Sheik, não estrague o espetáculo!

Leiam esta notícia e eu retorno com um pequeno comentário:

http://espn.uol.com.br/noticia/413993_emerson-chama-lucio-de-mau-carater-e-acusa-me-chamou-de-gay-como-se-fosse-um-monstro

 

Em primeiro lugar, não me interessa nem um pouco se o jogador Lúcio realmente chamou o Emerson Sheik de alguma coisa. O fato central foi o tratamento dado pela imprensa especializada, pela imprensa não-especializada e pela sociedade de maneira geral. O que tivemos foi um jogador de futebol acusando, publicamente, um outro de ato de homofobia. “Mas como pode ser homofóbico se o Sheik diz que não é gay?”, perguntaria um incauto. Insultos como este não afetam apenas a vítima direta; eles reafirmam um paradigma cultural. É por isto que, sem medo de acabar preso em uma hipérbole argumentativa, é possível afirmar que o “viado” dito por um infantojuvenil ou por Lúcio, o jogador do Palmeiras, é o combustível para que neonazis saiam para a rua a arrebentar a cabeça de homossexuais contra o asfalto.

Eu assistia a transmissão de outro jogo através do pacote pago do PFC e soube do fato, com comentários nada aprazíveis da equipe que cobria Sport x Grêmio. Infelizmente, não me recordo do nome de todos, só lembro que fazia parte o ex-jogador Belleti. Um deles, o comentarista da partida, disse que Emerson Sheik “acha que pode falar tudo o que quer” e Belleti, conhecido por ter um dos melhores empresários da história do futebol moderno, aplicou um “tem que pensar no espetáculo antes de falar estas coisas”.

Suponhamos que Lúcio tivesse chamado Emerson de “macaco”. Você acha que a reação teria sido a mesma? Será que os comentaristas e colunistas especializados cobrariam de Emerson provas, com a veemência que cobraram neste caso? Será que diriam que o Sheik deveria ter “cuidado com o espetáculo” antes de acusar o zagueiro de tal disparate? Veja bem, penso eu que o racismo nos campos merece ainda mais do que fazem. Entretanto, o fato é que estes cruzados morais realmente acreditam que existam preconceitos aceitáveis ou, pelo menos, “menores”. Talvez o preconceito “menor” da homofobia explique os 26 assassinatos por hora motivados por estes crimes de ódio. O “espetáculo” dos comentaristas do PFC não pode ser manchado com o sangue destes mais de 300 homossexuais, número contabilizado que apenas risca uma superfície de casos no Brasil, o campeão mundial de crimes desta natureza, mais até do que países que possuem em seu código legal dispositivos para aplicação de pena sumária para homossexuais. Varre-se para baixo do tapete e Belleti pode ir dormir tranquilo, julgando que o espetáculo que assistiu ficou incólume ao ataque dos “gayzistas” e essa “marcha para transformar o Brasil em um País de viados”.

Emerson Sheik foi chamado de gay por ter tirado uma foto dando um selinho em um amigo. 300 pessoas por ano não são apenas chamadas de gays; elas são brutalmente espancadas e assassinadas no meio da rua ou, mesmo, dentro de suas casas, pelo epíteto que Lúcio e a imprensa esportiva acharam “natural” e “coisa pequena”. Chamar alguém de macaco não implica apenas uma conotação depreciativa; são séculos e séculos de violência, brutalidade e opressão carregados na estrutura semântica da palavra. O “viado” também. Mas, parece, esta causa ainda terá de carregar umas boas centenas de milhares de cadáveres para que os comentaristas do PFC a julguem mais importante que o “espetáculo”.

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