Por que não existem mais Jim Morrisons?

Você imagina este homem sentado em um computador, divulgando suas músicas no Facebook e Twitter?

Você imagina este homem sentado em um computador, divulgando suas músicas no Facebook e Twitter?

Uma das tradições do rock’n roll é atacar “the man”; nossos inimigos são os engravatados, ricos e reacionários. Incontáveis músicos, pertencentes aos catálogos das grandes gravadoras, nos contavam em suas letras que o gorducho megaempresário que cheirava cocaína em uma mesa de ouro 20 quilates, talhada na Índia à mão de obra escrava, era “the man” e era ele que precisava da guilhotina antes que a arte virasse especulação empresarial.

Só que a arte, naquele ponto, já era um banco imobiliário. Aliás, a arte não; a indústria do entretenimento. Artistas não tiveram chance nunca, a não ser quando alguma alma caridosa definia que Ingmar Bergman garantiria o orçamento de seu novo cânone do cinema mundial das mãos de um fundo de investimento do governo sueco. Nos Estados Unidos, todos aqueles que você tinha como campeões da nova moral secular e progressista, estavam cheirando pó colombiano em suas mesas de ouro 20 quilates, ornadas com pictografias egípcias.

Só que, naqueles tempos, quando algum mulambo de Canterbury ou do sul dos EUA surgia na porta da gravadora com uma guitarra na mão, “the man” lhe dava dinheiro e tempo: “vá lá fazer o que você sabe e eu esperarei até que isto pague minha nova jacuzzi”. Assim, artistas podiam explodir mundialmente depois de seis ou sete discos. É bom sempre lembrar que “The Dark Side of The Moon” foi o sétimo disco do Pink Floyd. E antes disto, eles lançaram uns discos esquisitos com vacas na capa e uma orelha gigante.

Não são poucos os discos de estreia de bandas que empilhariam hits no futuro, que não conseguiram emplacar um único sucesso. De acordo com Andy Karp, um dos grandes executivos que lideram a Warner Music, a grande maioria das bandas clássicas, como The Doors, teriam enorme dificuldade de conseguir um contrato para lançar seus discos pois seus primeiros albuns não conseguiram emplacar nas paradas.

O que Karp quer dizer é simples: hoje em dia, se você não tiver de cara um disco que faça muito sucesso, você está fora do negócio e vai ter de viver trabalhando em um posto de gasolina ou colocando suas músicas extremamente mal produzidas em um site na internet para que alguém escute, torça o nariz para a qualidade e esqueça do seu trabalho em 10 segundos.

Você imagina Disraeli Gears fazendo sucesso hoje? Quem sabe Days of Future Passed? Talvez Blonde on Blonde? Estes são alguns dos discos mais famosos de algumas das bandas e artistas mais famosos das década de 60. Se nem eles teriam chance de estourar, imagine só bandas como Love, Arthur Brown e Velvet Underground!

Por falar nos Velvet, o “disquinho da banana” passou longe de ser um sucesso. Hoje é fácil dizer que ele revolucionou a música americana e incluí-lo para ser preservado na biblioteca do Congresso mas, naqueles tempos, Velvet Underground & Nico tinha dificuldades até para achar um lugar para ser vendido, já que foi banido por diversas redes de lojas. Foi defenestrado em quase todas as estações comerciais de rádio pelo seu conteúdo controverso. Chegou a ser retirado das poucas lojas que o vendiam, ainda em 1967, devido a um processo jurídico ocasionado pela arte da capa. O que aconteceu? No ano seguinte, a banda lançava outro disco pela mesma gravadora, com um conteúdo ainda mais demente, ainda mais sombrio, ainda mais barulhento e, as vezes, inaudível.

Em 2014, quase 50 anos depois, censuramos palavrões em vídeos promocionais no terreno neutro da internet, a maior difusora da história da humanidade de pornografia. Como uma gravadora moderna aceitaria uma banda que dedica boa parte das suas letras à travestis junkies e orgias homossexuais com marinheiros, mesmo em tempos ditos mais “liberais”?

O negócio da música vale, também, para artistas independentes. O processo de marketing se faz tão necessário quanto para um artista contratado por uma grande gravadora. Só que o seu marketing é colocar uma música no Myspace e mandar o link para seus amigos no Facebook, implorando para que repassem para outras pessoas. O marketing das gravadoras consistem em colocar um billboard enorme na Quinta Avenida e dar dinheiro para que o indivíduo compre todas as rádios para transmitirem sua música nos horários nobres.

Lembra daqueles artistas mágicos dos anos 60? Parte da mística deles consistia em viverem de música e drogas, basicamente. Agora, se Jim Morrison, o deus lagarto, surgisse em 2014, ele teria de se preocupar em passar horas na frente de um computador vendendo seu peixe em redes sociais e pagando por banners em sites de música. Bom, ele estaria morto ou jogado em um beco após uma bebedeira antes de fazê-lo. Essa polivalência, que pede ao músico independente que seja empresário, marqueteiro, contador e porta-voz comercial (se sobrar um tempo, tem aquele papo de “drogas, sexo e rock’n roll”), é a ruína da independência.

Não pagar mais por música, uma propriedade intelectual, não é um ataque contra Beyoncé, Chris Brown, Kanye West ou Luan Santanna. É, na verdade, a iminência de impedir que surja um novo Dylan, um novo Morrison, um novo Zappa. Artistas como eles não podem estar sujeitos ao espectro comercial parada-da-billboard para existirem e lançarem seus discos. Mas a sua música requer mais do que um microfone de computador e uma garagem forrada com caixas de ovo. O mp3 gratuito forçou a indústria a acelerar ainda mais a exigência do sucesso e pagar ainda mais por discos e turnês. Como no cinema, onde produtores chegam a encomendar pesquisas de opinião para saber como as audiências querem que sejam os roteiros dos filmes que estão produzindo, não existe mais a relação de “erro/acerto” para as gravadoras. Se errar uma vez, é o suficiente para entrar em uma lista negra e nunca mais sair. Ninguém vai pagar milhões de dólares para um bando de cabeludos, que lançaram vários discos esquisitos, com músicas de 20 minutos de duração, entrarem no estúdio e saírem de lá com “The Dark Side of The Moon”. Nem tudo funciona sendo feito nas coxas, com som de garagem.

Nessa brincadeira, já perdemos muita coisa. Como sempre, o capitalismo se reinventa e se adapta, mais insidioso ainda. Só que, agora, temos que aturar que uma virgenzinha cheia de sardinhas na cara seja chamada de “rainha do Country” e que um bando de moleques mimados e engomadinhos virem a nova salvação do rock’n roll.

Realmente, a indústria precisava de um basta e ele foi dado. O preço dos cds estava completamente fora da realidade, sobretudo no mercado brasileiro. Hoje as bacias entulham discos originais por R$10,00. Conseguíamos o que queríamos! Agora é hora de voltar a lembrar que música não é bem universalizado. O magnata gordo seguirá em sua limusine. Só o seu novo Bob Dylan que vai ter de ir trabalhar de frentista e vender seu violão para pagar a conta do telefone.

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