O racismo microcósmico e a negação patológica de um dos países mais preconceituosos do mundo

O racismo não tem a constituição de um nome próprio. Ele não atende por “Patrícia Moreira“. Tampouco o racismo tem clube de futebol favorito. Ele não é produto da subcultura de um Estado da Federação. Não é o Rio Grande do Sul que paga para os negros e pardos um pouco mais da metade do salário que paga para os brancos. É o Brasil continental, da qual o Estado gaúcho, mais “branco” da Federação, faz parte. Zulmira de Sousa Borges Cardoso, imigrante angolana pós-graduanda que estava a completar os estudos no Brasil, foi morta em 2012, no Brás em São Paulo, por um homem que a chamou de macaca minutos antes de desferir diversos tiros contra pessoas que nunca havia visto na vida. O rapper angolano Badharó viveu por 15 anos em uma comunidade carioca e crivou, sem medo, a solapada que tantos rejeitam: o Brasil é um dos países mais racistas do mundo, ainda que muitas vezes de forma velada. Reparem que o angolano, sem as vicissitudes e disputas folclóricas internas que insistem em rastejar por dentre os debates mais sérios, fala no País e não no Estado do Rio de Janeiro, seu lar após fugir da situação terrível de guerra civil de seu país, que divide a língua com o nosso.

Os exemplos pululam em outros Estados, mais representativos, da Nação. São Paulo, o berço industrial do País, ganha destaque por, inevitavelmente, dada sua condição de capital financeira, ser uma escolha de diversos brasileiros para a busca de uma vida melhor. Não é apenas o racismo que assola os paulistas; o preconceito pesado contra os “migrantes” nordestinos pauta discussões acaloradas há décadas.

Um caso lembra o atual no Rio Grande do Sul, dada a “virtualidade” e a pouca contextualização racial das ofensas. classificadas como “rotineiras”, em uma tentativa de naturalização do fato como defesa de ambas as perpetradoras. Em 2010 a estudante Mayara Petruso alegou que nordestinos não eram “gente” e pediu, como favor ao Estado de São Paulo, que estes fossem mortos por afogamento. É realmente possível traçar paralelos entre os dois casos? Neste exemplo, a moça veio a pedir desculpas e deu a entender que o comentário seria uma externalização de frustração sobre o resultado do pleito eleitoral que, à época, marcou a eleição da candidata do PT, Dilma Rousseff. Para ela, a reação extremada seria produto de uma narrativa que determinava que o partido havia ganho a eleição devido aos subsídios que pagava às [pedintes] populações sertanejas e ribeirinhas, “cântico” muito difundido pela oposição naquele período. Posteriormente, ela determinou que a única defesa viável para seu crime de ódio era de desconstruir o sentido preconceituoso das alegações, aderindo-lhes um elemento cultural autônomo e produto de fenômeno contemporâneo, dissociado de uma condição histórica de xenofobia. 

A torcedora do Grêmio parece ter ido pelo mesmo caminho. Não obstante de afirmar que fora um acidente ou reação momentânea, a defesa de Patrícia e os outros torcedores flagrados parece pairar sobre a ideia de que o epíteto “macaco” foi esvaziado culturalmente de seu sentido antropomorfo, parido em meio às teorias pseudocientíficas (algo chamado de “frenologia”) da existência de raças para a legitimação da escravidão. É de conhecimento público que o emprego do termo popular para o desígnio de uma série de espécies de símios é utilizado pela torcida gremista para designar torcedores do Internacional. Segundo as explicações, a origem se deu quando torcedores colorados trepavam em árvores para poderem assistir os jogos do Internacional em dado momento histórico. Outros dizem que o apelido pegou porque o clube costumava copiar ações do rival e que é da natureza dos macacos a imitação do comportamento de outras espécies.

Entretanto, um ponto sociocultural precisa ser levado em conta, ainda que eu não esteja interessado em me estender neste assunto: o Internacional é, historicamente, um clube ligado às massas populares e, portanto, é comum que a maioria dos torcedores negros, sobretudo na capital gaúcha, torçam para o clube, ainda que este dado seja resultado de uma narrativa cultural e não tenha sido provado por método empírico. O fato é que, dada a associação histórica do clube com esta epistemologia popular. é inevitável que a associação seja feita, lembrando que o termo tem origens na escravidão. A tentativa de dissociá-lo nasce de um esforço para naturalizar sua utilização – narrativa defendida por Patrícia e os torcedores do clube para justificar o uso do insulto e dar-lhe um significado único e intransponível no contexto do campo de futebol.

É bom lembrar que, em 2013, representantes da maior torcida organizada colorada chamaram um jogador do clube de “negro de merda”. Portanto, mesmo o clube que alega ser vítima de racismo por parte da torcida rival, apresenta quadros de agressões que aludem à raça, emitidos por figuras que detém representatividade dentre as torcidas. Estas demonstrações esquizofrênicas, levando em conta o fato de ambos os clubes contarem com diversos jogadores negros em seus plantéis, muitas vezes aplaudidos efusivamente pelos mesmos torcedores que gritam “macaco” ou definem um jogador de quem não gostam como “negro de merda”, nos afundam em uma realidade muito mais complexa. Agora, a imprensa parece estar travando uma verdadeira lavagem de consciência, cada um defendendo seu “território”. Jornais paulistas e cariocas não hesitam em lembrar que o caso aconteceu no “Rio Grande do Sul” em suas matérias. A mídia esportiva definiu que o clube Grêmio FBPA é a raiz de todo o racismo no futebol brasileiro, lembrando que trata-se de uma torcida reincidente. É como se o racismo no Brasil fosse uma entidade amorfa, que paira sobre os céus e, de vez em vez, possui uma corpo individual ou coletivo e demonstra sua sanha. Desta vez, (novamente) tomou forma na torcida do Grêmio, que há décadas utiliza o termo “macaco” para ofender seus rivais e, até agora, o tema nunca havia despertado reflexões maiores do que um bate papo de botequim. Amanhã, pode ser a declaração desavisada de um torcedor do Palmeiras no Twitter. Posteriormente, vai estar nas palavras de um industrial paulista. Talvez até encarne em uma arma disparada contra um negro em alguma comunidade interiorana. 

É sintomático de uma sociedade, onde o racismo está instrumentalizado em sua estrutural formal, tratar do tema sob um prisma microcósmico. Parece não haver relação real entre a morte da angolana em São Paulo, o racismo “velado” nas comunidades cariocas, o descaso com os imigrantes haitianos que foram vítimas de tráfico humano, as disparidades salariais, os números baixos de “coloureds” no ensino superior e todos os indicadores socioeconômicos que levaram o Estado à adotar as ações afirmativas; cada uma destas “casualidades” vivem em terrenos díspares, sem conexão estrutural, apenas sendo acasos que, de forma arbitrária, acabam assolando as comunidades negras. A naturalização de um epíteto racista, no conto daqueles que se recusam a enxergar o racismo estrutural das instituições brasileiras, é fato isolado, que pertence à cultura atrasada de um Estado ou, mesmo, de uma torcida de futebol específica. O fato de o Brasil ter um grande número de negros em seus indicadores de recenseamento e de haver um dispositivo penal específico para tratar de crimes de racismo demonstra que o fio que sustenta esta “democracia racial” imaginada está sempre à passos de ser arrebentado pelas forças hegemônicas de um cultura que nunca se livrou totalmente do traço da escravidão. Ainda que tenhamos nos livrado da experiência da segregação oficial, através de um aparato jurídico nacional, a segregação cultural é clara e se faz presente em qualquer indicador socioeconômico. Este é o racismo em sua práxis, que se apresenta na forma de uma distinção direta das capacidades e da aderência demográfica de brancos e negros. Instituído no mercado privado, esta representação acaba por se diluir no cotidiano, naturalizando epítetos que visam deformar a imagem social do negro na cultura nacional, aparentemente desconstruídos e revigorados como dispositivos semânticos de sátira ou, mesmo, de um pretenso afeto.

O desserviço que a polarização do racismo faz é gigantesco. Punições devem se seguir mas o trâmite de um debate que institucionaliza o crime de ódio na figura microcósmica é, sem dúvidas, uma tentativa de uma sociedade racista de internalizar este demônio particular e envernizá-lo com um discurso absolutamente moralista. Agora, todos correm para dizer que seu “povo” não é racista mas, sim, um vizinho em particular. Porém, no próximo caso, a entidade amorfa deverá pairar sobre outras pradarias e o debate, que mal se iniciou, será sepultado e dará lugar a uma nova acusação folclórica do País que não consegue se reconhecer como um dos mais racistas do mundo.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s