Review – Never Sleep Again: The Elm Street Legacy (2010)

Depois de assistir o remake de A Hora do Pesadelo, passei a ter um interesse renovado na série clássica de Freddy Krueger, um vilão da qual nunca fui tão fã.

Procurando informações sobre dvds dos filmes da longa franquia, achei um que me chamou a atenção, um tal de “Never Sleep Again”, da qual eu nunca havia ouvido falar. Com a ajuda do Google, descobri que se tratava de um documentário sobre a série com duração de 4 horas (!!!), enfocando do original até “Freddy x Jason”, contando com diversos atores, diretores e membros do cast que trabalharam na longa franquia “Nightmare on Elm Street”.

O documentário impressiona não apenas por sua duração mas também pelo cuidado e entrega que os realizadores demonstram,  feito de fãs para fãs, já que esmiuça cada detalhe nos filmes, presenteando o espectador com diversos pontos de vistas e explicações sobre a mitologia da série.

De início, somos presenteados com uma animação em stop motion fantástica, com um clima oitentista, sem CGI ou efeitos modernosos, recriando cenas clássicas presentes nos filmes, uma bela apresentação com clima nostálgico.

Os filmes são abordados de forma cronológica, iniciando pelo original e um pouco do background de seu criador, Wes Craven, em especial contando de onde tirou a idéia para a história de “A Hora do Pesadelo” e porque escolheu a tal “Elm Street”, a famosa rua onde Freddy viveu e faz suas vítimas, curiosamente a rua onde o presidente Kennedy foi baleado e morto. Além disso, Craven fala sobre dificuldades que enfrentou para conseguir financiar seu filme até chegar a New Line, pequena produtora que acabou explodindo com o sucesso da produção, fazendo referências ao mockumentary Refeer Madness e Pink Flamingos de John Waters.

O processo de casting ganha bastante atenção no documentário, passando a limpo a escolha de atores como John Saxon e um desconhecido Jonny Depp (que parece ter recusado a participar), com uma atenção especial sobre Heather Langekamp (Nancy) e, claro, Robert Englund, o homem que dá face a um dos ícones do horror moderno. A maquiagem de Freddy também ganha um capítulo a parte, com um interessante comentário do maquiador David Miller sobre formular a idéia inicial para a maquiagem do rosto do vilão baseado em uma pizza!

Um detalhe interessante sobre a abordagem ao filme original é a clara intenção dos realizadores de evitar que “Elm Street” fosse um genérico de “Sexta-Feira 13”, sempre apostando na idéia de fazer um filme mais profundo psicologicamente e sem investir no assassino como personagem principal, apesar de ainda ter características em comum com os diversos slashers da época.

A parte focada no segundo filme guarda um detalhe interessante, a discussão sobre um assunto que era tabu na fanbase da franquia há anos, uma teoria de que o filme possui uma inclinação homoerótica com cenas de nudez masculina, uma certa aproximação “sensual” entre o protagonista e o vilão e o fato de que, nesse filme, era um homem a vítima frágil e não uma mulher como usualmente acontecia nos slashers, além de o ator Mark Patton ser homossexual assumido na época.

Outro ponto que é bastante aborbado é a dissatisfação de alguns produtores e do próprio “pai” da franquia, Wes Craven, com o final que traz Freddy para o mundo real, considerado como indo contra a mitologia do original.

O terceiro filme ganha bastante destaque no documentário, como a melhor sequência da série,  além de abordar as tensões que ocorreram no set pela falta de experiência dos atores e do diretor Chuck Russel. Nesse ponto, a fama mundial de Freddy como ícone pop também é discutida, por ter se tornado um personagem mais cômico e diverso e menos sombrio como foi concebido.

Apartir do quarto filme, o documentário enfoca bastante o aspecto mais “light” dado à franquia, se distanciando do tom sombrio e pesado do original e indo em uma direção mais comercial. Se no terceiro filme isso é aceito como uma nova direção, os três próximos são explícitos em termos de fazer dinheiro com o nome do personagem, algo que é discutido sem barreiras pelos realizadores e até, de certa forma, se mostram envergonhados pelo caminho que uma franquia originalmente de horror, vinha tomando. Apesar de serem capítulos normalmente preteridos pelos fãs da série (em especial, quem aprecia o antagonista sombrio do primeiro filme), é divertido ver como se deram cenas tão absurdas e efeitos cheesy através das lembranças bem humoradas das pessoas que trabalharam neles.

Foi só após o universo de “A Nightmare on Elm Street” virar uma zona, resultando até na morte de Freddy no sexto filme que Wes Craven decidiu colocar ordem na casa e voltar a cadeira de diretor com um argumento simples mas genial, evitando ter que seguir de onde o ultimo filme deixou e voltando às origens de horror. O retorno do criador da franquia é um ponto alto no documentário, analisando o impacto da volta de muitos atores do original (incluindo Heather Langenkamp interpretando … ela mesma!), com uma idéia completamente nova mas também uma homenagem ao original, que completava 10 anos na época.

Craven não apenas trouxe de volta ícones da série, como também reuniu uma equipe de peso para “New Nightmare”, o diretor de fotografia Mark Irwin, colaborador frequente de David Cronenberg, além de novos atores como Miko Hughes, estrela mirim imortalizada como Gage de “O Cemitério Maldito” e Tracy Middendorf, todos presentes sendo entrevistados.

Por fim, Freddy x Jason surge em pauta e são abordados os problemas que o filme enfrentou como os diversos roteiros rejeitados, a dificuldade para achar um diretor, a necessidade de reiventar ambas as franquias e o resultado de um projeto de anos que dividiu opiniões tanto dos fãs quanto dos próprios realizadores.

Como epílogo, somos apresentados à história da New Line Cinema, produtora que antes do filme original era uma pequena distribuidora americana e se tornou um dos principais estúdios de Hollywood, já fazendo parte do império Time Warner e um resumo do impacto que a série causou no mundo do cinema e na cultura pop geral, com considerações finais dos atores e diretores envolvidos.

O documentário não trata apenas dos filmes mas também de tudo que envolveu o “astro” Freddy Krueger no auge de sua popularidade como a divertida série de tv “Freddy’s Nightmares” devotando um capítulo inteiro à ela, contando histórias de diretores que trabalharam em episódios como Mick Garris e Tom McLoughlin, demonstrando que o “legacy” do título realmente faz sentido, indo além da franquia e trazendo ao fã curiosidades sobre todos os meios que o personagem se aventurou.

“Never Sleep Again” é o sonho de todo fã de A Hora do Pesadelo, um documentário espetacular feito com muita boa vontade de cada um dos envolvidos nesta longa franquia, contando histórias de bastidores, o impacto destes filmes em suas carreiras e a maneira com que cada um viu sua contribuição no vasto universo criado por Wes Craven.

Outro fator que precisa ser ressaltado é que cada um dos oito filmes revisados ganham a mesma atenção, mesmo os que não foram sucessos entre o público, algo que vai de contra-mão à tendência comum destes documentários de priorizar apenas os mais bem sucedidos e destinar pouquíssimo tempo para falar sobre as demais partes. Cada filme ganha seu momento, com apontamentos do que deu certo e errado, as frustrações e acertos …

Com participações de outras pessoas como o grupo de heavy metal Dokken e Alice Cooper, “Never Sleep Again” é a síntese perfeita e completa de uma série irregular, que continua a fazer fãs até hoje e tem lugar cativo como uma das principais franquias da história do cinema, liderada por um ícone moderno que certamente já pode figurar como um clássico do cinema norte-americano.

Seria fantástico para os fãs de horror se esta iniciativa louvável da produtora 1428 films, dirigida por Daniel Farrands (um especialista em documentários do gênero, por trás também do fantástico “His Name Was Jason” e “Halloween: The Shape of Horror”) e Andrew Kasch, acabasse fazendo com que outras séries clássicas de horror como “Evil Dead” e “Hellraiser” ganhassem seus próprios documentários neste mesmo padrão incrível de qualidade e dedicação, uma verdadeira produção de fã para fã. Recomendadíssimo!

4 comentários

  1. Excelente análise. Essa é minha franquia preferida e, apesar dos pesares, gosto de todos os filmes. Queria ter esse documentário, mas não parece tão fácil de achar…
    Freddy Krueger é o maior vilão do terror de tds os tempos!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s