Lobão se tornou uma olavete envergonhada

3me72i

Muito se fala sobre Lobão, o músico. No debate, ele, ao menos, atingiu aquele ponto onde sua figura não pode inspirar indiferença, posição rara em tempos onde artistas tomam caminhos estritamente corporativos e colaboracionistas. Quando despertou para o debate político, Lobão trouxe uma perspectiva radicalmente diferente da imagem de contracultura estabelecida na década de 80; ao invés de um discurso liberal e de tom acusativo contra o capitalismo, o músico decidiu iniciar uma análise do panorama artístico brasileiro, com críticas ao que ele via como uma máfia que operava no MinC e uma oposição, de certa forma, bem-vinda a um renascimento da cisma da antiga esquerda nacional contra aquilo que vinha de fora, em sua quimérica tentativa de estabelecer uma cultura tradicionalista unificada o que, de fato, ainda lhe rendia alguns aplausos por parte de esquerdistas que consideravam o processo de “cultura universal” preponderante para uma modernização da posição liberal frente ao mundo pós-moderno.

Além de um interesse pela literatura, Lobão demonstrava ser um talentoso frasista, autor de silogismos satíricos e bem colocados. Seu uso de um palavrório sofisticado, provavelmente adquirido com o gosto pelos livros, aderia ainda mais sarcasmo à seu estilo. Por mais que operando em um discurso contra o governo e posicionamentos sobre o plano cultural que tendiam à calçada esquerda, Lobão era um interessante e satisfatório sopro de ar novo sobre um debate que já demonstrava pertencer ao passado, guiado por velhos buldogues, que há muito babavam na gravata e, com seus sorrisos e dentes amarelados, faziam da direita uma opção única para quem realmente detinha o poder e o pequeno burguês que achava que participava do jogo.

Entretanto, sua liderança como figura carismática e que desconstruia o dogma moralista e carola da direita tradicional brasileira começou a chamar a atenção de velhos proponentes dos mesmos discursos anacrônicos que Lobão parecia evitar. Um deles, é claro, foi Olavo de Carvalho, há muito auto exilado nos Estados Unidos, que por longo tempo só ganhava atenção de meia dúzia de astrólogos amadores que se propunham a participar de seus cursos online. Em um curto período, Olavo e Lobão se tornaram figuras indissociáveis; a partir dos hangouts organizados pelo segundo, Olavo foi introduzido a uma nova geração que começava a surgir junto a Lobão, ainda virgem e nada familiarizada com os arroubos conspiracionistas do velho nêmesis das esquerdas brasileiras.

Assim, um debate que poderia ser pautado por uma coerência causal e pela ânsia de encontrar novos rumos para a política nacional, dialogando com o conservadorismo clássico, deteriorou-se em um velho arremedo de discursos reacionários, munidos de um precário conhecimento acerca das ideias dos pensadores conservadores, cercado de preconceitos diversos introduzidos como “resposta” às supostas conspirações esquerdistas para dominar o mundo e, claro, uma boa dose de carolagem. Foi-se o Lobão de uma suposta contracultura que combateria uma hegemonia que se apropriou de um discurso de esquerda para estabelecer sua posição de poder e entra o que temos hoje: mais um arauto do moralismo que fala em PT a cada duas palavras em cada sentença.

Figuras como Roberto Campos e Assis Chateaubriand representavam a base intelectual conservadora no Brasil. Respeitados por seus inimigos no campo ideológico, estes pensadores se destacavam, não apenas pela elegância mas, também, por sua densidade discursiva. Nelson Rodrigues, então, nem se fala. A nova direita é, acima de tudo, analfabeta funcional. Não que seus (velhos) arautos o sejam mas, quando pularam da cadeira e utilizaram a notícia de que um grande número de universitários eram analfabetos funcionais para atacar o governo petista, não levaram em conta que diversos (eu diria, informalmente, a maioria) de seus seguidores que estão ligados à academia são parte daquela porcentagem que tanto os arrepiou.

Em cursos de humanas, sobretudo campos como filosofia e sociologia, não é difícil reconhecer o “reaça” da turma: no lugar da discussão sobre a teoria das mãos invisíveis e sua aplicação na economia globalizada, entram coléricos xingamentos contra o “gayzismo” (ativismo GLBT) e aos “esquerdopatas” que “defendem” o bandido; em detrimento a um debate pautado pela justaposição das ideias de filósofos, sobretudo, morais da escola austríaca como Adam Smith e Ludwig Von Mises, e as contradições de uma nova sociedade que inclui vetores diversos daqueles que arbitravam a estrutura social nos ferventes séculos XVIII e XIX (ascensão profissional das mulheres, o progresso tecnológico da indústria, a transformação do Estado militar em Estado de bem estar social…), o que faz a cabeça dos novos conservadores é a defesa de figuras públicas extremamente ignorantes que proclamam linchamentos e violência generalizada, supostamente justificada por uma falta de ainda mais repressão por parte do aparato de segurança pública (o que causaria náuseas aos mesmos filósofos que tanto invocam o nome).

Assim como a esquerda ainda encontra dificuldades em imaginar um cenário pós-capitalista, os neo conservadores só querem ver o PT ir a bancarrota. Não importa que o ideário do PSDB não seja muito compatível com o substrato intelectual dos autores clássicos e, mesmo, de economistas modernos; a única coisa que importa é que o Partido dos Trabalhadores saia do poder e então teremos quatro anos para dissipar críticas à provável montanha de escândalos que se seguirão na gestão de Aécio Neves, como produtos da mídia esquerdopata. Ideólogas, partidárias e pouco interessadas com o plano social, as “olavetes” só querem que Jean Wyllis leve uma surra, Dilma Rousseff seja assassinada e a “escumalha” petista vá para trás das grades. Depois? Pouco importa; eles já venceram. É hora de desligar o videogame e voltar a ser alienado.

A transformação de uma direita moderna brasileira, apoiada no liberalismo econômico, em um vulgar arremedo de conspiração Iluminati, pobre-fobia e uma presunção fascistoide de monopólio da virtude (justo do que acusam a esquerda!), infelizmente, passa por Lobão e sua transição de crítico cultural autônomo a reacionário de apartamento. Nos hangouts, em diversos momentos, Lobão claramente fica constrangido mas responde com sorrisos acanhados quando Olavo começa a despejar suas doses nada homeopáticas de preconceito contra homossexuais e usuários de drogas. E o iconoclasta que defenderia, se preciso a tapas, a honra de seu maior amigo e parceiro, Cazuza? E o roqueiro que foi preso, fez amizade com o PCC e levou vaias no Rock In Rio por trazer a cultura popular brasileira para o palco, em meio à guitarras e pedais de overdrive? Ele ficaria calado e desconversaria frente ao preconceito barato de um carola que baseia boa parte de seu discurso em uma ortodoxia que envergonharia até a Igreja Católica?

Vejam que até Rodrigo Constantino, que sempre levantou a bandeira do liberalismo econômico e travou batalhas cheias de ofensas ad hominem com Carvalho, alegando que a direita precisava se livrar do anacronismo e dos preconceitos herdados de sua base religiosa em busca de um capitalismo livre de regulagem moralista, baixou a bola e acabou se tornando mais um papagaio da ótica míope dos conservadores ressentidos e movidos pelo ódio dos fracassos em deter a tomada de consciência sobre a condição proletária e da consequente remodelação da organização social para chegar em um molde muito mais inclusivo e com um Estado mais empenhado em defender os pobres ante a apenas ser um maquinário burocrático burguês nas mãos daqueles que detém os meios de produção e precisam de gente como Carvalho e tantos outros para manter o povo em condição de servilidade, com base em conspirações imaginárias e fantasias de descontrole social e imoralidade absoluta.

De fato, a possível nascença de uma direita brasileira moderna, livre das imposturas de Carvalho, do deboche derrotista de Mainardi, da egomania descontrolada de Azevedo (…), deu lugar a uma massa amorfa que engole todos estes velhos paradigmas fundados no revanchismo e no ressentimento e toma forma no discurso datilografado de pessoas ainda ignorantes em relação àquilo que criticam e que apenas se baseiam em uma ilusória e nebulosa percepção sensorial da realidade objetiva para tal. Daí surge a representatividade de Rachel Sheherazade e Marco Feliciano, para citar dois atuando em campos diferentes. Lobão, culto e contumaz, poderia ser a antítese à esta deformação, sempre comum à boa parte da história conservadora no Brasil. Infelizmente, agora parasitado, é apenas mais um reaça de apartamento.

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