O homem que odeia a mulher ou “O macho e suas vítimas”

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Estava, estes dias, a analisar os tais movimentos de ativismo pelos direitos dos homens. Nos EUA, grupos com muitos membros confabulam em fóruns na internet. Aqui no Brasil, a incidência é menor mas já existem ramificações como o tal “orgulho hétero”, nada mais que uma narrativa boba de ódio contra os homossexuais. Porém, apesar de não termos grupos estabelecidos, é possível identificar os mesmos padrões em muitos brasileiros que estão na linha de frente na luta imaginária contra o feminismo.

Uma das maiores contradições destes movimentos é, justamente, o fato de que eles celebram seu verdadeiro inimigo, que é comum ao inimigo das feministas, pelas quais pregam ódio: o machismo. Um “macho”, como em suas definições, não vai para frente de um computador reclamar sobre como as mulheres são injustas, tampouco perde horas escrevendo argumentos enormes para se convencer que o problema não está com ele mas sim com a sociedade, dominada pela agenda “feminazi”. O “alfa” está na rua, pegando mulher. Curiosamente, a relação é tão esquizofrênica que, apesar de celebrarem este tipo de comportamento como sendo o correto, eles odeiam profundamente homens assim pois eles são bem sucedidos naquilo que mais os causa ressentimento.

Onde entra o machismo? Pois bem, estes rapazes, claramente, são extremamente inseguros e a sua insegurança é produto da incapacidade de assumir este tipo de comportamento. Eles são filhos de uma nova geração que já está inserindo valores mais avançados em seu cardápio (precisamos levar em conta o fato de que, apesar de mais pronunciados hoje, eles sempre existiram e em um grande número). São frágeis, emocionalmente instáveis, até mesmo apresentam traços que seriam atrelados aos trejeitos e comportamentos femininos. Não são o “macho alfa” de forma alguma; são, sobretudo, homens que estão fora do arquétipo criado pelo machismo. As feministas combatem este inimigo porque sabem que, enquanto ele não for erradicado, os seus tentáculos continuarão a causar vítimas, inclusive homens que não querem ou conseguem fazer parte desta “comunidade” estritamente patriarcal e dominada por gente que aprendeu, ao natural, a ser “macho” e opressor.

Entretanto, os grupos de ativismo pelos direitos dos homens não estão interessados em fazer uma análise profunda do que os oprime. Eles apelam para o denominador mais comum da equação e este são as mulheres. É bem verdade que existem mulheres que buscam relacionamentos pela posição financeira e social do parceiro. É, também, verdade que muitas mulheres procuram nos homens características machistas e, até mesmo, violentas. Porém, experimente conversar sobre isto com uma feminista séria; não pense que ela lhe dirá que as mulheres são livres e os homens que não são machões têm de correr para o seu quarto e passar os dias chorando. Elas dirão que o fato de existirem “Marias gasolinas” e mulheres que buscam o “macho” opressor é resultado direto da cultura machista.

Mulheres, também, são ensinadas que não há futuro para elas se não escoradas em um homem e o único homem confiável para dar estabilidade para uma mulher é aquele que não chora, que responde com hostilidade e refuta a sensibilidade em detrimento do pensamento lógico . O feminismo é relativamente jovem e ainda está longe de compor o millieu intelectual das sociedades ocidentais. Ainda convivemos com o espectro de um machismo de ares quase românticos, idealizado com uma narrativa de “homem de verdade luta, não chora”. Só que os homens nunca, realmente, foram isto. Quando jogados em um mundo primitivo, na aurora da humanidade, tiveram de aprender a sobreviver. Porém, cerca de 120 mil anos depois, já não precisamos mais da consciência da caça e do embate físico; o homem moderno pode, enfim, ser liberto das restrições de gênero, impostas pelo acidente da vida em um ambiente inóspito.

O feminismo luta por uma estrutura social não baseada no patriarcalismo. Isto não quer dizer que desejam uma supremacia feminina ou mesmo “poder sem responsabilidades”. O que isto denota é, sobretudo, a liberdade presente em uma estrutura que provenha igualdade para todos. É por isto que os movimentos GLBT falam tanto em um fim da heteronormatividade; enquanto espécie, é natural que exista o macho e a fêmea mas enquanto homo SAPIENS, nossa complexidade nos levam muito além do órgão sexual que temos entre as pernas.

Os ativistas e “orgulhosos héteros” não são apenas um produto daquele reacionarismo desesperado, que surge frente ao inevitabilidade da mudança; eles são perigosos porque são ressentidos e não sabem mirar contra o que realmente lhes prejudica. Curiosamente, são os “fracos”, para ficar em um jargão tipicamente machista, que mais defendem a manutenção de uma estrutura social que privilegia a agressividade e a prega que a sensibilidade e a diversidade são traços do perdedor. Eles querem fazer parte deste grupo, não combater porque não conseguiram sair da superfície do problema. É mais fácil odiar uma mulher do que lutar contra a estupidez estabelecida há centenas de milhares de anos.

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