qualquer leitura que se quer sugira a visão classista da história tornou-se sinônimo de totalitarismo que, na ignorância e má fé dos reacionários e no entreguismo e falta de coragem do liberalismo multiculturalista, é a “mesma coisa” que comunismo.

Dado este fenômeno, é possível considerar que um governo que possibilita lucros recordes para bancos privados é “comunista” por gastar uma ínfima quantia em programas de transferência de renda. É, também, devido a ele que programas sociais incomodam tanto. Temos, diariamente, princípios claros de revolta contra a condição de classe, na dinâmica do opressor-oprimido. Rapidamente, estes movimentos são sequestrados por um discurso de ódio à política ou são subvencionados pelo senso comum de que o problema está na deterioração de uma ordem inata, que respeita a família e as tradições. Naturalmente, estas pessoas confusas e revoltas passam a atacar minorias, aqueles que destoam do que está estabelecido como norma e o que temos são números recordistas de votação em candidatos de persuasão fascistoide.

Como não enxergar que eles estão vencendo? Você pode se indignar ao ver um deputado ou senador a falar atrocidades e declarar guerra a pessoas que estão em condição de vulnerabilidade. Mas eles estão falando e a lacuna deixada pela razão está sendo preenchida. Onde está a esquerda? Muito preocupada em se desconstruir e se liquefazer. O inimigo não precisa atacar pois a repressão é interna. Da falta de razão e do ódio ao pensar, surgem seres humanos amarrados em postes, como animais. Ficamos horrorizados, contamos uns aos outros e consideramos que quem defende tal barbárie está despido da mais básica e primeva humanidade. Porém quando foi que perdemos nosso tempo precioso, dentre produzir artigos inócuos e falar do sexo dos anjos, para educar esta gente? Se nem nós mais acreditamos que existam valores éticos e morais que são universais e absolutamente necessários enquanto projeto comunal de sociedade, o que teremos para falar que não um relativismo torpe e arbitrário, que defende, sobretudo, o direito de odiar a razão?

E neste abandono abissal, nosso mundo carece de direção. É nesta carestia que o ódio e a violência reproduzem-se e tomam-nos de assalto. Ao considerarmos que qualquer visão de mundo é validada por uma fantasia tecnicolor do mundo como um grande “love-in”, enfraqueceremos a nossa própria base. Ao aceitar que a razão seja golpeada, estamos incentivando o exato oposto do que defendemos – algo da qual nós nem temos certeza do que é. Retirar uma palavra do léxico ordinário do dia a dia por soar ofensiva a uma minoria não é solução para nada. Estas pessoas continuarão vulneráveis, sendo oprimidas em última instância por um projeto econômico que foi o responsável por criar uma cultura onde é normativa a exclusão e a marginalidade. Você pode até voltar para casa achando que está com o dever cumprido mas os que ficam continuarão a viver em estado de calamidade, amedrontados e dilacerados psiquicamente. Para que seu mundinho burocrata siga a fazer sentido, a raiz de todos os males que você diz combater deve permanecer fincada na terra e você pode seguir com seu teatro farsesco de que é o ser humano mais tolerante que já existiu.

Se acreditar e defender liberdade e igualdade é ser racista ou achar que existe uma visão de mundo correta, então que seja. Este é o caminho duro, no qual você tem de se defender até dos seus. Não é um discurso rosado, com paroxismos vazios que tentam considerar que até um mosquito tem o mesmo valor de um ser humano. Não é uma fantasia que crê que o mundo ocidental e secular é uma aberração em si mesmo e que culturas absolutamente idílicas são aquilo de que precisamos. Para quem acredita nisto, sinto dizer que, se posto em prática, causaria o maior genocídio da história. O mundo chegou a um ponto onde já não é mais possível a localização e a falta de uma gestão comunal e desfragmentada. Os caminhos estão postos: podemos continuar com o capital como centro nevrálgico de sociedade ou humanizar e comungar dos meios de produção para garantir uma vida digna a todos. Sentir vergonha de analisar a batalha da história com uma visão onde esta dicotomia está presente é negar à esquerda seu valor intelectual e prático. É, literalmente, esvaziá-la de sentido e torná-la um acessório cosmético para quem quer soar descolado. E no vão que deixa, brotam os movimentos históricos que nos constrangem até hoje. Teremos um novo período de trevas a caminho?

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s