Discos Injustiçados: Their Satanic Majesties Request – Rolling Stones

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“Their Satanic Majesties Request”, sexto disco britânico dos Stones, é o patinho feio dos anos iniciais da banda. Considerado “tosco”, “primitivo”, “derivativo” e “mal produzido”, o disco foi uma resposta dos bad boys ingleses à psicodelia, sobretudo alavancada pelo sucesso dos últimos LPs dos Beatles e novas bandas dos dois lados do Atlântico, como Pink Floyd e Jefferson Airplane.

Lançado em 1967, “Satanic Majesties” é, sem dúvidas, um dos grandes discos do eterno verão de 1967, um dos anos mais prolíficos para o movimento, Timothy Leary e o LSD. Com pérolas pop, baladas dreamy, cítaras tecnicolor e letras proféticas e soturnas, os Stones imprimiam sua marca na cena hippie. Mesmo que o disco seja distante do blues-rock que lançou a banda ao estrelato, as majestades satânicas entenderam o espírito do momento e lançaram um disco memorável. “Beggar’s Banquet”, a obra prima do ano seguinte, é como uma resposta ao próprio predecessor, saindo dos ensolarados campos da Califórnia para retornar à selva de concreto de New York.

“Citadel” é, sobretudo, um rock’n roll pesado, de levada arrastada na bateria. É como se fosse um “anti-psicodelia” lançado ao meio do so called álbum psicodélico dos Rolling Stones. Um grito contra a alienação das cidades, esta canção traz o tema do disco de volta para a realidade, e como manda a cartilha dos Stones, é uma sincera diatribe versando sobre tradição e mudança.“Screaming people fly so fast, in their shiny metal cars, through the woods of steel and glass”.

“In Another Land” é um dos números tipicamente psicodélicos do disco, com os Stones satirizando elementos comuns às bandas inspiradas pela costa oesta americana, sobretudo a sonoridade do cravo, ornando a melodia enquanto Jagger descreve, com alegorias oníricas, um sonho tecnicolor. Porém, não seriam os Stones se o mesmo não invocasse o refrão da música como um abrir de olhos para a realidade cinzenta: “Then I awoke, was this some kind of joke? Much to my surprise, when I opened my eyes”. A geração hippie vivia em negação da realidade; Jagger prenunciava os anos 70 e o despertar para a adultez de uma geração inteira.

“2000 Man” inicia como um folk-rock e acaba posteriormente assumindo a forma de uma típica canção jangle-pop, com a famosa “mersey beat”, de Charlie Watts, embalando os versos proféticos de Jagger. Aliás, o conteúdo lírico desta canção é assustador; “Dont you know I’m a 2,000 man, and my kids, they just don’t understand me at all” e “Well my wife still respects me, I really misused her, I am having an affair with the random computer”. Sempre desconfiados, os Stones falam sobre o futuro da geração flower power, conseguindo encapsular a derrota da contracultura como fenômeno temporal, preso à juventude do fim da década de 60. Jagger é tão avançado que prevê o amor plástico da geração “baby boomer”, décadas depois, através de computadores e dispositivos eletrônicos.

She’s a Rainbow é uma gostosa e ensolarada balada hippie, com um leitmotif de piano fantástico, que mais lembra a melodia de uma caixinha de música. Sua letra etérea não quer dizer muito, apesar de invocar o “amor livre”, diferindo dos oximoros bizarros de John Lennon em canções como “I Am The Walrus”. A letra não tem muita importância pois o que é importa aqui é a fantasia, a representação e o estado de espírito.

“The Lantern” é uma jornada suicida de dois amantes, que não mais podem viver no mundo real. É “A Noite Escura da Alma” dos Stones:“You crossed the sea of night, free from the spell of fright, your cloak it is a spirit shroud”. Com elementos de folk e a presença de cordas, é uma delicada e bela pérola da psicodelia, com conteúdo lúgubre, tratando com temas sobre suicídio e loucura. A “lanterna” é a luz a guiar o barqueiro Caronte pelos rios da morte de Hades.

“Gomper”, como manda a tradição, vai à Índia, com tablas e a cítara de Brian Jones. Ao seu fim, os Stones embarcam em uma jornada misteriosa, com cordas cacofônicas e a guitarra de Keith Richards em um drone frenético. “2000 Light Years From Home” é uma base blues-rock , que poderia ser tramada por Syd Barret, que ganha distinção pela presença do mellotron, símbolo do movimento psicodélico, tocado por Jones. É uma viagem pelas estrelas, descrevendo paisagens sci-fi, vindas direto das páginas das famosas ficções pulp que vendiam aos montes naquele tempo e tiveram seu auge na década de 50.

“On With The Show” é um número tirado direto de “The Magical Mistery Tour”. Jagger canta através de um megafone, enquanto colagens de sons interpolam o áudio. Watts retorna a uma levada “mersey”, enquanto Jagger descreve um bar noturno burlesco. Em determinados momentos, a canção embarca em um calypso e, em outros, o piano de Nicky Hopkins traz elementos de big band jazz. Um modo esquisito de terminar um disco psicodélico, como manda o figurino da própria psicodelia.

Uma das maiores fonte de críticas do disco está nas chamadas “jams”, como a canção que abre o disco e a que fecha o lado A. Longos instrumentais cacofônicos, com sons de estática de rádio e colagens. Entretanto, a psicodelia também não era sobre avant-garde? Os Beatles explorariam instrumentais cheios de experimentos de estúdio em boa parte dos discos de sua melhor fase, tendo seu ápice em “Revolution 9”, em um dos álbuns mais celebrados dos fab four. Talvez estas duas canções soem toscas, sob um ponto de vista técnico, mas, então, precisaríamos considerar este primitivismo como verve central do próprio movimento que levou os Stones a conceber tal disco.

A maturação da banda não inicia em “Beggar’s Banquet”; aqui, em “Satanic Majesties”, os Rolling Stones embarcam para San Francisco. Porém, Jagger e seus comparsas eram aqueles sujeitos que, dentre risadinhas irônicas, ficavam observando o amor livre com olhos cínicos, motivados pelo desejo de participar mas sempre evitando de acreditar que aquilo fosse mais do que diversão. Este disco é sobre sexo, drogas e rock’n roll. Ele não quer mudar o mundo; só quer que você tome ácido e o ponha para girar na vitrola!

4 comentários

  1. Muito
    Muito boa sua crítica! eu tive um certo preconceito a primeira vez que ouvi o album , de tanto que falavam mal dele, hoje acho que é um dos melhores dentre todos aqueles de 67, o mesmo se aplica a between the buttons!.

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