Flea, Mc Guimê e a nossa vergonha da nação dos pretos, pobres e favelados

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O baixista Flea, do Red Hot Chili Peppers, colocou um vídeo no Youtube onde “tocava” uma “canção” de um funkeiro (de mentirinha) brasileiro. No bizarríssimo e breve vídeo, ele faz um solo de baixo (com o mesmo desplugado, dando margem ao retorno das piadinhas dos instrumentos desligados do Super Bowl) enquanto, ao fundo, se escuta a batida de Guimê.

Tremei, internet! Hordas e coléricas falanges virtuais decidiram atacar o incauto e simpático baixista, fundador de uma das melhores bandas americanas de rock de todos os tempos (e isso só pelo Blood Sugar Sex Magik!). Não podiam acreditar que seu ídolo estava a celebrar tamanha mediocridade. O brasileiro tem lá seus preconceitos contra a cultura “povão”. Não há dúvidas que, hoje, no estado atual das coisas, a música que representa a classe pobre brasileira é o funk carioca.

O nosso funk divide uma similaridade com o funk americano: o tema central é sexo. Sexo, sexo, sexo! Vá ouvir um disco do Funkadelic; é como ouvir uma orgia gravada em um rolo de fita! Não há comparações enquanto música mas, ambos os estilos eram marginais no início. Parte do  funk carioca passou por uma “limpeza étnica” nestes últimos tempos. Nunca ouvi MC Guimê, não sei se faz parte deste movimento comercial de  “branquificação” do funk mas, sei que existem grupelhos aos montes para ganhar selo de “liberado para a família brasileira” das mãos da Regina Cazé.

Entretanto, o funk que segue brotando do seio da marginalidade e pobreza é, sem dúvidas, um grito de resistência. São  homens e mulheres paridos em uma experiência primal, tendo de lidar com uma realidade agressiva e hostil. Muitas vezes, crescem em lares disfuncionais, com pais ausentes e sofrem diversos abusos na infância e adolescência. São marginalizados por sua cor ou pelo barraco onde moram. Este é o mesmo DNA que compunha a fúria ensandecida de jovens que quebravam cinemas ao ouvir a selvagem batida de “Rock Around The Clock”. É o sangue que corria nas veias de Ornette Coleman e Charles Mingus, ao estuprar seus saxofones e contrabaixos, dando a luz ao free jazz, que consumiria a chama da vida de John Coltrane no futuro. É a marca da besta impressa no paganismo ritualístico da geração Woodstock. É a melancolia irriquieta e encardida na alma do chorinho, que viria a ter seu ápice posterior nos lamentos de Lupcínio Rodrigues e Noel Rosa.

Todas estas manifestações, de sangue e pele preta, tisnada e cauterizada nos navios negreiros, são produtos da rebeldia, do levante e do calvário. Países dolorosamente marcados pela violência extrema da escravidão e o trauma brutal da guerra encontraram na arte o seu escape. A juventude nunca mais foi a mesma; a obediência conservadora deu lugar à luz no fim do túnel, extinta com a dura chegada dos anos 70. “Não seremos como os nossos pais” foi o epíteto cravado na geração rock’n roll.

No nosso seio tupiniquim, comemos o pão que o diabo amassou com a ditadura militar. Antes dela, descontrole total, político e econômico, no cenário nacional. Uma história de dor e desgraça se abatia na terra do Pau Brasil. Infelizmente, a ditadura venceu e o grito entalado na garganta teve de ser engolido. A geração cultural anterior, burguesa por excelência e mãe da Bossa Nova, não pôde conviver com a brutalidade dos tempos. Os bossa novistas se encantavam pelo samba mas o emasculavam, o despiam, o estripavam de sua principal característica, a acédia, para lhe recompor como um romanticismo parnasiano, vislumbrando uma vida tranquila e boêmia, que estava com os dias contados.

A nova geração se viu acuada, perdida entre o amor pela tertúlia almiscarada da Bossa Nova e a sanha corrosiva do rock’n roll, importado do ventre de todas as rebeliões naquele período. Daí nasceu a Tropicália, um amálgama, um coletivo. Ainda que breve, foi crucial; acabou ali a inocência. Nasceu a música moderna brasileira, apadrinhada por Noel, filha de Tom Jobim mas com uma relação promíscua e selvagem com o “iê iê iê”. Som e fúria deram a luz a “Construção”, aos Mutantes e à Raulzito. Era a geração perdida, censurada e reprimida, ora no Brasil, ora exilada no exterior.

Porém, a ditadura venceu o jogo. Roubou o samba, transformou-o em pastiche e, aos poucos, foi domesticando os rebeldes. Acabaram, quase todos, como “nossos pais”. Os que não o fizeram, morreram (Torquato Neto), enlouqueceram (Arnaldo Baptista) ou foram sumariamente excluídos (Tom Zé, Jards Macalé). A Tropicália era domesticada pelas grandes corporações; virou especial de tarde de domingo na Rede Globo.

Assim, nosso País restou órfão de uma música de protesto. Nos EUA, a frente de batalha era assumida pelo rap. Gradualmente, o rock’n roll se tornou distante, cheio de si, perdido em ilusões de grandeza. Ficou igual aos “nossos pais” e chegou à velhice. Não se importava mais com a tonitruância da juventude, tudo era válido desde que garantisse estabilidade e fonte de renda. Não era mais a alvíssara do novo tempo; parou de rolar e tornou-se a pedra no caminho. Era o fim do sonho.

O rap não ganhou muita força no cenário brasileiro. Estávamos intoxicados com a domesticação. Porém, em meio à fuligem, talhado no fulcro da imundície, flambado na cachaça de todo o dia, nascia o funk carioca. Feio, pervertido e moderno. Nada de homens brancos de terno e gravata; era a voz do povo. Era a celebração do sexo livre, da putaria imaculada, da verve primeva da existência. Era o DNA do Brasil, do povo triste de Paulo Prado, da paixão de Sérgio Buarque de Hollanda. Era o próprio Macunaíma, índio sátiro e ébrio, tão branco de alma quanto quem estuprou sua tribo. Era o espelho que doía de olhar.

A linguagem chula lembrava-nos da nossa essência: somos, assim, um bando de quadrúpedes, como disse Diogo Mainardi, despertando a ira dos babões de gravata. O funk carioca é o que nós não queremos saber de nós mesmos.

Flea não sabe de NADA disto. Ele não entende uma palavra do que MC Guimê fala. Ele gostou de uma batida eletrônica, que é tosca e primitiva, longe das superproduções pop em seu país. Nós entendemos. E nos envergonhamos. De tudo aquilo que o funk realmente diz sobre o nosso povo e a nossa essência. Tentamos desclassifica-lo: “é coisa de pobre, preto e favelado”. Somos uma nação de pobres, pretos e favelados. Como foram os blues man no início do século XX. Como foram Miles Davis, Coltrane, Montgomery (…) em sua juventude. Como eram os jovens de Woodstock. Como são os rolezeiros que não podem coexistir com a ordem sem causar pânico. O funk carioca é o rock’n roll do Brasil.

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