Srpski (A Serbian Film)

Srpski e Human Centipede foram os “bam-bam-bans” no circuíto de horror de 2010, recebendo críticas efusivas, muito barulho na imprensa internacional e destaque mundo afora. Mas, se compartilham esse buzz todo, as semelhanças acabam por aí, ambos podem ser considerados extremos mas residem em mundos completamente diferentes.
O que mais chamou atenção e foi comentado sobre estas duas produções fora, sem dúvidas, o grafismo e o nível de cenas grotescas, com direito à críticas relegando-os como exemplares máximos do cinema extremo e marginal, o lado “negro” do horror mundial.

Entretanto, se Human Centipede se baseia mais no absurdo e no propósito de chocar, Srpski é uma espécie de antítese ao que se convenciona chamar “torture porn”, utilizando artifícios que certamente o colocariam nessa posição mas vencendo a barreira do entretenimento e colocando o espectador em uma posição desconfortável, até culposa por estar assistindo tal filme.

Não, não estou exasperado ou achando que o filme sérvio é a coisa mais terrível já editada como cinema, tampouco acredito que esse seja o único propósito do diretor Srdjan Spasojevic, sendo este o diferencial básico de “A Serbian Film” para outras produções na mesma veia.
Quando assistimos a mais nova empreitada de Eli Roth ou alguma porcaria com o selo “Dimension Extreme”, já sabemos que será algo recheado de sexo, violência, torturas e cenas engraçadinhas. Hostel, por exemplo, tem suas cenas ofensivas e faz questão de tornar esses elementos seu carro-chefe, dando ao espectador a idéia de que estamos assistindo apenas para ver as cenas mais grotescas possíveis, uma banalização total da violência que a torna atração, o motivo pela qual as pessoas vão ao cinema assistir.

Nessa linha, existe uma lista infindável de produções similares, algumas mais agressivas e underground como a péssima franquia August Underground, os pretensiosos filmes de Nick Palumbo, Slaughtered Vomited Dolls (…). A maioria não ostenta nenhum mérito artístico mas entrega ao público o que ele quer, quando procura algo do tipo em uma locadora ou pela internet.

Srpski varia nessa linha porque descarta o elemento divertido, até cômico que ronda produções como as citadas. Não há prazer em assistir, não há nada para entreter nem para admirar, é um filme sujo, com cenas desagradáveis, total deterioração dos personagens, abuso sexual infantil, estupro, misoginia,da qual você vai assistir uma vez e não se sentirá motivado para assistir de novo.

E não pense que , dizendo ter estômago forte e predileção por este estilo, vai acabar alçando Srpski à sua lista de favoritos. Assistí-lo é uma experiência excruciante, é um filme simples que acaba longo demais (mesmo sem ser enorme) e, no fim, não há mais nada para acrescentar, nenhum elemento que uma segunda olhada vá revelar.

Em uma escala muito menor, a produção sérvia tem um quê de “Salò” por impregnar na violência gráfica e abuso dos personagens uma mensagem política, crítica sobre a imagem de um país que vive assombrado por um sentimento de revanchismo. Muitas vezes, a posição de “vítima” se aplica ao próprio povo sérvio, como em vários discursos do insano diretor Vukmir, que leva o personagem principal ao inferno com seu “snuff movie” visionário. É mencionado que o mundo quer ver o sofrimento, a desintegração da Sérvia e consome isso sentado no conforto de suas poltronas (seria o espectador parte disso também ?).

Porém, se Salò tinha a marca de um genial diretor por trás das câmeras conduzindo um filme em meio à todos esses significados, Srpski não se valhe da mesma sorte e sofre, como cinema, com problemas claros como o uso irritante da câmera tremida, más atuações (tipos exagerados aos montes), alguns devaneios visuais desnecessários e cenas fora do lugar, nem sempre causando o efeito esperado.

O gore é bem feito mas passa longe de ser o que algumas críticas ostentavam, algo positivo na proposta geral do longa, o que não pode ser dito sobre cenas de sexo, com uma profusão impressionante (90% repulsivas, é verdade). Para os marmanjos, é preciso destacar a beleza estonteante das atrizes sérvias, em especial Katarina Zutic que atua como Marija, esposa do protagonista.

Enfim, não há muito o que se falar sobre Srpski, um filme para ser visto e não debatido, por não ser complexo, sem significados dúbios ou teorias extravagantes. Como cinema, não é (e faz questão de não ser) uma experiência que entretém ou diverte e tem suas falhas gritantes. Como experiência visual ou pura curiosidade, são uma hora e meia bem gastas do seu dia.

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