A ninfômana, o crítico e a hipocrisia

Imagem

 

Este texto possui spoilers e é recomendada a leitura  apenas para quem já viu ambos os volumes de Ninfomaníaca

Existe uma brincadeira recorrente entre meus amigos que dá conta de que, se um dia um filme de Lars Von Trier for recebido com aclames universais, o planeta Melancholia já estará em um curso irremediável de colisão com a Terra. Naturalmente, seu último trabalho, Ninfomaníaca, despertou críticas iradas de babões raivosos que pouco tiveram tempo para captar a riqueza psicológica da obra pois se apegaram nos detalhes mais ínfimos para redigir críticas imponderáveis. Mesmo quem elogiou, o fez com ressalvas, sobretudo ligadas à “pornografia” e ao potencial choque que assistir um pênis badalando na tela da tevê pode causar a um adulto.

Entretanto, me chamou a atenção a dificuldade de críticos profissionais de cinema em compreender o final do segundo volume de Ninfomaníaca. Várias das críticas que li falam que o desfecho fere o conteúdo da obra e parece “arbitrário”, nas palavras de Pablo Villaça. Curiosamente, todas as críticas que continham uma interpretação confusa ou nula do epílogo da história de Joe conservavam apenas uma leitura feminista da obra. Von Trier é um auteur hábil; como em todas as grandes obras, seu filme suscita diversos debates e pontos de vista. Enquanto Villaça apenas o olhou como uma “tese contra a misoginia”, Vladimir Safatle traz uma leitura moral da obra e Luiz Felipe Pondé – que se difere de ambos por ser um filósofo conservador – lê sob uma ótica psicanalítica e encontra uma crítica à discursos políticos pós-modernos como a revolução sexual. De todos estes ângulos, Ninfomaníaca oferece munição necessária para tais digressões.

Entretanto, quando o sujeito considera que Von Trier está apenas a fazer mea culpa (ou “mea maxima vulva“) com as acusações de misoginia em outros trabalhos seus – frutos de leituras preguiçosas dos outros dois filmes que compõem a corretamente intitulada “Trilogia da Depressão” -, perde-se muito e, naturalmente, uma análise profunda está descartada.

O infame fim de Ninfomaníaca Vol. II foca, justamente, em um dos temas que escaparam à críticos como Villaça: a hipocrisia. Joe apresenta diversos exemplos, em sua narrativa, acerca de um tratamento hipócrita dado à ela por seus pares, pretensamente sãos e moralmente “em dia” com suas obrigações de serem higiênicos aos olhos dos outros. No começo do primeiro volume, uma de suas melhores amigas e co-criadora de um clube estritamente feminino feito para celebrar o sexo livre, desiste de todas as pretensões revolucionárias pois se apaixona por um garoto. Avançando para o capítulo II, outra cena emblemática é quando Joe deixa o bebê em casa, só, para visitar um sadomasoquista “profissional”. Jérome, seu marido, ameaça, na noite de natal que, se Joe sair novamente de casa para procurar sexo na rua, ela não verá mais ele nem seu filho. Ela sai e Jérome vai embora, para aparecer novamente apenas na conclusão desta segunda parte.

Dois pontos importantes podem ser levantados com esta cena capital, negligenciada pelas críticas que só se preocuparam em tornar a obra uma diatribe feminista: a) o marido captura o bebê que está quase a cair da sacada do apartamento dias antes de isto acontecer, enquanto estava só, abandonado pela mãe. Porém ele só ameaça de ir embora quando confrontado com a realidade de que Joe sairá de casa na noite de natal para ter sexo com outro homem; b) Jérome leva a criança embora e o confidente de Joe, Seligman, interrompe a história para lhe perguntar o que aconteceu com o filho, ao que pronto ela acusa o marido de enorme hipocrisia ao tirar a criança dela por abandono do lar mas, tempos depois, entregá-la a um orfanato pois criar um filho por conta própria iria atrapalhar sua vida profissional. Tente criar uma enquete mental para imaginar quem, na opinião pública, seria maior merecedor da pena capital: o homem solteiro que não vai criar o filho porque quer ter um futuro viável ou a mulher que expõem a criança à situações de risco, em busca de prazer sexual? Eu consigo imaginar até os argumentos…

O elemento da hipocrisia tem seu ápice na obra justamente no desfecho. Seligman declara-se, no início do volume II, virgem e assexuado. Ele interrompe Joe o tempo inteiro para atrelar significados científicos, metafísicos e psicológicos à narrativa da personagem, emanando discursos modernos e progressista para confrontar a afirmação de que Joe seria, apenas, uma pessoa má. Entretanto, após a longa história, Joe tem uma epifania, dizendo que irá consumir todo seu esforço para tornar-se, como Seligman, assexuada. Ela diz que, enfim, encontrou um amigo em sua vida, um homem que enxergava além do instinto sexual. Entretanto, dentre a miríade de cenas explícitas, o momento mais perturbador do filme se segue quando o homem tenta estuprar Joe enquanto ela dorme. Ela acorda com ele tentando penetrá-la e o rejeita. “Mas você já fodeu com mais de mil homens, por que não a mim?”, indaga Seligman. A tela fica negra e escutamos o barulho de um tiro, desferido por uma pistola que Joe utiliza, sem sucesso, anteriormente em sua história.

Talvez esta linha de diálogo seja uma das frases mais reveladoras sobre a temática de um filme, já escrita para o cinema. A traição é tão brutal que Joe pôde apenas responder àquilo terminando com a vida de seu interlocutor. De todas as situações apresentadas, esta foi a que mais me perturbou. Em primeiro plano, fica clara a mensagem: Von Trier, misantropo e niilista, mostra para Joe que não exista tal coisa como um “amigo” para alguém como ela. Quando Joe conta que, em seu emprego de “coletora de dívidas” para um grupo criminoso, ela fez um homem chorar ao fazê-lo se excitar com um cenário de pedofilia, libertando um ensejo extremamente reprimido, que nem ele mesmo tinha dimensão da existência, o semblante de Seligman muda. Quando pergunta à Joe o por quê dela fazer sexo oral no homem após confissão tão monstruosa, ela responde que sentiu empatia nele por descobrir que vivia com o martírio de uma sexualidade proibida e que ele era fadado à solidão, assim como ela. Talvez neste momento os desejos do próprio confidente tenham sido libertados por Joe. Para dar lugar à esta natureza tácita, ele trai tudo o que falou durante as quase quatro horas de enredo e, subsequentemente, morre por ser hipócrita.

É claro que a leitura feminista é predominante também nesta cena: em nenhum outro momento do longa Joe é subjugada pelos homens com quem se envolve. Ela sempre procura, mesmo as situação mais perigosas e aberrantes. O único momento em que diz não é quando um homem tenta subjugá-la, lhe conferindo a estética de uma espécie de anti-heroína feminista. É claro que o vício de Joe de forma alguma configura uma experiência positiva. O que Von Trier parece dizer é que existem pessoas que não podem ser o que ela são pois nunca serão aceitas desta maneira e, caso optem por esta liberdade, só causarão dor a si mesmas e deixarão um rastro de destruição para trás. Não há uma mensagem conservadora aqui, apenas a constatação de que o preço da total liberdade é tão alto que sua única herança é a marginalidade.

O pedófilo inconsciente que Joe desperta é, de fato, uma pessoa em sofrimento. Ele vive uma vida tendo de reprimir brutalmente um desejo ardente e devastador pois, caso perca esta batalha diária, ele o levará a ruína e vitimará outras pessoas no processo. Assim como Joe que desfaz casamentos, brinca com os sentimentos de homens e mulheres e, até mesmo, comete crimes em nome da plena liberdade para ser uma ninfomaníaca que resiste e vê no amor uma prisão. Não seria sua liberdade uma prisão também?

Ninfomaníaca talvez seja o melhor longa de Von Trier. É, ao lado de Dogville, o que mais suscita discussões. Sem dúvidas, é o trabalho de uma vida e apenas um diretor como o dinamarquês poderia, em nosso tempo, engendrar obra tão incômoda e necessária. Trier vai de Sade à Wagner, de conceitos de pescaria à polifonia, do cristianismo ao paganismo. Entretanto, sua erudição passa longe de ser a verve de suas obras. Em Anticristo, ele ridiculariza o personagem cético e racional que se vê perdido dentre uma dimensão mística e caótica da natureza. Em Melancolia, o homem da ciência comete suicídio frente ao fim da existência, que ele passa negando a partir de cálculos que não conseguem capturar o incomensurável. Em Ninfomaníaca, o seu homo sapiens é uma ilusão que dá lugar ao demens, incontrolável e primitivo, ao fim da epopeia sobre a vida de Joe, uma viciada em sexo.

Infelizmente, teremos de esperar para assistir as versões de três horas, como foram originalmente concebidas pelo diretor. Se alguns plots soam um tanto mau desenvolvidos, é possível concluir que a culpa não é de Trier que, à época, causou espanto ao, jocosamente, anunciar que faria um filme pornô de seis horas de duração. Entretanto, com o que temos, é possível concluir que Ninfomaníaca é a nossa vanguarda artística. Que Pablo Villaça e outros – incluindo a mim – me perdoem mas tentar sintetizar obra tão rica em um review de blog é recorrer ao pecado da vaidade.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s