Review – Martyrs (2008)

*Este texto contém SPOILERS

O cinema de horror americano, o maior centro mundial de produções do gênero, anda bastante desgastado em meio a toneladas de remakes e filmes nada originais, pavimentados em meio a diversos clichês que já não funcionam mais.

O fã do horror acabou encontrando outros lugares para garimpar novas produções, como os filmes asiáticos que tomaram de assalto o gênero até acabarem sendo saturados pelas refilmagens norte-americanas que tratavam o seu público como bestas que não soubessem ler legendas.

Um destes lugares acabou sendo a França, terra de um cinema sempre clássico, ora inteligente e calcado em uma construção lenta, o que para muita gente caracteriza cinema “chato”.

Entretanto essa nova onda de horror do cinema francês não parece beber na fonte das características do cinema local mas sim procura criar um novo modo, uma maneira diferente de levar as telas estórias agressivas e desafiadoras, fugindo dos clichês, das câmeras epilépticas e de tudo mais que estamos acostumados a ver.

Martyrs de Pascal Laugier transita entre dois mundos, o da narrativa veloz e direta de produções como Ils e A Invasora e o da narrativa cadenciada, focando o dialogo e a construção de uma situação ao invés da ação.

Na verdade, o filme parece ter três momentos distintos, cada um com suas particularidades, levando alguns espectadores a imaginarem que assistiram três estórias diferentes.

O “primeiro ato” consiste em uma misteriosa menina de traços orientais chamado Lucie, que foge de um pavilhão e acaba sendo levado à uma clínica psiquiátrica.


Lá conhece Annie, que se torna sua protetora e a ajuda a reintegrar-se com a sociedade, após um estado selvagem causado pelo trauma.

Em meio à questionamentos das autoridades, Lucie se encontra transtornada ao ver uma estranha entidade que a persegue e a flagela, de modo com que viva pressionada pelo medo e angustia.

Nesta primeira parte, o filme nos leva a acreditar que se trata de um thriller sobrenatural onde uma menina é perseguida por um fantasma que busca algum tipo de vingança, um tema comum da qual já vimos em diversas outras produções.

O início da segunda parte reforça um pouco esse sentimento, quando Lucie vai buscar vingança contra seus algozes, cerca de 15 anos depois de fugir do galpão.

Em uma cena muito bem realizada, ela adentra a casa de uma família disparando, assassinando todos que encontra, incluindo os filhos adolescentes do casal, mesmo em meio à dúvida.

Essa cena, particularmente, é extremamente sangrenta e perturbadora pela frieza com que o assassínio acontece, tingindo a tela de vermelho. O efeito é ainda maior porque, antes de Lucie chegar, somos apresentados à uma familia normal, com alguns diálogos bem humorados até serem brutalmente mortos aparentemente sem motivo algum.

Logo, sabemos que Lucie fugiu com sua amiga Annie e a mesma vai até a casa para conferir o que aconteceu. Lucie novamente enfrenta a criatura que a perturba, uma mulher anoréxica, em uma maquiagem muito bem realizada, cheia de cortes e feridas expostas.

A criatura volta a agredir Lucie, enquanto esta questiona o motivo para ela continuar, mesmo com a família assassinada.

Annie chega e fica horrorizada com a situação mas decide ajudar a amiga a esconder os corpos.

Em uma cena no banheiro, as duas se abraçam em meio aos corpos da mãe e filha no banheiro. Annie se aproxima e lhe dá um beijo, sugerindo uma atração romântica, até ser afastada por Lucie que questiona o porquê daquilo.

Eu pensei que o tema do lesbianismo iria ser mais explorado durante o filme mas se resume a esta breve cena, demonstrando um possível amor platônico entre as duas personagens.

Annie começa a desovar os corpos em uma vala no quintal enquanto Lucie novamente luta contra a bizarra criatura que a atormenta. Neste momento descobrimos que a mãe ainda está viva. Annie tenta ajudá-la a sair da casa e é descoberta por Lucie que fica desesperada, já que mesmo sua amiga a trata como louca por não acreditar na sua história, após assassinar a mulher, em mais uma cena gore envolvendo uma marreta.

Neste momento, através do olhar de Annie, descobrimos que a figura que Lucie enfrenta não é real e os cortes e violência física são provocados pela própria, que tudo não passa de uma alucinação.

Uma surpresa acontece na cena seguinte onde Lucie comete suicídio pela desilusão de ver que a amiga não acredita no que ela conta. Essa parte é corajosa porque o diretor Pascal mata sua, até então, protagonista dando a impressão de que o filme está para acabar junto com a morte de sua personagem principal.

Assim começa o terceiro ato onde, em um resumo dos fatos, Annie descobre uma passagem para uma espécie de porão e logo percebe que a terrível história de um local de tortura que a amiga morta contava era verdade.

Apartir desse ponto, o filme se transforma em algo maior, toma uma postura radicalmente diferente e uma narrativa bem mais cadenciada.
O posto de protagonista é assumido por Annie, sofrendo uma martirização na mão de uma estranha congregação que buscar levar o ser humano até o último estágio de sofrimento na tentativa de descobrir, através de uma expêriencia de quase morte, o que há após a morte.

Alguns espectadores reclamaram do ritmo deste terceiro segmento, pelo fato de se focar exclusivamente na excruciante martirização, retradada de forma cruel e violentíssima com espancamentos, humilhações, muita violência gráfica que resgata o tom do resto do filme.

Esta mudança na forma de narrar a estória não é acidental, a postura lenta e repetitiva é feita para causar um enorme incômodo em quem está assistindo, criando uma idéia de como seria viver durante dias uma tortura daquelas.

Na provação final, Annie é escalpelada e enfim sofre a experiência da qual a organização tanto quer saber. Neste ponto, o filme não nos mostra o que ela viu, apenas uma luz muito forte para acabar na penumbra em meio a uma bruma azul.

O final é dúbio e aberto para interpretações, o que certamente é uma medida inteligente em meio à um filme que chega um pouco desgastado aos seus últimos minutos.

Diversas pessoas, caracterizadas como velhos ricos, se reunem na casa acima do complexo de tortura em que a menina se encontra. Logo sabemos que eles estão lá para ouvir o que Annie revelou para a mulher que regia a instituição, sua experiência de quase morte.

Entretanto, enquanto se prepara no banheiro, a mulher é questionada por um dos homens se irá contar o que havia ouvido, ela pergunta-o se tem curiosidade de saber e, ao fim, saca uma arma e comete suicídio, cortando abruptamente para os créditos

Esta cena deixa em aberto qual teria sido a motivação para a mulher que buscou durante mais de 15 anos o que aconteceria após a morte.

Duas interpretações:

– O que ela ouviu era maravilhoso e ela decidiu tirar a vida para chegar neste estado.

– O que ela ouviu foi uma negativa de que exista algo após a morte ou que a experiência foi ruim e a mulher, desolada, decidiu cometer suicídio e não revelar para os outros o que havia ouvido.

Pela lógica pessimista, é mais provável que ela tenha ouvido algo ruim e, além da desilusão, tivesse a idéia de poupar os demais de saber da tão terrível verdade. Mas, pela imagem esparsa que nos é mostrada na experiência de Annie, talvez a primeira alternativa possa ser verdade.

O final desta forma é uma tendência comum a este cinema de horror menos padrozinado, nos instigando a imaginar o que poderia ter acontecido. Não é um mecanismo novo, muito pelo contrário, mas é um artifício inteligente e que permite a interação da platéia ao invés da necessidade de um posicionamento.

Martyrs vê em sua capacidade de mudança um grande mérito, já que surpreende o espectador a medida em que se transforma em algo mais grandioso, fugindo de soluções simples.

Essa responsabilidade é algo da qual hollywood foge como o diabo da cruz, o que cada vez faz este tipo de cinema corajoso prosperar em meio a mediocridade.

O diretor Pascal Laugier, que também assina o roteiro do filme, tem outro filme com temas fantásticos chamado Saint Ange de 2004 e está cotado para dirigir o remake de “Hellraiser”. Ele assumiu Martyrs quando Alexandre Bustillo, diretor de “A Invasora” largou a produção.

Sem dúvidas nenhuma, este é um dos grandes lançamentos de 2008 e não deve decepcionar quem assistiu outras obras recentes do cinema de horror francês, apesar de ter suas diferenças que podem desagradar um ou outro. E é bom saber que, de países como França e Espanha, podemos esperar novas boas produções, antes que Hollywood venha refaze-las (no caso de Martyrs, seria desastroso “desenhar” aquele final para as platéias acefálas) à seu gosto (duvidoso).

Sim Lucas, tu tem razão, nesse texto o final do filme é revelado e foi falha minha não incluir um indicador de Spoilers.
Entretanto, eu escrevi esse texto imaginando falar com quem já viu o filme e quer saber a opinião de outra pessoa

12 comentários

    1. Sim Lucas, tu tens razão, nesse texto o final do filme é revelado e foi falha minha não incluir um indicador de Spoilers.
      Entretanto, eu escrevi esse texto imaginando falar com quem já viu o filme e quer saber a opinião de outra pessoa, especialmente sobre o interessante final, aberto à diferente interpretações.
      E, acima de tudo, eu não sou crítico e repudio quem faz isso por profissão, apenas gosto de cinema e faço um texto de opinião como qualquer fã gosta de fazer, algumas pessoas leram esse texto e me comentaram que gostaram.
      Apartir de agora, vou tomar cuidado de acrescentar um aviso de Spoilers nos textos que os contenham.

  1. Infelizmente sou uma pessoa de estômago fraco e fico extremamente impressionada com esses tipos de filme a ponto de não conseguir dormir a noite! Então, fiquei muito feliz de encontrar esse post já que eu estava muuuito curiosa para assistir o filme mas não tinha coragem! Muito obrigada🙂

    1. Andreia, recomendo assistir o filme também hehe
      É forte, bem violento mas tem uma boa história, vale a pena dar uma olhada.
      Ao menos não é sangue por sangue como é comum na maioria dos filmes do estilo hoje em dia.

  2. Olá, gostei do texto, escreva mais. Parabéns!

    Porém, ainda procuro uma interpretação para o final. Entendo que não seja nenhuma que você citou.
    Sobre a primeira possibilidade, a velha poderia até querer morrer porque ficou maravilhada, mas compartilharia antes com os demais.
    A segunda opção também acho incorreta, porque se a morte é tão ruim, a última coisa que ela faria ser morrer.
    Ainda tento desvendar esse final.

  3. “Opiniões, blah blah”, é verdade, mas vejo no seu texto pecados para os quais tenho cada vez menos paciência.

    E estão quase todos no mesmo segmento: O cinema norte-americano esgota as ideias, trata o público como estúpido; o cinema francês é sempre clássico e quase sempre interessante, quando as pessoas não gostam é porque acham chato.

    Estas falácias já começam a rarear, e ainda bem. O cinema norte-americano é um dos mais excitantes do mundo tanto a nível de invenção como de praxis; As ideias são usadas até ao limite do seu proveito comercial, é verdade, mas perfeitamente ao nível de outras filmografias (vide Japão).
    Já o cinema francês, para além de estar longe de ser sempre clássico – visto que anda a imitar Truffaut há 40 anos, ele próprio não tendo nada de clássico – é um cinema que tem um rácio de filmes bons/maus perfeitamente dentro da média mundial. Alguns filmes são maus, alguns péssimos, e a culpa não está no público. Quem está a tratar o publico como estúpido, agora?

    Quanto ao filme em questão, sou da opinião que é uma trampa. O autor apresenta-nos 3 histórias praticamente separadas, unidas por menos que um pedaço de pele (no pun intended), nenhuma delas concluídas satisfatoriamente e nenhuma delas realmente “história”. O homem pretendia fazer um goreporn lixado, e fez a ultima sequência. Pretendia fazer terror à japonesa, fez a segunda parte. Horror perturbante género Funny Games? Primeira parte. Deus nos livre de fazer uma história que junte isso tudo, pois para isso seria necessário talento.

    O filme tem cenas fortes em qualquer uma das partes principais (recuso-me a chamar-lhes actos), mas vive dessas cenas fortes. A razão porque o meu caro se pergunta do porquê das escolhas do protagonista não está no mistério, está na total ausência de coerência lógica das acções da personagem. Eles não nos contam o que foi dito em segredo à personagem porque isso requeria inventar algo realmente forte. E, novamente, isso requer talento.

    Claro que é a minha visão do filme, na perspectiva de mero espectador. Infelizmente, a estrutura é para mim uma coisa importante, e nesse aspecto o filme falha à grande, merecendo o pouco reconhecimento que teve fora do circuito gore.

    Em modo de Post Scriptum, repudiar gente que faz do seu ganha-pão o jornalismo de arte é repudiável em si mesmo. É uma profissão criativa como qualquer outra, muitos grandes realizadores da história foram críticos de cinema. Lá está, requer talento.

    1. Martyrs não deixa de ser um filme mainstream, custeado pelo grupo Canal+.
      Partindo do princípio que existem excessões para quase tudo, o cinema referido seria o mainstream de horror norte-americano que está extremamente saturado por remakes, reboots e reimaginações de filmes mais antigos ou de outros países. É claro que existem ainda produções, normalmente independentes, de interessante qualidade.
      Vejamos, quando eu disse que o cinema francês era sempre bom mas incompreendido? A frase “Um destes lugares acabou sendo a França, terra de um cinema sempre clássico, ora inteligente e calcado em uma construção lenta, o que para muita gente caracteriza cinema “chato”.” não quis dizer que o cinema seja chato por ser incompreendido mas é lugar comum ouvir alguém falar que o cinema europeu é chato apenas pela lentidão o que, na minha opinião, é uma visão extremamente supérflua e preguiçosa ao avaliar um filme e, de fato, normalmente as pessoas nem se preocupam em compreender para criticarem.
      Sobre o conceito de “clássico”, bem, é difícil não dizer que os filmes da Nouvelle Vague e, ainda mais, o cinema de diretores como Renoir e Clouzot (…) não pode ser considerado clássico até mesmo no sentido de tempo, entraríamos em uma discussão exageradamente subjetiva e longa sobre conceitos de elementos clássicos no cinema e não serviria de muita coisa.
      E este “clássico” do texto poderia ser visto mais como uma referência ao formato mais lento e não muito rocambolesco de filmes como Caché do que a ideia de um clássico referente à qualidade, tempo ou estilo, apesar de achar que, depois de algum tempo de escrita desse texto, poderia ter usado outra palavra que deixasse mais clara a intenção.
      Sobre a opinião do filme, eu concordo em alguns pontos mas, de uma forma geral, achei um filme interessante e, no mínimo, buscando ser original.

      E os críticos profissionais, na minha singela opinião, nada mais fazem do que os blogueiros não-profissionais… A diferença é que ganham dinheiro com seus textos que, diversas vezes, são produtos de preconceito ou, em alguns casos, são produtos de interesses e têm uma rotina a cumprir com seus editores.

  4. Acredito que não exista nada após a morte a não ser um grande vazio! branco! nada! como vimos na visão de Annie! Por isso a senhora se matou, pois, depois de tanto tempo, não tinha nada a dizer para as outras pessoas! Mas como nem eu, nem vcs e nem o diretor sabe o que existe após a morte ele fez esse final proposital para deixar margens a interpretações!!! Gosto muito de filmes assim!! :D!! Mas, no caso do filme MARTYRS, não recomendo para todo mundo devido as cenas muito fortes de violência!😦

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