O retorno do vinil é a panacéia desesperada contra o fim do álbum na música

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Eu costumo frequentar um fórum chamado “Steve Hoffman”. O moçoilo que dá nome ao “ambiente virtual” é engenheiro de som e trabalha com selos e grandes gravadoras que se dedicam ao material audiófilo, isto é, à masterização de mídias que contenham material destinado para quem possui aparelhagens de som que podem pagar um ano de aluguel em algum apartamento de luxo em Copacabana.

O mote do fórum é, obviamente, tratar destas fontes de áudio de alta qualidade. Porém, há uma página dedicada à conversa sobre música e novos lançamentos, único ponto da página que eu frequento. Por lá, existem diversas discussões extremamente bobas mas muito divertidas para quem tem, assim como eu, a vida fácil; “Será que o CD fará um retorno?”, “Em que ponto uma banda se torna diferente (uma nova banda)?”, “Álbuns que você mais demorou para entender”, dentre outras inutilidades. É um bom passatempo, admito.

Entretanto, uma das discussões mais ferozes (e bobas) é a eterna batalha virtual, travada entre os defensores do vinil e os defensores do CD. O primeiro alega que o vinil é uma mídia física muito superior porque tem um um “calor” que o CD não pode reproduzir. O outro devolve com acusações dando conta de que o CD não tem o infame “surface noise”, possui um espectro maior de frequências e, de forma geral, pode reproduzir a master cortada em estúdio de uma forma mais fiel do que o vinil.

Vou dar meus two cents mas já aviso que passo longe de entender o bê-á-bá técnico que motiva tantas brigas nos idos do fórum do Steve Hoffman. Eu sou, hoje, um “vinyl person”. Abandonei os CDs há anos e troquei, na época, pelo mp3. Um dos argumentos em defesa dos discos ópticos é que eles são mais resistentes e muito mais práticos. Pois bem, o mp3 nem forma física tem, sempre vai soar da mesma maneira (mesmo em 1000 anos) e não pode arranhar ou quebrar. O problema é: se você escuta uma música que não possui grande refinamento em termos técnicos, no sentido de produção, um mp3 320kbps pode ser suficiente; se você escuta tudo que é oposto à isto, o mp3 é uma aberração.

Existem formatos digitais de alta qualidade como o FLAC e diversos outros, considerados lossless (sem perdas e compressão digital). Eles não são retirados da própria master mas são cópias idênticas ao conteúdo de CDs e, até mesmo, LPs. Portanto, o problema da falta de qualidade é eliminado e você poder ter uma versão virtual do conteúdo das mídias físicas. Mas por que existem pessoas que ainda insistem com estas mídias? Existem alguns fatores que fogem à discussão técnica. Eu cresci na era dos CDs, apesar de ter tido contato com o vinil e com fitas cassetes. Música, para mim, tinha sim forma física e não era só o disco em si; era o encarte, a embalagem de plástico, a figura que vinha embaixo da bandeja que segurava o disco. Era, de fato, além apenas dos samples gravados no CD.

A verdadeira coqueluche era comprar um álbum que viesse com aquelas embalagens digipak, muitos deles imitando as edições originais dos LPs. Hoje isto é muito comum mas, na época, era um luxo digno de uma vez ao ano. Pagava-se muito mais por uma embalagem de papelão, com acabamento fosco e belas imagens impressas. Nós sabíamos disto mas não importava; enquanto o disco rodava no aparelho de som, os olhos não desgrudavam do encarte.

De fato, era um período meio que pré-internet, onde a informação ainda era muito mais escassa. Logo que os CDs surgiram, as embalagens eram extremamente simples. Talvez você possua em sua estante uma cópia de 1994 de algum álbum onde o livreto, na parte interna, é todo em branco e a bandeja que segura o disco é preta, com o próprio disco sem nenhum rótulo ou arte impressa em sua superfície. É que, na aurora da era dos CDs, a ideia era que o disco em si bastaria, já que o objetivo do marketing era demonstrar que o vinil era uma coisa paleolítica e o CD era o máximo de qualidade possível que uma mídia física poderia oferecer. Em suma; isto bastava e nada mais era necessário, nem arte, nem livreto, nem nada. O problema é que isto subvertia frontalmente o próprio conceito do álbum, lapidado com enorme cuidado por artistas e, mesmo, pelas gravadoras no fim da década de 60 e 70.

Talvez as capas duplas, os livretos e algumas embalagens elaboradas, em formatos diferentes ou com materiais imitando couro e pelúcia, fossem gimmicks para driblar o fato de que você estava pagando por um enorme disco que arranhava com grande facilidade e que exigia limpeza quase que semanal. Porém, isto acabou fazendo parte da mística do álbum e se tornou fator indispensável. A indústria do CD teve de fazer concessões quando percebeu que, mesmo que tivessem a própria master tape do álbum que amavam, os fãs ainda assim sentiriam falta da arte e do rebuscamento na entrega do produto. Assim, lentamente, as embalagens começaram a imitar as dos LPs.

Quando a indústria chegou em um ponto de decadência total, praticamente todos os CDs vinham com uma embalagem digipak ou, no jargão da indústria, “mini-LP”. Vá em uma loja agora e conte quantos lançamentos saíram com a famigerada embalagem de plástico que era o padrão do passado. Ou seja, o CD, ora altivo e reclamante do fim da era analógica, teve de se humilhar ao ponto de ser chamado de “mini-LP”.

Então, um fenômeno nem tão inesperado aconteceu: de repente, LPs de verdade começaram a aparecer nas vitrines das lojas de música. Reedições audiófilas com réplicas exatas das edições originais tomaram conta da internet. Até mesmo os sebos se avivaram e discos que vendiam por R$1,00 passaram a valer R$100,00 por valor histórico. É claro que a venda de CDs ainda é muito maior mas, de fato, o retorno do vinil quer dizer alguma coisa. Eu creio que, dentre várias explicações, as pessoas comungam comigo em um ponto: nós crescemos com a ideia de que música ia além do som em si. A imagem sempre foi elemento primordial do rock’n’roll e as exuberantes artes e embalagens faziam parte desta configuração. O que importa em um livro é o conteúdo. Porém, qualquer editora sabe que, se tiver algo bom em mãos, irá valorizá-lo com uma bela capa dura e arte serigrafada em um tecido que a reveste; se tiver um material ruim, aí mesmo que todo custo para rebuscar o invólucro é pouco.

Nós adoramos a ideia de ter aquele disco preferido altivo na estante, em uma bela embalagem. É um bizarro dispositivo psicológico mas funciona. Entretanto, não é só embalagem não. Como a necessidade é a mãe da invenção, os artistas passaram a utilizar a própria limitação física do vinil como dispositivo criativo. Quando compunham as músicas, já fazia parte da dimensão do álbum a ideia do lado A e do lado B. Muitos artistas gostavam de encerrar cada lado com uma canção bombástica. Outros, acreditavam que a primeira música a tocar cada vez que agulha entrasse em fricção com a superfície do disco deveria ser grandiosa e convidativa. Uns dividiam os lados do disco por cores; outros, pelo tipo de sentimento que as canções invocavam; o lado triste, o lado leve, o lado dos instrumentais. Alguns até dedicavam um lado apenas para uma enorme canção.

O CD e a comodidade dos 74 minutos de duração acabaram com esta mística. A última canção do lado A, as vezes, mal estava na metade do disco. Até mesmo a limitação de tempo dos discos era determinante; muitos artistas optavam por canções menores para poder rechear os dois lados. Outros lançavam um disco com duas ou três músicas apenas. O CD, por exemplo, permitiria que o Yes lançasse um Close To The Edge com três canções de 20 minutos, caso desejasse. Se as três são épicas, nenhuma vai ter grande impacto. Os maravilhosos álbuns duplos também sofreram; poucos seguiram duplos na era do CD. Inicialmente, a ideia de compactar tudo em um único CD era revolucionária. Porém, com o tempo, percebeu-se que os álbuns se beneficiavam de vir em dois discos, tanto no que tangia à qualidade do que seria reproduzido quanto a própria grandiloquência que acompanhava o conceito de um álbum duplo.

O que aconteceu foi que o consumidor de música notou que, passado o frisson inicial, a grande portabilidade e praticidade do CD começaram a mudar radicalmente o perfil do ouvinte. O formato do álbum cada vez mais foi perdendo força. O resultado se voltou contra o próprio CD; a música passou a ser vendida, virtualmente, faixa por faixa, sem exigir do consumidor o aprofundamento na obra que estava sendo lançada. Assim, os singles realmente tomaram a dianteira de vez e o resto do disco era “filler”, para encher linguiça.

Alguns consumidores e, mesmo, artistas passaram a se revoltar contra isto. E a reação extrema deu sobrevida ao vinil, aquele fóssil paleolítico. É possível embasar o retorno dos LPs em uma espécie de manifesto sem manifesto; nós queremos preservar o conceito do álbum. É claro que vai além disto mas, pessoalmente, esta é a nuance que mais condiz com o meu retorno ao vinil. É bom tomar uma hora do dia e sentar na frente das caixas, com o disco rolando de cabo a rabo, sem pular faixa. É uma catarse que obriga o ouvinte a prestar atenção apenas na música. Não é no ônibus, no metrô, no computador enquanto se comunica na internet; não é segundo plano, é o que motiva a tirar um tempo apenas para ouvir música.

Um CD pode oferecer isto também. Porém, o vinil é um símbolo mais pomposo deste gostoso reacionarismo de tratar música como algo tão importante que vai lhe fazer cancelar algum compromisso ou não atender uma ligação. É uma resistência pequena mas apaixonada. Este desejo conseguiu tirar os discos de vinil do túmulo empoeirado, que representavam as estantes carcomidas dos sebos. Não sei se isto vai durar mas, como último suspiro de vida, é bom ainda ter gente interessada em ouvir música. E é com este texto grande demais que eu dou minha resposta ao fórum do Steve Hoffman: eu gosto de vinil porque vinil é a forma física mais tátil de música que existe.

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