Discos Injustiçados: Os Cinco Clássicos Esquecidos do Pink Floyd

Pink Floyd é sinônimo de sucesso. Parte integral do panteão dos grandes do tal “classic rock” (denominação horrível, por sinal), a banda inglesa transitou pela psicodelia até amadurecer e lançar discos multiplatinados durante a década de 70. De um grupo revolucionário até o posto de trademark comercial, o Pink Floyd sofreu diversas metamorfoses na música que produzia, em sua formação e nos conceitos que abordava.
Porém, nesta longa estrada, que levou a banda até uma gigantesca turnê mundial de encerramento, em 1994, diversos momentos acabaram sendo ofuscados, a ponto de o Pink Floyd hoje ser reduzido à três discos, mesmo por fãs. É por ouvir falar tanto em Wish You Were Here, The Dark Side of The Moon e The Wall que decidi revisitar a discografia da banda como um todo. Nesta jornada, redescobri o prazer de ouvir discos como Atom Heart Mother e A Saucerful Of Secrets, nomes que podem soar estranhos a quem só conhece a música do helicóptero mas não deveriam, de jeito nenhum, faltar ao fã dedicado do grupo.

5 – The Division Bell

É difícil considerar um disco como Division Bell, multiplatinado e primeiro lugar da Billboard 200, como injustiçado. Porém, passados 20 anos, o primeiro álbum do Pink Floyd sem Roger Waters (não, eu me recuso a considerar Momentary Lapse of Reason como um álbum d’O Pink Floyd!), acabou por ser deixado de lado nas eternas discussões dos fanboys sobre quais são os discos mais importantes da banda. É muito claro que este é um trabalho com a liderança de Dave Gilmour; suas guitarras guiam o time, formado ainda por Richard Wright, de volta como membro, e Nick Mason, único à época que esteve em todos os registros da banda.

High Hopes é o grande destaque mas, diversas outras músicas demonstram um momento bastante criativo para o guitarrista e seus comparsas, agora livres da influência (ou seria ditadura?) de Roger Waters. Um dos problemas centrais do disquinho anterior era a falta de talento dos três membros remanescentes para escrever letras. Wright era um bom letrista, vide a belíssima e frugal letra da maravilhosa “Summer ‘68”. Porém, sem colaborar com um único êxito na área desde Atom Heart Mother (apesar de seguir um importante compositor na banda), seu dom para elucubrar lamentos versando sobre a finitude das boas coisas da vida e a melancolia da nostalgia, acabou por enferrujar. Gilmour, por sua vez, pouco colaborou com a banda em termos de letras mas, em sua economia, forjou inesquecíveis momentos com Fat Old Sun e Childhood’s End, a última baseada na literatura de Arthur C. Clarke.

Durante a gravação de Momentary – e sabendo da importância dos conceitos para a sua banda, obra de Roger Waters -, Gilmour chamou membros da banda britânica 10CC (aquela da música “I’m Not In Love”, que ganhou cover aqui no Brasil pelas mãos da estonteante two hit wonder Débora Blando) para escrever as letras do disco. Mas isto não evitou vexames do tamanho de “Dogs of War”, em uma tentativa asquerosa de emular os sarcásticos comentários políticos de Waters. Desta maneira, em The Division Bell, sua mulher, Polly Samson, foi a salvação da lavoura; boa parte das letras são dela, em parceria com o marido. Sobretudo, Poles Apart, um amargo comentário endereçado à Waters, foi obra da dupla.

Musicalmente, os pontos altos de TDB estão, também, nos instrumentais. O disco abre com uma atmosférica introdução, “Cluster One”, com sons das crosta terrestre em movimento, fazendo fundo ao piano de Rick Wright e a guitarra de Gilmour. A canção talvez seja um pouco longa de mais mas, é um começo marcante. Marooned, por sua vez, é perfeita. As letras de TDB são bem melhores do que as de AMLOR mas é dito muito mais neste instrumental do que em qualquer outro momento do disco. A guitarra de Gilmour nos transporta para uma ilha deserta, nos deixa com a sensação de estarmos à deriva, perdidos, sem ninguém mas, ainda assim, inebriados. “What Do You Want For Me?” é o momento onde o Pink Floyd 1987 ltd (a “razão social” da banda à época) mais se aproxima dos trabalhos dos anos 70. A parte musical tem algo de “Raise My Rent”, do primeiro disco solo de Gilmour, o que passa longe de ser ruim já que é uma das melhores músicas daquele disco.

“Wearing The Inside Out” marca o retorno de Rick aos vocais. Mais uma letra de “canalha” à vista, Wright dá o tom, inclusive trazendo seu moog de volta para um breve solo, com aquele timbre típico de “Shine On You Crazy Diamond”. Dick Parry ressurge, com seu saxofone dando pinceladas ao longo da música, ao passo de “Us And Them”. A simpática “Take It Back” é, dizem, uma tentativa de emular o U2. Porém , é bom lembrar que aquela rythm guitar com delay, muito utilizada pela banda irlandesa, é influência direta de Gilmour em sua fase The Wall.

Enfim, TDB é um bom álbum, certamente muito superior ao seu predecessor imediato. Entende-se que não seja posto ao lado dos grandes discos dos anos 70 mas, sem dúvidas, é uma prova de que o Pink Floyd 1987 ltd poderia fazer muito melhor. E fez.

4 – A Saucerful Of Secrets

O Pink Floyd perdeu seu fundador e mentor, Syd Barret, para as drogas e para sua provável esquizofrenia. Com um gênio errático, impossível de ser previsto e pouco interessado em seguir fazendo música mainstream, Barret deixava de ir aos shows e, quando ia, passava longos minutos segurando uma única nota, sem balbuciar uma única palavra. Mesmo para a banda que, com facilidade, avançava os 30 minutos em seus instrumentais psicodélicos, era demais. Eles ainda tentaram manter “the piper” na banda, chamando um companheiro das noites em Londres, Dave Gilmour, para tocar guitarra, deixando Barret livre para fazer o que quisesse em cima do palco.

Porém, o líder do grupo não fazia nada e cada vez mais se tornava impossível sua permanência. Ainda fazendo parte do line-up, Barret teve seu segundo disco com o Pink Floyd, em 1968, nominalmente, afinal só aparece em “Jugband Blues”, uma música gravada antes das sessões do novo trabalho. A banda acabou descobrindo que Gilmour era, também, um bom cantor. Por este motivo, ele aparece com sua voz em três das sete canções do disco. “Let There Be More Light”, que abre o albúm, deixa claro que a banda mudou com a entrada do novo membro. Ao invés dos riffs idiossincráticos e semitonais, Gilmour deixa sua stratocaster brilhar, com acordes abertos e criando uma massa sonora, diferente de qualquer uma das músicas de “Piper” ou dos singles com Barret.

A linda “Remember a Day”, munida da típica psicodelia melancólica que diferenciava a banda das demais crias da West Coast americana , dá lugar à “Set The Controls of The Heart of The Sun”, a egípcia extravagancia de Roger Waters. Ao vivo, a canção tomava nova dimensão, com um final que explodia , em crescendo, em uma dissonância a lá “Interstellar Overdrive”, que pode ser vista em “Live At Pompeii”. Outra pérola psicodélica é See Saw. Novamente, a canção marca o estilo de Richard Wright compondo. Ela me lembra um tanto de “Julia Dream”, um b-side do próprio “ASOS”; onírica, melancólica e bela.

Em “A Saucerful of Secrets”, a banda brinca, pela primeira vez, com o conceito de uma longa canção, com movimentos e partes diferentes, representando um conceito. Apesar de primitiva, é, de fato, um marco do período pré-rock progressivo, junto de outras poucas bandas, que se moviam da psicodelia para o prog rock. Esquisita, noisy e com uma apoteose melódica ao fim, a música é uma protótipo para o que banda faria, com muito mais êxito, em “Echoes”.

“ASOS” , o álbum, é injustiçado pois é visto apenas como um disco de uma banda em transição, assim como seu sucessor, “Ummagumma”. Porém, tudo o que falta no álbum de 1969, está presente aqui: canções com belas melodias e bem estruturadas; um experimentalismo song-oriented; a presença de letras evocativas e, de forma geral, uma banda em muito melhor fase. É verdade que “ASOS” é um disco transitório. Porém, é verdade também que é uma progressão natural de “The Piper At The Gates of Dawn”. Enquanto deu para seguir no mundo psicodélico de Syd Barret, a banda amadureceu e criou um disco memorável, longe de ser apenas um trabalho lançado para fazer número.

3 – Atom Heart Mother

Todo o fã “die-hard” de Floyd adora o disco “Animals”, de 1977. É meio que um código; se você é fã “de verdade” da banda, você considera a obra inspirada na literatura de George Orwell como a sua predileta – mesmo que não seja. Creio eu que “Atom Heart Mother”, de 1970, deveria gozar do mesmo status. Este é um disco bem mais difícil de ouvir do que “Animals”; o experimentalismo agressivo e barulhento que nascia com a música “ASOS”, acabou por maturar e se transformar em uma enorme peça que reúne música concreta, elementos de trilhas sonoras, avant-garde, blues-rock e corais no estilo ”micro-polifônico” de Geörgy Ligeti.

Para ajudar na empreitada, a banda trouxe Ron Geesin, músico avant-garde inglês, dono de uma obra esquisitíssima. Suas músicas consistiam em peças com sons de vidro quebrando, risadas, órgãos dissonantes e textos falados. Foi este o mentor da banda em seu disco, popularmente chamado de “disco da vaca”, por sua epónima vaquinha, Mimi, na capa. Porém, prepondera o elemento melódico na peça homônima que toma todo o lado A do vinil original; as esquisitices e colagens de Geesin funcionam com o trabalho de guitarra de Gilmour, mais acentuado do que nunca até aquele momento. Wright brilha também com seu Rhodes e o órgão Hammond. Segundo Roger Waters, a ideia era criar uma “trilha sonora para um filme que não existe”.

Porém, diferente de outros discos do período, onde uma peça longa era a principal atração e as demais músicas eram “fillers” para preencher o lado B, “Atom” segue, diminuindo a experimentação da primeira faixa mas, mantendo o altíssimo nível. “If” é um número delicado de Roger Waters, evocando o folk-rock, muito presente neste lado B. O próprio considera que o “nascimento” do Waters letrista aconteceria em “Echoes”, presente no disco seguinte, “Meddle”. Porém, “If” carrega elementos que se tornariam clássicos, se distanciando das evocações psicodélicas dos discos anteriores e partindo para uma abordagem mais naturalista.

“Summer ‘68” traz Richard Wright em rara inspiração. A música é um hino não oficial da nostalgia, uma ode de Rick aos bons momentos e à amizade, que via sua vida mudando à medida que o Pink Floyd se tornava uma banda maior. Nela, ressurge a orquestra que acompanha a banda na faixa título, em contraste com o naipe de metais, que tocam o tema da canção. Segue o estilo melancólico de Rick, já explorado em canções anteriores como “See Saw” e “Remember A Day”, ainda que onírico e minimalista, com o contraste direto da grandiloquência das cordas e metais. Um clássico absoluto.

“Fat Old Sun” é a contribuição de Gilmour ao “disco da vaca”. Folk, simples, bela e seguindo a linha nostálgica de “Summer ‘68”, esta canção é toda do guitarrista, marcando a segunda vez que escrevia uma letra sozinho, após a terceira parte de “The Narrow Way”, em “Ummagumma”. O guitarrista reviveu sua obra durante a tour do seu último disco solo, “On An Island”, para deleite dos fiéis fãs de “Atom Heart Mother”. Por fim, o disco retorna ao tom psicodélico com “Alan’s Psychdelic Breakfast”. Talvez este seja o único “filler” em “Atom”, uma longa canção, com elementos típicos do infame humor britânico. O trabalho musical é interessante e se notam lampejos do estilo que seria adotado em “Meddle,” nas inserções instrumentais durante a saga de Alan, um roadie da banda, tomando café pela manhã. Apesar de muito longa, é um final adequado para um disco que se gaba de ter uma trilha sonora para um filme que não existe.

“Atom” divide os homens dos meninos; é o Pink Floyd em sua quintessência, no limite máximo entre o saldo da era Barret e a fase “lendária” que daria em “The Dark Side of The Moon”. Sua longa faixa de abertura é uma mostra completa do que a banda podia fazer. Porém, a verve experimental ainda era enorme, algo que se perderia nos discos futuros. O Pink Floyd ainda não havia se decidido se seria uma banda enorme, para lotar estádios de futebol, ou viveria o momento dos anos 70, que permitia que “esquisitices” acabassem rondando os charts mas sem conseguir sair do rótulo de banda avant-garde. Sabemos que o grupo tomou o primeiro caminho e se tornou tão gigante que acabou virando uma “firma”; um “negócio” multimilionário.

2 – Obscured By Clouds

O que esperar de um embrião de “The Dark Side Of The Moon”? Esta é a natureza do sexto disco do grupo, lançado em 1972. Elementos comuns ao magnum opus que se seguiria surgem na obra. Porém, “Obscured By Clouds” tem uma identidade tão própria que acabou deixando de ser um inócuo follow-up ao disco “More”, dada a sua condição de trilha sonora para o filme de Barbet Schroeder, La Vallée (infinitamente inferior à sua contraparte musical, diga-se de passagem). A surpresa é enorme; é impossível que alguém, depois de conhecer o Floyd como “space rock” ou “opera rock”, escute este disco e não fique coçando a cabeça.

“Obscured” merecia muito mais. E teria, caso não fosse sucedido pelo disco que o sucedeu. É uma miscelânea de canções incríveis, sofisticadas, que rejeitam o experimentalismo avant-garde de “Atom” e, até, o metodismo progressivo de “Meddle”. Aqui surgem referências ao passado – heavy metal em “When You’re In”, reminiscência de “The Nile Song” ou, mesmo, psicodelia no estilo “ASOS” em “Absolutely Curtains”. Porém, o Pink Floyd do guitar hero Gilmour surge com enorme intensidade, em canções como “Mudmen”. A delicadeza inebriante de “Wot’s Uh The Deal…” só pode ser alcançada por seu nome esquisito. “Free Four” é o Roger Waters de “The Wall” florescendo, em uma canção que tem algo de “college rock”, alegre e saltitante, em contraste com a letra onde vemos o gênio do grupo clamar pela primeira vez “i’m the dead man’s son”. O que se veria atingir o apogeu em “When The Tiger’s Broke Free” no futuro, se percebe aqui, ainda que longe do estilo hagiográfico adotado pelo letrista no disco mais importante do fim do século XX.

“Childhood’s End” é “Time”. Em uma tradição iniciada em “Echoes”, Gilmour utiliza-se de elementos do funk em sua levada, penetrando o elemento de blues que é a raíz mais profunda de sua ambivalência como músico. O Hammond de Wright corta violentamente o outro da canção, como faria em “Breathe (In the Air)”, com o amplificador Leslie moendo. “Stay” é Wright em seu apogeu melódico. A música tem as melhores qualidades daquilo que o tecladista (melhor chamá-lo de pianista) faria em seu estonteante álbum solo “Wet Dream”. A sofisticação perene do Pink Floyd sempre foi o toque mágico deste músico, formado com o Cool Jazz de Miles Davis e uma aproximação totalmente pessoal acerca da psicodelia, evocando uma beleza ora minimalista, ora furiosa e sempre mística (como o órgão religioso de “Us And Them”). Em “Stay”, a sensibilidade de Rick com a levada no piano é elevada com a simbiose de sua persona com a letra. Nela, um “canalha” despeja uma mulher de sua cama, mulher esta da qual nem lembra o nome. Mas eis que o “canalha”que compõe melodia tão bela nos faz admitir; é um “misógino” adorável.

Como “Obscured”, bom de cabo a rabo, pôde acabar desconhecido pela maioria dos fãs de “rock antigo”? Sem dúvidas, obra de “The Dark Side of The Moon”. São discos gêmeos. Porém, “Obscured” é muito mais leve e descompromissado, apesar de estar sempre rodeado por uma densidade taciturna, imperceptível ao ouvinte desatento. Se o seu sucessor é daqueles discos que demanda fones de ouvido e uma audição do início ao fim, este aqui pode ser ouvido em retalhos, canções escolhidas para uma playlist. Mas não se engane; este disco é tão precioso que você o incluirá completo em sua listinha para ser ouvida antes de dormir.

1 – The Final Cut

“The Final Cut: A Requiem for the Post-War Dream By Roger Waters and Performed by Pink Floyd” é o nome completo do disco mais injustiçado do Pink Floyd. Injustiças começam pela forma como o disco é tratado: consideram-no um disco solo de Roger Waters. Se “The Final Cut” é um disco solo, “AMLOR” e “TDB” também gozam do mesmo status. Se o trabalho de guitarra de Dave Gilmour está para ser desconsiderado neste disco, não posso entender como um sujeito que assim conclui, se diz amante da banda.

“The Final Cut” é a única sequência possível a “The Wall”. Waters, com seu inevitável niilismo, entendia que, após a queda do muro, nascia o “post war dream” mas, conclui esta obra prima com dois sóis no pôr da tarde. O mundo onde Pink e sua megalomania maníaco-depressiva existia acaba por desaparecer, enquanto o assombro toma conta do ouvinte quando Waters nos revela o seu mais célebre silogismo: “ashes and diamonds, foe and friend, we’re all equal in the end”.

Waters comenta sobre Margaret Thatcher, explicitamente na faixa de abertura, por seu envolvimento aberrativo em um confronto militar desnecessário com a falida ditadura militar argentina. Indaga: “what happened to the post war dream?”. Porém, com seu olhar totalmente polivalente, Waters não poupa, também, os inimigos do capitalismo ocidental, conclamando Brezhnev para uma “festa”, junto de Thatcher e Reagan, para que a “solução final” fosse aplicada neles. Neste ponto, Roger difere centralmente de artistas que, à época, faziam críticas ao capitalismo “selvagem” das forças ocidentais mas se rasgavam em elogios ou mantinham silêncio sepulcral acerca de ditaduras genocidas que estavam do outro lado do espectro (alô Chico Buarque, seu “best friend forever” Fidel Castro matou muito mais “pedros pedreiros” e “pacotes flácidos” que a ditadura militar no seu país!).

Em suma, todos os lados estão perdendo. Como o próprio canta em “Too Much Hope”, de seu “Amused To Death”: “muslim or christian, mullah or pope, preacher or poet who was it wrote, give any one species too much rope and they’ll fuck it up”. Oh Roger!

Mas e a música? A música é sublime! Michael Kamen foi chamado para “substituir” Richard Wright – na verdade, acima de tudo, Kamen é responsável pelos belos arranjos de cordas presentes no disco. O tecladista do Pink Floyd já havia sido demitido e contratado como músico de apoio para tour do “The Wall”. Segundo Waters, Wright estava tão afundado no vício em cocaína que pouco participou das sessões que deram vida ao disco duplo. Por mais que David Gilmour sempre tenha tentado fugir de qualquer responsabilidade sobre decisões desta natureza e criado uma fantasia onde não tinha voz nenhuma dentro da banda (e que todos, seja na imprensa, seja entre os fãs, compraram), o próprio Rick admitiu que, desde “Animals”, estava “fora” do Pink Floyd.

Em “The Final Cut”, ninguém tenta o imitar. Kamen não é um “tecladista” e tem um estilo diferente de tocar piano. O que temos neste disco é uma música que, ora, beira o marcial, já explorado em “Bring The Boys Back Home”, lembrando uma fanfarra. Porém, os sublimes e breves solos de Gilmour trazem o disco de volta aos braços do Pink Floyd. A frase no título “(written) by Roger Waters and performed by Pink Floyd” poderia, facilmente, estar presente em “The Wall”. Ambas as obras são produtos única e exclusivamente de Roger Waters, abrilhantados pela presença de seus companheiros de banda.

Este disco necessita de outras sensibilidades se não o gosto por rock’n roll. Muito antes de “Ça Ira”, a ópera escrita por Waters, “The Wall” e “The Final Cut” foram, como lembra o nome, o libreto principal e o requiem de uma ópera que descrevia o estado do mundo no fim do século XX. O último capítulo de “The Final Cut” não foi uma previsão furada: não erguemos dois sóis no pôr da tarde durante a guerra fria mas, a eminência de uma aniquilação nuclear segue nos assombrando. Acabou a briga entre os EUA e a União Soviética mas ainda existe o Irã e a Coréia do Norte para lembrar ao mundo nossa tendência suicida. Enquanto Kubrick ria da cara da humanidade com o opúsculo “Dr. Strangelove”, Waters olhava para o para-brisas de seu carro derretendo, enquanto suas lágrimas evaporavam, deixando apenas carvão para trás. E finalmente entendeu: “somos todos iguais, no fim”.

Obra prima.

 

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