O fim da civilização

Um pequeno intervalo para tratar de um assunto sério, sobre o assombroso caso do linchamento em São Paulo.

 

O meu maior problema foi ouvir algum as pessoas dizendo: “que horror, ela nem tinha feito nada do que era acusada, foi um engano”. E se tivesse? Digamos que ela tivesse sequestrado dezenas de crianças e as entregue para a execução em rituais de magia negra. O fato de um bando de pessoas se reunirem e marcarem por antecedência um linchamento público, com nuances de “programa para fim de tarde”, as faria exatamente iguais ao objeto do linchamento. Aliás, talvez as fizesse piores afinal, enquanto a criminosa teria suas motivações escusas para fazer o que fazia (dinheiro, participação nos rituais), estas pessoas estavam invocando a “justiça” enquanto brutalizavam um ser humano. Todos sabemos o quanto o dinheiro é sujo de sangue todos os anos, contando os inúmeros crimes que são cometidos em seu nome. A natureza de um ritual de magia negra é ligada ao desejo mundano por posses, violência e sexo. Entretanto, o ente abstrato da justiça não deveria ser invocado como justificativa para a violência.

Os poucos assassinos que foram capturados pela polícia se mostravam altivos na tela da televisão, invocando sua condição de “pais de família”. Nada de rostos cobertos ou aquele semblante de miséria emocional. Talvez eles estejam um pouco consternados pelo fato de terem assassinado uma inocente. Mas não se incomodam nem um pouco com o conceito do linchamento. Não se sentem culpados por deixarem os filhos em casa para irem espancar uma mulher em um local público. Talvez até devem ter levado algum dos filhos e, enquanto assistiam complacentes uma vida ser aniquilada pela fúria cega de uma turba, diziam às crianças: “é isto que as pessoas do mal merecem por fazer maldades”.

Toda uma civilização morre a cada vez que estes episódios tomam forma. Quem já não viu algum daqueles vídeos gravados em pequenas cidades nordestinas onde, por alguma acusação, alguém é brutalmente espancado e morto a tiros. Em um deles, é possível ver crianças brincando de corrida enquanto um corpo ensanguentado se retorce no chão, pedindo clemência. Que tipos de seres humanos teremos no futuro?

Em um linchamento, o comportamento de grupo toma sua forma mais primal. Os que batem nem lembram ao certo o motivo pela violência. Em seus olhos, queimam frustrações e, em lugar da razão, um movimento brusco de ódio os reserva comportamento mais selvagem que o mais selvagem dos animais. É a consumação de uma cultura de ódio, ora produto da perversidade, ora em nome da “justiça”. O que aconteceu em São Paulo empurra nosso estado civilizatório para um estado embrionário. E cada vez que alguém pensa que seria atenuante caso ela fosse a pessoa que eles realmente estavam procurando, o embrião é desfeito em um aborto espontâneo.

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