Beyoncé é uma feminista? Sim. O capitalismo pode conviver com o objetivo final do feminismo? Não. Beyoncé pode conviver com o objetivo final do feminismo? Não.

beyonce

 

A musa pop se apresentou no evento americano VMA e foi laureada pela iconografia “girl power” que utilizou em seu show. Sem muita sutileza, o enorme telão erigido atrás da cantora e de seus dançarinos piscava o tempo todo a palavra “feminismo”, o que levava a plateia, majoritariamente feminina, ao delírio. Não é de hoje que Beyoncé adotou a temática da luta feminista pela igualdade sociológica. As vezes, em suas letras, ela toma, até mesmo, um caminho de utilizar uma pretensa superioridade feminina em um tom próximo da vingança. “Nós mandamos no mundo” é a mensagem mais poderosa que reina em suas canções: “tomem cuidado, garotos”.

Entretanto, em um mundo perfeito, as mulheres não mandam. Nem os homens. O fato de estipular um determinado grupo de gênero, através de alguma argumentação ou asserção de superioridade genética, biológica ou cognitiva, resulta na criação de uma estrutura aparelhada para tratar este grupo dominante como acima dos demais e merecedor de uma posição hierárquica superior apenas por ter sido o resultado de uma das duas combinações genéticas possíveis no processo cromossômico de determinação do sexo. Parece familiar? Pois a nossa estrutura patriarcal é produto disto, emergente do fato de que o homem teria o poder de subjugar, ainda no mundo primitivo, os demais pela força física que lhe era preponderante dado o processo hormonal que lhe dotou das características tipicamente masculinas.

A ideia do igualitarismo dentro das concepções da segunda onda do feminismo sugere que, estruturalmente, o fim desta percepção e sua ação nefasta nos mecanismos sociais, políticos e econômicos resultaria, grosso modo, em uma sociedade onde a igualdade da capacidade de cognição colocaria homens e mulheres na posição de comuns e, portanto, mecanismos hierarquizantes e que compunham o binômio dialético “homem/mulher” seriam eliminados. Este é meu resumo muito simplório da noção de igualdade para o feminismo; não se trata apenas de declarar homens e mulheres como iguais em termos sociológicos mas a eliminação de todo e qualquer paradigma que produza, interna ou externamente, a disparidade social, econômica, política e cultural em favor de um sexo dominante (e, por conseguinte, gênero – no caso de nosso modelo atual, o heterossexual). 

É perceptível que a troca de um modelo patriarcal por um modelo matriarcal não estaria, de forma alguma, em harmonia com a igualdade proposta por estes movimentos teóricos. Na canção “Run The World (GIrls)”, Beyoncé ora evoca uma ideia “feel good” de que as garotas mandam no mundo e ora critica a percepção masculina de dependência econômica das mulheres e, consequente, sujeição que isto promove. Entende-se o ensejo entretanto o problema está, não apenas na mensagem confusa sobre a luta pela igualdade mas, também, em uma confusão da autora da letra (e, à bem da verdade, dos intelectuais que provavelmente lhe inspiram) acerca de como funcionaria a estrutura socioeconômica que enfrentamos neste atual momento histórico (digo “enfrentamos” porque ela possui paralelos com a situação brasileira).

O neoliberalismo, espécie de fase moderna do capitalismo que tomou forma a partir do processo globalizante que se deu ao fim da polarização do mundo na guerra fria, reinventou a própria noção estrutural da sociedade patriarcal, integrando em si determinados elementos defendidos pelo feminismo. É o que diz a famosa feminista Nancy Fraser, em artigo para o The Guardian. Em dado momento, Fraser expressa seu descontentamento por uma nova postura assumida no feminismo após as mudanças no caráter do trabalho assalariado: “Em uma cruel reviravolta, eu temo que o movimento pela liberação da mulher tenha se emaranhado em uma perigosa conexão com os esforços neoliberais para construir uma sociedade de livre mercado (…) isto explicaria como se deu o fato de que as ideias feministas, que um dia formaram uma cosmovisão radical, estejam sendo expressas crescentemente em termos individualistas”. Para ela, as demandas originais do movimento feminista foram “sequestradas” pelo neoliberalismo e algumas feministas modernas estariam, sem querer, colaborando com o mesmo, que depende, por exemplo, do classismo e da própria dualidade maniqueísta do binômio sexual para funcionar.

Em dado momento, em sua canção, Beyoncé afirma o seguinte: “I broke my 9 to 5 and copped my cheque, this goes out to all the women getting it in, get on your grind”. A expressão “9 to 5”, muito comum nos Estados Unidos, refere-se à jornada de trabalho. O ponto é: mulheres agora trabalham, se sustentam e nenhum homem pode dizê-las o que fazer. A mensagem é, realmente, admirável mas esconde um paradigma perverso. “Uma das contribuições (para o neoliberalismo) é nossa crítica do custo familiar, o ideal de família constituído por um homem trabalhador – mulher dona de casa que era central ao capitalismo de estado”, ressalta Fraser, crítica esta que está em consonância com a letra de “Run The World”. Então prossegue: “As feministas críticas daquele ideal agora lutam para legitimar o “capitalismo flexível”. De toda maneira, esta forma de capitalismo depende muito do trabalho assalariado feminino, sobretudo trabalho de baixo salário em serviços e manufatura, feito não apenas por mães jovens e solteiras mas também por mulheres casadas e mulheres com crianças; não apenas por mulheres de determinada raça mas de mulheres de todas as nacionalidades e etnias”. Fraser crê que o ideal de família onde o homem e a mulher proveem o sustento simultaneamente está se tornando uma norma, sancionada pelo feminismo.

Por quê isto é ruim? “A realidade que se esconde atrás deste novo ideal é a depressão de níveis de salário, o decréscimo de segurança laboral, um aumento expressivo no número da jornada de trabalho em cada lar, exacerbação do turno duplo – as vezes triplo ou quádruplo – e um aumento da pobreza, concentrada exponencialmente em lares sustentados por mulheres”, Fraser aponta que o capitalismo absorveu a mulher como uma trabalhadora de baixo custo, obrigada a aceitar posições de trabalho de baixo salário e condições insalubres devido a necessidades, sobretudo, ligadas ao sustento da casa. De certa forma, resta a mulher pobre ser parte da mão de obra sem qualificação porque, em casos de pobreza, ela não vai poder se dar ao luxo de buscar qualificação e terá de aceitar o espólio de sua força de trabalho em troca de baixa renda. A feminista completa: “O neoliberalismo tornou a orelha de uma porca em uma bolsa de seda ao elaborar uma narrativa de empoderamento feminino (…) ao invocar a crítica feminista ao sustento familiar para justificar exploração, acaba por atacar o sonho da emancipação feminina, lhe sujeitando à maquina de acumulação de capital.”

Beyoncé pode ser vista como um exemplo de “self-made men” capitalista: quando criança: seu lar não era pobre mas de classe média e a provisão foi suficiente para que seu pai pudesse largar o emprego e se tornar empresário do grupo Destiny’s Child, o qual liderava. Mais importante: sua mãe era proprietária de uma loja e foi quem sustentou a família enquanto o pai tomou o risco de largar tudo para agenciar a filha. Tomando riscos e baseando-se no talento e perspicácia, Beyoncé deixou de ser uma menina com um talento vocal para se tornar uma marca multimilionária, casada com o rapper mais bem sucedido financeiramente dos Estados Unidos. Entretanto, a história de classe média da diva pop pouco ressoa com as milhares de histórias de mulheres, ainda jovens, que carregam um bebê nos braços e, muitas vezes, mal podem fazer o papel de mãe já que trabalham o dia todo para pagar o aluguel de um kitnet, localizado em uma zona afastada e pobre. Questões como a legalização do aborto passam longe de qualquer letra da artista – que agora louva aos encantos e maravilhas da maternidade.

Recentemente, a estrela americana filmou “yet another” documentário sobre sua vida, focando no período de gravidez. Nele, ela proclamou que a “mais poderosa criação que você pode fazer é poder ter uma vida nascendo dentro de sua barriga” e que não há “maior presente ou empoderamento”. Não é exatamente um discurso “pro-choice” para uma feminista famosa. Assim como seus pais tiveram condições de prover o lar e fazer um investimento sempre alto na carreira da menina prodigiosa, Beyoncé pode comprar uma ilha para seu filho – bem como o seu marido comprou uma para ela. O casal já foi considerado como o símbolo do excesso, com festas de aniversário que poderiam pagar por habitações populares para centenas de pessoas. Naturalmente, o millieu ideológico da cantora acaba se enquadrando perfeitamente nesta nova configuração, chamada por Nancy Fraser, de “capitalismo flexível”. Só que se, com distância metafórica, Beyoncé clama que as mulheres trabalham duro agora e podem mandar em suas vidas, a nova configuração onde o neoliberalismo obriga mulheres pobres a serem exploradas pois estão desesperadas, sem ter como sustentar uma criança ou um lar, não têm lugar na utopia de livre mercado e girl power da “dream girl”. 

Como é comum ao pop contemporâneo, mensagens de auto ajuda se esgueiram dentre apelação de ordem sexual e choque gráfico. “Believe in youself” e “don’t listen to the others” são constantes e formam a espinha dorsal de hinos “feel good” para adolescentes em depressão. Entretanto, as mulheres que mandam no mundo de Beyoncé, de fato, só possuem um probleminha de autoestima aqui e acolá, geralmente causado por alguma insegurança. As trabalhadoras braçais do mundo real, negligenciadas completamente por egomaníacos que vivem o sonho do capitalismo, não tem vez. É que, como diz o ditado, “não morda as mãos que lhe alimentam”. Beyoncé é cabo eleitoral de Barack Obama, seu marido doa muito dinheiro para as campanhas dos democratas, ela apoia Michelle Obama em seus programas para diminuir a obesidade e, recentemente, o casal perfeito visitou Cuba. De fato, a cantora e seu mundo compõem um exemplo perfeito do que se convencionou chamar de “esquerda festiva”. A expressão, cunhada nos anos 60 no Brasil por Carlos Leonam (e com paralelos diversos em outras línguas), encontrou seu verbete mais claro nas palavras do conservador e ministro da ditadura Roberto Campos: “tratam-se dos filhos de Marx em uma transa adúltera com a Coca-Cola”. No caso dela, é claro, um contrato multimilionário com a PepsiCo.

Apesar de hoje muito utilizado pela direita, o termo, na verdade, deveria provocar a reflexão dentre as esquerdas modernas. Com o fim do comunismo do século XX, a esquerda “oficial” se homogeneizou e tomou a via da social-democracia em quase sua totalidade, abandonando a crítica estrutural ao capitalismo para, lhe fazendo todas as concessões, inventar um mundo aceitando que a igualdade é impossível mas, pelo menos, é possível permitir que todos tenham o suficiente para viver. O foco deste nosso artigo, Beyoncé, não apenas defende uma sociedade fundada na boa vontade de quem detém o poder como, de fato, é uma destas pessoas que o detém e possui um legítimo desejo de ser caridosa com quem tem menos. O problema da “esquerda festiva”, sobretudo na figura de quem é bem sucedido financeiramente – único fator importante para o capitalismo -, é que não vão se ater ao nervo morto que está a causar dores terríveis na boca mas vão pagar por uma bela cirurgia estética de clareamento do dente, já sem qualquer terminação nervosa operante. Dá para imaginar a diva pop pagando por um caro programa de “make-up America”, onde consultoras de beleza atendem meninas da comunidade e as produzem, com maquiagem e roupas novas. É o velho paradigma da caridade – um dos crimes mais perversos que podem ser cometidos contra uma outra pessoa. O nervo vai seguir morto, o dente vai apodrecer e cair mas os lábios, a parte visível da boca, estarão revestidos com um reluzente batom vermelho com glitter. O feminismo de Beyoncé não vai muito além da cosmética.

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